A Capital
de Ea de Queirs


I

A estao de Ovar, no caminho-de-ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas 
seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e 
melanclicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mos 
metida no bolso de um velho palet cor de pinho, a outra vergando contra o cho uma 
bengalinha envernizada, examinava o cu. De manh chovera e a tarde ia caindo com 
uma suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de 
carmim muito diludo em gua, e longe, sobre o mar, para alm da linha escura dos 
pinheirais, por trs de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sangunea e orladas 
de oiro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos  que o rapaz 
magro comparava s flechas ricamente dispostas de um trofu luminoso.
Na estao, havia apenas um passageiro esperando o comboio: era um moceto do 
campo que se conservava imvel, encostado  parede, com as mos nos bolsos, os olhos 
duramente cravados no cho; ao lado, sentadas sobre uma arca nova de pinho, estavam 
duas mulheres, uma velha e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito 
desconsoladas, tendo aos ps, entre elas, um saco de chita e um pequeno farnel de onde 
saa o gargalo negro de uma garrafa.
O chefe da estao, gordo, com o queixo amarrado num leno de seda preta, o 
bon de galo sujo posto muito ao lado, apareceu  porta da sala das bagagens, de 
charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para ele:
 Creio que o comboio vem atrasado...
O chefe afirmou silenciosamente com a cabea, e depois de uma fumaa:
 Vem sempre atrasado aos sbados...  a demora em Espinho.
O rapaz esteve um momento raspando o cho com a bengalinha  e foi andando 
devagar ao longo da plataforma. Reparava agora no moo do campo: decerto ia a 
Lisboa, embarcar para o Brasil; e sensibilizado pela face to desolada da velha, pensava 
que o Emigrante daria um motivo tocante de poesia social, quadras de cor rica  os 
vastos azuis do mar contemplados de uma amurada de paquete, as noites saudosas, 
longe, numa fazenda do Brasil, quando a Lua  muito clara e os engenhos esto 
calados... E aqui, no casebre da aldeia, os pais chorando  lareira e esperando o 
correio... Entrevia mesmo os primeiros versos:

Ei-lo que deixa o lar, a me chorosa,
Os verdes campos, o casal risonho...

Procurava a rima, j interessado, quando um sujeito baixote e bochechudo, de 
bon escocs, apareceu na grade da estao, com uma chapeleira de papelo azul, a 
galhofar com duas raparigas que o seguiam, oferecendo ovos moles ou mexilhes para 
ele levar para Lisboa.
 A ti  que eu te levava, Mariquinhas; queres tu vir?
  j, Sr. Joozinho... Vou buscar o Sr. Padre Mendes, que nos casa aqui mesmo.
Mas o sujeito bochechudo avistou o rapaz magro, de palet cor de pinho, e 
exclamou:
 Ol, s Artur! Ento tambm se vai at Lisboa?
O Sr. Artur sorriu:
 Quem dera! No; vim apenas esperar meu padrinho que vai de passagem para l.
O outro puxou as calas para a cinta e disse, rindo:
 Homessa! E vem o amigo de Oliveira de Azemis aqui, para ver passar seu 
padrinho no comboio?...
 Ento? Para lhe apertar a mo, desejar-lhe boa viagem...
 Diabo!  disse o outro.  J  ser bom afilhado!... Eu no o fazia nem por meu 
pai.  Pousou a chapeleira, petiscou lume e tirando uma fumaa do cigarro, continuou 
com satisfao:  Pois eu vou-me at  capital!... Desenferrujar... Se quiser alguma 
coisa...
 Que se divirta!
 Fica por minha conta! H-de encher-se este ventrezinho! E ento que vamos ter 
um rico Inverno em Lisboa! Sassi em S. Carlos, cancanistas francesas no Casino... 
Naturalmente fornada nova de espanholas... No lhe digo mais nada...
Deu outro puxo s calas e foi colocar com prudncia a chapeleira de papelo ao 
lado de um saco de tapete. Artur seguia-lhe o dorso grosso, curvado sobre a bagagem, 
os quadris de obeso sobre que estalava uma cala cor de avel; e pensava com 
desconsolo, que era aquela criatura endinheirada que ia para Lisboa, o Joozinho 
Mendes, de Ovar, a quem chamavam em Coimbra o Chourio e era incapaz de 
compreender um livro ou mesmo um dito! E lembrava a noite em que o Taveira, no 
Carneiro, muito bbedo, improvisava injrias ricas ao Joozinho Mendes:

L na eterna Salgadeira,
Ensacando duma vez,
Dentro da tripa da Asneira,
Um naco gordo e rolio
Do lombo da Estupidez,
Fez-nos Deus este Chourio!

O Taveira, com todo o seu gnio, era um advogado pobre no fundo de Trs-os-
Montes e o Chourio, proprietrio, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer... Aquele 
bochechudo, em Lisboa, parecia-lhe semelhante a um lagarto de couve pousado sobre o 
mel de um clice de madressilva; e esta comparao subtil, que o Chourio nunca 
poderia ter inventado, consolou-o durante um momento da diversidade amarga da 
fortuna...
Mas um silvo penetrante de locomotiva cortou o ar calado e imediatamente o 
comboio apareceu. deslizando sobre os rails, dardejando ao alto jactos direitos de fumo 
branco.
 Pois eu  disse o Chourio, aproximando-se com jbilo, enquanto o comboio 
parava  estendo-me agora ao comprido e levo a noite de uma soneca at Lisboa. Sei-a 
toda, hem? E amanh a estas horas, na pndega! Vem pouca gente... Caramba, bonita 
pequena!
Era uma senhora, com um vestido de xadrez, que se debruara  portinhola de um 
vago de primeira classe; tinha um livro fechado na mo e o seu chapu pequenino, 
feito de penas, parecia o peito rolio de uma ave negra.
Artur seguiu ao longo do comboio, procurando o padrinho: no o encontrou. Quis 
interrogar o condutor que ao fundo verificava uma descarga de caixotes. Mas o homem 
no o atendeu, atarantado, de bon para a nuca, os olhos esgazeados: em volta dele, um 
guarda, o chefe da estao com as mos atulhadas de papis, o cocheiro do char--
bancs da vila, vociferavam e bracejavam, to aturdidos em torno dos quatro caixotes, 
como se os surpreendesse a acumulao inesperada de todas as mercadorias do 
Universo. Por trs da grade fechada da estao, as raparigas vozeavam tambm, 
oferecendo mexilhes e ovos moles de Aveiro. Artur, desconsolado, voltou ainda a 
olhar pelas portinholas at  terceira classe, onde soldados que conduziam um desertor 
beberricavam de uma garrafa.
A, o rapaz do campo acomodava devagar, debaixo do assento, o seu saco de chita 
e o farnel; passou depois o leno pela testa como para limpar o suor, e, muito plido, 
com os beios a tremer:
 Adeus, me!  disse.
A velha abraou-se-lhe desesperadamente ao pescoo:
 Meu filho! meu rico filho, que no te torno a ver! Oh! meu filho, oh! Senhor, 
que no o torno a ver!
 Adeus, me! Adeus, Joaquina! Tem de ser, tem de ser!
Beijou violentamente a velha na face, apertou nos braos a rapariga, saltou para o 
vago e ficou com a cabea enterrada nos punhos, aos soluos.
Artur comoveu-se. Pensou ainda na tristeza dos que emigram, nos pobres, nas 
existncias trabalhosas em que o po  um cuidado amargo. Quando viria  terra uma 
revoluo de paz e de justia dar a cada um um campo prprio a lavrar, uma lareira farta 
na velhice?
Veio andando devagar junto ao comboio. O Chourio j se instalara numa 
primeira classe, de gabo pelos ombros, charuto nos dentes.
 E ento o padrinho?  perguntou galhofando.
 No veio.
O Chourio esfregou as mos, divertido:
 E boa! E muito boa! E vir o amigo expressamente de Oliveira de Azemis...  E 
depois de um momento:  A propsito, diga-me uma coisa, como vai o Teodsio?
 No o tenho visto. Est pr quinta.
 E o que faz o amigo por Oliveira?
 Pra l estou.
 Ainda se faz seu versinho, hem?
Artur sorriu ambiguamente. O Chourio tirava o relgio, impaciente. O guarda 
fechava as portinholas. As raparigas, com os tabuleiros  cabea, recolhiam  vila; havia 
agora um silncio na plataforma, de onde tinha desaparecido o chefe e o condutor. 
Naquela estao sonolenta, o comboio parecia ter adormecido, sob a tarde serena; s 
uma rapariguita ia dizendo a espaos, num tom plangente e fanhoso: gua! gua! E sem 
descontinuar, adiante, a mquina resfolgava baixo.
 Ento ns ficamos aqui toda a vida?  exclamou uma voz irritada.
Era um sujeito gordo, que vinha com a senhora de vestido de xadrez. Artur ento 
reparou nela; e pareceu-lhe to linda, que ficou com os olhos pasmados num enleio que 
o invadia, sentindo bater forte o corao: nunca vira aquela delicadeza fina de pele, nem 
uma doura to tenra da linha oval; os seus olhos negros de grandes pestanas, um pouco 
tristes, enterneciam. Estava ainda debruada  portinhola com o livro amarelo na mo; 
era pequenina e delicada e o corpete justo do vestido desenhava um seiozinho que devia 
caber na cova da mo.
Ela pareceu notar tambm aquele rapaz to admirado; retirou-se devagar para 
dentro da carruagem, mas tornou logo a debruar-se  portinhola, compondo 
ligeiramente o lao fofo da gravata de renda  e os olhos de ambos encontraram-se.
 Boa pequena, hem?  disse o Chourio.  Eu estive para me meter na mesma 
carruagem e tinha divertimento para toda a noite. Mas embirrei com a cara do marido.
Artur achou-o tambm odioso  com as suas bochechas balofas e brancas, o 
chapelinho de casimira sobre o cabelo encarapinhado, o beio sensual de comilo e um 
enorme pince-nez, com a fita passada por trs da orelha.
 Eu parece-me que o conheo de Lisboa, creio at que  Baro  disse o 
Chourio.
Mas o chefe da estao badalava a campainha e o comboio comeou a rolar 
devagar com estalidos secos dos freios retesados.
 Adeus, amigo, sade!  exclamou o Chourio.
 At  vista!
Os olhos da senhora de vestido de xadrez pousaram-se ainda um momento nos de 
Artur. Outras faces passaram diante dele, apoiadas aos vidros: os soldados e o desertor 
galhofavam de garrafa  boca e o rapaz do campo, com os olhos vermelhos como 
carves, dizia adeus agitando um grande leno; a velha ia seguindo o vago, a gemer, 
estendendo-lhe ainda desesperadamente as mos duras e negras. Por fim o trem, com 
um silvo penetrante, desapareceu na curva, entre os pinheirais j escurecidos.
Artur sentia-se triste. Toda a noite, assim, aquele comboio rolaria, passando as 
estaes iluminadas, as aldeolas adormecidas, levando o Chourio, feliz, estirado no seu 
gabo, o pobre emigrante banhado em lgrimas, o desertor para a enxovia, aquela linda 
mulher para o seu palacete.
De madrugada chegariam a Lisboa: a Lisboa que lhe parecia mais desejvel, 
pensando que era s l que uma civilizao superior produzia aquelas belezas delicadas 
de perfil patrcio, como certas flores preciosas que s nascem em terrenos muito 
preparados! Quem seria ela? O gordo de pince-nez era, decerto, o marido; e sentia ali 
duas existncias discordantes: ele pesado e material, ela de uma sentimentalidade 
subtil... Desejaria saber o seu nome e o seu passado, os seus gostos, o tom da sua voz e 
que poeta preferia. Feliz o que escrevera aquele volume que ia lendo e que a fazia 
cismar: devia ser talvez um romance de Daudet ou de Sandeau, uma obra delicada e 
nobre. Em que pensaria ela durante essa noite toda, com a cabecinha plida apoiada ao 
encosto do vago, enquanto, defronte, o marido muito prosaicamente ressonasse? 
Lembrar-se-ia da estao de Ovar!...
Artur deu ainda um olhar aos rails que iam assim, continuamente, paralelos e 
luzidios, at Lisboa e atravessou para o outro lado da estao onde o esperava o char--
bancs de Oliveira de Azemis.
Estava to pensativo, que o Manuel cocheiro teve de lhe perguntar duas vezes se 
o padrinhozinho no aparecera.
 No veio. Vamos l, vamos l!
Atirou-se para um canto do char--bancs, e enquanto o carro rolava surdamente 
na estrada j escura, Artur, fitando pela vidraa aberta uma claridade terna de luar que 
aparecia por cima da linha negra dos pinheiros, recitava versos de Hugo, sufocado de 
uma melancolia deliciosa:

Et j'tais devant toi plein de joie et de flamme 
Car tu me regardais avec toute ton me...

Artur tinha ento vinte e trs anos. Pertencia a uma famlia burguesa, originria de 
Lisboa, mas dispersada na provncia desde a guerra civil. Seu bisav paterno, que ficara 
na tradio familiar como uma glria domstica, pertencera, em Lisboa, ao grupo de 
poetas parasitas que se entusiasmavam platonicamente nos botequins por Mirabeau e 
Robespierre, faziam sonetos aos fidalgos em dias de anos, desejavam morrer pela liber-
dade e espancavam a ronda ao sair dos saraus, onde eram admitidos para recitar elegias 
s Malvinas. J velho, comeara a traduzir em verso as Runas, de Volney, e os seus 
manuscritos eram propriedade de uma das suas netas, que casara em Oliveira de 
Azemis e levara para sua companhia as duas irms mais novas, Ricardina e Sabina. 
Seu av, esse, fora, no Porto, tabelio correcto e obscuro. Seu pai, depois de ter, na 
primeira mocidade, publicado duas Meditaes funerrias num seminrio do Porto, 
casara com a Sr D. Maria das Neves Alpedrim, senhora plida e magra, que tocava 
harpa e fora comparada num folhetim do tempo a uma Virgem de Ossian; mais tarde 
estabelecera-se seriamente em Ovar, onde tinha obtido o lugar de escrivo de Direito.
Foi l que Artur nasceu, anos depois  e a me, encantada, dera-lhe este nome, em 
memria dos seus tempos de harpa e dos cavaleiros de xcara, cujos amores e proezas 
na Terra Santa
O pai, esse, homem excelente e terno que at a se desolara com a esterilidade do 
seu casamento, adorou logo a criana e com o seu respeito supersticioso pela 
magistratura, ainda Artur no fora baptizado, j o bom Manuel Corvelo decidira 
economizar com mtodo, para mais tarde o levar a Coimbra e fazer dele um bacharel; 
mas, secretamente, esperava que o filho cultivasse as Belas-Letras, e a sua esperana era 
que o Arturzinho, um dia, reunisse em si as qualidades dos dois homens que ele mais 
admirava em Ovar  o delegado Pimenta, de argumentao to capciosa, nutrido de 
legislao, um Pegas destinado a uma desembargadoria, e o advogado Silveira, de 
imagens floridas, clebre na comarca pelos seus folhetins poticos no Campeo de 
Aveiro!
s vezes, quando o pequeno Artur rabujava muito  o pobre pai, alta noite, de 
chinelos e palet, embalava-o nos braos pelo quarto, cantarolando-lhe, numa voz 
roufenha, o Gentil Pajem de El-Rei at o adormentar; e ficava, ento, enlevado a olhar 
para aquele rostozinho amarelo de lombrigas, ainda com uma lagrimazinha nas pes-
tanas, imaginando-o j na sua beca de desembargador, clebre como Lobo e autor de 
um livro querido como Amor e Melancolia! Ele, por esse tempo, coitado, estaria velho: 
no poderia trabalhar, mas aquele serzinho que, agora, a sonhar lhe mamava no dedo, 
seria ento um filho ilustre e bom, que, pela posio na Magistratura, lhe faria a velhice 
farta e pela glria nas Letras lhe tornaria o nome clssico.
Foi grande a sua alegria quando notou que nada calmava as raras perrices do 
Arturzinho, como folhear algum venervel in-flio de antiga legislao; e sobretudo, 
mais tarde, quando viu que o divertimento querido do pequeno, no era rufar em 
tambores ou cavalgar vassouras, mas, aninhado nas saias da me, coser caderninhos de 
papel, que cobria de capas cor-de-rosa e de que acumulava coleces com a devoo de 
um velho biblifilo.
 Sinais de inteligncia  dizia muito srio, o bom homem.
Por isso, bem cedo, Artur comeou a trabalhar o seu Tito Lvio e o seu Telmaco. 
Mas a me, que depois do parto ficara sempre adoentada, afligia-se do tamanho das 
lies, e se o rapaz, com sono, no fazia o tema, mandava ao outro dia secretamente um 
arrtel de ch ou de acar ao mestre Joo Grainha, para lhe acalmar a severidade. De 
Vero e de Inverno cobria-o de flanelas, e se o ouvia espirrar, fazia-o beber ao jantar 
copinhos de gua quente; nunca o deixava adormecer sem verificar se ele tinha aos ps 
a sua botija,  cabeceira a imagem de Nossa Senhora, e ao lado a campainha, a 
lamparina, a chazada, o aucareiro e um ladrilhozinho de marmelada. E o prprio pai o 
ia buscar  escola, para impedir que os outros pequenos o fizessem correr ou lhe 
dirigissem chufas.
O rapaz, sob este regime, no se desenvolveu. Tinha a palidez, a graa nervosa de 
uma menina: uma porta que batia de repente fazia-o despedir um grito. A sua 
sensibilidade era como a corda muito afinada de uma rabeca: uma histria triste, um no 
de recusa, punham-lhe logo nas plpebras duas grossas lgrimas. A sua memria, que 
retinha longas poesias, fazia o espanto dos amigos da casa, e j quando ele tinha oito 
anos, era para o pai um grande orgulho ouvi-lo, nas noites de partida, entre o 
semicrculo enternecido das vizinhas, comear numa melopeia:

 noite, o astro saudoso
Rompe a custo o plmbeo cu...

 Deve ir longe  dizia num tom profundo o escrivo, acariciando 
compenetradamente os trs plos da calva. Mas o verdadeiro espectculo era ouvi-lo 
recitar ternamente a fbula dos Dois Pombos:

Deux pigeons s'aimaient d'amour tendre...

J ento passava os seus fins de tarde, depois da aula, encostado  janela do 
quintal, trazendo sempre algum volume da pequena livraria do pap, um tomo de Filinto 
Elsio ou os Mrtires de Chateaubriand, ou, sobretudo, alguma novela da Biblioteca das 
Damas.
Era de resto, como dizia o advogado Silveira, uma gentilssima criana. Tinha 
naturalmente as maneiras de um homenzinho, e a me babava-se toda quando o via, na 
sala, precipitar-se a recolher das mos de uma senhora a xcara vazia, ou quando ele 
dava um shake-hands ao delegado Pimenta, com os ps muito juntos, todo curvado, 
como na Corte.
Enfim, um dia, o pai, comovido, surpreendeu os seus primeiros versos, copiados a 
limpo, numa bonita letra cursiva:

Junto a um ribeirinho serpeante
Um choro se debrua,
E eu, terno amante...

Foi ao outro dia, no tribunal, com os olhos hmidos, mostr-los ao advogado 
Silveira, a maior autoridade literria de Ovar. Silveira elogiou-os largamente  
sobretudo o final, de uma cadncia lrica to rica que o surpreendeu:

Celebrarei na minha frauta amena
Teus olhos, morena...

 Os versos esto todos certos  disse Silveira  e h duas imagens opulentas! 
Gentilssimo rapaz!
E tomou mesmo tanta afeio a Artur, que o presenteou com um Eurico, e props 
ao pai que nos dias feriados o deixasse ir para o seu escritrio, onde lhe franquearia a 
sua livraria, um verdadeiro banquete de inteligncia. E assim, aos domingos, 
enquanto o Silveira  banca, de charuto nos dentes, ia entulhando de imagens floridas o 
seu folhetim semanal, Artur, a um canto, encolhido numa velha poltrona, devorava 
novelas e versos de Delille, de Garrett, de Volney e de Lamartine... Voltava sempre para 
casa exaltado. Fechava-se no quarto a trabalhar no seu Poema, de que j tinha quinze 
oitavas, e que se passava todo num jardim, entre ele, anjos e cavaleiros. Andava 
perdidamente namorado pela Joaninha das Viagens na Minha Terra, mas de um amor 
vasto, complexo, que a abrangia a ela,  casinha branca, ao rouxinol e a todo o vale de 
Santarm!
Era ento um rapazola quieto e triste, de olhos bonitos e cabelo corredio. O 
crepsculo, o sino das Ave-Marias, o fado  guitarra, afogavam-no em melancolia. 
Pensava muito no amor e s vezes na morte. Tinha gostos delicados, um pudor ingnuo. 
A cozinheira, uma forte mocetona de Estarreja de olhos de azeviche, roava-se 
constantemente por ele, tentada por aquela pele macia de pajem tenro, e uma noite que 
os pais tinham ido para a soire dos Cunhas, e Artur, constipado, ficara s em casa, de 
cama  a Lusa entrou-lhe no quarto, sentou-se-lhe ao lado, chamando-lhe a brincar 
seu filhinho, e de repente, toda abrasada, colou-lhe os beios ao pescoo. O rapaz 
repeliu-a, escarlate como uma Oflia insultada e fechando os punhos de clera:
 Se tornas a ter desses atrevimentos, digo ao pap, que te corre pela porta fora!
Era de temperamento linftico e calmo  e por esse tempo, tendo j esquecido 
Joaninha, amava idealmente a mais velha das sete irms Teles, senhora alta e vaporosa, 
sempre coberta de tules esvoaantes, que ele celebrava misteriosamente sob o nome de 
Laura de Castela.
O advogado Silveira aconselhara Manuel Corvelo, logo que Artur fez o seu belo 
exame de retrica, a que o mandasse estudar para Coimbra os ltimos preparatrios de 
Geometria e Introduo:  Assim acostuma-se a Coimbra e  vida acadmica e quando 
entrar pr Universidade, j no vai como o recruta bisonho, mas bem como o soldado 
aguerrido  tinha ele dito com uma das suas formosas e vagas imagens.
E no Outubro seguinte, por uma fusca manh de chuva que as lgrimas da me 
fizeram parecer a Artur ainda mais triste, foi o pai lev-lo a Coimbra, preciosamente. 
Com muita economia, instalou-o na casa das Barbosas, da Rua da Matemtica, e 
deixou-o recomendado ao filho de um seu velho amigo, o Teodsio Margarido, valento 
de grandes bigodes, terrvel aos caloiros, grande matador de gatos, que usava uma moca 
enorme e frequentava o terceiro ano de Direito.
Todo aquele primeiro ano em Coimbra foi triste, tomado pelo estudo da 
Geometria, de frmulas positivas que lhe eram antipticas, dominado pelo pavor 
incessante de troas e de graus. Ao toque da cabra, recolhia pontualmente aos seus 
compndios, obedecendo quela sineta melanclica como quem obedece a um ditame 
de moral; as nicas horas felizes dessa poca passou-as extasiando-se com os luares do 
Penedo da Saudade, onde ia s vezes sob a proteco de Teodsio, armado da sua 
temerosa dava, ou, sobretudo, nas vsperas de feriado, no Trony,  sombra sempre de 
Teodsio, onde admirava os bilharistas famosos da Academia, fazendo sob a luz dura 
do gs efeitos de carambolas. Mas depois do seu exame, voltou a Ovar, vaidoso da sua 
batina e de pertencer  Briosa, compenetrado da importncia social da Academia, dos 
seus privilgios e do seu Hino, odiando j o futrica, tremendo diante do lente, sonhando 
futuros artigos na Ideia ou no Instituto e j preso a Coimbra por uma afeio 
sentimental, que abrangia a paisagem elegaca do Mondego, o cavaco, a batina e a 
independncia alegre da vida escolstica. Trazia alm disso um drama quase concludo, 
o Conde de Alm-Mar, cujo segundo acto, que julgava sublime, era uma festa  moda da 
Renascena florentina, passada num vago palcio junto ao Tejo, onde se bebia vinho de 
Siracusa, havia sicrios mascarados e no rio, ao fundo, passavam gndolas, em que o 
contralto das mulheres se casava ao gemido dos obos.
No ano seguinte, Teodsio, que se afeioara  natureza obediente de Artur e 
queria ter o seu caloiro  mo, arranjou-lhe um quarto na casa em que vivia, na 
Couraa. Foi uma aventura, um entusiasmo para Artur, que conhecia de tradio e 
admirava de longe os companheiros de casa de Teodsio  rapazes extremamente 
literrios, redactores ardentes do jornalzinho o Pensamento.
Esta pequena Revista semanal fora originariamente fundada num alto esprito de 
fraternidade moa, para criar recursos ao Taveira, rapaz extremamente pobre e o grande 
lrico do grupo. Ultimamente era dirigida, porm, pelo Damio, o ilustre Damio, que, 
tendo levado um R, repetia alegremente o seu quarto ano; e apenas o Pensamento 
ganhara crdito naquela gerao, tinham-se precipitado para ele, como espritos 
sufocados pelo anonimato para um respiradouro de publicidade, no s todos os amigos 
de Damio, que se nutriam de Michelet e de Quinet, mas tambm aqueles que ainda 
admiravam Pelletan, e at o grupo de Cesrio, que, num progresso revolucionrio e 
cientfico, j devorava Proudhon, Comte, Littr, Stuart Mill e Spencer  sem contar os 
temperamentos puramente artistas, que tendo horror  abstraco filosfica e aos 
entusiasmos da Paixo, se retardavam na admirao de Hugo, de Musset, de Vigny e de 
Byron.
A esta vaga associao de fanatismos, chamavam, em Coimbra, os Filsofos, ou 
tambm os Ateus. Eles mesmos se denominavam o Cenculo. E ainda que no havia 
sesses regularmente organizadas, quase todas as noites se juntavam no largo quarto do 
Damio, na Couraa. E Artur sentiu os olhos humedecerem-se-lhe de entusiasmo 
quando pela primeira vez, na fumarada dos cigarros, onde os trs bicos do candeeiro de 
lato punham trs luzinhas sedentrias, ouviu vozes fanticas discutirem, em estilo de 
ode, a Arte, as Religies, o Pantesmo, o Positivismo, a estupidez dos lentes, o Ser, o 
Ramaiana, o Messianismo germnico, a Revoluo de 89, Mozart e o Absoluto.
Naquela cavaqueira filosfica, s o forte Teodsio se conservava mudo, 
assombrado das ideias, como diante das portas augustas e inacessveis de um santurio. 
Mas a sua presena atltica era querida de todo o Cenculo: alm de excelente rapaz, 
sempre com dez tostes no bolso para partilhar com um condiscpulo pobre, ele tinha 
uma admirao servil por todos aqueles gnios. Ao lado de tais espritos, 
exclusivamente ocupados da Ideia, ele punha a proteco formidvel dos seus msculos 
e da sua moca. Uma noite que o Cenculo discutia furiosamente Lutero e a Reforma, 
sentiram-se ao fundo da escada os gritos do filho da servente, espancado por futricas. 
Todos se ergueram para acudir. Ento Teodsio trovejou, alando a mo:
 Ningum se mexa! Continue-se a bela discusso! Aqui na casa, para a bordoada, 
s eu!
Desceu com a imensa moca e da a pouco, na rua, era uma debandada aflita de 
futricas desbaratados.
Desde ento, tacitamente, entre os membros do Cenculo, que se consideravam 
uma aristocracia da Inteligncia, semideuses muito acima da obscura humanidade 
acadmica, no cimo de um Olimpo  Teodsio, com os seu bigodes, os seus punhos que 
erguiam arrobas, e sobretudo a sua tremenda maa, foi o Hrcules, o Alcides pago, o 
subjugador dos rebeldes  e, ao lado dos Sacerdotes da Ideia, a personificao da Fora. 
Mas isto no bastava a Teodsio e na sua dedicao pelos gnios com quem vivia, 
para partilhar mais directamente dos seus interesses espirituais, servir utilmente o 
Cenculo, colaborar no culto da Ideia, no podendo fornecer teorias e frases  
encarregava-se pouco a pouco de ir comprando os livros. Filho de proprietrios ricos, 
com uma mesada abundante, era ele que fornecia a Biblioteca do Cenculo, e todas as 
semanas, seguindo as instrues de Damio ou de Cesrio, aparecia trazendo em triunfo 
um volume de Michelet, de Renan, de Taine, ou de Heine, a que cortava as folhas 
reverentemente, dizendo com ar finrio:
 Ora vamos a ver o que diz c o patro!
E depois de ter, por um momento, esgazeado os olhos para o livro, conclua 
gravemente:
 J vejo que  obra curiosa e para leitura demorada. Hei-de sabore-la na cama.
Abandonava o volume a algum do Cenculo e subia para o quarto a estudar a sua 
lio de viola francesa.
Mas conquistara assim o direito de ser um dos Filsofos. Contribua tambm 
largamente para as despesas do Pensamento  o que o habilitava, se algum lhe era 
antiptico, a formular paralelamente estas duas ameaas medonhas: o peso da sua 
moca e uma desanda no jornal. Mas o que o satisfazia mais, era poder pronunciar 
frases notveis que recolhia no Cenculo: assim, quando saa com os amigos a matar 
gatos  moca, nunca deixava de exclamar, mostrando o cu estrelado:
 Isto, rapazes, no  l qualquer coisa. E a lepra luminosa da face de Deus!
Foi deste modo que Artur se achou, por acaso, no meio que devia desenvolver as 
tendncias do seu temperamento. Ao princpio, naturalmente, admirou sobretudo os 
indivduos, as personalidades, a fraseologia nova, as excentricidades estranhas; tremeu 
de entusiasmo, vendo, numa noite de trovoada, na Feira, o prprio Damio tirar o 
relgio do bolso, um cebolo de prata, e numa atitude de Sat rebelde, dar cinco 
minutos a Deus para que o fulminasse, e, passados os cinco minutos num grande 
silncio do Cu, atirar desdenhosamente o cebolo para a algibeira, dizendo com tdio: 
est superabundantemente provado que no h nada l no Cu, e acrescentar, olhando 
para as estrelas: a no ser algum p luminoso de Deuses mortos! Extasiou-se diante 
do ilustre Fonseca, que, no seu horror pelas expresses vulgares, pedia um bife no 
Carneiro, exclamando:
Traga-me uma lasca do velho pis, preparado segundo as frmulas do 
progresso! Palpitou de simpatia com o humanitrio Vilhena, ouvindo-o responder a 
quem lhe estranhara a tristeza: Como querem vocs que o homem ria, quando a 
Polnia sofre? Mas ningum o impressionou como o grande Maral, com a sua bela 
face clssica, a sua cabeleira, e a impassibilidade marmrea de um Deus da tica. Teve 
a glria de o acompanhar uma noite que o Maral ia ver a sua amante, esposa de um 
professor do liceu. Na rua estreita, ao chegar debaixo da janela, onde se debruava um 
vulto claro, o Maral, soberbamente sereno, erguendo o rico metal de sua voz, 
perguntou para cima:
 O veado j saiu?
Do vulto alvo veio como um sopro subtil:
 Foi agora mesmo para o Clube.
E ento, desdenhoso da presena de Artur e de uma famlia que passava, no 
mesmo tom sonoro e cheio:

Deita-me ento a escada de Romeu,
Que eu suba a ir beijar-te os peitos brancos.

Estas audcias, estas palavras, pareciam a Artur prodigiosas, de uma raa de 
homens superiores aos mortais e ansiava por poder imit-las. O que o exaltava, porm, 
acima de tudo, era o cavaco  aquele faiscante cavaco do Cenculo, em que todas as 
noites se formavam, fumando cigarros, novas concepes do Universo, se decidia em 
quatro palavras de uma nova Ordem para a Humanidade, com uma pilhria se 
aniquilava a glria de um heri, e em que argumentaes temerrias iam abalar, no 
fundo dos Cus, os Deuses mais poderosos. Falavam de todas as mulheres com o 
esplendor do Cntico dos Cnticos; todo o sonho era bem-vindo  e a prpria realidade 
do mundo tangvel parecia esvaecer-se quando o Taveira, arrastando pelo quarto a capa 
esfarrapada, exclamava, atirando com um grande gesto lrico os braos para o Cu:

A galope, a galope, oh, Fantasia!
Plantemos uma tenda em cada estrela...

Ento, para igualar estes gnios, poder ter uma frase nestas discusses, Artur 
comeou a devorar todos os livros de Teodsio, com uma sofreguido confusa, indo de 
Petrarca  Histria da Revoluo Francesa, de St Agostinho a Balzac, comeando 
mesmo Hegel e precipitando-se logo para as Orientais e para a legio dos Romnticos. 
E assim, pouco a pouco, perdendo o culto exclusivo pela personalidade do Cenculo, 
elevou-se na admirao mais vaga de personagens da Arte ou da Histria, de pocas da 
Humanidade, de civilizaes e de ideias.
Entusiasmou-o a Meia Idade, as suas catedrais e os seus mosteiros, e o Reno 
gtico, com os seus castelos de Burgraves hericos sobre pncaros de rochas; encantou-
o o Oriente e as suas cidades eriadas de minaretes, onde pousam cegonhas  as 
caravanas no Deserto, os jardins dos serralhos onde suspira, ao murmrio da gua, a 
paixo muulmana; depois, atraiu-o a Renascena italiana, os seus decmerons galantes 
e as galas dos Papas; um livro de Arsne Houssaye deu-lhe por algum tempo a 
admirao exclusiva do sculo XVIII; depois, adorou a Bomia de Murger e de Gerard 
de Nerval... E tinha outros entusiasmos vagos por paisagens, herosmos, teorias e 
atitudes  os rios sagrados da ndia, os corsrios patriotas do Arquiplago grego, a 
regenerao das prostitutas, S. Bernardo em Clairvaux e Danton na Conveno. 
Torturava-o ento o desejo permanente de reproduzir as imagens de que estes 
entusiasmos e as suas leituras lhe enchiam vagamente o crebro: mas no sabia ainda 
que Arte empregaria. s vezes os seus ideais eram to indefinidos, que lhe parecia que 
s rias e melodias os poderiam exprimir; pensava ento em estudar msica e nenhum 
gnio humano lhe parecia superior a Mozart ou a Beethoven, que nunca ouvira; 
ambicionava compor sinfonias sobre assuntos que amava e para os quais a poesia lhe 
parecia insuficiente, como a Morte no Calvrio ou o cavaleiro Sir Galaad procurando 
pela terra e pelos mares o vaso de S. Graal. Outras vezes, era a cor, a beleza das linhas 
que o interessava: desejava ento ser pintor, lanar na tela o rico esplendor dos estofos, 
as decoraes luminosas de um cu do Oriente, cenas de Shakespeare ou episdios 
grandiosos da Histria e nenhum destino humano lhe parecia igual ao de um Miguel 
Angelo, compondo o Julgamento Final, vivendo de po e de gua e, nos intervalos de 
repouso, escrevendo um soneto imortal.
J os seus compndios de Direito Natural e Romano lhe pareciam odiosos e 
passava as noites a escrever versos. Estes versos s os mostrava a um companheiro que 
vivia no quarto vizinho, mas que no pertencia ao Cenculo. Este moo, ainda parente 
do Taveira e como ele de Bragana, sendo extremamente gordo e falando com 
frequncia do Pote das Almas, como da maior impresso que trouxera de Lisboa, era 
conhecido no Cenculo pelo nome de Pote-sem-Alma. Amava loucamente uma prima, 
que o abandonara por um morgado dos arredores de Bragana, e desde ento, a 
ocupao do Pote-sem-Alma, era decorar pontualmente a sua sebenta e chorar aquele 
amor perdido. Era porm sempre no calor da cama que aquela saudade o pungia; e todas 
as noites, regularmente, a voz de baixo do Pote atroava a casa, bramando de entre os 
lenis:
 Ai, que rico bocado de pequena! Ai, quem ma dera aqui!
Este berro lbrico e doloroso escandalizava o gosto delicado dos artistas do 
Cenculo. E um dia, ao jantar, Damio, muito severo, voltou-se para o Pote-sem-Alma:
 Pote, voc todas as noites lamenta a perda da sua prima Felcia, de um modo 
que nos  insuportvel. Voc, como homem e como pote,  livre, e no podemos 
proibir-lhe o queixume. Mas temos direito ao menos a que d  sua saudade uma 
expresso literria e nobre. E j que Deus, para usar este termo obsoleto e convencional, 
lhe deu em gordura o que lhe recusou em ideia, aqui o amigo Taveira encarrega-se de 
lhe formular, em duas ou trs estrofes correctas, um grito de desespero decente. E o 
Pote h-de ter a bondade de usar, de ora em diante, esta frmula, sempre que o dilacere 
a dor dessa paixo infeliz.
A frmula, composta por Taveira, era uma imitao de algumas estrofes de 
Loksley Hall, a pattica elegia de Tennyson, em que o poeta, revisitando os prados e os 
areais, onde outrora, com sua prima Amy, dera os passeios sentimentais do amor 
harmnico, solta o grito to clebre na tradio romntica:

Oh, my cousin shallow hearted! Oh my Amy, mine no more
Oh, the dreary, dreary moorland! Oh! the barren, barren shore!

E a composio de Taveira, depois de falar com amargura dos prados e areais de 
Bragana, onde Felcia e Pote se tinham amado, na humidade da relva junto s espumas 
do mar, terminava com a mesma apstrofe dilacerante:

Oh! minha prima Felcia! Nem minha, nem nunca mais!
Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

Agora todas as noites, o Pote-sem-Alma, depois de ter arranjado a cama, com o 
gabo aos ps, a capa por cima, deitava-se, entalava a roupa nos ombros, dava um ah! 
regalado de gozo e com o nariz fora dos lenis, soltando toda a voz, bramava no 
silncio:

Oh! minha prima Felcia! Nem minha, nem nunca mais!
Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

Ao princpio, este mugido lrico assombrou Artur; depois, a proximidade do 
quarto, trouxe-lhe a intimidade do Pote; ouviu-lhe a histria da prima e os elogios das 
pernas da pequena e nestas confidncias, no cavaco da noite, acabou por lhe ler 
alguns versos  e sobretudo uma elegia intitulada Oflia, que ele ambicionava publicar 
no Pensamento. O Pote levou a poesia ao Taveira  e como era a semana de Entrudo, 
em que faltou original para o Pensamento, Oflia apareceu em folhetim. Que surpresa 
para Artur! Que hora deliciosa! Era a entrada numa grande carreira potica. Sentia-se j 
igual ao Taveira e mais tarde, clebre como Musset, seria o confidente querido das 
almas ternas. Nesse dia, ao jantar, o Damio disse-lhe protectoramente:
 Voc tem a fibra e a forma, caloiro; trabalhe, trabalhe! E necessrio ter a ideia. 
Procure a ideia!
Artur remeteu logo para Ovar vrios exemplares do Pensamento. No duvidou do 
seu gnio e comeou a procurar a Ideia.
Entusiasmou-se ento pelo Pantesmo. Decidiu ser o grande poeta pantesta de 
Portugal; sonhou uma alma nas coisas e parcelas de divindade, nas folhas dos 
salgueirais. Esboou imediatamente o plano de um poema dramtico, que seria a 
explicao do Universo, e em que estrelas, montes, rochas e rvores eram personagens e 
tinham as paixes, os caprichos e as tristezas de uma humanidade inerte e muda.
Esta ideia, porm, era muito vasta para a sua debilidade de anmico e apenas 
produziu a primeira estrofe, o Coro dos Montes, monologando ao luar, no silncio de 
um cu de Vero:

Ns somos os montes. E a fronte de neve
Coroamos  noite de estrelas brilhantes.
Ns somos os montes, gigantes severos
Cismando ao sussurro das guas cantantes...

Por esse tempo, namorou-se de uma senhora casada, da Calada, cujos olhos 
rabes e graa de palmeira nova j tinham sido cantados pelos lricos da outra gerao 
acadmica; passou ento as noites, rolando pensamentos  Romeu, contemplando a 
janela do quarto, onde ela, de camisola de flanela e os ps sobre a botija, ressonava ao 
p do marido. No ambicionava mais que pousar-lhe um beijo de leve sobre a testa, por 
um cu de luar; s no seu quarto, apertava convulsivamente as mos contra o peito, 
murmurando num delrio vago, oh, adoro-te! Esqueceu o seu poema filosfico, caiu 
no lirismo, prodigalizado em quadras, em que ela era sucessivamente Julieta, a bela 
Andaluza, ou a Esposa dos Cantares. Julgou que na vida nada valia seno a paixo; 
compreendeu, admirou Ren, Wherter, Rola, Manfredo, Lara, outros piores! E como a 
felicidade desejada, o beijo ao luar, no chegava  para seguir a tradio dos desesperos 
romnticos, comeou a embebedar-se. Eram ento, com o Taveira, noitadas de 
exaltao platnica, regadas com meios quartilhos, na tia Pncia e no Arsnio. Vinha 
depois aos bordos para o quarto do Pote, declamar os seus desesperos. E o Pote, numa 
saudade que se lhe comunicava, mas obediente ao Cenculo, mugia logo de entre os 
lenis:

Oh! minha prima Felcia! Nem minha, nem nunca mais!
Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

E mais baixo, torcendo-se e roncando de concupiscncia:
 Oh, menino, que se a pilhasse aqui!
Enfim, veio o Acto  e Artur levou um R. Uma to grande injustia deu-lhe o dio 
a toda a autoridade: odiou os tiranos, desde Jeov at aos lentes, desde o Czar at ao 
bedel da Faculdade; ambicionou uma Repblica governada por poetas e por gnios; 
pensou mesmo em abandonar a Universidade, o pas que desconhecia assim os seus 
talentos, partir, ir combater pela Polnia; ser-lhe-ia grato morrer numa batalha pela 
liberdade, entre cnticos patriticos, pensando nela!
Seu pai teve um grande desgosto com o R. Artur, porm, numa carta potica, 
provou-lhe que fora vtima da inveja suscitada por um gnio nascente, e mandava-lhe 
uma lista de todos os grandes homens que tinham sido mal apreciados pela 
Universidade e que, mais tarde, ministros, poetas, sbios, glrias nacionais, conserva-
vam no seu passado camadas de RR injustos!
Foi nessas frias que sua me, doente desde o Inverno, morreu de uma tsica de 
garganta. O pai, muito afectado, teve os primeiros sintomas de uma doena de corao.
Foi um Vero desgraado para o pobre Artur, naquela casa triste, em que lhe 
parecia sempre ouvir as marteladas sobre o caixo da me e sentir ainda o cheiro das 
tochas de cera e os suspiros cerimoniosos de psames. As ltimas semanas, sobretudo, 
foram as mais melanclicas, diante daquele pai carregado de luto, com os olhos 
inflamados das lgrimas e que, agora, tomado tambm de pressentimentos de morte, lhe 
falava constantemente do futuro, da necessidade de trabalhar, da dor de o deixar sem 
recursos. Nem ao menos tinha o seu velho amigo Silveira para desabafar: contara 
deslumbr-lo com as histrias do Cenculo e os entusiasmos l adquiridos, mas o 
Silveira estava a banhos em Espinho, onde fazia palpitar o corao das senhoras com o 
seu bigode fatal, as suas imagens, o seu co da Terra Nova e a sua capa  espanhola. A 
volta para Coimbra foi para Artur um alvio.
Tinha esquecido inteiramente a senhora da Calada. Vinha ento com ideias mais 
definidas de carreira e resolues de estudar. A publicao feliz do D. Jaime dera-lhe a 
ambio de compor, durante a formatura, um poema histrico; iria depois estabelecer-se 
em Lisboa, advogar e lanar a sua epopeia. Andava procurando um assunto, quando a 
leitura da Vida de Jesus, de Renan, o entusiasmou pela Judeia e pela legenda Messi-
nica. Veio-lhe a ideia, que julgou grandiosa, de refazer o Evangelho, pintar num poema 
social um Jesus plido e louro, errando pelos vales nazarenos e junto dos lagos srios, 
amado das mulheres e das crianas, ensinando a Democracia s almas ternas. Mas o 
Damio, consultado, escarneceu a ideia. No progresso da sua evoluo intelectual, 
lanara-se, com o grupo do Cesrio, no culto exclusivo de Proudhon, Stuart Mill e 
Augusto Comte, e no compreendia realmente o que vinham fazer Jesus, Madalena e os 
sicmoros da Betnia, em pleno sculo XIX,  hora do Positivismo e do Socialismo! 
Que o caro Artur cantasse a Revoluo, o povo e o seu antigo oprbrio! Que fosse 
Virglio fazendo a epopeia sinttica de um novo mundo, ou Juvenal lanando a stira de 
um mundo decrpito... Mas que deixasse os lirismos evanglicos s duquesas clorticas 
do Faubourg St. Germain!... Artur no foi Virglio, nem Juvenal, mas desistiu do poema 
sobre Cristo, como abandonara o poema histrico sobre D. Sebastio. Caiu ento, de 
repente, sem motivo, numa desconsolao vaga da vida, tomada do tdio de todas as 
realidades, a alma cheia de ambies enevoadas de felicidades indefinidas. De novo 
odiou os compndios; sentia-se vazio de imagens e de rimas: uma quadra custava-lhe os 
esforos dolorosos de uma epopeia. De tarde, l seguia pela Sofia, murcho, encolhido 
dentro da capa, com o gorro enterrado at ao cachao, arrastando-se para o Choupal, a 
saturar-se de melancolia; de noite, ou ia para o Penedo da Saudade, olhar para a Lua, no 
vale, ou ficava no quarto do Damio, no fogo das conversas do Cenculo, sem achar 
uma frase, um dito, mais triste por aquela esterilidade.
 Este Artur  prodigioso  dizia o Cesrio. Est aos dezanove anos como Byron 
aos trinta. Com esta precocidade de sentimentos, h-de vir a ser um grande idiota!
Foi por este tempo que Teodsio o levou, uma noite, a casa da Aninhas Serrana, 
ao tempo a meretriz mais cara de Coimbra, o sonho ardente de toda a academia pobre, a 
quem o Taveira, numa poesia delirante, chamara estrofe de carne e Vnus crist. A 
Aninhas tinha na janela cortinas de repes amarelo, usava um roupo cor de fogo e lia a 
Dama das Camlias; contava-se como uma legenda singular que tomava banho e era 
certo que o Salgado se tinha envenenado por ela. Tanto romantismo fascinou Artur; 
dedicou-lhe tercetos no Pensamento e a Aninhas, conquistada, concebeu por ele um 
capricho, grtis. Na madrugada em que ele saiu do seu leito, extenuado de amor, sentiu 
que toda a melancolia daqueles meses passados se lhe dissipara, como uma nvoa ao sol 
quente de Maio; a sua vida tinha agora um centro e uma significao: queria ser o 
Armando Duval daquele anjo, regener-lo pelo amor e imortaliz-lo num poema, como 
o Intermezzo.
Duas semanas depois, a Aninhas abandonou-o por um caixeiro da Sofia. Chorou 
de dor. Na mesma pgina do Pensamento em que a celebrara, insultou-a agora, com 
estrofes amargas  Mulher de Mrmore; e no baile de tera-feira de Entrudo, no Teatro 
D. Lus, exaltado de genebra, vendo-a pular vestida de odalisca, numa polca frentica, 
exclamou com tremendo escndalo:
 Folga, vil Messalina!... s podrido e em podrido te tornars! Perneia, 
prostituta! Oh, Serrana, oh, magana, restitui-me as pegas que te deixei no prostbulo...
O par de Aninhas, um quartanista desempenado, grande ginasta, esbofeteou-o 
imediatamente. Foi um episdio temeroso. Artur queria esper-lo  sada para o 
apunhalar. Enfrascou-se de conhaque at se tornar feroz... E os companheiros tiveram 
de o arrastar para casa, idiota de lcool, abraando-se a todos os candeeiros, regando-os 
de lgrimas, e gemendo:
 Mulher, teu nome  vileza!
Ao outro dia, quis mandar  Aninhas uma placa de cinco tostes  escrevendo-lhe, 
como outrora Armando: a vai o preo do teu amor e do meu insulto. Mas receou os 
msculos formidveis do ginasta, e, furioso, descreu das mulheres.
 S a Arte no trai, Artur  disse-lhe um dia Taveira.
E Artur lanou-se desesperadamente na Arte. Considerou-se cnico  Musset e  
Byron e quis, como eles, dar  sua vida um delrio romntico: recomeou a embebedar-
se. E uma manh que recolhia ainda estremunhado de um lupanar  como convinha a 
um irmo de Rola  encontrou em casa uma carta do Silveira: na vspera, enquanto ele, 
no Garrano, com Taveira, brindava  Morte e  Orgia, seu pai, de repente, ao entrar na 
Assembleia, tinha cado morto para o lado, murmurando apenas: Oh, meu filho!
O pobre moo, que amava o pai, desmaiou, e depois das primeiras lgrimas, ficou 
aterrado. Ali estava, s na vida, sem recursos para continuar a formatura, tendo de 
deixar Coimbra, o Cenculo, a vida potica...
Por conselho do Silveira, foi a Ovar vender em leilo a moblia, algumas pratas da 
casa. Passou ali uma semana amarga, na hospedaria, coberto de luto, com os olhos 
vermelhos como carves, fumando cigarros, fazendo e desmanchando planos, ou, com o 
nariz contra a vidraa, vendo cair a chuva miudinha de Maro. Uma noite, enfim, o 
delegado Pimenta, que muito solicitamente dirigira o leilo, veio trazer-lhe quarenta e 
cinco libras em oiro. Ao ver aquela riqueza, rebrilhando sobre o pano verde da mesa, 
uma esperana desordenada levantou-lhe a alma. Com uma economia sagaz, poderia 
viver dois anos em Coimbra; durante esse tempo, leccionando, fundando uma Revista, 
criaria recursos regulares... E apesar de chorar ainda ao olhar para o daguerretipo do 
pai, comeou a gozar instintivamente da ideia da sua liberdade  sem famlia que lhe 
traasse autoritariamente um destino e com dois fortes cartuchos de dinheiro na maleta.
Voltou para Coimbra  e da a duas semanas pagava aos lricos do Cenculo uma 
orgia na tia Pncia; depois, comprou todas as obras de Vtor Hugo e um revlver; fez 
um fato, guitarreou, jogou a batota, alugou caleches para ir a Condeixa jantar no Castelo 
com o Taveira.
No acto seguinte, levou outro R. E pelas frias, quando Coimbra comeava a ficar 
deserta, achou-se com oito mil-ris no bolso.
Foi ento que se lembrou das tias, que nunca vira e que viviam em Oliveira de 
Azemis. Eram duas, Ricardina e Sabina; a mais velha, a tia Lol, morrera tsica, um 
ano depois do marido.
Escreveu-lhes uma carta pattica, com frases  Musset, pedindo s duas velhas 
que o ajudassem nesta grande batalha da vida, em que ele se sentia fraquejar, porque 
era desta gerao, nervosa e plida, que necessita o amparo de uma ternura de anjo....
Como a resposta tardasse  partiu desesperado para Ovar, para a mesma 
hospedaria, como se esperasse ver outra vez cintilar, sobre o pano da mesa, o oiro de 
outro punhado de libras.
Ali, o seu velho amigo, o advogado Silveira, que rompera com o Campeo e ia 
casar com uma viva rica que fascinara em Espinho, irritou-o com conselhos prticos, 
solidamente burgueses: a vida no era poesia, era necessrio tratar do po! Mas onde? 
Como? Ir rabiscar papel para casa de um tabelio? Ir vender cheviotes a um balco do 
Porto?
 Era imbecilizar-me para sempre, anular as minhas faculdades, Silveira!
Uma manh, por fim, chegou a carta das tias. Era breve, numa letra bonita de 
mulher:

Meu querido sobrinho.

C recebemos a tua carta, que mostra que tens muito talento e nos fez chorar a 
todos, que at o Albuquerquezinho pareceu muito afectado. E eu no teria felicidade 
maior que poder ajudar-te para a tua formatura, pois se v que tens vocao para 
doutor e haverias de fazer boa figura. Mas, infelizmente, como tu no ignoras, pois o 
mano Manuel estava bem ao facto de tudo, ns pouco temos, apenas o bastante para 
alguma decncia. Tu, porm, s do nosso sangue e por isso te posso dizer que nesta 
casa hs-de encontrar bom agasalho, porque at temos um quarto com alguma moblia 
e podia servir para ti e mesmo a mana Sabina j l anda a escarolar, pois esperamos 
que aceites este oferecimento, que  feito do corao, tanto mais que o Sr. Vasco diz 
que, agora, so frias em Coimbra. Escreve anunciando o dia em que vens e recebe um 
apertado abrao da tua tia muito amiga do corao

Ricardina.

O advogado Silveira, a quem ele correra a mostrar a carta, disse-lhe Logo, 
traando a perna. com uma das suas imagens floridas:
 A tens tu! Eras a barca batida da tempestade: abre-se-te o porto hospitaleiro!
Artur, passeando cabisbaixo pelo escritrio, imaginava, por aquele estilo da carta 
da tia Ricardina, a existncia em Oliveira de Azemis, entre as duas senhoras cheirando 
a rap, fazendo  noite uma meia sonolenta, depois do tero rezado com a criada, diante 
da cmoda armada em oratrio.
 Quem ser este Albuquerquezinho?
 Algum velho amigo da famlia... Jogador de gamo, naturalmente  disse o 
eloquente Silveira.
 Enfim  exclamou Artur  vamos l para Oliveira de Azemis. Alea jacta est!
Partiu de Ovar, ao fim de um dia trrido de Agosto  e quando entrou, com o 
moo que lhe levava o ba, no ptio triste do casaro das tias, a torre de S. Francisco, ao 
lado, badalava as nove horas, sobre a vila silenciosa.
As senhoras, carregadas de luto, vieram ao topo da escada receber o sobrinho, de 
braos abertos:
 Oh, menino, pois tu vens a esta hora!  exclamou a tia Ricardina  e sem 
prevenir! Jesus, que despropsito! Ai, mana Sabina, que  o retrato do mano Manuel! 
Ai, d c um abrao, filho!
Artur, muito embaraado, pousou no cho a chapeleira, o palet, o guarda-sol, 
para receber o beijo da Ricardina, que o esperava com uma lgrima ao comprido do seu 
grande nariz de cavalete; depois, foi para os braos da Sabina, toda pequenina, toda 
enternecida, de uma brancura de marfim sob a sua touca negra.
 Ai, filho  repetia a tia Ricardina, levando-o para a sala  s o retrato do teu pai! 
Olha, amos agora mesmo tomar ch.
Sobre a mesa estava o tabuleiro com as chvenas, e ao lado,  luz de um candeeiro 
de abat-jour transparente, que representava cenas de neve numa paisagem da Noruega, 
um sujeito nutrido e calvo fazia uma pacincia, muito tranquilamente.
 Albuquerquezinho, aqui est o Arturzinho.  o retrato do mano Manuel...
O homem pousou devagar o baralho, voltou-se na cadeira e com as pernas muito 
abertas, as mos espalmadas sobre os joelhos, examinou longamente Artur, que torcia o 
buo, todo acanhado:
 Ora viva o meu amigo!  exclamou subitamente, erguendo-se e arrebatando-lhe 
a mo, que conservou muito tempo, sacudindo-lha compassadamente.  Ora viva o meu 
amigo! Ora viva o meu amigo!
Sentou-se e depois de ter acamado com mtodo, de um e de outro lado da calva, 
os trs plos grisalhos, retomou gravemente o seu baralho.
Mas o moo esperava  porta, e Artur, remexendo no bolso, estendeu-lhe dois 
tostes.
 Credo!  exclamou Ricardina.  Tu ests doido, menino! Olha o despropsito! 
Vai muito bem com quatro vintns. V, Joana, ajude-o a levar o ba para cima. Espera, 
eu tambm l vou. Sempre  melhor que eu l v. E tu deves vir a cair de fraqueza, 
filho. Veja l se lhe arranja j alguma coisa, mana Sabina. V, no fique a pasmada!
Sabina apressou-se a ir para a cozinha enquanto o Albuquerquezinho, muito srio, 
ia baralhando sossegadamente as suas cartas.
 Boa viagem?  perguntou, fixando Artur.
 Muito agradecido a V. Ex, fiz muito boa jornada...
 O mar picado?
 O mar?...  murmurou Artur, assombrado.
 Eu venho de Ovar...
 Hum!  rosnou Albuquerquezinho, com desprezo.  Na diligncia! Nlson, o 
grande Nlson andava em diligncia...
 Nlson era um almirante e eu...
 Chuta!  fez imperiosamente o Albuquerquezinho, que, tendo disposto um 
quadriltero de cartas, ia agora voltando uma a uma as que restavam no baralho:  s! 
terno! valete! duque!
Artur examinava com espanto a sua cabea grave de tabelio, a calva polida e 
lustrosa como madreprola, com quatro plos brancos sobre cada orelha, a face rubra e 
bem nutrida, o beicinho luzidio, as duas suas pequenas, grisalhas e o majestoso colete 
branco onde serpenteava um grilho. Mas o que o maravilhava, eram trs gales de oiro, 
de general, que ele trazia cosidos no canho da manga.
 V. Ex  amador de pacincias?  perguntou Artur, para quebrar o silncio.
Um chuta! despedido com clera, emudeceu-o. Artur ergueu-se, ofendido; uma 
das janelas estava aberta  noite clida de Agosto: defronte, vermelhavam os dois bocais 
escarlates na vidraa da botica, e em redor, sob o cu negro, todas as casas, a praa, 
pareciam adormecidas no ar pesado, com uma ou outra janela aberta, mortiamente 
alumiada. Devia ser aquele o fim da vila, porque se ouvia no grande silncio, a dis-
tncia, para alm da massa escura da capela, um coaxar triste de rs.
Artur acendeu um cigarro e ali ficou, pensando nas noites de Vero em Coimbra, 
nos luares sobre o Mondego elegaco... Via-se na ponte, com os olhos postos na Lua, 
redonda e branca  que, quela hora, contemplavam tambm o pastor na montanha, 
deitado sobre uma pedra, o marinheiro nos mares calmos, sobre o tombadilho  e ao 
lado, a voz exttica do Taveira, murmurando:  Lua, hstia do Infinito!...
A sala, dentro, parecia continuar a melancolia da praa e da vila, com o seu alto 
armrio de pau-preto, a mesinha de ps torneados, coberta de uma colcha de cetim, 
sustentando preciosamente um vaso com flores de cera, e um recanto de alcova, com um 
velho div cavado pelo uso, onde decerto, de dia, as senhoras caturravam fazendo meia. 
E a voz grossa do Albuquerquezinho, uma voz de major enrouquecida nas manobras, 
continuava: quadra, dama, s, terno!
Mas Ricardina apareceu enfim, azafamada:
 Desculpa, que se te andou a arranjar o quarto. Vires sem prevenir, que 
despropsito!
Calou-se, cheirando em redor:
 Oh, menino! pois tu fumas? Ai, que peste! Ai, que peste!
Agarrou um guardanapo, bateu o ar violentamente:
 Ai, deves perder o hbito, que o Vasco diz que arrasa a sade e d ms ideias. 
Pus-te o ba ao p da cama. Olha, a vem a tia Sabina. Vai com ela, que te vai mostrar o 
quarto, que eu vou-me aqui repimpar e estar um bocado caladinha... 
Mas no se calou, contando logo os seus achaques, o mal que a seca estava 
fazendo s terras, os bonitos passeios para os lados do Covo, a maravilha da fbrica de 
vidro...
 Fez a pacincia, Albuquerquezinho?
 Duas, menina  disse o velho que baralhava as cartas  duas imperiais.
 Logo se marca, que a Sabininha tem de l ir acima... Ai, que balbrdia, credo! 
Pois olha, at estou com dores de cabea.  do fumo do tabaco. E tambm de sair dos 
meus hbitos...
 Chuta!  bradou o Albuquerquezinho que recomeava o quadriltero.
E Ricardina, baixando a voz:
 V, mana Sabina, v mostrar-lhe o quarto, j que tem pernas.
 Por aqui, menino, por aqui  disse logo Sabina, levantando-se.
Artur, atarantado, seguiu-a pela escada ngreme, mas quando chegou ao corredor, 
parou espantado, vendo a uma porta, postado, de arma ao ombro, um soldado de papel 
em tamanho natural, colado a uma tbua que fora recortada pelos contornos da figura.
 Que  isto?
  o quarto do Albuquerquezinho,  a sentinela  disse Sabininha com um sorriso 
enternecido.
 Quem  aquele sujeito?  perguntou Artur.
 Ai,  um santo! No deves fazer caso... tem a cabecinha desarranjada, no pensa 
seno em navios e coisas do mar.
 Foi oficial de marinha?
 Oh, no! O Albuquerquezinho era um amigo do mano; depois de vivo 
comeou a tresloucar. E como no tinha parentes e no estava doido declarado para ir 
para Rilhafoles, trouxemo-lo a viver c para casa; que o Albuquerquezinho  rico, tem 
uma fazenda muito boa, ao p de Santa Eufrsia.
Falava enternecida, com o seu castial na mo, ao lado da enorme sentinela de 
qupi e farda azul, de bigodes napolenicos. Fora ela que lhe pusera na manga os gales 
de almirante. Era ela que cosia as velas dos seus navios.
 Ai, coitadinho,  um santo!  s aquela mania das embarcaes, que em tudo o 
mais tem juzo.
Mostrou-lhe ento o quarto, pegado ao do Albuquerquezinho. Sobre a cmoda 
tinham posto um grande ramo de rosas e os lenis da cama eram bordados.
 Tens aqui gua quente... E a vista  linda.
Artur deitou um olhar  janela, mas s viu uma vaga negrura, onde formas de 
rvores, outra torre distante, punham sombras mais densas, e das quais subia o mesmo 
coaxar triste das rs.
Mas Sabininha, ao retirar-se, hesitou um momento e quase com uma suplicao na 
voz:
 No te rias, menino, queria pedir-te uma coisa. Sempre que falares ao 
Albuquerquezinho, chama-lhe sr. almirante.
Quando Artur desceu, o ch estava na mesa e Sabina, muito comovida, arranjava 
sobre o guardanapo a ceia do menino. Ele teve ento de contar dos seus estudos de 
Coimbra, como recebera a notcia da morte do pai, o que tinha rendido o leilo...
Mas, de repente, o Albuquerquezinho arremessou a torrada que tomara do prato e 
empertigado na cadeira, fazendo estalar os ns dos dedos, olhou sucessivamente as duas 
velhas com rancor. Exigia as torradas quentes, louras, a escorrer de manteiga e 
encontrando uma seca, rosnou com azedume:
 Se sabem que me faz mal! Se sabem que me faz muito mal! E no  uma, so 
todas que esto secas. J  desleixo!
Foi um desgosto para as senhoras. Tinha sido a atrapalhao. Fora com a chegada 
do menino!
O Albuquerquezinho havia de perdoar!
  por culpa minha  disse Sabina  que as deixei fazer pela Joana.
 Est claro  exclamou Ricardina   culpa sua! Eu bem lhe tinha dito que 
deixasse os ovos  Joana e fizesse a menina as torradas. Mas no, quer-se sempre 
regular pela sua cabea! Veja onde a levou a sua cabea!  e aflautando a voz, muito 
tesa:  olhe o desgosto que sofreu!
A Sabininha, encolhida, sorvia a sua pitada. E Albuquerque, voltando-se para 
Artur, com a testa franzida:
 E que o amigo, que vem de Coimbra, compreende, ou so torradas ou  po 
seco!
Artur respondeu, muito srio:
 Tem V. Ex muita razo, Sr. Almirante.
Subitamente o velho calmou-se, passando com satisfao as mos espalmadas 
sobre os quatro plos da calva. As faces das senhoras iluminaram-se num 
reconhecimento comovido, e a Sabininha, sem se conter, passou os dedos magros pelo 
rosto de Artur, dizendo enternecida:
 Ai, no podes negar que s filho do mano Manuel. E o mesmo corao de anjo.
E durante um momento Artur sentiu-se bem entre aqueles coraes antiquados, 
to fceis de alegrar, naquela casa adormecida, a um canto de vila triste, onde errava por 
entre os mveis, a que o longo uso dera quase uma expresso humana, um cheiro pacato 
de alfazema.
E mesmo o Albuquerquezinho lhe pareceu tocante, quando, estendendo sobre a 
mesa o seu brao agaloado de oiro, lhe declarou com amizade:
 Hei-de lev-lo amanh a bordo.
 E uma grande honra  respondeu sorrindo.
Mas tinham dado as dez e meia e as senhoras ergueram-se para ir, com as duas 
criadas, rezar o tero ao oratrio.
Artur, acanhado, ficou s na sala triste, defronte do Albuquerquezinho, que de 
mos cruzadas sobre o ventre, cara numa sonolncia, que lhe vinha geralmente depois 
do ch.
Quando as tias voltaram, cabeceando, daquele tero montono no oratrio, o 
Albuquerquezinho acordou, comps as repas da calva e erguendo-se, disse com 
satisfao:
 Pois, senhoras, passou-se o bocadito da noite.
Deram ento um castial a Artur, com recomendaes infinitas: que apagasse a 
luz antes de adormecer, que no deixasse os fsforos espalhados por causa dos ratos...
 Eu estou l ao p, eu estou l ao p  disse o Albuquerque.  Eu l vigiarei. E se 
o amigo quiser alguma coisa,  bater na parede! Vamos, boas noites!
E subiram para o corredor, o Albuquerquezinho, adiante, devagar, bocejando, 
puxando-se pelo corrimo.
 Pois amigo  disse  no h nada melhor do que uma sonecazinha, depois das 
torradas. Que elas hoje estavam ms; mas, enfim, foi dia de hspede. O que o amigo 
deve vir,  cansado. Trs horas de diligncia... Oia l, as convenincias so ao fundo 
do corredor.
E Artur pasmava de o ver to sensato, quando o Albuquerquezinho, parando  
porta do seu quarto, fez a continncia ao soldado de papel e deu este santo-e-senha, para 
entrar a bordo:
 Nlson e Sabininha!
S no seu quarto, Artur, sentado na cama, comeava a fumar o seu cigarro, 
quando de fora a voz de Ricardina falou pela fechadura:
 Pois tu ests ainda a p, menino? Ai, apaga a luz, apaga a luz... Diz se ests a 
fumar?
 No, tia Ricardina.
 Ai, filho, pelas chagas de Cristo, tem cuidado com o fogo.
Deitou-se desesperado, pensando no que faria para fugir bem depressa daquela 
casa embrutecedora, onde nem poderia ler de noite na cama ou trabalhar, sem que uma 
das velhas viesse, na sua ronda, fazer-lhe soprar a luz e as imaginaes.
Ao outro dia, ao erguer-se, foi abrir a janela. Era uma manh resplandecente. Em 
baixo, estendia-se toda uma verdura de pomares e hortas, com tanques aqui e alm, 
onde espelhava a gua; brancuras de roupa a secar, casas caiadas, faiscavam ao sol. O 
quintal das tias, de onde se subia por trs degraus de pedra para o ptio da criao, era 
cercado de um muro baixo eriado de fundos de garrafas. Estava plantado de couves, 
alfaces, feijes; ps de roseira e dlias faziam um jardinete ao canto; no fundo, debaixo 
de rvores, era o poo, e sobre o seu pedestal, uma estatueta de gesso da Fortuna, com o 
p no ar, a cornucpia alta, branquejava na luz forte.
E Artur, debruado, fumava, quando da janela ao lado, saiu um brao agaloado de 
oiro e imediatamente uma voz formidvel retumbou:
 Ora a barlavento! Senhor segundo-tenente, abra as escotilhas da proa!  e uma 
trombeta soou: traiar, traiar, r, r, ...
E ento de um porta-voz, que apareceu fora da janela, saiu um vozeiro:
 Cerre os traquetes! Fogo! Boum! Boum! Boum! ... Traiar, traiar, r, r, ...
Era Albuquerquezinho, de chapu armado, comandando, do peitoril da janela, a 
sua fragata de guerra!

Comeou ento para Artur uma vida desgraada, em que os dias se seguiam como 
as pginas brancas de um livro que se vai tristemente folheando. Toda a manh, as duas 
senhoras faziam a sua meia na sala, com as janelas cerradas, o soalho regado, num 
silncio em que errava a sussurrao das moscas.
s vezes, para o distrair, Sabina levava-o ao quintal, ver a criao: mostrava-lhe 
os coelhos novos pulando sobre as camadas de couves molhadas, de nariz franzido, as 
orelhas direitas, fitando os olhinhos vermelhos como rubis ou negros como vidrilhos nas 
cdeas que ela trazia; e em torno dela era um correr de pintainhos, redondos como bolas 
de penugem, um cu-cu de patos, um despedir de bufos dos dois perus entufados. Mas 
o cheiro da capoeira, da coelheira, o bafo morno e acre dos plos e das penas enjoavam 
Artur; detestava os bacorinhos, com a pele cor-de-rosa, a suar de gordura, fossando at 
aos olhos, grunhindo de gozo, na lavagem das gamelas. S no desgostava do velho 
galo, o Pimpo, de cauda flamante e passadas pomposas: muito atrevido, o Pimpo 
plantava-se diante dele, erguendo a crista sanguinolenta, fitando-o de lado com o seu 
olho rutilante, e de repente, batendo as asas, estendendo o pescoo onde corriam 
reflexos de esmaltes vermelhos e azuis, lanava o seu toque de clarim; galos, noutros 
quintais, respondiam; e as galinhas iam dando em redor, no mato estradado, picadelas 
subtis e vorazes.
Mas Artur declarava que no lhe agradavam seno pombos e paves  e subia 
para casa, bocejando, enquanto a tia Sabina, magoada daquela indiferena, ficava a 
olhar desconsoladamente a sua bicharada.
Depois do jantar, dadas as graas, era a sesta: tudo parecia adormecer numa 
lassido entorpecida, at os mveis e as moscas. E Artur, estirado sobre a cama, olhava 
vagamente as tbuas do tecto, ruminando pensamentos saudosos de amor, de 
celebridade, ouvindo fora, nas suas gaiolas de vime, arrulharem as rolas. Ao fim da 
tarde, as senhoras iam tomar o fresco para o fundo do quintal, ao p da estatueta da For-
tuna, enquanto o Albuquerquezinho fazia navegar no tanque do poo o seu bote cheio 
de soldados de chumbo; e naquele repouso das folhagens, cansadas da ardncia do dia, 
ouvia-se a gua de rega murmurar ao lado, no pomar do Freitas. E ali ficavam at tarde, 
esquecidas, at que alguma estrelinha tremeluzia no alto e os morcegos esvoaavam em 
torno da Fortuna. A essa hora, Artur entrava do seu passeio triste pela estrada de Ovar 
ou do Covo e o sero comeava, com as janelas, por onde entravam borboletinhas 
brancas, abertas  escurido tpida do largo.
Era aquela a hora pior. As meias das duas senhoras, as pacincias do 
Albuquerquezinho, os quartos que caam plangentemente da torre de S. Francisco, 
davam-lhe um tdio taciturno. As tias imaginavam que eram saudades do pap:
 No maluques nisso  diziam  quem l est, l est.
E Artur detestava-as, por no compreenderem a elevao espiritual da sua 
melancolia.
Depois, o Albuquerquezinho tomara afeio a Artur e queria mostrar-lhe a sua 
esquadra. Eram dois grossos cadernos de papel em que ele colava em fila os navios e 
paquetes recortados nos anncios dos jornais, com os nomes escritos a tinta vermelha: 
Valoroso, Relmpago, Fragata Sabina, Nlson... Havia as esquadras de todos os pases 
da Europa, e, como no cessava de recortar, tinha agora esquadras de terras exticas: a 
frota da Lapnia, a frota da Cafraria, a frota da Arbia...
 Hem, meu amigo! Que esquadra... E tudo s minhas ordens!  dizia, mostrando 
os gales da manga.  D-me muito que fazer...
 Decerto, Sr. Almirante, decerto!
Ao fim do sero, subindo para o seu quarto, erguia os braos para o cu numa 
acusao muda! Quando acabaria aquela vida? Quando voltariam noites como as do 
Cenculo? Pela janela aberta entrava a paz escura da vila adormecida. Olhava ento as 
casas apagadas, os telhados fazendo na sombra sombras mais densas: quela hora, toda 
uma burguesia dormia, roncando de barriga para o ar; nenhum daqueles seres lera 
Alfredo de Musset ou compreenderia os sonhos que lhe revoavam na alma como bandos 
de aves cativas; a obtusidade daquele monto de lojistas e de proprietrios sem ideal e 
sem emoo, ignorando os poetas, ocupados com o preo da carne e o adubo das terras, 
exasperava-o, dando-lhe desejos vagos de uma Revoluo, em que o poder, o dinheiro, 
pertencessem aos gnios e s almas delicadas.
Ocupava-se ento, para no perder a comunicao intelectual com o Cenculo, em 
compor para o Pensamento uma longa elegia, intitulada A Morte e dedicada  memria 
do pai. Mas Damio, que passava o Vero em Coimbra, devolveu-lhe o manuscrito, 
com uma carta, dizendo que o Cenculo decidira no publicar o Pensamento durante as 
frias; talvez mesmo, no ano seguinte, agora que o Taveira estava formado, o 
Pensamento se tornasse uma Revista puramente filosfica e cientfica, de onde os 
poetas lricos, como na Repblica de Plato, seriam excludos, a no ser que, deixando 
a preocupao estreita da dor individual, se lanassem na simpatia mais larga da 
humanidade martirizada.... Censurava-lhe a poesia cheia de lamentaes caticas e 
lamartinianas; aconselhava-lhe um livro forte e democrtico: a morte  dizia   uma 
transformao banal da substncia, e no comporta adjectivos to espantados, verbos 
to plangentes e essas fileiras de interjeies, que parecem renques de ciprestes. S a 
vida  interessante porque  fenmeno nico. Escreva pginas vivas!...
Aquele fim do Pensamento, cortando a sua ltima comunicao com a vida 
intelectual, desolou-o. Assim se completava o isolamento da sua alma. De resto, sentia-
se vazio de ideias, de imagens, de rimas. Atribua aquela esterilidade ao meio dormente, 
 ausncia de conversas, de excitao inspiradora. A falta de livros amargurava-o. Os 
que tivera, vendera-os em Coimbra quando vira o fim das libras do leilo, e no podia 
obter outros, porque os prprios cigarros que fumava no quintal, longe da tia Ricardina, 
to avessa ao tabaco, comprava-os com alguma placa que lhe dava a boa Sabininha.
O seu tdio era to grande que se pusera a desejar, como um acontecimento, a 
apario aos seres, do Vasco e de D. Galateia, que ento convalescia do seu ltimo 
parto. Sabininha falara-lhe de D. Galateia como de uma verdadeira beleza e, por 
aquele nome literrio, pelo que ouvira do seu amor dos romances, do seu talento no 
piano, viera a conceber uma mulher de olhos tristes e alma impressionvel, sofrendo da 
existncia mesquinha da aldeia e sonhando amores elevados. Mas foi uma desiluso 
quando eles vieram um domingo. D. Galateia era quase uma quarentona, grossa e 
branca, de buo forte, com uns seios, umas ancas, que sob o vestido leve de cassa clara, 
lhe davam a aparncia flcida de um odre mal cheio. Atravessara o largo em chinelos, 
com fitas verdes no cabelo, um cartucho de rebuados na mo  e a sua conversa sobre 
o leite da ama e os cuidados em que estava com o sarampo do Pedrinho, e a canastra de 
marmelos que comprara nessa tarde, revoltou Artur, que fez dela esta definio 
irreverente: uma vaca!
O Vasco, esse, pareceu-lhe odioso. Pouca gente lhe tinha visto o rosto todo: com a 
testa e os olhos sempre cobertos pela pala enorme do bon de pano, o queixo e a boca 
constantemente abafados num cachen roxo, mostrava apenas a Oliveira de Azemis um 
nariz bicudo e lustroso. Vivia numa irritao permanente. E todo o dia era pela botica 
um passear furioso, fungando, fazendo estalar violentamente os ns dos dedos, com 
sacudidelas desesperadas da cabea, como a fugir ao ferro de uru moscardo invisvel, 
mastigando em seco, dentro do cachen, como se a vida lhe soubesse mal. Ningum 
explicava na vila aquele azedume hipocondraco.
Os seres das Correios, porm, pareciam calm-lo: mostrava ento as repas 
grisalhas que lhe cobriam o crnio estreito e o cachen, alargado, descobria um queixo 
mole, que lhe fugia para as cordoveias do pescoo. E a cabea, emergindo-lhe assim dos 
agasalhos, com aquela longa salincia do nariz agudo, lembrava a de um pssaro pelado.
Artur compreendeu imediatamente que o Vasco era um ciumento: via-o mudo, de 
queixo rilhado, os olhinhos de clortica amarelada cravados ansiosamente, ora nele, ora 
na grossa Galateia; e quando esta, requebrando-se, o interrogava sobre os seus passeios 
aos arredores, a sua visita  fbrica de vidro do Covo, o Vasco, retido a distncia pela 
tagarelice da Ricardina, sondava de olhos faiscantes a escurido debaixo da mesa, no 
terror de que j houvesse um terno roar de joelhos. Enfim, quando trouxeram o ch, 
veio bruscamente plantar-se entre ambos, como um spero muro eriado de pregos. 
Ento Artur indignou-se. Ser suspeitado, ele, com a delicadeza fina dos seus gostos 
idealistas, de desejar aquela matrona de carnes moles!... E para evidenciar bem o seu 
desdm pela Galateia, pelas palestras caturras, por toda a vila  subiu para o seu quarto, 
foi estirar-se na cama, gemendo interiormente da solido do seu corao. Da a pouco, a 
voz da tia Sabina dizia de fora:
 Tu ests incomodado? Vai-se fazer um quino.
Ele veio abrir:
 No, tia Sabina. No estou para aturar os Vascos. Diga que estou a escrever para 
Coimbra. No jogo o quino.
Em baixo, o nariz de Ricardina, a esta explicao, alongou-se:
 Podia escolher outra hora para escrever!
 Rapazes!  disse o Vasco satisfeito.  Deixou o corao em Coimbra.
E o loto comeou em torno da mesa, enquanto, diante do lbum aberto das 
esquadras universais, o Albuquerquezinho fazia a sua soneca.
J o Vasco, para sair, recolhera a face de ave triste ao bon e ao cachen, quando 
Artur desceu. O farmacutico tomou-lhe a mo com afecto:
 Estimei conhec-lo... Aquela casa est s ordens... Eu tinha lido a carta que 
escreveu s titias... E de muito talento. Eu admiro o talento!
Pobre Vasco! D. Galateia, ainda depois de dez anos de casada, lhe dava ardores 
imoderados e zelos pungentes. Outrora, interceptara um bilhete do seu praticante, em 
que o moo a tratava por tu e falava dos celestes gozos da outra noite; mais tarde, 
surpreendera-a positivamente nos joelhos do sobrinho do Carneiro, moo imberbe que 
estudava geometria. Perdoara, mas desde ento a desconfiana, a paixo tenaz, junto  
hipocondria de uma doena de fgado, dera-lhe aquele azedume taciturno. A virtude de 
Artur, que experimentou noutros seres, tornou-lho querido. Depois, tendo conversado 
com ele sobre assuntos que o interessavam, como a Electricidade, o Magnetismo 
animal, deslumbrado por algumas recordaes dos compndios de Introduo, que 
Artur bordava de frases do Cenculo, concebeu uma considerao ilimitada pelo talento 
e pela cincia do Correio sobrinho. Mas no se abandonou imprudentemente a esta 
simpatia, quis sondar-lhe os princpios e o carcter, e um dia que Artur entrara na botica 
a buscar o xarope da Sabininha, o Vasco fechou a porta, para fazer uma solido 
propcia, e cruzando formidavelmente os braos, atirou-lhe esta interrogao:
 Quais so as suas ideias a respeito da famlia?
Artur, interdito, balbuciou:
 Eu, parece-me que  uma instituio respeitvel.
 De modo que um peralvilho que atenta contra a paz do lar,  um canalha?
 Parece-me que  um canalha!
 Muito bem. E se o Sr. Correio fosse legislador, que penalidade lhe infligiria?
Artur passou os dedos pela testa, confuso, procurando penalidades:
 Eu, parece-me que o castigo actual do Cdigo  suficiente... Trs ou quatro anos 
de cadeia...
 Muitssimo bem!  exclamou o Vasco apertando-lhe a mo.  Estimo que se no 
afaste desses princpios respeitveis...
E num reconhecimento s Correios, por possurem um sobrinho de tanta virtude 
domstica, pesou um quarto de rebuados, encartuchou-os e exclamou:
 Para as senhoras suas tias, da minha parte. Compreendo o gosto que fazem em 
V. Ex.
Foi por esse tempo que o Vasco, desgostoso com todos os praticantes moos que 
tivera, e que invariavelmente tramavam contra a sua honra, obrigado ultimamente a 
despedir o hbil Alfredo, por ser atiradio, concebeu um plano  que dali a dias foi 
muito gravemente comunicar s Correios. Era tomar Artur como seu praticante: oh, ele 
bem sabia que um moo de tais talentos, com dois anos de Coimbra, merecia uma 
posio mais elevada na Sociedade. Mas enfim, o Sr. Artur estava ali na vila, inactivo, 
comendo o po das titis... O seu desejo de o possuir era to forte, que lhe oferecia sete 
mil e quinhentos por ms! De resto, a farmcia era uma Cincia. Ele estava velho, 
minado do fgado, vido de repouso, e se o Sr. Artur revelasse talentos verdadeiramente 
farmacuticos, poderia mais tarde passar-lhe a botica, a melhor em todo o distrito. 
Demais a mais, no seria difcil, em alguns meses, com os estudos que ele tinha, inici-
lo na manipulao dos elementos qumicos que  de tanta responsabilidade, minhas 
boas senhoras....
Foi uma alegria violenta para as tias. Ainda o Vasco ia no ptio, j elas estavam 
batendo  porta do quarto de Artur, que se aferrolhara por dentro na composio ardente 
de quadras entusiastas:

Eu quero uma existncia fulgurante!
Mover-me livre sob o livre cu!
Quero a glria pica do Dante
E os amores sublimes de Romeu...

Ficou petrificado, quando Ricardina, enternecida, lhe anunciou a proposta do 
Vasco, daquele santo!
Praticante de farmcia!
Parecia parvo, de pena na mo e os cabelos esguedelhados, rolando assim dos 
cus poticos onde pairava at aos almofarizes da botica do Vasco!
  uma ocupao para ti  dizia Ricardina.
 Tens ao menos para o teu fumo e para as tuas extravagncias...  ajuntou 
Sabina.  Que ns, mesada, no te podemos dar. E quando se te acabar o luto, nem tens 
para mandar fazer um casaco... E so sete mil e quinhentos...
No podia recusar-se a trabalhar: balbuciou Lugubremente que sim.
Mas a desconsolao que lhe murchara a face magra foi to visvel que comoveu a 
tia Sabina:
 E para o teu bem  murmurou.  Que, se fssemos ricas... Mas enfim, se te custa 
muito...
 Que h-de custar? Que h-de custar?  exclamou Ricardina.  A vem a mana 
com as suas coisas! Olhe o despropsito. Se a deixassem regular-se pela sua cabea, no 
iam nesta casa seno desgraas. Veja onde a levou a sua cabea... Veja o desgosto que 
sofreu! Vai muito bem,  uma fortuna para ele.
 Sim, tia Ricardina, obrigado. At estimo...
Quando elas saram despedaou os versos. E at ao jantar, movendo-se pelo 
quarto, tomado de desespero, pensou em fugir de Oliveira de Azemis. Tinha a certeza 
de que o seu gnio, na frequentao do Vasco, entre os unguentos e os bocais, pereceria 
como um lrio desfolhando-se numa caverna. Por que no iria para Paris, ser operrio, 
amar uma Mimi republicana do Faubourg St. Antoine e conspirar contra o Imprio? 
Pensou em ir para Lisboa, fazer-se escudeiro numa casa fidalga, onde a sua figura e as 
suas rplicas profundas, lhe dariam bem depressa o amor da senhora condessa ou da 
mulher do banqueiro...
Mas tinha as desesperaes superficiais  e da a dias, com o casaco de laboratrio 
que pertencera ao hbil Alfredo, preparava resignadamente, sob o olhar paternal do 
Vasco, a sua primeira garrafada de mistura salina.
Consolava-se achando, na sua sorte, similitudes com biografias ilustres: pensava 
em Michelet impressor, em Proudhon conduzindo pelo Rdano carregaes de madeira; 
lembrava-se da frase de Damio: o homem moderno deve trabalhar com as suas mos 
e filosofar com o seu crebro.
Depois, eram sete mil e quinhentos por ms...
De resto o trabalho era breve. O principal negcio do Vasco consistia numas 
Pastilhas peitorais que inventara e de que fornecia todo o distrito.  noite, dispensava 
Artur: a essa hora D. Galateia descia  botica e o Vasco, apesar da sua confiana na 
virtude herica do novo praticante, no queria, por sistema, depois do lusco-fusco 
coraes de vinte anos na botica. Temia sobretudo a noite, como mais propcia s fra-
quezas ternas e  passagem de bilhetinhos sub-reptcios, destruidores da sua honra.
Depois, veio-lhe outra felicidade. Uma manh que estava s na botica, a porta 
abriu-se, como arrombada, e apareceu o colosso do Teodsio. Viera  vila de passagem: 
vinha buscar pastilhas do Vasco para uma pequena que se lhe encatarroara; fez 
estalar os ossos do caloiro com um abrao, chalaceou sobre a botica, convidou-o a ir  
quinta, e, ouvindo-o queixar-se do aborrecimento da vila, da falta de livros, exclamou 
divertido:
 Ah, caloiro,  isso que te falta? Caramba, est a calhar! Eu trouxe dois caixotes 
atulhados de livraria, mas l na quinta no me servem de nada... Se queres, mando-te 
para c um caixote... Ou ambos! Tem cuidado com as encadernaes, que l nisso fao 
gosto.
 Ds-me a vida, Teodsio!
 Pois valeu, caloiro!
A chegada dos dois caixotes, uma tarde, foi um alvoroo na casa das Correios. 
Artur precipitara-se, em cabelo, da farmcia. E Ricardina, que subira ao quarto a ver-
lhos destapar, aterrou-se diante daqueles montes de volumes amarelos, em que decerto 
se deviam tramar coisas contra a Religio:
 Tu vais tresler, menino... Olha no te faa mal!
Depois do ch, aferrolhou-se no quarto, atirou-se ao seu tesouro, sofregamente, 
como se tivesse achado no quintal uma panela de dinheiro. Eram romances, poemas, 
crticas, dramas, filosofias... Mas s os poetas o atraam e ia atravs dos volumes 
espalhados na cama, lendo uma pgina ou uma estrofe, logo passando a outra, vido de 
versos sonoros, de dilogos, de adjectivos ricos, e cada livro lhe renovava aquela 
exaltao especial do tempo de Coimbra, acordando-lhe na alma antigos entusiasmos do 
Cenculo.
Com Vtor Hugo, sentiu-se outra vez pantesta, confundiu-se na alma Universal 
do Ser, declamou:

Arbres, rochers, roseaux, tout vit! Tout est plein d'mes!

Todo o platonismo dos meses em que amara idealmente, lhe voltou, com 
languidezes elegacas que lhe passavam na alma, relendo em Lamartine:

Un soir, t'en souviens tu, nous voguions en silence!

E os lambes de Barbier fizeram-lhe bater o corao de novo, com as aspiraes de 
uma democracia lrica:

La libert n'est pas une comtesse
Du noble faubourg St. Germain,
Que le son d'un fusil fait tomber en faiblesse,
Qui met du rouge et du carmin.
C'est une forte fille, aux puissantes mamelles,
Aux mains rouges et teintes de sang!

Leu toda a noite, sentado aos ps da cama, respirando a largas golfadas, com a 
delcia de quem sai de um crcere, a atmosfera que o envolvia, feita das emanaes de 
Ideal, exaladas daqueles volumes romnticos. E era, entre aquelas paredes do seu 
quarto, como uma regio luminosa, acima da terra, onde no havia tias nem farmcias, 
onde o sopro das paixes grandiosas se casava  msica dos ritmos novos e em que ele 
se movia arrebatadamente por entre as criaes da Arte. Ali, palpitavam no ter as asas 
de Elo; a um canto de taverna romntica, vibrava o riso lgubre de Rola; alm, a 
cotovia cantava no jardim dos Capuletos; no havia uma carruagem que no levasse 
uma plida Dama das Camlias; todos os animais eram poticos como a cabrinha de 
Esmeralda e, nos cemitrios, Hamlet meditava, fazendo rolar sobre um cho trgico a 
caveira de Iorique.
Quando a vela de sebo se derreteu no castial de lato, ficou desesperado. Queria 
prolongar aquela noitada romntica; ento saiu p ante p, esguedelhado, raspando 
fsforos. No seu quarto, sob a proteco da sentinela, Albuquerquezinho ressonava; no 
corredor, os olhos do gato fixaram-no, fosforescentes e aterrados. No encontrou 
candeeiro, nem vela... Foi ao oratrio. Em cima de uma antiga cmoda com fecharia de 
metal, erguia-se um alto crucifixo enegrecido dos anos, e em redor apinhava-se toda 
uma corte celeste, de barro, de massa e de madeira... Uma lamparina ardia 
perpetuamente aos ps do crucifixo, e naquela alcova abafada, o reflexo da torcida 
punha uma vaga claridade mstica em redor, na aurola plida de uma santa, no dourado 
lvido de um Menino Jesus, na brancura de uma renda de toalha, na encadernao 
cannica de um velho in-flio. Errava um cheiro adocicado de junquilhos secos, de cera 
e de ma camoesa... Artur arrebatou a lamparina, deixou os santos nas trevas, e todo o 
resto da noite, aquele pavio devoto, habituado a erguer a adorao da sua luzinha para 
as chagas de Jesus ou o burel de Santo Antnio, alumiou pginas profanas, cheias dos 
gritos da Paixo e das rebelies da Dvida.
Adormeceu quando a madrugada aparecia nas frinchas da janela, e sonhava que ia 
remando num barco, com o Taveira, por um rio de legenda, seguindo o corpo de Oflia 
que a corrente levava... quando acordou estremunhado, aos gritos da tia Ricardina, que 
abrira a janela e apertava as mos na cabea, atnita, diante da lamparina seca:
 Tu queres-me matar com desgostos, menino!
 gritava sufocada.  Pois tu tiraste a luz do oratrio?
Artur explicou que fora uma dor de barriga.
 Se ele se achou doentinho...  murmurou logo a tia Sabina, que entrara atrs 
dela, assustada.
 No h doenas! Que chamasse!  um desacato!  um desgosto que me h-de 
levar  cova. E a primeira vez, em quarenta anos... Como pode algum esperar a ajuda 
de Nosso Senhor, se at se lhe tira o bocadinho de luz! No me venha com as suas, 
mana Sabina! A sua cabea bem a conheo. Olhe o que ela lhe custou. Veja o desgosto 
que sofreu!
E saiu aos ais pelo corredor.
Cercado de livros de versos, Artur julgou ter-lhe voltado de novo a veia, 
sobretudo, talvez, porque a celebridade, o prestgio potico que eles tinham dado aos 
seus autores, lhe excitava a ambio. Decidiu reunir, pacientemente, um volume das 
suas poesias, a que daria o ttulo cintilante de Esmaltes e Jias! E, antes mesmo de o 
compor, j o corao lhe batia  ideia de ver o seu livro na vidraa dos livreiros, com 
uma capa cor-de-rosa. Decidiu que lhe juntaria o seu retrato, numa atitude de cabea 
contemplativa: decerto alguma mulher inteligente o amaria, pela nobre melancolia que 
os seus olhos revelavam... E a sua vida seria uma continuao de beijos arrebatados e de 
rimas sonoras.
Mas os meses passaram, naquela vida de uma regularidade triste de pndulo, entre 
a casa e a farmcia  e o grosso livro encadernado, onde ele devia copiar os Esmaltes e 
Jias, permanecia ainda quase todo branco. L estavam os trs poemas que o 
Pensamento acolhera: Oflia, A ti  que era a Aninhas Serrana, amada  e Mulher de 
Mrmore  que era a Aninhas Serrana, odiada! Em obedincia a Damio, produzira 
ainda uma Ode  Liberdade. Oliveira de Azemis fornecera-lhe A Lua, Delrios e Pr 
do Sol. Mas depois destes esforos, a corrente de imaginao, onde flutuavam 
fragmentos de sonetos, pedaos de imagens, fora-se pouco a pouco imobilizando, como 
um regato que gela. s vezes, julgava que era o assunto, a matria potica que lhe 
faltava, e ia rebusc-la pelos livros amados; e quando, depois de uma leitura das 
Orientais, imaginava que o Oriente e o seu pitoresco lhe inspirariam estrofes ricas, ou, 
depois de uma pgina de Vigny, lhe vinha o entusiasmo de cantar o amor dos anjos  
era a expresso, o verbo que lhe fugiam. Ento, desesperado, acusava a monotonia da 
vila triste que o esterilizava. Ah, se estivesse em Coimbra, em Lisboa sobretudo! L, 
entre os jornalistas, a Opera, os poetas, o seu crebro que, agora, lhe parecia uma pedra 
que apesar de muito batida guarda obstinadamente a sua fasca, flamejaria ento numa 
inspirao contnua.
Mas no desistia, sustentado pela ambio histrica de ver o seu nome em 
folhetins, de ser admirado pelas senhoras sensveis  e as tias no compreendiam o que 
ele fazia, passeando at altas horas pelo quarto, consumindo regularmente uma vela de 
sebo por noite, enquanto o Albuquerquezinho, que era doido, esse, no quarto ao lado, 
ressonava sensatamente!
A tia Sabina, um dia, descobriu que o menino fazia versos, e veio perguntar-lhe, 
em segredo, se era para alguma senhora de Coimbra. Quem era?
 No  para nenhuma senhora, tia Sabina. So versos.  para um livro...
Ela no acreditou, ameaou-o com o dedo, meigamente:
 Ah, menino! menino!...  da tua idade, filho,  da tua idade!
Mas Ricardina, essa, desaprovou com espalhafato o despautrio do menino. E 
era para isso, para fazer versos, que assim arrasava a sade, deitando-se de madrugada e 
trazendo aquela cara esverdeada! Que visse onde os versos tinham levado o tio 
Teotnio! E era um talento, esse, ntimo de fidalgos, conhecido na Corte! Pois por l 
morrera, numa enxerga de hospedaria, com uma camisa na mala e um monto de 
papelada!...
E no seu horror  Poesia, que ela considerava a origem fatal da fome e do vcio, 
pediu ao Vasco que trouxesse o menino a ideias mais srias, mais prticas, de carreira e 
de futuro. O boticrio f-lo em frases muito graves, muito meditadas: se o Sr. Corvelo 
gostava de empregar os seus vagares, como era justo na sua idade, por que no unia o 
til ao agradvel? Por que no estudava a bela Fsica, e bela Qumica, que lhe seriam de 
tanto auxlio no seu futuro farmacutico? E acrescentou com bondade:
 Eu no digo, quando se tem j uma posio na sociedade e alguns vintns de 
lado, que no seja bonito poder produzir um bom acrstico, ou, sem malcia, um 
engraado epigrama... Mas fazer da poesia a principal ocupao, no! Desculpe-me o 
Sr. Corvelo, mas  uma grave imprudncia e h-de concorrer para o desviar dos seus 
deveres!
Artur empalidecia de raiva.
S na tia Sabina encontrava simpatia. Essa, desde a descoberta do caderno dos 
Esmaltes e Jias, parecia estim-lo mais, como se a habilidade potica fosse uma 
evidncia da ternura da alma. Um dia, mesmo, quando ela estava arranjando o seu 
gaveto, a doce velha tirou de entre um livro de oraes um papel amarelado, de dobras 
muito gastas e com mistrio pediu-lhe que o lesse: mas baixinho!
Eram versos, versos  tia Sabina, versos datados do Porto, de 1841!

Eis chegado o momento de partir,
Dor e luto se apossam do meu ser;
Longe de ti,  anjo feiticeiro,
A vida  treva, no posso viver.

E havia doze quadras neste estilo, trabalhadas ao gosto do tempo, misturando 
fanatismos de amor e palpites de morte s melancolias do Outono e s tristezas da 
separao.
Artur disse, sorrindo, numa complacncia de mestre amvel:
 So bonitos, tia Sabina, esto bem feitos...
A velha dobrou silenciosamente o papel:
 E eram verdade nesse tempo, filho  murmurou por fim.  Quando a gente  
nova!
Artur teve vontade de a abraar! O seu acanhamento reteve-o. Mas estimou-a mais 
desde ento: quase desejava contar-lhe as suas melancolias e as suas ambies; mas 
vendo-a depois,  noite, cabecear com sono sobre a mesa, ou, na sombra do Oratrio, 
enfiando Salve-Rainhas, sentia que a pobre velha no o compreenderia.
Agora, incessantemente, ansiava por algum com quem desabafar! Desejaria ler 
os seus versos, aquecer-se a uma admirao amiga, falar dos seus poetas queridos, de 
entusiasmos, de aspiraes revolucionrias. Mas  casa das tias s vinham os Vascos, e 
a botica era frequentada apenas por um velhote caturra e obsoleto, o Sequeira, e por um 
proprietrio, o Abreu, que todas as tardes, apoiado ao casto da bengala, murmurava 
sombriamente as mesmas palavras: Ento, que h de poltica? As coisas vo mal, as 
coisas vo mal.... Na vila, havia, na verdade, dois moos bacharis, mas Artur no os 
conhecia: eram da Assembleia, das famosas soires das Carneiros, que todos os sbados 
faziam brilhar na praa escura as trs sacadas nobres da sua casa. Muitas vezes, 
passando por l, considerava-as com azedume, pensando como lhe seria fcil cativar ali 
as senhoras, recitando, tendo ditos poticos. Mas excluam-no daquela sociedade 
brilhante a obscuridade das tias e a sua posio subalterna na farmcia; consolava-se 
ento, pensando que seria aquele um mundo burgus, ocupado das intrigas da vila, 
indiferente  arte e incapaz de sentir em concordncia com ele. Mais valia a sua solido 
de alma incompreendida.
Porm, nas noites em que se sentia sem veia, quando odiava os livros  como se 
a sua esterilidade lhe tornasse antiptica a abundncia dos eloquentes  aquele 
isolamento completo amargurava-o como um desterro numa rocha deserta. A nostalgia 
de Coimbra, das cavaqueiras poticas do Cenculo, daquela vida intensa que lhe parecia 
agora sublime, voltava-lhe mais pungente; e vido de poetas e de filsofos, tinha de vir 
sentar-se entre as tias, fazendo as suas meias sonolentas, e o Albuquerquezinho, 
compenetrado, elaborando pacincias ou revistando o lbum das esquadras. Se ao 
menos tivesse uma irm, inteligente e potica! Fazia-o suspirar, cerrar os olhos, a ideia 
de uma mulher de alma romntica, que o amasse, recebesse, reconhecida, a revelao 
das suas sensibilidades e para o acalmar lhe soubesse tocar ao piano melodias de Weber 
ou rias de Mozart!
Foi esta necessidade de convivncia literria que o levou, decerto, a ligar-se com 
um sujeito da vila, apesar de haver entre ambos um contraste radical de temperamento, 
de gostos e de compreenso da vida. Chamavam-lhe em Oliveira de Azemis o 
Rabecaz. Era um homenzarro, de caro audaz e vermelho, fortes bigodes de 
mosqueteiro, muito teso no seu casaco de alamares debruado de astrac; com o seu 
chapu ao lado, a ponta do leno muito de fora, o grande bengalo de cana-da-ndia, 
parecia a Artur  quando o via passar na praa, revirando para as criadas que iam  fonte 
os olhos avermelhados de genebra  um destes mestres de armas, capites a meio soldo, 
azedados e turbulentos, dos romances de Eugnio Sue. Era empregado da 
Administrao e ningum sabia como se achava ali havia dez anos. Porque era de 
Lisboa, amaldioava Oliveira de Azemis; mal sabia redigir uni ofcio e trovejava 
livremente contra os governos. Era um bilharista famoso na vila, grande homem do 
botequim da Corcovada, onde ficava, das quatro da tarde at  meia-noite, carambo-
lando, atirando para as fauces copinhos de genebra e falando com autoridade de poltica 
e de mulheres. Foi ali que se encontraram, uma noite em que Artur, ao passar, se 
refugiara de uma pancada de gua no bilhar quase deserto. O Rabecaz, que batia 
melancolicamente carambolas solitrias, props a Artur uma partida s vinte e cinco.
 Que V. Ex, como frequentou Coimbra, deve ser da confraria do taco.
 Jogo mal.
Mas aceitou, com uma curiosidade daquela figura que tinha em Oliveira um 
relevo pitoresco. E, carambolando, conversaram.
O Rabecaz, imediatamente, injuriou o governo  e a simpatia nasceu de se 
reconhecerem ambos republicanos. No entanto divergiam: Artur queria os Estados 
Unidos da Europa, governados pelos grandes gnios: Vtor Hugo devia presidir  
Frana, Castelar,  Espanha; no haveria exrcitos e os povos federados sentar-se-iam 
fraternalmente em banquetes simblicos, cantando a Marselhesa. Rabecaz exigia um 
Robespierre, um Cromwell, para guilhotinar os fidalgos, confiscar os bens dos 
capitalistas e escavacar os padres!
 Nem bares, nem sotainas!  berrou, brandindo o taco.
 Pelo que vejo  disse Artur  V. Ex  da escola de Proudhon.
 Eu no sou da escola de ningum, meu caro senhor. Eu sou uma fera! Quando 
penso no estado a que chegou este pais, sou uma fera!
Trovejou ento contra o clero:  mas no concordavam tambm sobre questes 
religiosas. Artur entendia que se devia adorar a Natureza, nos campos, diante do Cu, 
templo eterno, e admirava Jesus, filsofo e democrata! Rabecaz no admitia Jesus  
porque, uma de duas, meu caro senhor, ou era um Deus e ento tinha o poder de se no 
deixar matar, ou no era um Deus, e ento no podia ter ressuscitado: porque deixar-se 
matar, para ter o prazer de se fazer ressuscitar, parecia-lhe uma trica poltica, imprpria 
de um ente divino!
E pousando o taco, convidou o Artur a cear. A Corcovada tinha ao fundo, para os 
ntimos, entre a cozinha e a estrebaria, um cubculo com uma mesa de pinho e mochos 
de palhinha. De uma parede pendia o retrato de Pio IX, de mo erguida numa bno; 
defronte, numa litografia colorida, uma odalisca seminua enfiava prolas. Ouvia-se ao 
lado rabujar os netos da Corcovada, estalar na lareira a lenha verde e as mulas dos 
almocreves, puxando a argola das manjedouras, baterem o cho lajeado.
Rabecaz encomendou  Mariquitas, sobrinha da Corcovada, a bela fritada de 
ovos e chourio e dois meios litros reais.
E indicando, com um piscar de olhos, a rapariga sardenta e rolia:
 Boa perna!
Escarrou para o lado, e, instalando-se  mesa, quis saber a opinio de Artur sobre 
o gado.
 Que gado?
 O gado, o femeao...
A expresso brutal escandalizou as delicadezas de Artur e o seu desprezo por 
Rabecaz foi completo quando o ouviu declarar, com o olho lbrico, que o que apreciava 
no gado eram as boas carnes.
 O amigo nunca esteve em Lisboa?
 No  disse Artur.
O Rabecaz deu uma palmada na coxa:
 Ento, meu caro senhor, no sabe o que  gado! No faz ideia do que  um p 
catita!  E com uma punhada na mesa:  Ento, no sabe o que  a pndega!
Falou imediatamente de si. Tinha vivido em Lisboa, ele, com cavalos, com 
cadeira em S. Carlos, com carruagem! Fora um prncipe! No tempo em que Madama 
Ortza era uma beleza e o Marrare um cu aberto! Que batidas para as Portas de Algs! 
Que orgias com a Contadini!
 Comi tudo, mas regalei-me!  disse, dando um puxo ao bigode.
Artur considerava-o agora com interesse, como uma runa romanesca.
 O Sr. Rabecaz ento devia conhecer bem Lisboa...
 Lisboa?
Bebeu um trago real e passando pelos beios as costas da mo cabeluda:
 Meu caro senhor, conheo Lisboa desde o mais alto  e o seu gesto no ar parecia 
designar dossis de tronos  at ao mais baixo! Ao mais baixo!  E agitava a mo sob a 
mesa, como revolvendo lamas.
Rabecaz adquiriu logo para Artur uma autoridade imprevista, por aquela 
experincia to complexa da grande cidade, das suas glrias. dos seus mistrios. 
Naturalmente tinha convivido com escritores, com artistas...
 Grande rapaziada!  exclamou Rabecaz. Conheo-os a todos, de tu! Belos 
pndegos!
Citou nomes. O Jos Estvo! O Garrett! A Sociedade do Delrio! Uma troa real!
Mas voltou com fogo s mulheres:
 No h como Lisboa para se apanhar do bom, do alto! Tudo sedas e veludos!  
E repoltreava-se, retorcendo as guias, significando que se rolara no leito de condessas.  
E as espanholas,  amigo, hem? E as espanholas?
O olho chamejava-lhe. Para ele, no havia como uma rica andaluza, cheia de 
salero e de chique, de cinta de anel, pezinho catita... Oh! menino!
Deu um puxo s calas, bufou de concupiscncia.
 Agora aqui  chupar no dedo!  concluiu sombriamente.  Que choldra de vida! 
At um homem aqui ganha mofo...
 A mim, paralisam-se-me as faculdades...
 E eu estou a perder a tacada...
Estes gostos baixos, as locues incultas de Rabecaz, revelaram a Artur um brutal 
que o dinheiro, a petulncia, tinham misturado casualmente s existncias desordenadas 
das almas ardentes. E, preocupado s do mundo da Arte e da Literatura, interrogou-o 
ainda sobre os teatros, as danarinas. Devia ser uma vida deliciosa nos bastidores... 
ceias com os jornalistas...
 Um delrio, meu caro senhor! De tremer! De vir tudo abaixo!
E Artur entrevia orgias sonoras, o estalar do champanhe, cancs, em que cabelos 
soltos perfumam o ar clido...
 E vive a gente aqui!  suspirou.
 Na estrumeira!  ecoou Rabecaz.
E azedados  ideia das felicidades inacessveis, uniam-se numa simpatia nascente.
A Artur, o que lhe valia eram os livros. Recolhia cedo a casa, tomava o seu Vtor 
Hugo...
Rabecaz arregalou os olhos.
 Vtor Hugo!  rosnou com uma voz cava.
 Um mundo!
Aquela admirao, precisada numa palavra profunda, entusiasmou Artur. E com a 
pupila acesa, os cotovelos na mesa:
 Pois no  verdade? As Contemplaes! Os Miserveis! E Lamartine?
O Rabecaz alargou os braos, como para designar um seio de propores mais que 
humanas e soltou:
 Lamartine? Um mundo!
 O tipo de Elvira, hem? E o tipo divino de Graziela? Mas Alfredo de Musset? 
Oh! Alfredo de Musset!
O Rabecaz reflectiu, com um vinco na testa:
 Desse no estou ao facto... Mas Guizot! Um mundo! De tremer tudo!... Mais 
dois quartilhos, bela Maria...
Eram onze horas quando saram da Corcovada. Ao passar diante da Igreja de S. 
Jos,
Rabecaz, excitado, insultou os padres, disse pilhrias sobre os dogmas.
 Para que serve isto, este covil?  E brandia o bengalo para a fachada da igreja 
negra e muda.
 Deviam ser convertidas em escolas  disse Artur.
O Rabecaz, indiferente  instruo, encolheu os ombros:
 Devia ser tudo arrasado.
Depois, a casa do Carneiro, o rico lojista de panos, coberta de azulejos, com as 
suas trs varandas de sacada, exasperou-o.
 Grandssimo burro! Se ns lhe apanhssemos o dinheiro, hem? Era logo 
comboio para Lisboa, e bater para o Dafundo, com um par de pequenas.
Enterrou as mos nos bolsos e tornou-se sombrio.
A chuva cessara: um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaos azuis 
estrelavam-se.
 Pois tivemos uma bela cavaqueira  disse o Rabecaz, quando Artur parou  
porta de casa.
 Eu gosto de conversar com quem me entenda e c o amigo  dos meus. Aparea 
pela Corcovada. No se passa mal.
E avistando um gato, atirou-lhe uma bengalada. Aquela brutalidade escandalizou 
Artur. Deitou-se, convencido que o Rabecaz era um grosseiro, sem educao literria, 
de uma lubricidade de bode.
Mas vivera em Lisboa, bebera o champanhe das orgias literrias; sobretudo, era 
republicano  e, da a dias, Artur voltou  Corcovada, com o pretexto de pagar a ceia ao 
Rabecaz  realmente para lhe mostrar a sua Ode  Liberdade.
O Rabecaz entusiasmou-se logo, sobretudo quando Artur, afogueado, soltava este 
final da sua estrofe amada:

A hora j soou, a Aurora vem...
Baqueia a realeza!
E j se ouve na cidade alm,
Rugir a Marselhesa!

Rabecaz atirou uma punhada  mesa:
 Caramba! Isso  de artista! Voc o que deve  ir para Lisboa, que em Lisboa 
desbanca-os a todos!
Artur no o duvidava  e essa palavra cimentou a intimidade entre ambos. Aquele 
aplauso tornou-se-lhe ento necessrio. Rabecaz era o seu pblico; julgava-o 
inteligente, de gosto muito certo, desde que ele admirava os seus versos; leu-lhe 
sucessivamente todas as poesias dos Esmaltes e Jias e para o lisonjear nas suas 
antipatias clericais  esprito efeminado, j adulava servilmente os instintos do seu 
pblico  comps uma stira contra os padres, a quem chamava negros serventes de 
um estril dogma. O seu crebro pareceu degelar ao sopro quente daquela admirao 
grosseira; fez sonetos; e o que escrevia agora era sob a preocupao do que diria o 
Rabecaz. E, todavia, era sempre a mesma a frmula critica do Rabecaz; escutava com 
os braos cruzados, nobilitando a sua atitude na presena das rimas: se a poesia era 
lrica e amorosa, tinha um riso mudo que lhe enchia a face de rugas, lhe mostrava a 
dentua negra, e arrastando a voz com deleite:
 Est catita!
Se era uma pea filosfica, arregalava o olho, o nariz alongava-se-lhe, eriava-
se-lhe o bigode e rosnava cavamente:
 Est de arromba!
E terminava por exclamar, com uma palmada no joelho:
 Caramba, Artur, voc deve ir para Lisboa! Voc vai a ministro!
Artur suspirava. A certeza que o Rabecaz lhe dava da celebridade em Lisboa  ele 
que a conhecia to completamente  inflamara-lhe o desejo de l viver e ser uma das 
suas personalidades essenciais. Lisboa era agora a sua necessidade, o seu ideal, a sua 
mania. Pensava que l, na Capital, as suas faculdades se desenvolveriam 
prodigiosamente, como certas plantas raras que s medram em terrenos ricos; a 
encontraria decerto as glrias do corao em amores aristocrticos, e, discutido nos 
folhetins, recitado nos teatros, muito alto na hierarquia das letras, poderia talvez extrair 
uma fortuna dos cofres dos editores!
Tudo o que o cercava e o retinha, a casa das tias, a farmcia do Vasco, lhe parecia 
ento mais odioso; tudo na vila lhe dava uma sensao de obscuridade que o abafava  
as ruas que se lhe afiguravam estreitas como as ideias, as fachadas que eram 
inexpressivas como os rostos; detestava aquela gente que nunca leria os seus versos, e 
que decerto o desprezava: o fiel de feitos que ao meio-dia passava na praa, com o seu 
saco de lustrina cheio de autos e o Carneiro que, de robe-de-chambre, a face prspera e 
farta, fumava o seu charuto  varanda...
E trabalhava num ardor contnuo, forando a imaginao difcil, vido da 
terminao dos Esmaltes e Jias, como se eles fossem o fim de todas as suas 
desesperanas. As tias, o Vasco, achavam-lhe uma cara de desenterrado e as pessoas 
que moravam na praa, olhavam quase com compaixo aquele moo triste, que passava 
de manh e  tarde, de olhos baixos, cabelo muito comprido, encolhido no seu palet 
cor de pinho.
Andava, num desabafo, compondo uma Epstola em quadras, dedicada ao poeta 
que disse:

Eu nunca vi Lisboa e tenho pena...

Artur, sem o conhecer, tratando-o de tu, numa familiaridade de Parnaso, 
comungava na mesma ambio. E nas manhs em que no havia trabalho na farmcia, 
era pelo seu quarto um passear desordenado, declamando:

Tambm eu nunca vi Lisboa, amigo.
Profunda Babilnia junto ao mar!
Oh! que me fosse dado ir l contigo...

E ao lado, do peitoril da janela, estendendo o brao agaloado de oiro, o 
Albuquerquezinho berrava num acesso:
 Ora a barlavento! Cerra os traquetes da gvea! Fogo!
Um sopro de loucura parecia correr naquele andar da casa, enquanto em baixo, na 
sala, as tias faziam a sua meia e o gato branco dormia, numa rstia plida do sol de 
Novembro.
Foi por esse tempo que Artur recebeu do Porto, do seu padrinho, o rico Guedes 
Craveiro, uma carta estranha, em que lamentava, ainda depois de dois anos, a morte 
fatal do meu nunca de mais chorado amigo Manuel Correio, falava misteriosamente 
de um desgosto cruel com que a Providncia o visitara o ms passado e prodigalizava 
frases devotas, pedindo a Artur que o no esquecesse nas suas oraes.
Em ps-escrito, dizia que passaria em Ovar no sbado, em viagem para Lisboa e 
seria uma alegria para o seu corao, poder apertar nos braos e conhecer seu 
estremecido afilhado!
Foi um espanto para Artur. Nunca vira o padrinho Guedes. Lembrava-se que em 
casa, em Ovar, lhe chamavam o carola; mais tarde, durante umas frias, seu pai, 
voltando do Porto, falara dos escndalos que dava nesse momento o Guedes... Era uma 
histria triste: o pobre carola, numa dessas paixes brutais que fazem irrupo, por 
vezes, numa existncia devota, apaixonara-se furiosamente por uma Lola, comparsa de 
zarzuela do Baquet, e teria decerto acabado por casar com ela, se Lola no tivesse j um 
marido, um bandido, que se instalara na quinta do Guedes, lhe bebia o vinho, lhe vestia 
a roupa branca e lhe arrancava dinheiro com ameaas de suicdio. Desde ento, no 
soubera mais do padrinho, o carola, o amante de Lola! O que significaria esta ternura 
inesperada, esse desgosto, tantas declamaes lgubres?
Ricardina decidiu Logo que o menino devia ir  estao de Ovar no char--bancs 
da carreira. Sabina lembrou que Arturzinho lhe levasse um frango frio para o 
homenzinho cear na jornada.
 O homenzinho, menina?  exclamou Ricardina.  O homenzinho? Boa!  
um dos cavalheiros mais ricos do Porto! Tem trens, tem tudo!
E o Rabecaz, informado, concluiu com autoridade:
 Deve ir a Ovar. E fazer-lhe tagats. Se o sujeito tem uma pequena espanhola,  
homem de gosto,  c dos nossos. E oia c, se a pequena vier com ele, no se me faa 
acanhado.  grande cortesia o dizer-lhe: Salero! Viva la gracia! Eu conheo as 
espanholas, gastei disso!



II

Quando o char--bancs parou  porta de casa, de volta da estao, Ricardina, toda 
curiosa, estava no alto da escada:
 Ento?
No, o padrinho no viera.
Foi um assombro para as senhoras. Tinha ele procurado bem no comboio?
 Fui ver at  terceira classe! Nem sinais!
 Viu no poro?  perguntou Albuquerquezinho, interessado.
 Vi no poro, Sr. Almirante. Ningum!
 Jesus!  disse Sabininha  coitadinho, sucedeu-lhe alguma...
 Ai, no me parece bem! No me parece bem!  exclamou a Ricardina.  Depois 
de ter prevenido, de obrigar  jornada e  despesa... um despropsito!
 Serviu-me de passeio  disse Artur, acendendo o seu castial.  E a noite est 
linda.
Galgou os degraus, na impacincia de recordar as sensaes da tarde, de pensar 
naquela figurinha de vestido de xadrez, que j comeava a ser: Ela. Foi logo ao espelho 
olhar-se, como para se certificar de que o seu rosto plido e fino merecia aquela ternura 
curiosa de uma senhora, vivendo em Lisboa, na maior elegncia. Nunca vira numa 
mulher um encanto to cativante. Adorava sobretudo o seu corpo, pequenino, de 
Venuzinha de jaspe, que cabia toda num abrao, podia trazer-se ao colo; todos os seus 
movimentos tinham uma harmonia rtmica; havia no seu seio uma graa virginal, como 
que uma provocao sbia, ingnua e coquete. Mas eram os seus olhos negros que 
acima de tudo o perturbavam; desejaria beij-los, muito tempo, sentindo entre os lbios 
as pestanas arqueadas e fortes.
Certo, porm, da sua simpatia, revelada nos dois olhares que lhe lanara, foi  
Corcovada interrogar o Rabecaz, que talvez a reconhecesse pela descrio que dela lhe 
faria.
Mas quando o viu, de cachimbo na boca, taco ao ombro, veio-lhe um pudor, uma 
repugnncia de falar n'Ela, ali, naquele cheiro ftido de petrleo, sob o hlito de 
genebra do Rabecaz.
 Ento viu-os? Que tal  a pequena?  exclamou logo o outro, brandindo o giz.
 No vi, no vieram  disse Artur.
Quando voltou para casa, fechou-se no quarto e escreveu ao Damio, que ento 
vivia em Lisboa, uma carta em que depois de falar, num lirismo amplo, da tenebrosa 
solido da sua alma, e das suas aspiraes incessantes para um ideal maior, lhe pedia 
que averiguasse quem era a senhora de vestido de xadrez, de quem fazia uma descrio 
minuciosa: queria saber onde morava quais as suas relaes, os seus hbitos, enfim 
faa-me sobre ela um estudo  Balzac. E comeou a esperar a resposta  pensando 
n'Ela. Era um estado de alma muito novo para ele, muito doce.
Sob a influncia permanente da excitao potica, o seu corao fora at a como 
um altar vazio, em que tudo est preparado para a adorao, tocheiros, incenso, flores, e 
a que s falta a santa. A santa viera enfim, bem vestida, aristocrtica. E todas as suas 
ternuras, os seus desejos, as ambies que at ali erravam no vago, como aves inquietas 
fora dos ninhos, acharam um centro, ordenaram-se, pondo perpetuamente em torno 
daquela imagem a sussurrao de um culto.
Idealizava-a, como quem cobre um dolo de camadas de oiro, tornando-a cada dia 
mais digna da sua poesia, extraindo das menores coisas certezas da sua perfeio: o seu 
chapelinho de penas provava a fina originalidade do seu gosto; o livro que levava, 
Lamartine ou Musset, confirmava o requinte da sua inteligncia; a prontido em se 
interessar por ele era a garantia da sua constituio amorosa e das impacincias da sua 
alma ardente.
Mas era apenas um sentimento potico e vago, e, como uma gua isolada e 
perdida que  absorvida ou se evapora, aquele grande amor tendia por vezes a sumir-se; 
retinha-o ento ansiosamente, para manter na sua vida mesquinha um interesse ideal, 
gozar as melancolias felizes daquela ocupao elevada, possuir tambm a sua Beatriz. 
Fazia-lhe versos, tinha com ela longos dilogos imaginados, uma perptua convivncia 
com a sua imagem invocada; e com efeito  como quem acaba por adorar um Deus que 
inventou  no tardou a ter por aquela senhora, entrevista de tarde, num comboio, um 
sentimento real, formado de vaidade, de desejo, da esperana de a encontrar em Lisboa 
e das suas necessidades de insatisfeita ternura.
Um soneto que produzira ento, trabalhado  maneira de Joo de Deus com toques 
de idealismo camoniano, e que era a melhor obra da sua curta carreira potica, dava a 
explicao da sua alma:

A vida, em que os meus anos se passavam,
Era como um terreno abandonado
Que nunca produziu, nem foi arado,
E que as guas do cu nunca molhavam.

Ali jamais abelhas sussurravam,
Nem de ave se escutou meigo trinado:
Um ermo escuro sob um cu nublado,
Onde s duros cardos negrejavam.

Mas tu vieste! Assim, por trs dos montes, 
Se ergue o divino Sol no fresco ar...
E eu senti logo  oh claros horizontes!  

Tudo em minha alma reflorir, brotar, 
Aves cantarem, murmurarem fontes, 
Searas de desejos a ondular!

Enfim, veio a resposta do Damio:

Caro Artur.  A no ser que a Biografia da sua dama vestida de xadrez se 
encontre na Enciclopdia do Sculo XIX do bom P. Larousse, eu no estou habilitado 
a dar-lhe essas informaes  Balzac, que a sua pobre alma reclama. Acho curioso que, 
num assunto to mundano que  quase oficial, se dirija a mim: se a pessoa pertence s 
classes dirigentes e  bisneta de um dos brutos que tinham outrora o nome de 
cavaleiros  por que no escreve directamente ao Monarca? E se  simplesmente uma 
Madalena ou, como diziam os nosso honrados avs do terceiro estado, uma 
barreg  porque tudo  possvel no mundo faceto das baronesas constitucionais  
dirija-se a qualquer das reparties pblicas  onde obter informao abundante e 
pitoresca. Eu, caro poeta, vivo muito longe da sociedade estabelecida: habito estes 
quintos andares das cidades modernas, que so para a Democracia o que foram as 
catacumbas para o Cristianismo...
Tomei devida nota dos seus desesperos romnticos. Acho-os patuscos  ainda que 
inteiramente adequados  tradio lamartiniana. Console-se fazendo um volumezinho 
de versos  j que as circunvolues do seu crebro o levam fatalmente ao verso  no 
sobre as estrelas e os lrios  deve deixar essas parcelas de substncia aos astrnomos 
e aos jardineiros  mas sobre o Homem, que  a verdadeira matria potica moderna. 
E sobretudo venha para c. A capital , no fim de tudo, o nico ponto vivo desta ftida 
lesma morta que se espapa  beira do velho Atlntico, sob o nome desacreditado de 
Portugal. Venha para c  e ter uma chance de encontrar, amar, cantar a sua 
senhora vestida de xadrez, j que um resto do velho esprito teolgico quer que todo o 
Tasso tenha a sua Leonor, e todo o Dante a sua Beatriz: sem que isto seja fazer-lhe a 
injria de o comparar ao Tasso, esse pobre rimador em oitavas dos decretos do 
Conclio de Trento, nem ao Dante, esse sorumbtico panfletrio gibelino. Se vir a besta 
imunda e felpuda, que tem na terra o nome jocoso de Teodsio, advirta-o com 
severidade, de que me levou, entre os livros dele, o meu Darwin, Origem das 
Espcies. Repugna-me saber o grande naturalista entre os brbaros  servindo talvez 
de peanha, sobre uma cmoda de cerejeira, ao busto de Rodrigo da Fonseca 
Magalhes, ou outro qualquer dos idiotas clssicos do Constitucionalismo. Vale, como 
dizia esse odioso burgus, Ccero.

Damio.

Esta carta caiu na sua exaltao como lcool numa fogueira! Todo o seu antigo 
desejo de Lisboa flamejou. Via-se, num relance, l no quinto andar do Damio, essa 
catacumba moderna, palpitando todo nos interesses da Arte e da Democracia, 
compondo em silncio um poema, e saindo, alta noite, para a encontrar, a ela, num 
boudoir de rendas e sedas!
E foi ento, durante semanas, um suspirar quase histrico por Lisboa  agora para 
ele duplamente maravilhosa: um paraso da inteligncia e um paraso da paixo  um 
anelo permanente que o tomava sob as formas mais pueris  a ponto de olhar com 
saudade as nuvens que o vento ia levando para o Sul, para os lados de Lisboa, e de 
invejar o recoveiro que todos os quinze dias vinha receber ordens  farmcia e partia, 
choutando na sua gua, a tomar o comboio em Ovar. s vezes, sentia-se ridculo, ria; 
mas o seu desejo no tardava a pungi-lo de novo com uma persistncia mrbida.
Lisboa!  Concebia a vida que a enchia, violenta e grandiosa, como o mundo da 
Comdia Humana, de Balzac. Era, de resto, pelos romances franceses, que reconstrua a 
sociedade de Lisboa e no tinha uma ideia menos desproporcionada da sua edificao, 
imaginando-a de ruas enormes, sonora de trens e flamejante de gs, assentando a sua 
pompa movimentada sobre a larga baa azul, onde esquadras manobravam e salvavam 
as torres de outros sculos! Mas era sobretudo a existncia nocturna de Lisboa que o 
fascinava: imaginava sentir, nos cafs, entre o oiro dos espelhos, balanar-se a 
sussurrao das conversas literrias; via,  porta dos teatros, apinhar-se uma multido 
sfrega de arte, e em redor, nas praas todas alumiadas, grupos discutirem com subtileza 
a esttica dos poetas e a poltica dos oradores. Depois, parecia-lhe avistar janelas 
embaciadas de restaurantes, onde artistas e cortess celebravam orgias, poticas como 
galas; mais longe, distinguia os balces dos sales aristocrticos, de onde saa uma 
claridade discreta tamizada pela seda das bambinelas: a, idealizava a vida de um mundo 
superior, em que as faces so plidas da emoo contida nos sentimentos romanescos; 
a, diplomatas, cujos sorrisos tinham a frieza da razo de Estado, trocavam ditos  
Talleyrand; a, sentadas em mveis de veludo e cetim, ideais figuras de beleza patrcia 
respiravam ramos de violetas, com olhares onde brilhava, sob um fluido, o ardor dos 
adultrios; a, vivia Ela, a senhora do vestido de xadrez... E em redor, no mistrio da 
vasta cidade, imaginava a existncia das personalidades atormentadas do romance ou do 
teatro  os Rastignacs, pungidos de ambio, os Vautrins, fazendo temerosamente a 
caa aos milhes, os Camors, cpticos, os Giboyers, sublimes e os visionrios, que, num 
quinto andar, planeiam a destruio da sociedade.
Mas nesta fantasmagoria, entusiasmava-o sobretudo o mundo dos jornalistas: era 
um rudo incessante de mquinas de impresso, salas de redaco resplandecentes de 
gs, penas que correm sobre o papel, derrubando ministrios ou edificando glrias, e 
ditos de folhetinistas, que tm a profundidade de uma filosofia, na preciso de um 
aforismo!... Via-se l, revendo provas, lendo o seu nome em cada jornal, fazendo 
civilizao!
s vezes, oprimido por estas imaginaes, ia ao acaso, de noite, pela vila, e 
aquelas ruas apagadas, onde s se sentia um chorar triste de criana nas casas trreas ou 
um som retardado de tamancos, mandava-lhe mais vivamente o pensamento para 
Lisboa, onde, quela hora, os estribos dos trens se desdobravam no peristilo iluminado 
dos teatros, e nas salas as rabecas davam as primeiras arcadas... Imaginava-se ento 
numa soire, j ilustre. Falava baixo, num vo de boudoir acetinado,  senhora do 
vestido de xadrez, que sorria, fanatizada pela doura dos seus conceitos; pediam-lhe 
depois para recitar; ele erguia-se devagar, pensativo; em redor murmurava-se:  o 
Correio,  um gnio! E Levado na iluso, declamava alto, na rua:

Enquanto dormes no div de seda,
Olho-te o mimo desse lindo rosto...
Assim as aves dormem na alameda,
Dormem as guas ao luar de Agosto...

A sua voz fazia estacar, sobressaltado, algum burgus que vinha da Assembleia, 
embrulhado no seu xaile-manta... E Artur recolhia, triste e fatigado como depois de um 
excesso, desejando entrar poeticamente num convento, ou viver em Lisboa com um 
emprego de um conto de ris!
Encontrava em casa o dormente sero em torno da mesa.
 De onde vens, menino? Vens da cavaqueirinha do Vasco?
 No!  exclamava ele, irritado de que lhe suspeitassem qualquer interesse pelas 
palestras da botica.
Toda a face de Ricardina, ento, com o seu longo nariz sobre a mesa, se cobria de 
severidade carrancuda: sabia que o menino frequentava a Corcovada, e a convivncia do 
Rabecaz, o bilhar, o tabaco, pareciam-lhe hbitos funestos que lhe trariam a runa da 
sade e a desconsiderao da vila.
 Nem sei que gosto se possa ter em semelhantes noitadas!  rosnava.
 Chuta!  exclamava Albuquerquezinho, todo aceso com a sua pacincia.
Ento, em torno da mesa, fazia-se uma mudez amiga.
 C est!  exclamava ele em triunfo.   a Imperial. Marque l, Sabininha.
Sabina tomava o caderno das pacincias felizes, fazia um trao a lpis.
 Quantas imperiais, este ms, menina?
 Catorze, Albuquerquezinho.
 Bom ms...
Ela folheava o caderno, muito interessada:
 O ms passado foi melhor. Vinte e quatro... Mas faltam nove dias para acabar o 
ms,  preciso contar com isso.
 Chuta!  fazia Albuquerque, que recomeava a dispor o seu quadriltero de 
cartas.
Artur, muito infeliz, subia para o quarto e ali ficava, desesperando-se contra 
aquela existncia., lanando a sua alma para Lisboa, para Ela  at que sentia no 
corredor a voz de comando de Albuquerquezinho, lanar, ao entrar para bordo, o santo-
e-senha  sentinela.
Enfim, uma noite, foi  Corcovada declarar ao Rabecaz que estava decidido a 
partir para Lisboa. Iria em terceira classe e o Damio decerto l lhe arranjaria um 
emprego na redaco de um jornal ou no servio de um editor. Em ltimo caso, com a 
sua prtica, podia colocar-se numa farmcia.
 Despautrio!  exclamou com mpeto o Rabecaz.
Se ele queria ir para Lisboa era para gozar, no  verdade? Portanto era necessrio 
ter cheta.
Para ir viver num quinto andar, jantar por quatro vintns na taverna do Fumaa ou 
ir para outra botica  ento, mais valia ficar em Oliveira, com a vaca e o cozido das 
senhoras suas tias e a amizade do Vasco... Em Lisboa era necessrio estar sempre a 
levar a mo ao bolso...
 Por exemplo, o amigo est num caf com a rapaziada: arranja-se uma troa ao 
Dafundo, com boas pequenas... E preciso fazer saltar, pelo menos, seus trs ou quatro 
mil-ris, para tipia, pinguinha de Colares, etc...
 Mas no  isso  disse Artur impaciente. Eu no vou para o deboche! E para 
estudar, para trabalhar.
Rabecaz cruzou formidavelmente os braos, berrou do alto da sua experincia:
 Trabalhar! Mas em que quer o senhor trabalhar? Nas redaces est tudo 
atulhado. A maior parte escreve de graa... Fazer vintm pela versalhada, isso at faz rir 
os mortos! E o amigo no sabe fazer mais nada. Eu conheo Lisboa, homem. Se voc 
escrevesse dramas...
 Com um drama, hem?
 Isso sim, isso  melhor que ser director-geral!
Explicou-lhe o sistema de direitos de autor. Ele fazia uma pea ou uma 
magicazinha catita, em cinco actos: em dia de enchente, com o tanto por cento, eram 
cinco ou seis libras na algibeirinha!
 E depois, menino, estando-se de dentro com as actrizes, com as pequenas dos 
coros, apanha-se do bom, e grtis...
 No me tinha lembrado  murmurou Artur impressionado.
 Pois pense nisso  disse Rabecaz muito srio.  E de chupeta!
Foi como a apario de urna luz salvadora! Um drama! O teatro! A ideia atraa-o 
por todos os seus resultados provveis: era a glria directa, mais palpavelmente gozada, 
recebida na face em palmas e bouquets; era a celebridade rpida, penetrando todas as 
classes, ou letradas ou apenas impressionveis; era o dinheiro, cobrado todas as manhs, 
na caixa, a contado!... E Ela viria ver o seu drama; ele diria tu s actrizes, como um 
camarada. O Rabecaz tinha razo  devia escrever para o teatro!
Foi para casa no delrio desta esperana. Mas que escreveria? Urna comdia  
Sardou? Um drama  Hugo? Pensou durante uma semana, sem achar. Entrevia ttulos, 
lances, decoraes; ouvia as rabecas gemerem nos finais dos actos; via-se curvado, 
agradecendo... Sentia as palmas  mas no tinha a ideia!
O seu temperamento atraa-o para o drama histrico em verso, ornado de 
arquitecturas curiosas e de chapus de plumas. Mas que facto, que paixo dramatizaria? 
Conhecia to pouco a histria de Portugal! Empreendera outrora l-la: mas desde as 
primeiras pginas, o estudo das raas iberas, godas, visigodas, galo-romanas, lusitanas, 
todo aquele mundo brbaro e defunto, sem episdios e sem personalidades, enfastiara-o 
prodigiosamente. Desistiu: e todo o passado da sua ptria era para ele como uma vasta 
treva, onde destacava, aqui e alm, num dbil relevo gasto do tempo  Egas Moniz com 
a sua corda ao pescoo, Ins de Castro, morta num trono, um facto vago, que era a 
revoluo de 1640, outro libertino, que era o processo de D. Afonso VI, o marqus de 
Pombal e o terramoto... Mas nenhum destes factos, destes personagens mal entrevistos, 
continha para ele a ideia de um drama!
Decidiu-se pelo moderno. E tendo facilmente encontrado um ttulo  AMORES 
DE POETA  deduziu dele uma aco.
O poeta lvaro  que era ele mesmo, Artur  pobre e sublime, fanatizava e 
possua a linda, a doce duquesa de S. Romualdo  que era Ela, a senhora do vestido de 
xadrez. O duque, um caador obtuso e brutal, com avs at aos visigodos  a que o 
valente Teodsio servira de modelo  insultava o poeta, arremessando-lhe a luva branca 
num sarau de mscaras. Batiam-se de madrugada num cemitrio, depois de um mo-
nlogo, em que,  maneira de Hamlet, lvaro, tomando crnios nas mos, meditava 
sobre a Morte; ferido, o Poeta ia morrer no regao da duquesa, que corria, vestida de 
branco, de entre os renques de ciprestes. O drama passava-se, ora num castelo junto a 
Sintra, ora num vago palcio, nas proximidades da Rua do Ouro! Em torno da aco 
moviam-se numerosos personagens subalternos, uns, fidalgos vis e embrutecidos, 
outros, plebeus invariavelmente nobres e eloquentes. Todo o drama era assim um 
desabafo amoroso e uma propaganda revolucionria; ele sentia-o e parecia-lhe hbil e 
profundo pr na sua obra todos os lirismos da sua paixo por Ela e lanar ao povo, ao 
mesmo tempo, os avantes de uma Marselhesa. Ela choraria, compreenderia quanto um 
ardente peito democrtico ama melhor que um ressequido corao de baro. Por outro 
lado, o grande Damio aprovaria o drama. Servindo o seu amor, serviria a democracia! 
E entusiasmado pela sua ideia, comeou ardentemente a trabalhar.
Foi um perodo muito exaltado, decerto o mais feliz da sua vida. Compunha o 
papel de lvaro de tudo o que sentia em si de mais sentimental, quando pensava n'Ela e 
de mais revoltado, quando pisava linhaa no almofariz da farmcia; deu  duquesa todas 
as graas, todas as dedicaes, encheu-a de reminiscncias de Julietas, de Carlota, de 
Llia, da Dama das Camlias; acumulou no duque o prosasmo, as materialidades que o 
indignavam nos burgueses de Oliveira: um dos seus fidalgos era o Vasco, para quem a 
poesia consistia na habilidade em fazer acrsticos! E pulava pelo quarto, esfregando as 
mos, radioso, quando achava rplicas eloquentes para algum dos seus plebeus. No 
duvidava ento de que o seu drama faria um escndalo social! Relia-o, extasiado; e ia 
olhar-se ao espelho, como admirando na expresso das suas feies o esplendor das 
suas faculdades!
Isolou-se. No apareceu durante muito tempo na Corcovada  onde as tacadas, o 
cheiro do petrleo, as pilhrias libertinas do Rabecaz lhe pareciam odiosas, depois da 
frequentao ideal dos seus personagens e da pompa dos seus dilogos. Da farmcia 
corria para casa, sentindo-se prodigiosamente feliz apenas naquela atmosfera especial 
do quarto, onde lhe parecia errar, como ter, todo o ideal que se exalava das folhas do 
seu manuscrito.
As tias queixavam-se agora do menino, que passava todas as suas horas 
aferrolhado em cima:
 E eu que pensava que nos havia de servir de companhia!  dizia a Ricardina 
com azedume.
 E como se no houvesse um homem em casa. s vezes mandava a Sabina 
acima, escutar no corredor se sentia o menino. Ela voltava desconsolada, dizendo que 
andava aos pulos pelo quarto, falando s.
  como o padre Manuel Fernandes, quando andava a decorar o sermo. Que 
despropsito! Que despropsito!  respondia Ricardina.
E muito chocada, com um caro sombrio, ia picando vivamente a meia com as 
longas agulhas. Parecia-lhes, a ambas, que o menino no tinha amizade  famlia; 
sentiam por instinto que ele procurava nos livros e nos papis distraces melhores do 
que aqueles seres pacatos; e isto aumentava a antiga desconsolao de o verem to 
indiferente aos interesses da casa e da fazenda.
 E como um estranho,  como ter um hspede  dizia Ricardina.
Ele descia sempre tarde para o almoo, tendo velado toda a noite sobre o 
manuscrito.
 Ai! ests hoje amarelo como um desenterrado... Isto at te faz mal... Pois no 
era melhor passares as tuas noites a dormir muito regaladamente...
 Era melhor, era. Mas ento? So gostos dizia ele rindo.
 Moo concentradssimo  afirmou o Vasco, ao domingo, quando o viu abalar 
depois de engolir as torradas.  Na farmcia no d palavra. Mas faz o seu servio com 
inteligncia... Que eu no o perco de olho.
 Macambzio, macambzio  disse Ricardina indignada.
Sabina, essa, achava-o apenas triste.
 Porqu? porqu? No lhe falta nada  respondia Ricardina.  Pois no  
verdade, D. Galateja?  um mono. Ao jantar no se lhe ouve a voz! Depois do ch:  
boa noite e L abala para o buraco...
 Ai, eu no gosto de gente assim  dizia D. Galateia com tdio.
 Mas moo de bem, moo de bem  costumava resumir o Vasco.
Enfim, um dia, Artur terminou a cpia do seu quinto acto e foi um momento 
delicioso, aquele em que escreveu, todo comovido, na primeira pgina branca:

AMORES DE POETA

DRAMA EM CINCO ACTOS

POR

ARTUR CORVELO

Ali estava, acabado!
Mas ento, nos dias seguintes, tomou-o uma lassido, como que a saudade de um 
mundo superior perdido, de gloriosas intimidades para sempre cortadas. Mesmo no seu 
amor pela desconhecida da Estao de Ovar, sentia agora uma
diminuio, como se durante o seu trabalho ela se tivesse pouco a pouco esvado 
da sua alma, naqueles longos fluxos de lirismo. A Lisboa real j no o fascinava tanto. 
Era como uma viso que empalidecia  desde que pintara uma Lisboa dramtica, com 
cores to intensas. Relia a todo o momento o manuscrito, mas as cenas melhores, agora, 
pareciam-lhe frias, e foi sem f que escreveu ao Damio, contando-lhe o enredo, 
pedindo-lhe como um servio, a ele e  Ideia democrtica, que lhe alcanasse a 
representao dos Amores de Poeta, em D. Maria ou no Ginsio. E para ele fazer ideia 
da forma e do estilo, remetia-lhe cpia da grande cena entre lvaro e a Duquesa, num 
parque, em Sintra.
Semanas passaram e a resposta do Damio no veio. Enfastiava-o ento ter ali o 
manuscrito sobre a mesa, sem tirar dele um proveito directo em aplausos ou dinheiro. 
Uma noite, no se conteve: correu  Corcovada com o seu drama debaixo do palet, a 
procurar o Rabecaz.
Instalaram-se no cubculo, com uma garrafa de genebra. s primeiras cenas 
amorosas, lricas como um dueto de pera, o Rabecaz, oscilando a cabea, de olho 
cerrado, murmurou apenas:
 Est catita, est catita.
Mas o insulto no sarau de mscaras, a apstrofe do duque: Quem ousar erguer os 
olhos sequer para a duquesa de S. Romualdo, pode encomendar a mortalha!, o duelo 
no cemitrio, as declamaes da agonia, levantaram o Rabecaz. Atirou um murro  
mesa:
 Com mil diabos! isso  a coisa de mais efeito que tem aparecido em Lisboa! 
Vem a casa abaixo. Irra, que est de arromba!  arranjar empresrio! Parabns, seu 
diabo! Voc tem o diabo no corpo!
Aprovou com furor que Artur tivesse escrito ao Damio.
 Que isso, mal se souber em Lisboa, todos os empresrios  mais a mim, mais a 
mim! Est de arromba! Irra!
Artur, comovido, pagou a ceia. E Rabecaz fez planos tremendos: apenas o amigo 
Artur recebesse a primeira cheta, mandava-lhe um vale do correio e ele ia a Lisboa. E 
ainda tinha amigos em Lisboa, ele, e haviam de lhe oferecer uma coroa! Irra! Que havia 
de aquele Mata vir abaixo, com uma ceia formidvel! Champanhe e pequenas! Irra!
Artur entrou em casa, numa excitao absurda; agora, aquecido por aquela 
admirao do Rabecaz, o seu drama aparecia-lhe com um esplendor imprevisto e no 
duvidava do sucesso. Pediria dinheiro adiantado ao empresrio, iria ele mesmo dirigir 
os ensaios!
quela ideia, o corao batia-lhe, no delrio de uma esperana. Via-se j entrando 
no palco, vestido de preto, muito olhado pelas actrizes; decerto alguma se namoraria 
dele: seria um parntesis carnal no seu grande amor  Petrarca... At que uma noite, 
diante de uma multido imobilizada no santo respeito da Arte, s ltimas arcadas da 
orquestra, erguer-se-ia devagar o pano; Ela l estava num camarote, com diamantes no 
colo nu, e choraria... a doce criatura choraria, vendo o poeta morrer!  Mas no, 
tontinha, eu aqui estou, vivo, amante, cativo! E toda esta glria  como um tapete que te 
estendo, para pousares em cima os pezinhos subtis e breves que te ho-de levar aos 
rendez-vous do divino pecado!  E na plateia, num estridor de ovaes, sob o brilho do 
gs, a cidade aclamava-o! Lenos de renda, pelos camarotes, enxugavam rostos 
mimosos!... Onde se encontraria depois com Ela? Num recanto contemplativo? Na 
frescura das ramagens molhadas, onde os frufrus das asas se misturam ao gotejar das 
nascentes?... E toda a sua vida lhe aparecia assim, ideal e vibrante, com douras de 
gloga e brilhos de triunfo: os Esmaltes e Jias, publicados, tornar-se-iam as estrofes 
amadas das almas ternas; a sua Ode  Liberdade faria empalidecer os conservadores e 
preocuparia o Governo; poderia talvez chegar a uma alta situao no Estado; viveria 
gloriosamente, discutido nos jornais, num primeiro andar de hotel caro, com um robe-
de-chambre de veludo, tendo aos ps um co de S. Bernardo. E aquilo passava-se longe, 
num Lugar que devia ser Lisboa, numa cintilao de apoteose!
Abafava: abriu a janela. Uma esplndida noite de Julho enchia o espao; estrelas 
sem-fim rebrilhavam; os quintais, as hortas, dormiam; daquela natureza estendida em 
baixo, parecia sair a respirao de um ser consciente, adormecido; um cheiro morno 
subia das telhas escaldadas e nas folhagens muito saturadas de sol, no bafo espesso, 
cheio da ardncia do dia trrido, a evaporao dos tanques fazia passar hlitos frescos; 
pelos pomares, ao lado, a gua das regas murmurava na sombra, docemente; errava um 
aroma de clematites e das flores dos feijoais.
 Que bela noite!  disse alto.
Ergueu os olhos, esquecido dos seus desejos, enlevado, para aquele cu rico de 
Vero: era como uma forte poeirada de luz, suspensa e imvel, muito alta no espao, 
com pontos mais grossos que faiscavam numa pulsao febril, outros fixos, num brilho 
de serenidade eterna. Desejou saber o nome de certas estrelas, desejou habit-las, e ia 
seguindo comovido a Via Lctea, que se estendia como uma nvoa luminosa, com tons 
de prata antiga, feita de tomos de sis. Ento, diante daquelas profundidades, 
enterneceu-se religiosamente; sentiu-se muito puro, muito elevado; necessidades de f e 
de sacrifcio passaram-lhe na alma; pensou em Deus, num amor santo e imortal, em 
livros vagos que escreveria, consolando os infelizes, derramando a paz... Foi a hora 
mais nobre da sua vida.
Com que palpitao abriu da a dias, enfim, a resposta do Damio! Eram duas 
laudas da sua letra torcida, que tinha similitudes com o seu estilo. Dizia-lhe que, pela 
descrio da pea lvaro, lrico de profisso, vadio e cheio de chamas ilegtimas, 
lhe parecia inteiramente digno da polcia correccional, a duquesa idem, e todo o drama, 
uma sucursal do Limoeiro. Enquanto  inteno democrtica da obra, afirmava-lhe 
que essa democracia lrica, exalada em suspiros, com melancolias humanitrias  era 
odiosa. No era uma ideia, era uma sensibilidade. Se ele, Damio, chefiasse um dia uma 
ditadura  Robespierre, esse democrata, no o guilhotinaria, para no desonrar o cutelo 
de ao que cortou a cabea a Danton  derre-lo-ia  paulada. Pelo que respeita a 
empresrios  acrescentava  dizem que os h, mas parece que vivem em castelos 
inacessveis de onde fazem fogo, e com razo, sobre os poetas romnticos. Se o amigo 
tivesse uma opereta ou uma farsa em calembures no seria difcil encontrar um teatro 
benigno: mas para fazer representar um drama romntico,  necessrio ser ministro ou 
conselheiro de Estado. Acumulava outras pilhrias, e ajuntava: O Artur tem talento e 
vai por um caminho florido  mas errado. Seja um homem, que diabo! Atire para os 
estrumes de Oliveira esse romantismo-fmea, mrbido e estril. Faa uma obra moderna 
 e leia Proudhon. No lhe escrevo mais, porque o meu vizinho brasileiro comeou 
agora, como todas as noites, a harpejar na guitarra o hino da Carta: a execuo, na 
bandurra, deste trecho vil  corta-me pela raiz a crtica e a prosa. E dizia ainda num P. 
S.: Devolvo a cena que me mandou para apreciar o estilo do drama: francamente, 
parece-me escrito como um libreto de pera: h perodos que precisam urgentemente 
acompanhamento de flautim. Essas florescncias de linguagem (que Shakespeare elevou 
ao sublime, que eram nele a exuberncia de um gnio brbaro desprezando as regras, e 
que so historicamente explicveis noutros poetas mais calmos e mais conscientes da 
Renascena), so hoje de um mau gosto deplorvel e de um ridculo desopilante. Eu sei, 
sim, que  nesse estilo que escrevem os gnios que gingam pelo Chiado... Mas os gnios 
do Chiado tm por misso histrica fazer rir  rir de um riso consolador e sereno: so a 
nossa melhor pilhria, sobretudo quando so tristes, e constituem a nica alegria que um 
Destino inimigo nos mede escassamente, gota a gota: sem eles, Portugal seria o 
legendrio Solar do Tdio. Amigo! lvaros, poetas lricos, duquesas sentimentais, 
cemitrios, interjeies, suspiros ao luar  tudo isso  doentio. Cure-se. A Pennsula 
Ibrica parece que herdou uma nevrose  que em Espanha se tornou em gnio raiado de 
loucura, e em Portugal degenerou em imbecilidade misturada de velhacaria. Junte a isso 
(para Portugal) as influncias hereditrias de uma avaria genrica, e explica muita coisa 
do Pas.  Perdoe as observaes retro sobre a sua literatura: elas tm o doloroso e o 
salutar da cirurgia. Sabe o que lhe aconselho que faa ao seu drama? Como tratamento 
interno, xarope de Gibert! como tratamento externo, cautrio de nitrato de prata. Amigo 
inaltervel, malgr tout.

Damio.

 Pedante!  rugiu Artur, amarrotando a carta com desesperao.  E agora? No 
conhecia ningum mais em Lisboa, e sentia-se como um homem no fundo de uma cova, 
que olha para os altos onde se respira e se vive, sem ver uma corda, uma escada, um 
brao, que se lhe estenda compassivamente! No o magoavam as ironias de Damio. 
Era a inveja! Um pouco tambm o desprezo filosfico que ele sempre tivera, o pedante, 
pela poesia e pelo estilo! Era um terico, enterrado em sistemas abstractos, sem com-
preender a paixo!... O que mais o enfurecia era que Damio, um camarada do 
Cenculo, um democrata, que sabia que aquele drama era para ele o amor, o po, a 
carreira, em lugar de se precipitar por Lisboa, impelindo influncias amigas a abrir-lhe 
as portas de um teatro  se no movesse da sua catacumba, escrevendo com egosmo: 
Empresrios, dizem que os h...
Descreu da amizade, do Cenculo, da Democracia. Nessa noite, na Corcovada, 
com o Rabecaz, foi excessivo: declamou contra os ricos, o Governo, os poetas 
publicados, e, como todo o plebeu obscuro e literrio, tornando a Monarquia, a 
sociedade oficial, culpadas da sua obscuridade e da sua literatura indita, desejou uma 
Revoluo sanguinria... Mas a Democracia, tal como a concebia Damio, to 
secamente positiva, ocupada de Direito, ignorando o sentimento, hostil aos poetas, 
parecia-lhe odiosa.
 No h nada  exclamava com desalento.
 Todo o esforo  intil neste desgraado Pas!
O Rabecaz oscilava a cabea, com os braos soturnamente cruzados; o Governo 
Civil do Porto, por esses dias, recusara-lhe uma gratificao, e o Rabecaz tambm 
atravessava um perodo especial de rancor  sociedade.
 Uma choldra  rosnou  uma choldra!
Artur deu um repelo ao copo de genebra.
Ali estava, por falta de dinheiro, de amizades sociais, encarcerado no anonimato; e 
as coisas fortes sobre que desejaria apoiar-se na vida, e de onde quereria tirar a sua 
prpria fora, tornavam-se-lhe agora inacessveis.
 D-me vontade de queimar tudo o que tenho escrito!
O Rabecaz estendeu com autoridade a mo cabeluda:
 Escute!  disse.
E arrancando, uma a uma, as palavras do peito azedado:
 Escute!... Isto  uma choldra!... Mas eu ainda tenho amigos em Lisboa!... Apesar 
de ter deixado Lisboa h doze anos, caramba, ainda se l sabe quem eu sou!... Eu vou 
escrever ao Melchior, o Melchior da Opinio. O Melchior  catita!...
Artur, plido, pendia-lhe dos lbios espessos, de onde lhe parecia ver correr um 
mel consolador.
 O Melchior, hem?
 O Melchior!  gajo! O Melchior arranja um teatro!
  Rabecaz, voc salva-me!
O Rabecaz atirou de um golpe para as fauces o clice de genebra, deu um ronco, e 
disse com segurana:
 Ainda se tem influncia na rapaziada! Ainda se  gajo!
E ali mesmo colaboraram numa carta ao Melchior da Opinio, em que, aos 
lirismos ditados por Artur, se misturava, como bicho entre flores, o calo do Rabecaz. 
Um fim de perodo dizia:
 este pois o esplndido drama de uma alma de poeta, em que fervem as 
aspiraes sociais mais nobres deste sculo de Democracia... e o Rabecaz seguia... e 
agora no se me faa voc gajo, e bata essa Baixa para arranjar um teatrote que leve a 
coisa e largue a cheta!
Artur, ento, sentiu a esperana voltar-lhe mais viva. Releu os Amores de Poeta, e 
com o seu antigo respeito pelo Damio, apesar de o odiar agora, esbateu o que havia no 
papel de lvaro de excessivamente lrico, introduziu duas cenas de comdia para 
quebrar a uniformidade lgubre, e recomeou os seus sonhos. Mas as semanas passaram 
e no veio resposta do Melchior da Opinio.
  que escreve noutro jornal  dizia o Rabecaz  no lhe chegou a carta  mo. O 
Melchior  catita!...
Escreveu ento a um sobrinho, o Sr. Venncio Guedes, empregado no Ministrio 
do Reino, pedindo-lhe informaes sobre Melchior Cordeiro que eu preciso c para 
umas coisas teatrais. Dizia-lhe ainda que averiguasse se em D. Maria poderiam levar 
uma bela pea chamada Amores de Poeta, obra rica por que eu me responsabilizo...
Da a dias, na Corcovada, Rabecaz, furioso, mostrava a Artur a resposta do 
sobrinho, escrita em papel oficial: No sei onde mora esse Melchior, dizia o Sr. 
Venncio Guedes, ignoro quem seja, e no frequento literatos. Enquanto a teatros e 
empresrios, as minhas ocupaes no me permitem que malbarate o tempo nessas 
pesquisas....
 Que malcriado!  rugiu o Rabecaz.  Um traste a quem eu empreguei! Fui eu 
que o empreguei, quela besta!  onde se encontram as piores vboras,  no nosso 
prprio sangue!...
  a minha sorte  declarou sombriamente Artur.
Atirou os manuscritos com rancor para o fundo do ba e recaiu numa vida inerte. 
Agora que da Literatura no podia tirar a celebridade ou uma posio em Lisboa, 
abandonava os livros.
Pouco a pouco o seu esprito, como uma gua isolada e presa numa baixa, que se 
vai enlodando, morrendo, foi perdendo a transparncia viva que reflectia os azuis e as 
nuvens, e Artur, com uma lassido quase satisfeita, lia agora na farmcia o Almanaque 
de Lembranas. Por vezes uma mulher entrava, estendia a receita, e sentava-se 
esperando; algum labrego, de voz entaramelada, vinha pedir um unguento para uma 
ferida; Artur erguia-se, aviava-os melancolicamente; e quando, num trote cansado, com 
os tirantes lassos, passava na rua o char--bancs da carreira, todos se voltavam numa 
pasmaceira triste.
Todas as noites, regularmente, marchava para a Corcovada. L, comeava a 
encontrar consideraes. Sob a direco do Rabecaz, ia-se tornando um dos bons tacos 
da vila e j os frequentadores, pelos bancos, em roda do bilhar, fumando e cuspilhando 
para o cho, lhe admiravam as carambolas. At a, vendo-o modesto, julgavam-no nulo; 
mas quando ele, aquecido por aquela simpatia ambiente, comeou a parolar, torcendo o 
buo, diante do seu clice de genebra, foi escutado com admirao, e considerado 
rapaz de talento.
  profundote  dizia o Vilela, que, sendo o correspondente da vila para a 
Verdade, jornal do Porto, era uma autoridade na Corcovada.
Artur, pouco a pouco, habituara-se s fisionomias que achava agora menos 
alvares, e s conversas que j lhe pareciam menos caturras; ria mesmo com as graolas 
muito aplaudidas do Joo Valente. Ligou-se com o Vilela; e tornara-se uma 
personalidade eminente do botequim, quando veio a guerra Franco-Prussiana e se 
proclamou a Repblica em Frana. Um sopro herico revolveu subitamente o seu 
romantismo adormecido:  queria ia bater-se pela Frana, como voluntrio de Garibaldi; 
lia de p a proclamao de Vtor Hugo; achava sublime que, diante da fora 
desproporcionada da invaso, Gambetta, com os seus exrcitos destroados, com toda a 
Frana vencida, se refugiasse, para morrer, no antigo campo entrincheirado das Glias...
 Grande talento, grande talento!  rosnava-se em redor, com vozes 
sensibilizadas.
Mas o violento Vilela, muito alemo por patriotismo, berrava:
  bem feito! Abaixo a Frana!  para lhes ensinar a pregarem-nos outra como a 
do Charles et Georges...
Artur, exaltado, falava do messianismo da Frana, dos direitos do homem, dos 
boulevards, de Vtor Hugo; injuriava os Alemes, os brbaros...
 Mas so muito profundos, so muito profundos  gritava o Vilela, batendo o p.
 Qual profundos! a Frana  que  catita!  rugiu o Rabecaz.  Para um bocado 
de canc, no h como a bela francesa.
Todos riam, cada um remexia o seu caf ou dava um sorvo  genebra, e Artur, 
passando as mos pelos cabelos, declarava que, dentro em dois anos, toda a Europa 
seria republicana.
Tornava-se excessivo; e mesmo, quando veio a Comuna, impressionado pelo lado 
dramtico da insurreio, disse-se internacionalista, falou em Proudhon, exaltou o 
operrio.
Uma noite, e acompanhado pelo Rabecaz que achava a Comuna de arromba, 
entoou a Marselhesa. O Vilela pateou, fez alarido; a grossa Corcovada que gostava da 
animao dos fregueses, correu da cozinha, cercada dos pequenos, escancarando a boca 
numa satisfao hlare; e na rua, onde chovia forte, pessoas agachadas sob os guarda-
chuvas, paravam a olhar pela porta envidraada.
 Bela orgia!  disse Rabecaz, ao sair com Artur.  Bela orgia!
O Vasco soube-o  e aconselhou Artur com bondade: no lhe censurava as 
distraces; podia ir ao botequim tomar o seu caf, jogar a sua partida de bilhar; mas 
pr-se com descantes e troas, e falar em repblicas e internacionais!
Isso devia evit-lo  por si, para no perder o bom nome na vila, em respeito s 
senhoras suas tias, e enfim por ele, Vasco, pelos crditos da farmcia...
Artur considerou a sua liberdade de pensamento indignamente violada por esta 
exigncia do patro, e ento, com dio  obtusidade conservadora do Vasco, que 
personificava toda uma sociedade, as suas opinies foram um momento sanguinrias. 
Desejou o comunismo em Oliveira de Azemis; e as senhoras em casa, ao v-lo au-
carar melancolicamente o seu ch, mal imaginavam que, sob aquela testa plida, 
apoiada  mo, rolavam ideias de incndios vingadores e de exterminaes de classes.
Mas estas imaginaes ferozes bem depressa se dissiparam. Por esse tempo, o 
Vilela, por complicaes de demandas e de penhoras, tinha-se achado imprevistamente 
possuidor de um prelo, e viera-lhe a ideia de fundar um jornal em Oliveira. Falou a 
Artur, que flamejou logo num entusiasmo desordenado.
Viu-se imediatamente, do banco da redaco, dominando Oliveira, temido na 
Assembleia, sendo uma fora no distrito, citado em Lisboa. Achou um ttulo: A Nova 
Era; e foram, durante semanas, entre eles, umas conferncias deliciosas sobre o 
formato, o papel, a casa da redaco, a poltica e a literatura do jornal. Artur queria 
publicar os Esmaltes e Jias em folhetins e defender os princpios da Revoluo 
Francesa. Vilela queria deitar abaixo o administrador do concelho. Foi Artur que redigiu 
o prospecto: falava da Humanidade, de Vtor Hugo, da Justia e de Mozart.
O Rabecaz declarou-o de arromba! e Artur pensava j em se despedir da 
farmcia e passar os seus dias na redaco, onde ele queria pr cortinas de repes 
vermelho e um sof.
Mas os prospectos recolheram poucas assinaturas. Dos dois jornais que havia em 
Oliveira, um, chamava-se O Oliveirense, o outro, O Eco de Oliveira, e aquele ttulo A 
Nova Era, considerado muito filosfico, representando interesses humanitrios 
estranhos  localidade, no atraiu a adeso da vila. De facto, a autoridade, assustada, 
conspirava activamente contra a criao da Era: dizia-se que o Sr. Administrador fora 
de loja em loja, pedindo que se no animasse uma oposio facciosa que queria lanar 
ciznia na vila. A Assembleia, hostil ao botequim da
Corcovada, recambiou o prospecto. O Joo Valente, que prometera 
generosamente duzentos mil-ris para as despesas iniciais  exigiu depois fiador e uma 
letra do Vilela, a trs meses. O Vilela, ofendido, injuriou-o na Corcovada. Romperam.
 E a Era morreu, como um facho hmido de sarmento, que depois de fumegar 
um minuto se extingue, sem acender a pilha de lenha sobre-posta.
Foi um desgosto para Artur. Mas ficara muito impressionado por esta ideia de 
influncia local. Lisboa parecia-lhe agora inacessvel; o seu grande amor pela linda 
desconhecida de Ovar, que o atraa para l, sumira-se insensivelmente como gua que a 
areia absorve. Sem proteco, vivendo naquele recanto de provncia, nunca l poderia 
fazer representar os Amores de Poeta. A sua carreira estava limitava  vila e  
farmcia...
Pois bem! por que no aplicaria o seu talento, as suas maneiras, a fazer a 
conquista de Oliveira de Azemis? Os seus dois anos em Coimbra, o nome respeitado 
das tias, habilitavam-no a conhecer o Carneiro, as Guedes; poderia ir-lhes s soires. A, 
estava certo, faria sensao pela sua conversa, pelos seus versos, recitados ao piano; 
lanaria a ideia de uma representao de curiosos. Poderia propor os Amores de 
Poeta; talvez fosse o meio de fazer um casamento rico...
Comeou logo a frequentar a missa das dez, de chapu novo e luvas pretas: 
colocava-se junto ao altar-mor, muito grave, mostrando a sua devoo. Ao fim da missa, 
cumprimentava respeitosamente os cavalheiros do lado, o bacharel Pimenta, o 
administrador. Evitava mesmo passear com o
Rabecaz. Porm, segundo dizia o Vilela, que o admirava e que era o confidente 
destas ambies, para se furar em Oliveira era indispensvel pertencer  Assembleia: 
ele mesmo, cheio de solicitude, se encarregou de sondar o Carneiro, nesse ano 
presidente da direco.
s primeiras palavras, porm, o Carneiro recusou; esgazeou os olhos e exclamou:
 O qu? Ora essa! Se deixarmos entrar o ajudante da farmcia, temos c amanh 
o marcador do bilhar!
 Escute, homem! E o sobrinho das manas Corvelos. So pessoas respeitveis.
 Parente pobre! Tm-no em casa por esmola. Nada de maltas! Nada de maltas!
Scios ricaos, como o Castro e o Boavida, informados da pretenso de Artur, 
tinham mesmo rosnado:
 Ora o garoto!
Um repelo to injustificvel enfureceu Artur, e, na vibrao do desespero, rimou 
um soneto terrvel contra a Assembleia e o Carneiro, de quem exclamava:

Ei-lo repoltreado na janela,
Remexendo os cordes do r-de-chambre,
Tendo na pana a forma da panela,
No nariz o vermelho do fiambre...

E no ltimo terceto declarava que s quisera ir da farmcia  Assembleia:

Munido do meu p insecticida
Para matar, no nojo da minha alma, 
Os percevejos  Castro e Boavida!

O soneto foi furiosamente aplaudido,  noite, na Corcovada, e, na manh seguinte, 
apareceu afixado, em pasquins, em letras colossais,  porta da Assembleia e  esquina 
da casa do Carneiro.
Que celeuma! Scios da Assembleia, aterrados como num perigo pblico, 
cercavam o administrador, reclamando que se pusesse a gente de bem ao abrigo da 
canalha!
S. S, torcendo a pra, afectado, rosnou palavras graves sobre providncias... 
medidas enrgicas.... Na praa havia grupos: dizia-se que o autor era o Artur das 
Corvelos, e tendo-se visto, ao anoitecer, o Carneiro entrar impetuosamente na farmcia, 
gente correu, a espreitar por entre os bocais escarlates, na certeza de que ia haver 
bordoada.
Mas Artur a essa hora triunfava na Corcovada.
Na manh seguinte, porm, ao entrar na botica, encontrou sobre o balco uma 
carta sobrescrita para ele, com a letra de Vasco  que, no seu canto, parecia abismado 
no Comrcio do Porto. A carta dizia:

Sr. Artur!

O digno proprietrio e lojista de panos, o Il.mo Sr. Carneiro, veio a este 
estabelecimento queixar-se de um malvolo e ofensivo soneto, que o senhor, sem 
respeito pela farmcia que goza de antigos crditos, arrojou s faces do digno Sr. 
Carneiro e de outros membros respeitveis da sociedade Oliveirense. E no contente 
com isto, o senhor gaba-se, no aludido soneto, de usar dos produtos deste respeitvel 
estabelecimento, para fins repreensveis e criminosos. Ora pois! Espero que tal facto se 
no repita, para honra desta casa. E em considerao aos seus estudos e ao seu 
comportamento virtuoso at hoje, bem como s suas respeitveis tias a quem no 
desejo dar este golpe, que consinto, por esta vez, em cerrar olhos ao monstruoso delito. 
Mas aqui o aviso solenemente, de que qualquer outra pea lrica, espalhada em 
desabono do nobre proprietrio Carneiro, ou de outro qualquer cavalheiro Oliveirense, 
me obrigar a tomar a severa medida de livrar esta honrada farmcia de um inimigo 
do sossego pblico. Que a minha vontade seja respeitada,  o que exige

O chefe do estabelecimento Farmacutico de 1 classe

Vasco da Conceio Pedroso.

Artur, plido, adiantou-se para ele com a carta aberta  mas o Vasco ergueu-se 
impetuosamente e numa voz sibilante, agitando os braos:
 O que est escrito, est escrito! O que escrevi, escrevi!
Tanta imbecilidade indignou Artur:
 Ento, quero as minhas contas!
 Que contas, senhor, que contas? Contas me deve o senhor a mim, que lhe dei 
uma libra adiantada do ms, e estamos a sete! O senhor foi uma vbora que eu aqueci no 
meu seio... Um homem a quem eu queria como a um filho... Longe da minha vista, 
ingrato! Longe desta botica de bem, serpente!
Artur abalou furioso para casa; muito plido contou, de um flego, a cena com o 
Vasco. As tias ficaram aterradas. Julgavam-se desacreditadas em Oliveira. Ricardina j 
imaginava que, por vingana, o Carneiro, a autoridade, lhes aumentariam as dcimas!
 Ai que desgraa! Ai que desgraa!  exclamava pela sala, com as mos na 
cabea.
Ento, vendo-as chorar to aflitas, o Albuquerquezinho, que desde a vspera 
estava agitado, comeou a baloiar-se sobre as pernas, de punhos fechados, o olho vago, 
murmurando:
 Ol!... ol!
E de repente, largou pelo corredor, galgou os degraus, gritando:
 Ferra o traquete da gvea! Abordagem! Abordagem! Fogo! Poum! Tararar! 
Hei-de ving-las! Ora a barlavento!
Artur, aturdido, saiu, e topou na escada com o Vasco, que galgava os degraus, 
resfolgando furiosamente. Vinha dar s senhoras uma explicao de cavalheiro! Leu-
lhes o soneto. Citou-lhes as palavras comovidas do Carneiro: tenho cinquenta e cinco 
anos honrados, e  a primeira vez que sou insultado publicamente! Declarou Artur um 
perverso:
 E quando eu, na minha bondade, ia perdoar, ia esquecer... rompe contra mim, 
como uma fera...
Ricardina soluava.
 Quer-me matar de desgostos! Quer-me matar de vergonha! Pois que se v, que 
se v, que nos deixe no nosso sossego!
 No foi de mim, minha senhora  dizia o Vasco, comovido  no foi de mim 
que veio o golpe. Foi dele, foi do ingrato... Mas agora  per omnia secula seculorum... 
Que eu tambm tenho o meu brio! Sou Vasco da Conceio Pedroso!...  Olhou para 
uma e para outra, e repetiu com majestade:  Eu tambm tenho o meu brio.
E saiu, muito digno.
O jantar foi lgubre. At ao cozido, Ricardina no tirou de cima do prato o caro 
repreensivo. Sabina, muito plida na sua touca negra, parecia mais pequenina, encolhida 
na cadeira, limpando a furto os olhos vermelhos.
E o Albuquerquezinho, sossegado agora, de guardanapo ao pescoo, devorava: de 
vez em quando, pousava o talher, piscava o olho para Artur:
 Boa batalha! Meti-lhe dois balzios no costado!... Mau pirata! Mau pirata!
Mas Sabina, muito triste, tinha recusado o arroz. E Ricardina, muito seca:
 Ai, no come, mana Sabina? No vale a pena ningum afligir-se por quem no o 
merece...
Artur, furioso, deu um repelo ao prato, levantou-se, foi fechar-se no quarto. Mas 
logo um som de dedos bateu na porta timidamente. Era a tia Sabina: vinha fazer-lhe 
companhia, vinha consol-lo... A tia Ricardina tinha aquele gnio, mas passava-lhe: era 
tudo pena de lhe ver perder o emprego... Que elas no eram ricas! Mal sabia ele o que 
lhes custava a viver!... Ai! devia ir pedir desculpa ao Vasco!
 Antes estourar!... Antes morrer de fome!
Rebuscou furiosamente na algibeira, mostrou  tia um punhado de cobre:
 Olhe,  tudo o que tenho neste mundo! Sete vintns. No me importa! Estou 
farto de sofrer! Acabou-se...
 Jesus, menino, o orgulho  que perde os homens!
Mas que queria ele agora fazer?
 Eu verei, tia Sabina, eu verei  disse ele, passeando pelo quarto, mordendo os 
beios, com duas grossas lgrimas nas plpebras.
Lembrou-se ento do padrinho e resolveu escrever-lhe, pedindo-lhe um emprego, 
qualquer colocao... Se nada conseguisse, fazia-se soldado, ia trabalhar de enxada!
E  noite foi  Corcovada, desabafar com o Rabecaz.
Mas o Rabecaz, a quem o administrador censurara nessa manh severamente as 
suas relaes com o poeta, afectou um interesse absorvente pela partida que jogava com 
o marcador, e fez-lhe apenas, com dois dedos, um aceno seco. O Joo Valente abismou 
a face entre as mos, com o nariz sobre o Comrcio do Porto. Pelas mesas estavam 
outros frequentadores e Artur sentiu logo, nas boas-noites muito secas, nas faces reser-
vadas, uma hostilidade ambiente. O Vilela, por fim, disse-lhe, embaraado:
 Homem, isto  o diabo... A coisa fez barulho de mais! Sempre foi insultar as 
pessoas principais da vila. Voc compreende... numa terra pequena... todos temos as 
nossas relaes, as nossas dependncias... Veja voc, l perdeu o arranjo na botica... 
Que tolice!... Deve ver se se torna a pr de bem com todo o mundo.  necessrio nesta 
vida um bocado de sevandijismo...
E enterrando as mos nos bolsos, foi examinar, de pernas abertas, o jogo do 
Rabecaz.
Artur empalideceu. O botequim renegava-o! Saiu, atirando com a porta  e andou 
pelas ruas, furioso, at tarde, planeando coisas vagas que faria para mostrar o seu gnio, 
vingar-se, humilhar Oliveira. Derreado, entrou no seu quarto, pensando no suicdio.
A porta, ento, rangeu devagarinho. Era a tia Sabina, de saiote pelos ombros, que 
vinha trazer-lhe um pires de marmelada e po, porque o vira comer to pouco ao jantar.
Aquela bondade comoveu-o e desatou a chorar irreprimivelmente. A velha 
apertou-o nos braos, beijou-lhe o cabelo, calada. E tirando de uma algibeira um 
embrulho de papel, com placas de cinco tostes:
  para as tuas despesas, meu filho, agora que no tens outra coisa. So as 
minhas economias... So trs mil e quinhentos... Era para te comprar pano para camisas 
 para ti era...

Da a duas semanas, um domingo, Artur, voltando cedo do correio, entrou na 
Corcovada. Escrevera ao padrinho uma carta imploradora e desolada; a resposta 
tardava, e agora, quase todas as manhs, depois do velho carteiro passar pela praa, 
coxeando, ele punha o chapu e l marchava, a perguntar ao Gomes do correio se por 
acaso no houvera engano, se no teria vindo uma carta que ele esperava.
 No lha levaram a casa, no?  resmungava o Gomes, puxando os culos para a 
testa.
 Ento?...
O botequim, quela hora, estava deserto. Uma faixa de sol tpido de Novembro 
atravessava a saleta, fazendo parecer mais triste o soalho enegrecido, o papel de 
ramagens azuis riscado de fsforos, a cortina de paninho vermelho sobre a porta 
envidraada da cozinha. Um dos pequenos rabujava, e o mestre da filarmnica, que 
morava por cima, ensaiava-se no clarinete. Artur ficou um momento a fazer no bilhar 
carambolas melanclicas, depois, a olhar para o Joo barbeiro, que, defronte, na sua 
porta, sob a bacia lustrosa de lato, esperava os fregueses com o pente espetado na 
grenha. Por fim, veio sentar-se defronte do Jornal do Comrcio, com a cabea entre os 
punhos. Uma local atraiu-o casualmente: era a longa descrio de uma soire, em 
Lisboa... Logo interessado, devorou-a. Falava-se da esplndida decorao da sala de 
baile, das toilettes, das jias  s duas horas tinha-se aberto um delicioso bufete; o 
amvel secretrio da Embaixada de Espanha dirigira o cotillon com o seu costumado 
entram; e depois, era um desfilar de convidados, condes, dons, deputados, conselheiros, 
diplomatas, e o poeta aplaudido dos Idlios e Devaneios...
Uma tristeza invadiu-o. E relia a local, demorando-se em certas frases, vendo 
atravs delas  a uma luz vaga, que vinha, em parte, da cintilao dos lustres, em parte, 
do raio plido do sol que atravessava o botequim  a sala com dourados, nudezes de 
colos, de peitilhos lustrosos das camisas, as casacas negras, e os dois olhos tristes que se 
tinham fixado nele na estao de Ovar, brilhando agora mais alegres... Ela decerto l 
estaria...
E, subitamente, o antigo amor reapareceu, enternecendo todo o seu ser: era como 
numa noite escura um erguer de Lua grave e triste.
E ali ficou muito tempo, com os cotovelos sobre a mesa suja, pensando nela; mas 
no distinguia j bem as suas feies: pareciam perder-se, dissipar-se no luxo que a 
cercava, na msica da soire, nas luzes, em tudo o que ele prprio desejava: as ruas de 
Lisboa, as plateias dos teatros, as redaces dos jornais; isso mesmo se esbatia em 
longes muito vagos, e luzia a uma distncia que lhe era inacessvel, rolando num rumor 
de trens ricos, de peras, de beijos adlteros e de poemas aplaudidos... Suspirou, muito 
triste, e levantando a cabea, viu defronte, pela porta aberta do Joo barbeiro, um 
fregus que esperava de pescoo inclinado, a toalha ao pescoo, os queixos brancos de 
sabo.
Saiu, foi andando para casa. Ia pensando no poeta dos Idlios e Devaneios. Os 
seus versos pareciam-lhe bem banaiscomo a sua fisionomia, que ele conhecia de 
retratos  o cabelo apartado ao meio, o grande pince-nez sobre o nariz grosso: e estava 
na soire, apertava a mo dos embaixadores e os jornais festejavam o seu dia de anos!
Com algumas poesias medocres, impusera-se  Sociedade! E isto aparecia-lhe 
como o resultado de enredos subtis, de influncias femininas  porque a Sociedade, que 
s conhecia atravs dos romances, afigurava-se-lhe, como o mundo de Balzac, 
governada pelos caprichos da Beleza e pelo gnio dos Intrigantes. Acreditava na 
influncia que pode ter, numa existncia, o aperto de mo de um duque, e, como no caso 
de Vautrin, a proteco secreta de um forado. A Fortuna era a presa dos fortes  e 
ento, naquela hora de resolues grandiosas, que atravessam todas as almas dbeis  
decidiu violentamente ser ele tambm um forte, sacudir aquelas sentimentalidades 
estreis em que se gastava, demolir os obstculos com o mpeto de um Alcides, 
apoderar-se  fora da Celebridade, de um lugar na Civilizao e de um sof no boudoir 
d'Ela. At a, o seu desejo carpira  agora, ia lutar... E trilhava a rua, levado por estes 
mpetos, a grandes passadas, como se fosse apoderar-se do mundo. O char--bancs, que 
batia a galope para a estao de Ovar, obrigou-o a refugiar-se num portal: teve um 
momento a tentao de se atirar para dentro, ir tomar o comboio para Lisboa, comear a 
batalha  mas tinha na algibeira trs tostes! E a esta picada mesquinha da realidade, 
aquela amplificao da vontade, engelhou-se-lhe subitamente, como um balo furado.
Quando entrou em casa, a Joana correu da cozinha, dizendo que o Sr. Coutinho, o 
tabelio. tinha vindo para lhe falar, e depois mandara uma carta pelo criado... Estava em 
cima da mesa.
Artur, surpreendido, correu  sala, abriu viva-mente a carta:

Il.mo Senhor.

O meu colega, correspondente do Porto, o Sr. Fernandes Gouveia, da Rua do 
Loureiro, encarrega-me da dolorosa misso de lhe participar que seu honrado 
padrinho, Sr. Guedes Craveiro, faleceu no dia 25 do corrente, pelas cinco horas da 
manh  e ao mesmo tempo da grata incumbncia de lhe anunciar que por codicilo ao 
seu testamento de 18 de Abril do corrente ano, lhe lega...

 Oh! Santo Deus!

...lhe lega, para completar a sua educao, como melhor entender, a quantia de dois 
contos de reis...

Tremia todo, gritou para a porta:
 Joana! Joana!
A velha acudiu, assustada.
 O padrinho deixa-me um dinheiro! Dois contos!!
 Oh! meu menino, oh! meu menino! Ai! E as senhoras que esto na missa. Vou 
cham-las! Vou a correr...
Mas elas nesse momento entravam.
Ricardina, no ptio, ralhava com o moo da quinta.
Artur correu ao alto da escada, de braos no ar.
 Tia Sabina! Tia Sabina, o padrinho deixou-me um dinheiro! Dois contos!
 Foram as minhas oraes!  exclamou a velha agarrando-se ao corrimo, quase 
desmaiada.  Oh! meu filho! Oh! meu filho!...
 Que ests tu a dizer?  gritava Ricardina aos tropees pela escada.
Entraram na sala, a Joana atrs, e quando Artur lhes acabou de ler a carta, em que 
o tabelio dizia que o legado se compunha de dois contos, depositados no Banco de 
Portugal  e que, no dia seguinte, ele receberia uma ordem sobre O Sr. Carneiro, lojista 
de panos, para receber,  vista, quinhentos mil-ris, oiro ou papel, para as primeiras 
despesas do luto  as trs senhoras e a criada, muito trmulas, romperam a chorar!
 Oh! caramba! oh! caramba!!  dizia Artur, andando pela sala, com todo o 
sangue na face, tropeando contra os mveis. E pensava com uma alegria tumultuosa no 
insulto que faria ao Vasco, que presente daria s tias, por que comboio partiria para 
Lisboa. J se l via, assistindo aos ensaios do seu drama, encontrando a senhora do 
vestido de xadrez...
 Vou a casa do Coutinho  exclamou de repente  vou ver como  isso da ordem 
de amanh!
 Almoa primeiro, menino  disse Ricardina.
Mas ele, sem a escutar, abalara. Ricardina, ento, ps os culos, releu a carta, 
baixo, impressionada com aquelas palavras, ordem  vista, depsito no Banco, 
tomada inesperadamente de um novo respeito pelo menino.
 O Artur agora h-de querer voltar para Coimbra  disse por fim a Sabininha, 
que, sentada  beira da cadeira, com o seu mantelete de seda bordado a vidrilhos e o 
livro de missa no regao, ainda limpava uma ou outra lgrima.
 Para Coimbra, credo!  exclamou Ricardina  um rapago de vinte e cinco anos! 
J no est para mestres... O que deve fazer  tomar a farmcia ao Vasco... que ele est 
morto por a passar!  E depois de um momento:  Pois olhem, at se me embrulhou o 
estmago. Uma coisa assim de repente... E a mana no se fique agora com as suas 
lamrias... e v acender outra lamparina no oratrio, ande, que se deve o agradecimento 
ao Senhor...
Artur no encontrara o Coutinho: tinha ido para a fazenda. Quando atravessava a 
praa, saa-se da missa das onze. Ento, lembrou-se de Deus  e na humildade do seu 
reconhecimento, murmurou ali mesmo um Padre-Nosso. O Rabecaz, que apesar do seu 
atesmo frequentava a missa, para no ofender as opinies catlicas do Sr. 
Administrador, apareceu, majestoso, no seu casaco dos domingos, calando as luvas 
pretas. Artur correu para ele numa nsia de desabafar, e com um riso nervoso:
 O padrinho morreu, deixou-me um dinheiro!
 Com mil diabos!
  verdade,  verdade  disse Artur com os olhos hmidos, esfregando 
parvamente as mos.
 Dois contos de ris!
 E ento? Agora para Lisboa?
 Pudera!  exclamou Artur com fervor.
 Ladro!
Travou-lhe do brao com paixo, trouxe-o a casa  fazendo logo o plano de se ir 
encontrar com ele em Lisboa, na Primavera. Viveriam ambos juntos, e com a cheta em 
comum, havia de vir Lisboa abaixo.
Artur ressentia-se daquela participao que o Rabecaz se arrogava na sua fortuna; 
disse muito srio:
 Eu vou passar uma vida retirada... trabalhar...
O Rabecaz bateu firmemente com a bengala no lajedo:
 No me venha com essas pieguices. Mande a literatura ao diabo. Isso  bom 
para os pelintras. Voc agora tem cheta,  gozar,  refocilar... E a primeira coisa que 
voc h-de fazer,  mandar-me uma boquilha de espuma...
Ao almoo, a tia Ricardina discutiu o emprego do dinheiro do menino. Tinha 
agora a sua fortuna certa. O Vasco queria passar a farmcia, e, com aquele dinheiro...
Artur, indignado, pulou na cadeira:
 Ora essa! comprar a farmcia! Enterrar-me em Oliveira!  E declarou, dando 
uma punhada na mesa, que ao outro dia partia para Lisboa.
As velhas estavam assustadas da estridncia da sua voz, da insensatez das suas 
resolues.
 Tu endoideceste, menino?
 Endoidecia se aqui ficasse!
E numa exaltao, pela sala, falou do seu talento, das altas posies que do as 
letras, da influncia da Imprensa, de uma cadeira em S. Bento e da posteridade.
 Mas nunca hs-de ser um Nlson  exclamou o Albuquerquezinho, fixando-o.
 Mas posso vir a ser Ministro da Marinha, Sr. Almirante  disse Artur muito 
srio.
De tarde, espalhara-se na vila a notcia da herana: uns diziam vinte contos, outros 
cem; alguns afirmavam que ia haver demanda. O Vasco veio  noite, comovido, com D. 
Galateia, para abraar o herdeiro. Mas, a essa hora, Artur estava na Corcovada, 
instalado diante dos licores do estabelecimento, com uma caixa de charutos ao lado; e o 
Rabecaz, a cada fregus que aparecia, exclamava mostrando Artur, com um largo gesto 
 Ecce Homo:
 Ei-lo! Est milionrio!
E s interrogaes ansiosas, respondia vagamente, agitando as mos:
 Um fortuno! De vir tudo abaixo... Vai bater carruagem em Lisboa. E eu estou 
aqui, estou l cado!
Artur voltou para casa tarde, pesado de genebra. A tia Sabina veio-lhe em pontas 
de ps ao quarto, falar ainda na farmcia. O Vasco dissera-lhe que a cedia barata, com 
pagamento a trs meses. Depois, elas estavam to velhas... no tinham mais ningum no 
mundo... Era necessrio um homem na casa...
 Por coisa nenhuma fico aqui vinte e quatro horas mais, tia Sabina... E intil. 
Irra!
Sabina desceu a chorar. Parecia-lhe que o menino estava embriagado. E diante do 
leito de Ricardina, j deitada, ia murmurando muito infeliz:
 O maldito dinheiro! O maldito dinheiro! Ao outro dia, Artur entrava na loja do 
Carneiro com a letra, muito inquieto, no receio de que, por vingana, o lojista fizesse 
dificuldades...
 Sei ao que vem, recebi o aviso  disse secamente o Carneiro.  Oiro ou notas?
Ento, num reconhecimento, Artur balbuciou:
 Ambas as coisas... Eu realmente, Sr. Carneiro, tenho a pedir-lhe desculpa... foi 
uma rapaziada...
quele cavalheirismo da parte de um herdeiro, de um capitalista, o Carneiro 
enterneceu-se e estendendo-lhe as mos ambas numa efuso:
 O que l vai, l vai... No me fez dano. Os meus parabns. E gozar! E gozar!
Fez-lhe recontar as notas, verificou o peso das libras.  vista daquela fortuna ali 
amontoada, cintilando sobre o balco, Artur reprimia uma vontade de rir nervosa, e, 
quando saiu, abotoando com amor o casaco sobre o dinheiro, sentiu o mundo a seus ps.
As tias, quando ele estendeu sobre a mesa o dinheiro para lho guardarem, ficaram 
aterradas. O qu! Pois ele queria levar para Lisboa aquela riqueza? At lhes parecia 
pecado, e olhavam o oiro, o papel, com pavor, pensando que ia ser devorado na 
Babilnia, como se vissem reluzir nas libras olhos de sereias e nas notas negrejarem 
programas de bacanais. E no o queriam guardar! No queriam responsabilidades...
 Oh, tia, mas eu no hei-de andar com esse dinheiro na algibeira. O meu ba tem 
a fechadura quebrada. Vou at comprar uma mala.
Por fim, elas cederam, e fecharam o tesouro no gaveto da cmoda que servia de 
altar, no oratrio, pondo-o sob a proteco vigilante dos santos amados.
Nessa noite, por despedida, Artur ceou com Rabecaz, que tinha preparado uma 
carta de recomendao para o pndego do Melchior.
 O amigo indaga onde ele vive, entrega-lhe a carta, e ele h-de faz-lo gozar! 
Onde conta o amigo hospedar-se?
Artur tencionava ir viver com Damio. Afinal era o nico amigo que tinha em 
Lisboa. Alm disso, um Damio, um gnio, devia estar relacionado na literatura, na 
imprensa... e, enfim, ele queria sobretudo viver no meio intelectual...
O Rabecaz oscilava a cabea, desaprovando:
 Ferre-se num bom hotel, ferre-se no Universal, no Chiado. Tem as cantoras  
mo... Bela mesa redonda... tudo do fino, tudo do catita. V com o que lhe digo, ferre-se 
no Universal.
Mas Artur, nos primeiros tempos, no queria afrontar o luxo desproporcionado de 
um hotel no Chiado. Mais tarde, sim, quando tivesse feito fato, roupa branca...
 Ento, ferre-se no Espanhol, na Rua da Prata. Tem boa pndega tambm... V 
para o Espanhol.
E at  porta de casa, foi-lhe fazendo recomendaes: que visse Sintra, que fosse 
ao Joo da Mouraria, para gozar o verdadeiro fadinho, que no deixasse de ir s 
espanholas. E que lhe escrevesse!
Artur, pesado da ceia, escutava-o vagamente, de mos nos bolsos, charuto caro 
nos dentes, e, no fundo escuro da noite, parecia-lhe ver a sua vida em Lisboa erguer-se, 
muito alta, como um trofu muito ornado, onde, de cima a baixo, felicidades vagas e 
deliciosas cintilassem.
Quando bateu  porta, ficou surpreendido de ouvir uma voz grave que no 
conhecia, perguntar com desconfiana:
 Quem ?
Houve um rudo de trancas, de ferrolho corrido, e o forte porto abriu-se devagar. 
Um rapazote, de espingarda aperrada, esperava no meio do ptio, e a tia Sabina, de 
saiote pelos ombros, alumiava do patamar. Com tanto dinheiro em casa, no tinham 
querido ficar ss. O Vasco aprovara, e tinham mandado vir da quinta o moo com a 
espingarda.
No dia seguinte, a despedida foi triste. Desde manh, Sabina chorava pela casa. 
Ricardina, para disfarar a sua desconsolao, ralhava, muito nervosa. At o 
Albuquerquezinho parecia impressionado: toda a manh passeara pela sala de jantar, de 
testa franzida, as mos atrs das costas, rosnando:
 Ingrato... ingrato! Mau pirata, mau pirata!
O dia estava escuro e ventoso. Ao lado, na igreja, tocava a finados pela mulher do 
Dr. Marques, e aquele negrume de Inverno, o dobre do sino, pareciam aumentar a 
melancolia da separao.
Artur, comovido, repetia a cada momento que era s por dois meses:
 Mal comece o calor da Primavera, c estou de volta.
E era sincero, tomado de uma saudade por aquelas afeies simples que deixava, 
pelo seu quarto, que durante esses longos anos ele povoara de sonhos e de imaginaes 
queridas.
s duas horas, o moo do char--bancs veio buscar o ba e Rabecaz apareceu. Ia 
acompanhar Artur  estao, e conservava-se  porta da sala, de chapu na mo, erecto, 
muito digno na presena das senhoras.
 Adeus, tias, adeus!
Ento, num romper de soluos, Artur foi dos braos de Ricardina para os de 
Sabina.
 E por pouco tempo,  por pouco tempo balbuciava.
 E vai bem recomendado, excelentssimas senhoras  disse Rabecaz, curvando-
se.
E Artur saiu com os olhos arrasados de lgrimas.
No ptio, encontrou o Albuquerquezinho, de braos abertos:
 Boa viagem, Arturzinho. Fique descansado, eu c vigiarei. H-de haver ordem a 
bordo!
No meio da estrada, um tirante que se quebrou atrasou o carro. Um vento triste 
gemia entre os pinheirais; j comeava a cair gotas de chuva. Artur ia calado, ainda 
comovido, e o Rabecaz fumava sombriamente, com a chapeleira de Artur entre os 
joelhos.
Mas  vista da estao, da mquina que j soprava, voltada para Lisboa, uma 
alegria tumultuosa invadiu Artur: j no vago, ria, de nervoso, sentindo a moleza do 
assento, estofado de casimira suja, ceder confortavelmente, como um antegozo da vida 
em que se ia instalar agora.  portinhola, Rabecaz continuava os seus conselhos: que 
fosse s espanholas! Que gozasse!
E de vez em quando, contemplava-o com amargura:
 Seu felizo!  rosnava.
A locomotiva silvou  o comboio rolou.
 No se esquea da boquilha!  gritou-lhe ainda o Rabecaz.



III

No Entroncamento, depois de cear, Artur embrulhou regaladamente os joelhos na 
manta e acendeu o seu charuto com uma felicidade imensa.
O comboio de Madrid, atrasado, acabava de chegar: o trem ia partir. Fora, chovia, 
ventava forte, e Artur seguia com os olhos uma lanterna avermelhada que errava, do 
lado dos rails, na noite tenebrosa, quando a porta se abriu vivamente, e um sujeito 
esbaforido apareceu, atirando para o assento uma maleta envernizada, um rolo de 
plaids, outro de bengalinhas, um cesto atado com fitas de seda azul e uma almofada de 
folhos. Vinha abafado numa pelia, e a alta gola erguida, o gorro de peles sobre os 
olhos, apenas deixavam ver uma face rosada e nutrida e uma bela barba aloirada.
Artur sup-lo logo estrangeiro  mas o indivduo, depois de se instalar, 
cumprimentou cortesmente, dizendo:
 Que terrvel noite!
 Terrvel  concordou Artur.
Julgou-o ento um diplomata, vindo de Madrid ou de Paris. Examinava-lhe a rica 
pelia, a charuteira com uma coroa de prata em relevo, de onde escolhia um breva, as 
luvas muito grossas, de uma pele spera e branca, e pensava, fascinado, que aquela 
figura digna atravessara sales reais, roara personagens histricos.
 Para Lisboa, creio eu?  perguntou-lhe o sujeito.
 Sim, vou para Lisboa  disse Artur.
 Que tal S. Carlos este ano?
Artur cuspilhou uma pelcula de tabaco e corando um pouco:
 Este ano?... Este ano, muito bom.
 Valha-nos isso  disse o indivduo.
E ficou imvel, com as plpebras cerradas, fumando com beatitude.
Artur receou logo outras perguntas sobre Lisboa, famlias fidalgas, msicos, e no 
querendo revelar ignorncia plebeia, ia afectar uma sonolncia fatigada, repoltreando-se 
no seu canto  quando viu o sujeito desapertar as fitas do cesto e tirar para o regao um 
cozinho amarelo, que lhe pareceu semelhante a um sapo, de focinho negro e achatado, 
vincado de duas rugas velhas, e olhos redondos e estpidos.
 Tem tido uma jornada trabalhosa  disse o sujeito.
 Tem vindo no cesto?
 Desde Paris, pobre John!
Levou-o aos lbios como uma coisa preciosa e santa, e deu-lhe sobre o ventre 
macio e liso beijinhos chilreados. Chamou-lhe ainda prola, anjo. Acalentou-o sob a 
pelia, contra o corao. E exclamava, compenetrado, para Artur:
  um amor!  E depois de uma fumaa:
  para a Sr Marquesa de Folhes... Conhece talvez?
Artur disse baixo:
 Sim...
 Ah, conhece?  exclamou o indivduo, com a face clareada de riso.
Inquieto, Artur acudiu:
 De nome!
 Ah!... Excelente senhora.
Acomodou maternalmente John no cesto, sobre o seu leito de algodo, e estirando 
discretamente os braos, declarou que o que tinham a fazer era dormir at Lisboa. S. Ex 
dava licena que corresse o transparente da lmpada, no? Perfeitamente. Arranjou o 
travesseiro, estirou-se com um ah de gozo, cruzou as mos sobre a pelia, e cantarolou 
com melancolia, como uma orao da noite:

Si tu n'avais rien  me dire
Pourquoi venir auprs de moi?...

Bocejou enormemente, e da a pouco, ressonava com dignidade.
Artur, fatigado, foi cerrando os olhos, no seu canto, na penumbra do vago... 
Parecia-lhe estar numa sala, toda de oiro e veludo, onde a Sr Marquesa de Folhes 
conversava com a tia Sabina, falando dele... mas no as ouvia bem por causa de um 
estrondo de ferragens que rolavam surdamente. De repente, fazia-se um silncio e 
acordava: luzes mortias, ao lado, alumiavam uma estao; vultos abafados, fora, na 
noite, passavam com lanternas. Chovia sempre; havia um silncio infinito na negrura 
dos campos adormecidos, e adiante, na sombra, sem descontinuar, a mquina resfolgava 
baixo. Depois o comboio rolava de novo, e o seu sonho retomava-o atravs de uma 
sensao de frialdade nos ps: reconhecia que era uru lago muito azul, batido de luar; o 
Rabecaz e ele remavam num bote, com o Almirante ao leme. Ento, junto dele, na 
escurido, uma voz de timbre andaluz suspirava o seu nome; voltava-se, via dois olhos 
rabes, cintilando sob uma mantilha espanhola: ia beij-los, mas a mantilha, 
escorregando, descobria uma caveira! Acordou com um estremeo... Uma voz ia 
dizendo ao comprido do comboio parado:
 Alhandra! Alhandra!
Um ar lvido de madrugada clareava atravs da neblina chuvosa. Saloios de 
varapaus, encolhidos nas mantas listradas, passavam; na plataforma, descarregavam-se 
caixotes; um comboio de mercadorias rolou ao lado, com vages carregados de pipas, e 
outros, gradeados, de onde saam cornos de bois. Depois, um criado de farda passou, 
correndo, com um ramo de flores na mo.
O corao de Artur bateu, invadido da alegria daquela proximidade de Lisboa.
O comboio partiu de novo. Pareceu-lhe, atravs da nvoa, avistar uma superfcie 
de rio cor de ao; depois um campo de oliveiras correu ao lado; e os seus olhos, fixos 
nos vidros embaciados, foram-se cerrando, na fadiga daquela madrugada fria...
 Pvoa! Pvoa!
Despertou.
O sujeito de pelia, sentado, espreguiava-se.
 Ora enfim! Nous voil!
Ergueu-se, ajeitou a pelia, ps um chapu de casimira, e entreabrindo o cesto do 
pug:
 Amor, estamos no fim dos nossos trabalhos. Como tem dormido o amigo John, 
hem? Chegamos, percebeu?... Aqui est na ptria de Lus de Cames!
Voltou-se para Artur, rindo do seu gracejo:
 No  m, hem?  e repetiu ao pug que gania:  Aqui estamos na ptria de 
Cames.
A mquina silvava. E Artur, excitado, via agora,  esquerda, estender-se o rio 
largo e bao, agitado sob o vento. Os montes da outra banda confundiam-se com o 
empastamento nas nuvens. Uma falua, de vela cheia, cortava a espuma,  bolina, na 
manh spera. Artur devorava com os olhos aquelas vizinhanas de Lisboa: uma 
fachada suja de casa que passava, uma pilha de madeira, altas chamins de tijolo. Nos 
Olivais, o sujeito da pelia, julgando ver um amigo entre a gente na plataforma, 
precipitou-se para a portinhola, gritando:
 Oh, visconde! oh, visconde!
Mas o comboio partiu. Antigos vages desmantelados, um alpendre com fardos, 
correram ao lado  e um empregado, todo molhado, abrindo vivamente a portinhola, 
recolheu  pressa os bilhetes.
Artur palpitava todo. Lisboa! Era enfim Lisboa! Abaixara a vidraa e o ar parecia-
lhe cheio de uma vida mais intensa, todo penetrado da respirao larga da cidade que 
ainda dormia na manh hmida.
Com um grande estrondo o comboio entrou na estao. A plataforma ficou logo 
cheia de gente, que ia, arrebatada, com embrulhos, chapeleiras, acotovelando-se. Saloios 
com os passos pesados das suas solas pregueadas, apressavam-se: havia nas faces um ar 
estremunhado e pasmado; uma criana chorava desesperadamente, e, quando  porta de 
sada o empregado lhe quis ver as malas, Artur, empurrado, atarantado, envergonhado, 
no encontrava as chaves. As mos tremiam-lhe, sentia-se tmido, quase tinha saudades 
da casa das tias, da pequenez de Oliveira de Azemis. E depois, com o seu bilhete de 
bagagem, muito embaraado, quase aflito, errava pela grande sala de espera, dando aqui 
e alm um olhar aos anncios, onde se lia em grandes letras nomes de cidades  
Sevilha, Crdova, Madrid, Paris  que lhe representavam civilizaes magnficas e lhe 
davam um acanhamento maior.
Enfim, um carregador, que parecia ocupado por deleite prprio em resmungar 
blasfmias, levou-lhe com um ar soturno o ba a uma caleche, e o cocheiro bateu para o 
Espanhol.
 beira do assento, com as mos nos joelhos, Artur, atravs dos vidros 
embaciados, ia olhando avidamente as fachadas das casas, os cartazes nas esquinas, a 
prolongao das ruas. Galegos curvados sob o barril chapinhavam na lama, gente 
passava encolhida sob os guarda-chuvas. Teve um espanto ao ver de repente os arcos do 
Terreiro do Pao, o rio, mastreaes de esquadras! Pela Rua da Prata, ia lendo 
avidamente as tabuletas. Quem viveria naquelas altas casas, cerradas ainda? quela 
hora, decerto, os jornalistas, as duquesas, dormiam, depois das agitaes intelectuais e 
amorosas da noite...  E uma felicidade exuberante encheu-lhe subitamente o peito.
A caleche parou.
Da escada do Espanhol, sombria, saa um cheiro enjoativo de amonaco. Um 
criado, de suas e cabeleira esguedelhada, que o tratou por usted, levou-o para um 
quarto pequeno, forrado de papel verde. A janela abria para um saguo melanclico e a 
gua que caa da goteira cantava em baixo num balde de zinco.
Da a pouco, encolhido nos lenis, Artur dormia profundamente.

Acordou ao rudo da porta: o criado, em mangas de camisa, com um par de botas 
na mo, dizia repreendendo-o:
 Ento usted no vai comer? So cinco horas. J usted v! La comida  s cinco.
Cinco horas j! Artur sentia os rins doridos; o tom crepuscular do quarto, um 
rudo de pratos que ouvia ao lado, o rabujar de uma criana,. deram-lhe uma vaga 
tristeza.
O criado, ento, revirou as botas na mo, considerou um momento com 
melancolia o elstico esfiado e o taco tombado, e rosnou:
 Esto na ltima...
Artur fez-se vermelho.
 Pois quando usted quiser comer,  l em baixo  acrescentou o homem. E antes 
de sair, arrastando os sapatos achinelados, repetiu ainda, indicando com tristeza as 
botas:
 Esto na ltima! J usted v!
Servia-se a sopa, quando Artur se veio sentar timidamente  mesa. Defronte dele, 
dois espanhis, de barbas de azeviche e faces cavadas, comiam, soturnos, com as capas 
ao ombro; na outra extremidade estava uma rapariga gordita e baixa, bonita, de robe-de-
chambre escarlate e penteado alto; ao p dela um indivduo calvo, de cachao fradesco, 
muita cor nas faces rechonchudas, um bigodito grisalho, via-as jantar, com uns olhinhos 
de ternura babosa, fazendo entre os dedos bolinhas de po.
Artur admirou um momento as altas fachadas fronteiras, to nobres! Depois, 
escutou os espanhis, que devoravam e falavam baixo, desconfiados; e tendo 
distinguido os nomes de Castellar, Py y Margall, Contreras, Salmeron, concebeu logo 
uma imensa admirao por eles. Eram republicanos perseguidos; decerto se tinham 
batido em barricadas, conspiravam; e como um deles estendia o brao para as azeitonas, 
Artur apressou-se a chegar-lhe o prato respeitosamente. O indivduo disse, com 
gravidade, gracias, caballero e Artur, muito lisonjeado, pensou que mais tarde 
poderia conhec-los, ouvir-lhes episdios histricos, ligarem-se em simpatias 
revolucionrias!
Que boa ideia vir para o Espanhol! Tudo ali lhe agradava  o aparador 
envernizado, o espelho com o caixilho resguardado por urna gaza cor-de-rosa, e o 
retrato de Prim, num cavalo empinado, agitando um estandarte. E foi quase com orgu-
lho que, depois do caf, acendeu o seu charuto e se foi encostar  varanda: a tarde 
limpara, as ruas secavam sob o norte frio; uma carruagem que passou, com dois criados 
de casacos brancos, f-lo pensar que talvez fosse Ela, a sua desconhecida do vestido de 
xadrez: quando se agachou para espreitar, entreviu um homem gordo de lunetas! Mas 
todos os seus desejos de amores, de luxo, de celebridade, tinham-se posto a chalrar 
como pssaros acordados. Examinava avidamente as toilettes dos homens; achou 
adorveis duas senhoras que atravessavam a calada, com os vestidos apanhados, 
mostrando as saias brancas que lhes batiam o tornozelo. Nunca imaginara Lisboa to 
vasta, to aparatosa, e parecia-lhe que as ideias deviam ter decerto a amplido das ruas, 
e os sentimentos a elegncia dos vesturios.
A rapariga de robe-de-chambre escarlate veio ento debruar-se  varanda 
prxima: erguia o rosto, olhava o cu e o tempo. Artur achou-a deliciosa, com o seu 
pescoo muito branco, as formas copiosas, toda rolia e clida.
 Quem  esta senhora?  perguntou ele para dentro ao criado que levantava a 
mesa, cantarolaudo.
O moo chegou-se, espreitou:
 E a Mercedes.  E fitando as botas de Artur com um bamboleamento triste de 
cabea esguedelhada, repetiu ainda:  Esto na ltima. J usted v!...
Artur encolheu os ombros, furioso. De resto, observando os homens na rua, j 
pensara que o seu fato de Oliveira era maltalhado e provinciano: por isso s saiu  noite, 
depois de aceso o gs.
Com que deleite pisou enfim as lajes ainda hmidas dos passeios, respirou a 
friagem de Inverno, o ar de Lisboa, que, depois do pesadume das ruazitas de Oliveira, 
lhe parecia ter a vitalidade oxigenada onde se dilatam as faculdades! Embasbacava para 
as vitrinas alumiadas das lojas; estacava, pasmando para os rostinhos plidos das 
mulheres que passavam; voltava-se com admirao para seguir as carruagens de criados 
perfilados; e da claridade do gs, da vastido das ruas, da multido sussurrante, vinha-
lhe como que uma sensao de actividades espalhadas, de paixes, de grandezas vagas 
que o perturbava: era como se a atmosfera estivesse saturada das emanaes de uma 
vida rica, sbia, idealizadora e ardente! Mas sentia-se acanhado: apesar de apetecer 
prodigiosamente uma gravata azul que viu num mostrador, no ousou entrar na loja; o 
trotar das parelhas entontecia-o; o andar desenvolto dos homens, falando alto, dava-lhe 
um medo pueril de agresses; tinha vergonha do seu velho palet, mais curto que as 
abas da sobrecasaca que trazia; sentiu-se mesmo agradecido a um sujeito que lhe pediu 
lume, cortesmente, como se recebesse dele um acto de benevolncia. O homem, depois 
de acender o charuto, disse para outro que esperava, assobiando:
 Para o Martinho, hem?
E Artur foi-os seguindo timidamente, ansioso por ver o Martinho! Pareceu-lhe 
esplndido, com a acumulao dos chapus altos entre os espelhos doirados, sob uma 
nvoa de fumo de tabaco, no brouhaha contnuo das conversas. No se atreveu a entrar. 
 porta um grupo palrava, e Artur contemplava-o de longe, com devoo, pensando que 
deviam ser poetas e estadistas... Subiu-lhe ento de repente ao crebro um vapor 
excitante de emanaes intelectuais: teve pressa de entrar naquela existncia  
relacionar-se, regalar-se das discusses sobre Arte e Ideal, ser tambm de Lisboa!
Chamou uma tipia, e mandou bater para a Praa da Alegria, para a casa do 
Damio! Recomeara a chover e o lajedo reluzia  luz do gs. E encostado ao fundo do 
cup que trotava ao comprido das grades escuras do Passeio, Artur ia pensando no fato 
novo que faria e nos filsofos que ia decerto encontrar na catacumba do Damio.
Ao toque da campainha, uma mulher de pele muito branca e fitas vermelhas no 
cabelo f-lo entrar numa sala esteirada, para lhe dizer que o Sr. Damio tinha partido 
para o Algarve. Examinou rapidamente Artur, e acrescentou logo  que, se S. S 
desejava quartos, os do Sr. Damio estavam devolutos...
 No, obrigado, eu vinha s procur-lo.
 Ai, pode V. S entrar.  E numa voz muito cantada, muito lisboeta:  O Sr. 
Damio estava muito contente.  a casa mais sossegada do bairro, tudo na maior 
limpeza. A Sr D. Ermelinda at me diz sempre: Oh, D. Joana ( o meu nome, minha 
mana  Adelaide) oh, D. Joana, diz-me a Sr D. Ermelinda, a senhora faz mal em ter 
tanto cuidado com os hspedes, olhe que no lho agradecem! E vai eu, digo-lhe: Oh, D. 
Ermelinda (damo-nos muito) digo-lhe eu, olhe que  gnio; em no tendo tudo a 
preceito, estou num frenesi. O Sr. Damio tinha um quarto s. Tenho tambm o Faria, 
h-de conhecer, o Fariazinho...
Aquela verbosidade sem motivo entontecia Artur. Repetia, cumprimentando:
 Sim, eu hei-de voltar.
 Ai, pode vir agora. Eu no sou de cerimnias. At a D. Ermelinda me diz 
sempre: Oh, D. Joana, por quem , a senhora deve-se pr no seu lugar. E digo-lhe eu: 
Oh, D. Ermelinda, que quer, so gnios! E todo o mundo me estima.
O Fariazinho est em minha casa h dois anos. Pode-lhe perguntar...
 Pois eu hei-de voltar  interrompeu Artur, atarantado. Deu as boas-noites, 
desceu rapidamente a escada.
Aquela ausncia do Damio contrariava-o. Estava muito desconsolado. Contava 
com o Damio para o guiar, lhe mostrar Lisboa, apresent-lo a escritores, escutar o seu 
drama, e a sua partida para o Algarve parecia alargar em torno dele uma solido 
inesperada.
Felizmente tinha as cartas de apresentao do Rabecaz.
Foi ento descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro de 
Alcntara, penetrou sob as rvores e foi encostar-se s grades. A cidade cavava-se em 
baixo, no vale escuro, picado dos pontos de luz das janelas iluminadas, e, na escurido, 
os telhados, os edifcios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquelas 
luzes, debaixo daqueles tectos, que fermentao de vida! Quantos amores, quantos 
mistrios, crimes talvez! Ali, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam 
discursos, estadistas conferenciavam, mulheres aristocrticas, nas suas salas, falavam de 
amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa!
Voltara-lhe a mesma sensao, sempre repetida, de uma capital vasta, com uma 
intensa vida social, e olhava, vagamente exaltado, como se todas aquelas existncias 
acumuladas lhe mandassem ao corao o bafo das paixes que lhes supunha.
Uma aragem fria f-lo encolher-se no seu palet cor de pinho. Foi descendo, 
parando junto s vitrinas, voltando-se para os rostos plidos das mulheres, meio 
escondidos sob mantas de l ou vus escuros, seguindo com os olhos as lanternas das 
carruagens ricas, que punham claridades sobre os casacos claros dos lacaios. Descendo 
sempre, chegou junto do rio. Estava escuro, havia um friozinho cortante, e as luzes dos 
mastros tremeluziam na noite. Veio-lhe, sem razo, uma melancolia, um sentimento de 
solido. quela hora, todos estavam nas suas casas bem mobiladas, no brilho das 
soires, no conforto das convivncias ntimas; as mulheres recebiam os seus amantes, 
amigos discutiam, fumando, em volta do punch... Como conseguiria fazer conhecimen-
tos, relacionar-se, viver, jurar, naquela grande cidade rumorosa? Agora tudo lhe parecia 
mais difcil, e as grandes fachadas sombrias das casas espalhavam em torno dele uma 
sensao de isolamento, de inacessibilidade...
 V. Ex quer favorecer um chefe de famlia desempregado?  disse uma voz 
lamentosa ao p dele.
Artur aprumou-se e tirou cinco tostes da algibeira, que meteu na mo que lhe 
estendia um sujeito de chapu alto e sobrecasaca coada, a gola presa com um alfinete.
Aquela misria entrevista entristeceu-o mais.
O Aterro, longo, solitrio, com um ventozinho frio, deu-lhe um sentimento de 
melancolia; o corao confrangeu-se-lhe, sentiu a necessidade de voltar para o Hotel, 
ver luz, estar debaixo de um tecto, reler o seu drama, para se fortalecer com a certeza do 
seu talento, e contar o seu dinheiro, para se animar com a evidncia dos seus recursos. 
Ps-se a caminhar depressa pela Rua do Arsenal; mas no Terreiro do Pao perdeu-se: 
confundia as ruas largas, j um pouco desertas, paralelas, infindveis. Andou, voltou: 
tinha vergonha de perguntar pelo Espanhol. Numa rua estreita, vozes, por trs de 
tabuinhas verdes, chamavam-no com psiu! psiu! familiares; dois bbedos assustaram-
no, cambaleando, praguejando  e atarantado, j aflito, chamou uma tipia que passava 
devagar.
 Para o Hotel Espanhol!  disse, subindo para a tipia.
O cocheiro fitou-o um momento, admirado, mas imediatamente bateu a parelha. 
Artur sentou-se e acabava de fechar a vidraa, quando o carro estacou.
 Ento?
 C estamos, meu amo. O Espanhol  aqui.
Artur saiu, vexado.
 Quanto ?  perguntou timidamente ao cocheiro.
 Uma placazinha...
Com medo de uma questo, Artur pagou.
 Muito obrigado a V. Ex, meu fidalgo  disse o homem.
No corredor do hotel, de uma porta vivamente alumiada, saam sons de guitarra: 
uma voz mordente de mulher cantava num tom de malaguea:

A la puerta de mi casa
Hay una piedra muy larga, 
L, r, l, l...

E mos batiam em cadncia, ao repenicar dos bordes.
Imvel, com o castial na mo, Artur escutou: vozes espanholas falavam 
desenvoltamente, rolhas de cerveja estalaram. Pensou que devia ser a rapariga do robe-
de-chambre escarlate e os emigrados que recordavam canes das suas provncias, e 
aquilo pareceu-lhe muito potico.
Uma voz forte de homem elevou-se ento: fazia estalar os dedos, e num ritmo de 
gaita-de-foles, cantarolava:

Doces galleguios aires,
Quittadoirios de penas...

Houve risadas, a porta fechou-se bruscamente. Artur foi subindo devagar. Viera-
lhe uma recordao de quando era pequeno e estivera um Vero no Porto, com seu pai, 
na estalagem do Leo de Ouro. Pelas tardes quentes do domingo, cheias de p, o criado 
levava-o a uma horta, para os lados da Lapa: comiam tremoos ao p de um faval, onde 
sussurrava a gua das regas, e iam ver os galegos danar debaixo do parreiral, ao som da 
gaita-de-foles que fazia mu-i-e-ra! mu-i-e-ra! Depois a caneca de vinho verde pas-
sava em redor; sentiam-se ao lado os pah! secos do jogo da bola; ento uma galega 
erguia-se, e com as tranas loiras cadas sobre o colete escarlate, os braos abertos, 
punha-se a girar devagar ao churre-churre dos pandeiros!  H quanto tempo isso fora! 
Se seu pai o pudesse ver agora, em Lisboa, com dinheiro no bolso, manuscritos no ba! 
E reconfortado, estirou-se na cama, murmurando com voluptuosidade: Estou em 
Lisboa, estou em Lisboa

Ao outro dia, depois do almoo, por um sol magnfico, Artur preparou-se para ir 
visitar, com a sua carta de recomendao, o sobrinho do Rabecaz, o Sr. Venncio 
Guedes. Para se apresentar com chique, comprou, num armazm de fato feito, um palet 
de pano azulado com gola de veludo, que lhe aconselhou um caixeiro de ar 
profundamente infeliz; depois, num sapateiro, ornou-se de botas de verniz, e assim 
equipado, de luvas pretas, numa bela caleche, dirigiu-se ao largo do Carmo.
Um indivduo barrigudo, de fartas suas cor de azeviche, abriu-lhe a porta, e com 
uma voz de trombone, roncou para dentro:
 Um sujeito que o procura, Sr. Venncio!
 Mande entrar, Sr. Ferraz!
O Sr. Venncio,  mesa, almoava. Os gestos miudinhos com que partia os seus 
ovos quentes, a sua carinha amarelada, de beios finos, o cabelo correctamente 
acamado, revelavam um individuozinho meticuloso, muito admirador do seu director-
geral. Abriu a carta do Rabecaz, e comeou a l-la, puxando os plos do bigodinho 
loiro, aparados  tesoura. No quarto prximo, por trs de um reposteiro azul, uma voz 
cantava aos berros:

Aceita o sabre de meu pai!
Aceita o sabre! Aceita o sabre!

Nas paredes pendiam gravuras violentamente coloridas, onde se distinguiam 
damas e cavaleiros entre paisagens idlicas; um papagaio, no poial de pedra da janela, 
meneava-se no seu poleiro,, e o Sr. Ferraz esperava, com uma das mos papudas 
apoiada  mesa, a outra encostada com chique ao quadril obeso.
O Sr. Venncio pousou a carta, ajeitou nervosamente o robe-de-chambre sobre o 
peito, e com uma vozinha acre, s fisgadas:
 Mas eu no conheo literatos! Eu no conheo literatos, meu caro senhor! Quer 
que o apresente. Mas a quem? A quem? Se eu no conheo ningum!

Aceita o sabre, o sabre, o sabre, 
Aceita o sabre do pap.
Pan, pa, pa, pa, pum!

gritava a voz estridente.
 Eu vivo muito retirado, meu caro senhor. Vivo para as minhas ocupaes. No 
conheo dessa gente...
Artur, j envergonhado, acudiu:
 O tio de V. Ex disse-me que talvez V. Ex soubesse a morada do Sr. Melchior 
Cordeiro...
Venncio teve um pulinho de contrariedade:
 E V. S a dar-lhe! Eu no conheo ningum!
O reposteiro azul abriu-se, e um rapaz de grandes bigodes apareceu, exclamando 
com mpeto:
 Salta o almocinho! Papagaio real! Ferraz amigo, os manjares!
 Tu conheces um Melchior Cordeiro?  disse Venncio, voltando-se para ele, 
acamando nervosamente o penteado.
O outro estacou, baixou levemente a cabea a Artur, e retorcendo vivamente o 
bigode com ambas as mos:
 Melchior Cordeiro, Melchior Cordeiro...  murmurava.
Artur olhava-o quase com ansiedade; na rua, preges cantavam, e para o lado do 
quartel soavam cometas de exerccio.
  um jornalista  lembrou Artur.
 No conheo!  E dirigindo-se jovialmente ao papagaio:  Papagaio real! Viva a 
Carta Constitucional!
 J v  disse Venncio, com regozijo mal reprimido.  Ningum conhece 
semelhante gente.
 E ps-se com satisfao a esgaravatar os ouvidos.
Artur, profundamente despeitado, tomou o chapu.
 E o senhor meu tio ainda se embebeda todas as noites?  perguntou o Venncio, 
continuando a partir os seus ovos.
Artur, petrificado, balbuciou:
 No me consta, no me consta...
Mas o sujeito barrigudo abrira a porta, e descendo a escada, furioso, Artur sentia 
ainda os gritos do papagaio e a voz jubilante do outro cantar desesperadamente:

Aceita o sabre, o sabre, o sabre!
Aceita o sabre, o sabre do meu pap!

No largo, a manh resplandecia. Depois dos dias de chuva, aquele sol delicioso 
dava  cidade a alegria de um renascimento: at dois moos que num ptio lavavam 
uma carruagem a baldes de gua e os galegos que palravam  beira do chafariz, 
pareciam to satisfeitos como os canrios que gorjeavam nas janelas. Mas Artur estava 
como que desencantado: Damio partira, o famoso Melchior perdia-se no vago, e 
naquela cidade to cheia sentia a concavidade da solido! A sua vontade, que  maneira 
de um invlido precisava ser constantemente estimulada e ajudada, recaa desfalecida: a 
celebridade, as relaes, os amores  tudo o que em Oliveira lhe parecera de conquista 
to fcil,  mo, recuava agora para cimos inacessveis: tinha a sensao de massas de 
obscuridade, sufocantes como abbadas, que o encarceravam no anonimato. As vitrinas 
das lojas, os altos prdios, as carruagens, davam-lhe uma opresso indefinida; sentia 
circular em redor um enorme egosmo burgus, feito do orgulho do dinheiro e do 
desprezo das ideias; e os rostos, como as fachadas, tomavam para ele um aspecto obtuso 
e duro que alguns pobres versos delicados nunca poderiam comover! O sentimento da 
sua solido sensibilizou-o: se adoecesse, pensou! E, entontecido pelo movimento, 
abstracto, infeliz, ia descendo o Chiado, com os ps torturados pelo verniz novo 
aquecido, sentindo-se gebo, odiando Lisboa, furioso com o sapateiro! Quando entrou 
no hotel, atirou-se para cima da cama, e para se reconfortar com a certeza do seu 
talento, ps-se a reler, aqui e alm, os Esmaltes e Jias. Mas os versos que em Oliveira 
lhe pareciam de um ideal to nobre, lidos agora ali, em Lisboa, tinham um tom de 
pieguice pueril, no meio das vagas grandezas que sentia em redor e dos vastos interesses 
que suspeitava. Veio-lhe uma desesperao, achou-se burro, pensou mesmo em voltar 
para Oliveira; retinha-o, porm, uma curiosidade da Cidade, a esperana de a ver, a Ela, 
e o desejo das satisfaes que lhe podia dar o dinheiro  teatros, mulheres... Que diabo! 
tinha ali no ba, em libras, um conto de ris! E espreguiou-se sobre o leito com 
voluptuosidade, como se recebesse de repente, de todos os rostos lindos que entrevia, 
das vozes que na vspera lhe faziam psiu! psiu!, por trs das tabuinhas verdes, um 
eflvio afrodisaco. E desceu para o jantar, resolvido a atirar-se nessa noite  
pndega.
Como na vspera, os dois espanhis l estavam, e, soturno, ao p da Mercedes, o 
sujeito calvo e baboso. Esperando a sopa, Artur abriu o Jornal do Comrcio que estava 
sobre a mesa, deu um olhar de lado  espanhola  e, de repente, lembrou-se de que 
talvez no hotel conhecessem o Melchior, um jornalista!
Perguntou imediatamente ao criado, que entrava com a sopa.
 Ah! o Melchiorzinho!  disse o moo; e dirigindo-se ao calvo:   Sr. Videira, 
usted sabe onde est o Melchior?
 O Melchiorzinho?  respondeu o calvo.  Na redaco do Sculo. Para os lados 
da Rua do Carvalho.
 J v usted!  disse o criado com satisfao.
Artur, na sua alegria, indiferente ao jantar, agarrou o chapu, correu  rua, tomou 
uma tipia, foi  redaco do Sculo: o Sr. Melchior tinha sado, podia encontr-lo ao 
outro dia,  uma hora da tarde.

Aquela visita preocupou Artur toda a noite. Melchior era um jornalista, um 
literato e a conversa rolaria decerto sobre livros, estilos, escolas; desejava mostrar-se 
elevado nas crticas, original nas frases; preparou mesmo duas definies pitorescas de 
Lisboa e da Provncia:
Lisboa  a estao central da inteligncia.
A Provncia  a penitenciria do esprito.
E ao outro dia, muito comovido, apeava-se  porta da redaco. Um rapazito de 
blusa azul f-lo atravessar um ptio sujo, penetrar num corredor carunchoso, e abrindo 
uma porta:
 Um sujeito, Sr. Melchior!
A uma larga mesa coberta de oleado, dois indivduos trabalhavam. Um deles, de 
cabelo  escovinha, escaveirado e de lunetas defumadas, cortava tiras num jornal, com 
uma tesoura de alfaiate; o outro, baixo e grosso, com a cabea fincada entre os punhos, 
parecia absorvido no estudo de uma folha de papel escrevinhada: ergueu-se 
bruscamente, inquieto. Era Melchior. Tinha a calva precoce, chamada do deboche, sobre 
a qual repuxava um cabelo fino como teias de aranha; sob o nariz carnudo, arqueava-se 
um bigode espesso.
Abriu a carta do Rabecaz, de p. As suas mos papudas tinham uma ligeira 
tremura habitual, e apenas leu as primeiras linhas:
 Ah, perfeitamente!... Tenha a bondade de se sentar. Pois no! Por quem , sente-
se!
E como vai ele, o magano? Hem? Sempre patusco? Se V. Ex me permite, eu 
acabo aqui um pequeno trabalho e sou todo seu. Tenha a bondade de se sentar. Isto est 
um pouco desarranjado. Se quer ler os peridicos...
Artur tomou um jornal e sentou-se ao p da janela. Nas paredes, maos de jornais 
desdobrados pendiam de ganchos, resmas de peridicos atulhavam os cantos e um tnue 
vu de poeira cobria tudo: os papis, as cadeiras, o velho mapa de Portugal e Espanha; a 
rua, fora, tinha um silncio pacato; numa janela fronteira, um pintassilgo cantava na 
gaiola, e as tesouras enormes do sujeito de lunetas iam retalhando os jornais.
  Esteves, trouxeram as chegadas?  disse de repente Melchior. E a um sinal 
afirmativo do outro:  Ditas, fazes favor?
Esteves procurou entre a papelada uma tira rabiscada a lpis e comeou 
imediatamente, numa voz um pouco rouca, extremamente montona:
O conselheiro Ablio de Azevedo, de Vila Nova de Famalico, hospedado nos 
Embaixadores...
Melchior escrevia, murmurando alto:
 Chegou o nosso prezado amigo o Ex.mo Sr. Conselheiro Ablio... Nova de 
Famalico...  Com um 1 s?
O outro moveu afirmativamente a cabea e prosseguiu:
O visconde da Ameixoeira, de Viseu, e sua respeitvel famlia... O nosso 
assinante Tadeu Carneiro... O ilustre proprietrio Eustcio Alcoforado...  No, este 
partiu, partiu para Bordus.
 Partiu ou chegou, menino?  que no  a mesma coisa!  exclamou Melchior. 
Deu uma risadinha, voltado para Artur, tomou uma fumaa do charuto e pediu a Esteves 
que por caridade lhe ditasse os anos.
Esteves, com um gesto lasso, tirou de uma gaveta um Almanaque, com folhas 
brancas intercaladas, bocejou profundamente e comeou no seu tom soturno:
Dia 14 de Dezembro... O comendador Figueiredo... grandssimo besta! A Sr D. 
Ernestina da Conceio Valadares... O engraado actor Maldonado...
Melchior suspendeu a pena e olhando para Esteves fixamente:
 Est l engraado? Isso  de h dois anos! Agora ele faz papis srios.
Esteves reflectiu, tirando pelculas dos beios:
 Pe o esperanoso.
O esperanoso? um homem que representava havia doze anos!...
E olhavam-se embaraados, na urgncia de um adjectivo.
Ento Artur adiantou o rosto, risonho, obsequiador, e disse:
 O impressionante, talvez.
 Magnfico;  exclamou Melchior, escrevendo regalado. E, um momento, olhou 
Artur com respeito.  Que mais, Esteves? V, homem, v!
O vereador Fernando Cardoso... A inocente filha da Sr D. Elvira Cunha Rego... 
O distinto poeta Augusto Roma, ilustre autor dos Idlios e Devaneios...
Uma porta lateral abriu-se, e uma face branca e balofa, com lunetas de oiro e um 
bigode to preto que parecia de crepe postio, mostrou-se, dizendo com voz de papo:
 O Melchior, redige a uma notcia da chegada do Meirinho, de Paris... O homem 
j me falou nisso trs vezes. Trouxe-me uma lapiseira, coitado. Sete ou oito linhas 
catitas.
E a porta fechou-se.
Melchior tomou-se grave, esfregou as mos devagar, acendeu reflectidamente 
outro charuto, e com os cotovelos sobre a mesa, os olhos cerrados, ps-se a coar 
lentamente a calva; depois, escreveu, riscou, releu, recomeou e por fim, recostando-se 
na cadeira, murmurou exausto:
 No estou de mar. Hoje no vai...
Nesse momento, o sujeito de lunetas de oiro voltou de dentro, de chapu na 
cabea, calando as luvas:
 Fizeste?
Melchior confessou que estava pesado da cabea.
 Escreve l, homem!  disse o de lunetas de oiro, encolhendo os ombros com o 
desdm de um ricao de ideias:  Temos entre ns o nosso prezado amigo Joo 
Meirinho, um dos ornamentos mais brilhantes do nosso high-life. S. Ex que  
igualmente estimado em todas as capitais da Europa.... Hesitou, passou os dedos pelas 
sobrancelhas e com a testa muito franzida, ...da Europa, onde as suas qualidades 
eminentes o tomam o alvo dos respeitos de todas as classes,  sempre bem-vindo  
formosa cidade do Tejo, onde....
 H dois ondes  advertiu baixo Melchior.
 Deixa haver! Pe: ...a cuja sociedade ele traz a animao, que  o distintivo da 
brilhante....
 H dois brilhantes  corrigiu Melchior.
A observao, diante de um estranho, decerto irritou o sujeito, que replicou 
secamente:
 Mete-te l com a tua vida!  Pe: ...da esplndida capital da Frana, esse 
esplen... esse resplandecente centro da Arte e das Letras.  Ora a tem o menino, uma 
noticiazinha chique!
Ia a sair, mas Melchior, erguendo-se cerimoniosamente:
 Quero-lhe apresentar o Sr. Artur Correio, um poeta; o Sr. Saavedra, o nosso 
director.
Saavedra apertou, protectoramente, a mo que Artur lhe estendeu com servilismo 
 e pondo o chapu mais ao lado:
 Ah, esquecia-me. O Joo Carolino, do Ministrio do Reino, deu-me um folhetim 
para amanh... Manda para dentro, ele vem rever as provas.
E antes de atirar o manuscrito sobre a mesa, abriu, leu alto:
 BEIRA-MAR.  Sentado numa penedia, deixo o pensamento vogar sobre a 
superfcie lquida, onde os doirados raios do Sol poente espargem mil cambiantes de 
luz. E com a alma arrebatada, contemplo a pasmosa maravilha da criao. Oh! 
materialistas, escondei o rosto na vergonha de vossa perversa blasfmia! Vinde a este 
penedo, se quereis ter a certeza da existncia de Deus. Vinde a este penedo, gigante de 
granito....  Est opulento  murmurou.
Atirou o manuscrito a Esteves, abaixou a cabea a Artur e saiu trauteando.
Meichior ergueu-se logo e com um sorriso:
 Estou s suas ordens, Sr. Correio! O Esteves, aqui te deixo as notcias, hem!  E 
de p, ia-lhe passando pequenas tiras de papei, de que lia as primeiras linhas, numa 
verificao rpida:  Foi despachado aluno pensionista, etc... Foi aprovada a tarifa 
especial, etc... Parece que o Sr. Vieira no aceita a nomeao, etc... O conhecido 
Mesquita faz leilo da sua casa de penhores, etc... Foi aceite, pela Cmara Municipal de 
Vila Nova de Famalico, a proposta do marchante Augusto, etc... Houve ontem uma 
desordem no beco do Monete, etc.. A tens as duas anedotas que vinham no jornal 
espanhol. A chegada do Meirinho.  o que h. No vem mau o nmero de amanh...
Foi interrompido por ns de dedos que batiam  porta, e, quase imediatamente, 
dois homens entraram. Pareciam operrios: um deles, atarracado, tinha uma face 
honesta que atraa, mas foi o outro, franzino e amarelo, quem tomou a palavra. Um 
pouco embaraado, puxando os plos do bigodito e batendo com o chapu na coxa, 
devagarinho, comeou, enchendo a voz:
 Ns somos filhos do trabalho...  Hesitou, procurou, na presena dos jornalistas, 
embelezar as suas frases:  Somos da fbrica de fiao da Pampulha, e, como V. Ex 
sabe, estamos em greve... A comisso entendeu que deveria publicar um comunicado, 
para dar coragem, para levantar os nimos...  Pareceu consultar o companheiro, 
acrescentou, corando:  Ainda que haja alguma despesa... Que as circunstncias...
 E estendia o manuscrito.
Melchior e Esteves entreolharam-se:
 No  disse Melchior  no  nada; os senhores esto em greve e o Sculo est 
na oposio... Sai amanh, podem ir descansados.
 A justia  por ns  balbuciou o rapaz. Pareceu querer colocar uma frase final, 
hesitou, fez um sinal ao companheiro, e saram ambos devagar, gingando levemente.
Esteves abrira o comunicado e parecia surpreendido. Melchior ento, curioso, foi 
olhar por cima do ombro dele, e leu alto:
IRMOS DO TRABALHO! Quando do alto do Glgota, o Redentor do gnero 
humano, j exangue, soltou o grito supremo, foi para proclamar uma aurora de paz e de 
esperana e arrancar a cadeia da escravido dos pulsos dos filhos da democracia.... E 
continuava assim, em duas laudas, falando da gargalheira de ferro dos tiranos, do 
credo da liberdade, da arca da aliana. Explicava a greve da Pampulha, como sendo 
a aurora que raia para as vtimas do despotismo; aconselhava os operrios a que 
refrigerassem as frontes fatigadas no puro seio das filhas do povo; e depois de novas 
amplificaes sobre o Cristo, terminava: a vossa comisso grita-vos do alto da colina: 
coragem, heris do trabalho, coragem!
 Hem!  fez o Melchior, atnito.  Para ser de um operrio! Est esplndido! 
Manda-o pr na segunda pgina, caramba!
Tambm Artur estava surpreendido. Que cidade, Lisboa, em que dos empregados 
aos teceles, todos tinham a preocupao da eloquncia e a f na publicidade! No se 
conteve, soltou a sua frase:
 Lisboa  a estao central da inteligncia...
Mas o rapazito de blusa entrou vivamente na redaco:
 Est ali outra vez o homem do hotel com a conta!
Melchior atirou-se com um salto para a saleta interior e pela porta entreaberta, 
com grandes gestos, a voz abafada:
 Que no estou, que fui para o campo!
Ouviu-se, fora, um vozeiro irritado e o rapazito, esganiando-se, replicar, 
quizilado; depois, houve um silncio, e Melchior, com cautela, mostrou a face inquieta:
 Foi-se?
Esteves, que assobiava a Sonmbula, moveu afirmativamente a cabea.
 Pois estou s suas ordens  disse Melchior, subitamente tranquilo. Tirou do 
bolso a carta do Rabecaz e sentando-se:  Pois aqui est o que me diz o magano do 
Rabecaz: a vai o amigo Artur Correio, com versos muito catitas e um drama que  de 
arromba. Aquela cabea  um mundo! Quer conhecer a bela rapaziada literata e como 
seu bondoso padrinho lhe deixou grossa maquia, a o tens, que quer florear na Capital e 
encher o ventre da bela pndega.
Artur protestou logo:
 No, eu venho sobretudo por causa do drama.
 H tempo para tudo!  disse Melchior, com um grande gesto.  E ento demora-
se?
 Naturalmente.
 Pois eu estou s ordens, disponha de mim. Com franqueza... Quando  que V. 
Ex est em casa? Eu vou por l, almoamos, conversamos, e vamos por a ver o que h. 
Serre-lhe?
Artur agradeceu, comovido. Melchior foi a um pequeno lavatrio que havia ao 
canto, lavou as mos e aproximando-se, a puxar as calas para a cinta:
 Amanh, por exemplo, hem?
 Perfeitamente. Estou no Hotel Espanhol.
 O Esteves, esses livros que a mandaram para anunciar, leva-os ao Salomo, 
mas no os largues a menos de trs tostes cada um, pelo amor de Deus!  E voltando-
se para Artur:  Andiamo?
 porta, porm, lamentou no poder acompanhar Artur; tinha um rendez-vous.
 Sabe o caminho, no  verdade? Bem. Amanh, s 11, no Espanhol! Almocinho 
simples! All right! Criado de V. Ex.
Mas no veio na manh seguinte, nem ao outro dia. E Artur, j inquieto, e 
querendo ao mesmo tempo aproveitar a oportunidade de mostrar estilo, resolvera 
escrever-lhe um bilhete muito literrio: Decerto os altos trabalhos desse rochedo de 
Ssifo, que se chama a Imprensa, tm-no absorvido e esqueceu-se de que prometeu vir 
partilhar comigo do leite e castanhas, de que fala o divino Virglio.... Tinha fechado o 
sobrescrito e limpava com gua-de-colnia uma ndoa do fraque preto, para sair, 
quando a porta se abriu devagar e apareceu Melchior.
 Ia-lhe justamente mandar uma carta!  exclamou Artur.
Melchior alegou afazeres, uma pessoa das suas relaes que estivera doente...
 Mas estava a limpar o fatinho, pelo amor de Deus, no se interrompa!  
Examinou o fraque e observou como entendedor:  Isso, s com benzina.
Artur corou, atirou o fraque para uma cadeira e negligentemente:
  um fraque velho  disse  tenho de mandar fazer fato...
Melchior tomou um ar muito srio:
 Com franqueza, aconselho-lho. Em Lisboa  necessrio andar bem vestido. Que 
tal lhe parece isto?  E rodava nos calcanhares, devagar, mostrando o fato de cheviote 
claro.  Muito chique, no  verdade? Pois, aqui para ns, mas no o diga, por quem , 
no o diga... Dezasseis mil-ris. No Strauss eram quarenta. Hem! Que espiga!
E em concluso, provou-lhe que devia fazer fato no seu homem, que era o 
Vitorino, o Vitorino dos Calafates.
 Est decidido, bem? Vamos ao Vitorino?
Artur aceitou logo, com reconhecimento  e desceram para o almoo.
O criado pareceu rever com alegria o s Melchiorzinho. Melchior tambm se 
regozijou de encontrar o Manuel; perguntou-lhe mesmo se ainda estava no hotel o 
Vicente... E a Justina, que era to bem feitinha? Ah, o Espanhol j no era o mesmo! 
Era igualmente a opinio do Manuel. E tiveram ambos um bamboleamento saudoso de 
cabea, deitando o olhar desanimado pela sala, como na muda contemplao de runas.
 Usted  que sabe  suspirou o Manuel  usted  que sabe!
O almoo foi longo, copioso, muito saboreado. E, com grande prazer de Artur, 
Melchior falou longamente de Lisboa. O que havia de melhor, segundo ele, era a bela 
rapaziada! Porque l isso de soires, bailes  histrias! No fim, para que se estava neste 
mundo? Para gozar, ter amigos alegres, um bom jantarzinho, uma pandegazinha, umas 
mulherzinhas de vez em quando. E para isso, no havia como Lisboa!
 O amigo ver!  exclamou, batendo no ombro de Artur.
Parecia simpatizar com ele; ao caf, props-lhe mesmo que deixassem as 
excelncias; o melhor era voc c, voc l, e liberdadezinha... Ele gostava de 
liberdade...
 Como todo o homem inteligente e que tem o esprito moderno  disse Artur, que 
procurava, com insistncia, elevar o tom do dilogo.
 No  l de poltica que eu falo  acudiu Melchior, chupando o fundo do clice 
de conhaque  isso so histrias! O que eu digo  c esta liberdadezinha! Uma 
cavaqueira com um bom amigo, uma comidazinha num hotel conhecido... bela 
rapaziada. O mais  parvoce!
Artur, que a preocupao potica torturava, disse ento, um pouco embaraado, 
com um sorriso artificial:
 A propsito de liberdade... Se o meu amigo no acha maada... queria que me 
desse a sua opinio sobre alguns versos... sobretudo uma Ode  Liberdade. Talvez no 
desgoste...
Melchior bebeu de um trago outro clice de conhaque e limpando 
precipitadamente os beios:
 s ordens!
E levantaram-se ambos.
Artur, ao subir para o quarto, sentia clicas. Ia, enfim, mostrar a sua literatura a 
um jornalista, a um crtico, a um lisboeta... Abriu o manuscrito com uma tremura nas 
mos:
 Que tal lhe parece o ttulo, Esmaltes e Jias?
Melchior, que se sentara aos ps da cama, pesado do almoo, disse, agradado:
 Tem chique.
Artur procurou a folha, cuspilhou, e comeou:

ODE  LIBERDADE

Ei-la que se ergue na colina santa
     A Santa Liberdade.
Contempla o cu e desgrenhada canta:
     Acorda, humanidade!

E seguia-se, no mesmo desenho estrfico, um longo monlogo da Liberdade: 
amaldioava os Reis, bendizia os povos; dizia-se virgem imaculada, viso area, 
pomba da arca e bonina do vale; prometia searas aos humildes, gargalheiras aos 
grandes; exaltava a tnica de Cristo e as algemas de Esprtaco; e, brandindo no ar da 
manh uma espada mstica, terminava clamando:

A hora j soou, a Aurora vem...
     Baqueia a realeza!
E j se ouve na cidade alm,
     Rugir a Marselhesa!

 Que lhe parece?  perguntou Artur, ainda ofegante de excitao declamatria.
 Est forte, est forte que tem diabo!  E Melchior, olhando-o quase com terror, 
acrescentou:  Safa, o amigo tem ideias muito exaltadas!  logo Comuna para a frente, 
hem? Irra!
 Mas se me d licena, escapou-lhe a uma cacofonia.  quando a Liberdade 
entra e diz que arrasta o manto... Ora leia.
Artur releu, inquieto; era uma das suas estrofes queridas:

Chamais-me, Cidados? Eu aqui estou:
     Alas  Liberdade!
Nunca cauda mais pura se arrastou
     Nas lajes da cidade?

 A est!  exclamou Melehior.  Cacofonia.
Eu digo isto, o amigo desculpe. Mas v, nunca cauda... ca-cau... cacau! Eu peo 
desculpa, mas s vezes so coisas que escapam! E aqui em Lisboa, a crtica comea 
logo a pegar!  muito severa,  de tremer! Comeam logo a achincalhar; ca-cau, cacau 
do Brasil, chocolate...  o diabo! O amigo tenha pacincia. So coisas em que  
necessrio muita cautela!
Artur estava escarlate; aquela cacofonia na sua ode envergonhava-o tanto como 
um piolho que lhe encontrassem na gola do fraque; riscou logo o verso com rancor. 
Aquilo, naturalmente, escapara-lhe ao copiar. E para se desforrar  quis ler a Rosa do 
Vale.
Mas Melchior acudiu:
 Olhe que j se faz tarde para o Vitorino, veja l!  E com um tom profundo:  E 
melhor irmos ao Vitorino!
Como lhe devia uma conta e o Vitorino se impacientava, Melchior aproveitava 
com jbilo aquela oportunidade de o adoar levando-lhe um fregus rico  e ia pela 
rua, muito chegado a Artur, aconselhando-lhe despesas:
 Faa casaca, deve fazer casaca! Em Lisboa  essencial... E  a especialidade do 
Vitorino!  E apertando-lhe o brao, muito grave:  E sobrecasaca...  de rigor!
Subiram a um terceiro andar, e numa saleta com transparentes cor de oca na janela 
e raros cortes de pano numa prateleira envidraada, o Vitorino, um magricela coxo, cor 
de limo, recebeu-os aos pulinhos sobre a muleta; havia um vago cheiro a refogado; 
num quarto prximo ouvia-se o rabujar de uma criana e o tiquetique de uma mquina 
de costura  que fez lembrar a Artur o estabelecimento triste do Serro, o seu alfaiate de 
Oliveira. Desejaria ter ido a alguma casa clebre, com rimas de fazendas no cho, 
figurinos pelas mesas e altos espelhos nas paredes, mas dominado pela loquacidade do 
Vitorino, pelos conselhos entusiastas de Melchior, na vaga inrcia mole que lhe dera o 
almoo e o sol clido da rua, consentiu em encomendar uma casaca, uma sobrecasaca, 
calas, e um fato de mescla, sem entusiasmo, muito descontente com as fazendas; aludiu 
mesmo, mais por complacncia com o Melchior do que por influncia do seu antigo 
sonho, a um robe-de-chambre de trabalho, apertado por cordes de borla.
 Tambm se lhe faz, tambm se lhe faz  acudiu o Vitorino, excitado.
 De veludo  disse timidamente Artur.
 Cspite!  exclamou o Melchior, curvando-se profundamente.  Que fregus, 
hem? Daquilo no pilhava o s Vitorino todos os dias!
O Vitorino correra a buscar amostras de veludilho  quando, do quarto prximo, 
saiu uma mulher bem-feita e de pele muito branca, com uma criana estremunhada ao 
colo, toda rabugenta. Melchior abriu vivamente os braos com uma exclamao:
 Viva o fidalgo! Ento como vai a D. Teresa? Como vai isso?
E precipitou-se a beijocar o pequerrucho, chamando-lhe seu caro amigo, fazendo-
lhe beribau no beicinho, ccegas na barriguinha, roando-se muito pela me.
 Tem estado com uma perrice  disse ela.
 Seu maroto, seu maroto  roncou Melchior com voz de papo. E mostrando-o a 
Artur:  Que beleza, hem? que beleza!
O pequeno, assustado dos bigodes de Melchior, recomeou a berrar. O jornalista, 
muito servil, afagou-o, fez glou-glou com a lngua, seguiu mesmo a me ao quarto, 
apalhaando-se, e, da a momentos, decerto para acalmar a criana, Artur ouviu-o 
repenicar a viola francesa, cantarolando um fado de pretos.
O Vitorino, diligente, ia tomando as medidas a Artur.
  c muito de casa, o Melchior! Grande cabea! A calcinha larga em baixo, 
hem?
 Sim, larga...
 H-de ser servido a preceito.
Quando saram, a D. Teresa veio at ao patamar; o pequeno sossegara, com duas 
grossas lgrimas nas pestanas. Melchior foi logo puxar-lhe as rosquinhas do pescoo, 
lambuzou-lhe a face de beijocas, chamando-lhe amor, prncipe;  depois, apertou 
longamente a mo ao Vitorino, falou-lhe ao ouvido, abraou-o mesmo pela cinta.
 Grande gente!  dizia, descendo a escada.
 E a mulher no  feia  observou Artur.
 Trago-a de olho  disse Melchior.
Na Rua do Ouro pareceu espantado de serem j trs horas.
 Que diabo! Tenho um rendez-vous s trs e meia!
No ocultou mesmo que era questo de fmea... Mas custava-lhe largar o amigo 
Artur. Que bela manh tinham passado, hem? Caramba, podiam fazer uma coisa! Ele 
vinha busc-lo s cinco e iam ambos jantar ao Hotel Universal! Havia de ver que jantar! 
E que bela rapaziada! Valeu, hem? s cinco!
Artur voltou logo para o hotel. A cacofonia na Ode  Liberdade, torturava-o desde 
manh, e como esperava ler as outras poesias a Melchior, toda a tarde, curvado sobre o 
manuscrito, de lpis na mo  com a ateno esmiuadora de um jardineiro sobre um 
canteiro de rosas  catou cacofonias nos versos.
Melchior, muito pontual, encontrou-o ainda trabalhando:
 Com os versinhos a contas, hem?
Sentou-se pesadamente na cama e retorcendo os bigodes:
 E que tal de mulheres, l por Oliveira?
 Um horror!
 Pezinho descalo, cheirinho a suor!  E reclinando-se com satisfao:  No 
deixa de ter seu cabimento...
Artur achou-o grosseiro, mas sorriu para o lisonjear  e confessou que 
desejava ler-lhe a Rosa do Vale.
 Olhe que se faz tarde para o Universal!  exclamou logo Melchior, pondo-se de 
p.  Arriscamo-nos a no achar lugar! No Universal  muito srio!
Deu uma penteadela rpida no cabelo, nos bigodes e olhando-se satisfeito ao 
espelho:
 Ver que rapaziada! Muito chique!
Artur lembrava-se das descries do Rabecaz: decerto ia encontrar no Universal 
literatos, deputados, diplomatas, cantores, um mundo de civilizao superior  e um 
pouco envergonhado do seu fraque preto, quis, ao menos, comprar luvas claras.
 Homem!  disse Melchior  tambm eu preciso de luvas!
Mas que ferro, tinha-lhe esquecido o dinheiro! Artur, imediatamente, antes de 
entrar na loja, ofereceu o seu porta-moedas aberto. Que diabo, entre rapazes...
 Voc calha-me, Artur, voc calha-me!  exclamou Melchior, com um mpeto 
irreprimvel de simpatia.
E ambos, de luvas claras, subiram o Chiado, de brao dado  decididos 
tacitamente a estimarem-se, ligados j por uma amizade nascente.

Tinha-se servido a sopa, quando entraram na sala do hotel. E no primeiro relance, 
o aspecto das mesas, com brilhos de vidros e de plaqus faiscando sob a luz crua dos 
lustres de gs, os ramos de flores fazendo centro  ordenao das sobremesas, as 
pessoas bem vestidas que julgava ilustres, as gravatas brancas dos criados, deram a 
Artur um vivo deslumbramento, imobilizaram-no junto da porta, um pouco embaraado, 
passando, com um gesto errante, os dedos pelo bigode. Mas Melchior, que se apossara 
de duas cadeiras ao p de um sujeito plido, chamava-o, muito alto:
 Para aqui, amigo Artur, ficamos aqui ao lado do Carvalhosa!
Ao adiantar-se, perturbado, com as palmas das mos suadas, tropeou num criado, 
que se voltou, furioso, e Melchior, imediatamente, apresentou-o ao Sr. Carvalhosa, o 
ilustre deputado.
 Eu conheci V. Ex em Coimbra  disse Artur com um esforo, corando.
Conhecera-o, quando Carvalhosa publicava meditaes democrticas na Ideia, 
fazia discursos lricos no teatro acadmico e era ilustre por vcios que lhe tinham 
deixado para sempre, na face, uma amarelido de hctico. No terceiro ano levara um R  
e passara desde ento a ser na Briosa o republicano mais ardente. Porm, nomeado 
deputado do Governo por influncia de um tio, apresentado em Lisboa a Pares do 
Reino, introduzido em algumas casas onde recitava, entusiasmara-se pelas Instituies e 
concebera um respeito desmedido pela Monarquia. Tinha uma gula imensa da pasta da 
Marinha  e falava de papo sobre questes de poltica,  porta da Casa Havanesa, 
torcendo a ponta da pra com os dedos queimados do cigarro. Era conhecido pelas suas 
imagens  safadas pelo uso de geraes, como velhos patacos do tempo do Sr. D. Joo 
VI  e os jornais faziam sempre preceder o seu nome do adjectivo inspirado!
Abaixou a cabea a Artur e falou um momento a Melchior com condescendncia, 
como do alto de uma nobre escadaria intelectual. Era da Provncia, vivia na Provncia e 
sentia-se bem, ao ouvi-lo, que os proprietrios graves dos Arcos de Valdevez deviam 
dizer dele na Assembleia, com admirao e desconfiana:  Grande cabea, mas muito 
poeta!
 Ento deixou Coimbra?  perguntou ele a Artur.
 H dois anos!
Melchior apressou-se a citar com verve:

Coimbra, terra de encantos
Do Mondego alegre flor...

Artur terminou Logo:

Venho pagar-te em meus cantos
Tributo de antigo amor!

E o Carvalhosa emendou:

Venho pagar-te em escarros
Tributo do meu rancor!

 Bravo! Bravo!  exclamou Melchior com rudo.  Essa  das boas!...
Aquele curto fragmento de dilogos, tambm pareceu a Artur muito fino, muito da 
Capital, e recostou-se na cadeira, com uma satisfao comovida. Toda a sua vaidade se 
dilatava ao sentir-se ali, a uma mesa rica, entre indivduos que supunha personagens 
eminentes da Poltica, das Letras ou da Finana; todos os detalhes lhe agradavam  a luz 
forte do gs, os molhos, a ateno dos criados, os sifes  mas movia os braos com um 
cuidado acanhado, como se receasse quebrar alguma coisa, observando-se, impondo-se 
modos delicados. A sua alegria foi completa, quando um sujeito que estava a seu lado e 
no qual no reparara, se voltou para ele e lhe disse com amabilidade:
 Ento, mais descansadinho da sua jornada?
No o tinha reconhecido! Era o sujeito do vago, que trazia um cozinho no cesto. 
Falaram das fadigas do comboio, do co, da chuva no Entroncamento. Ento Melchior, 
reparando no dilogo, estendeu precipitadamente a mo por trs da cadeira de Artur, 
exclamando:
 O Joo Meirinho, desculpe, homem, no tinha dado por voc!
 L vi, l vi!  acudiu logo Meirinho, com o rosto nutrido, luzidio de 
reconhecimento.  L vi, muito boa noticia! Todos gostaram muito. E de amigo,  de 
amigo.  E indicando Artur:  Fomos companheiros de viagem.
Artur, lembrado agora da notcia que vira compor no Sculo, ficou todo 
alvoroado com a amizade daquele ornamento do high-life, estimado em tantas 
capitais da Europa. Julgou delicado dizer-lhe:
 Eu tinha lido a notcia...
 Fazem-me o favor de me estimar  disse Meirinho, enternecido  fazem-me o 
favor de me estimar!
Tornou-se ento muito afvel com Artur; ofereceu-lhe da sua gua Apollinaris 
para misturar com o vinho, deu-lhe notcias do cozinho: tinha chegado ptimo, fazia o 
regalo das meninas! Era um amor!  Depois, falou de si. Havia muita verdade na local 
do Sculo: em geral era estimado, e a razo era esta:  que gostava de obsequiar! No 
imaginava o Sr. Corvelo as encomendas que trouxera de Paris! Vivia em Paris, 
modestamente, porque no era rico... Bom Deus, longe disso! Mas vinha de dois em 
dois anos a Lisboa. Paris, que deliciosa terriola, no  verdade? Ah, tinha l bons 
amigos! At o duque de Grammont lhe dizia sempre: Merign, vaus tes tout  jait des 
ntres! Ah, l isso, era estimado... Mas, no fim, este cantinho do nosso Portugal era 
muito aprecivel. E depois, havia outra coisa: em Lisboa no sofria tanto de nevralgias...
Falava com uma voz baixa, afectuosa, acariciando a sua bela barba clara, com a 
mo bem tratada, onde reluzia um brilhante; tinha na sobrecasaca a roseta da comenda 
de Carlos III de Espanha. E era to afvel que, ao assado, j dizia a Artur:  meu 
prezado amigo, meu bom companheiro de viagem!
Quis saber se ele vivia em Lisboa.
 No? Ah, a provncia  muito aprecivel... H muita bondade na nossa 
provncia, muita bondade. Eu, por exemplo...
Interrompeu-se para responder a um sujeito de aspecto pomposo, belo rosto cor de 
cera e bigodes to lustrosos que pareciam envernizados  que do outro lado da mesa lhe 
perguntava por que no fora na tera-feira a casa de D. Joana Coutinho:
 No pude, meu bom Padilho! A Sr Marquesa no consentiu, positivamente 
no consentiu. Tnhamos uma deliciosa partida de manilha...
Pediu ento detalhes da soire: D. Frederico ralhara muito ao whist? Tinha estado 
a divina viscondessinha de Lordelo? E tu que fizeste, Padilho?
O indivduo alteou o peitilho lustroso e muito decotado:
 Na tera-feira passada? Obo e Emlia das Neves. Gostaram muito.
 Conhece a D. Joana Coutinho?  perguntou Meirinho baixo a Artur.
 No.
 Ah, pois era um salo adorvel. Excelente msica, lindas mulheres, danava-se, 
recitava-se. Iam muitos estrangeiros.
 Deliciosas teras-feiras  disse com beatitude, cerrando os olhos.
Sob a influncia daquela intimidade e do jantar, Artur aclimatava-se; tinha mesmo 
perguntado, acentuando o seu desembarao, a Carvalhosa:
 V. Ex no voltou a Coimbra?
 O forado livre no revisita as gals  respondeu Carvalhosa secamente.
Artur procurou inutilmente uma frase pitoresca: no a achou, e, calado, comeou a 
escutar aqui, alm, curiosamente. As conversas interessavam-no prodigiosamente e nas 
palavras triviais, novas para ele, parecia entrever, sob as amplificaes da imaginao, 
revelaes de existncias superiores. Uma discusso, ao alto da mesa, sobre a 
dissoluo da Cmara, cheia de nomes de ministros e de citaes de oradores, deu-lhe a 
admirao da Vida Poltica, grandiosa pelo domnio dos fortes, pitoresca pelas emoes 
da intriga e enobrecida pelos idealismos da eloquncia. Sujeitos que falavam 
pesadamente de Bancos, letras, fundos, corretagens, interessaram-no pela Vida 
Financeira, onde se revolvem milhes e o gnio dos Nucingens, como em Balzac, cria 
tesouros. Ao seu lado, uma questo sobre S. Carlos excitou o seu amor do teatro. 
Meirinho recomeara a elogiar as teras-feiras de D. Joana Coutinho e a vida social 
aparecia-lhe, com todo o romance dos amores aristocrticos, acompanhada de rias ao 
piano, em salas espelhadas, onde se movia, graciosamente, a gentil senhora do vestido 
de xadrez!
Que pouco tinha pensado nela, naquele primeiro deslumbramento que lhe dera 
Lisboa! Decerto, muitos daqueles homens a conheciam, mas eram quase todos de meia-
idade, de figuras fatigadas, com interesses positivos, e no sentia cimes, na certeza de 
que nenhum a poderia interessar. E de todo aquele cavaco ruidoso se desprendia para 
ele o indefinido conjunto da vida de Lisboa, complexa, intensa, fortemente dramtica  
onde, como sobre um fundo luminoso, se destacava a figura delicada da senhora do ves-
tido de xadrez, que adorava agora, naquela dilatao da sensibilidade que lhe dava a 
excitao do jantar.
Tinha-se servido o caf e uma vozearia erguia-se no fumo alvadio dos charutos. 
Com os cotovelos na mesa, em atitudes pesadas de fartura, sujeitos falavam com 
intimidade; ao fundo da sala, numa altercao spera, um indivduo de lunetas gritava, 
perguntando se o tomavam por tolo; um homem de pele corada, enfartado, arrotava 
tranquilamente; o Padilho queimava conhaque no caf, e o Melchior, excitado, discutia 
com o visconde, com palavras muito cruas, as pernas da Vizenti, a primeira danarina 
de S. Carlos.
Mas Meirinho erguera-se e indo bater no ombro de Melchior:
 Voc quer vir c a baixo ao quarto do Sarrotini? E mais c o amigo!  
acrescentou, dando palmadinhas no ombro de Artur.
 Pronto  exclamou Melchior. E de p, puxando as calas, o charuto flamejante: 
 E daqui para S. Carlos, hem, Artur? Vai dia cheio! chamou o criado:  D a conta a 
este senhor,  Vicente; depressa, hem? Bom jantarzinho. Meirinho!
Artur tambm achara o jantar excelente.
 Melhor que no Espanhol  acudiu Melchior  no  verdade? Voc, Artur, o que 
devia era vir para c, para o hotel. Aqui goza-se!
Meirinho disse com autoridade:
 E para quem se quer relacionar, nada melhor.
Artur j entrevira, com delcia, aquela possibilidade. E descendo para o quarto de 
Sarrotini, o tapete do corredor, o retinir de uma campainha elctrica, um criado 
apressando-se com um tabuleiro onde tilintavam louas, o som distante de um piano, 
iam-no persuadindo tentadoramente. Que interessante seria, viver ali!
 Quem  o Sarrotini?
  o segundo baixo de S. Carlos  disse Melchior.  Grande pndego!
Abriram a porta do quarto, mas Melchior, avistando um sujeito de gaforina 
frisada, que fumava, languidamente estendido no sof, no entrou: tinham de ir a S. 
Carlos, no se podiam demorar.
Junto da porta, o Sarrotini, de jaqueto de veludilho sobre calas cor de alecrim, 
grosso e vermelho, abraou Melchior, ei ilustre periodista; apertou a cinta de 
Meirinho, dilecto amico; deu um shake-hands apaixonado a Artur, falando um 
italiano misturado de espanhol, verboso e jovial.
Artur olhava curiosamente a saleta: vrias pessoas conversavam animadamente, 
bebendo caf; em torno das luzes de um piano aberto, havia uma impondervel nvoa 
de fumo de charutos, e um sujeito de culos de oiro preludiava, com o olhar errante no 
tecto; sobre uma mesa estava uma rabeca, livros de msica enchiam uma poltrona, e de 
p, com gestos vivos, um rapaz de fato claro, falava violentamente: discutia-se Arte  e 
Artur, entusiasmado, ouvia os nomes de Courbet, Corot, Delacroix...
Mas houve um chuta! E um moo plido, de buo claro, aproximou-se do piano, 
ajeitou os cabelos para trs das orelhas com um gesto doce, falou baixo ao pianista de 
culos de oiro, e cerrando os olhos, com a cabea inclinada, os lbios entreabertos, 
cantou. Pela letra, Artur reconheceu ser o dueto de Romeu e Julieta: era uma melodia de 
uma adorao mstica e contemplativa, e a voz do moo plido subia, numa suplicao 
exttica, ao dizer:

Ce n'est pas l'alouette.
Non, ce n'est pas le jour;
C'est le doux rossignol, confident de l'amour...

Artur escutava, encantado: parecia-lhe ver, no ritmo da msica, dois braos 
trmulos elevarem-se dos degraus de uma escada de seda para um balco gtico, de 
onde se debrua uma forma branca, enquanto o rouxinol canta nos macios de um 
antigo jardim...
Mas Melchior, fechando a porta, travou-lhe do brao e foi-o levando pelo 
corredor, ainda deslumbrado daquela soire de Literatura e de Arte, to rapidamente 
entrevista.
 Aquilo  que  passar noites  disse ele.
 O amigo devia vir c para o hotel  disse Meirinho.
Melchior insistia, achava que era melhor. E Artur, com um vago sorriso, antevia 
soires como aquela, cheias de conversas originais, escutando msica, na preguia 
enternecida das digestes ricas.
 Talvez no haja quarto  lembrou, j seduzido.
 Ora essa!  exclamou Meirinho.
E como o guarda-livros passava assobiando, chamou-o logo, levou-o para um 
canto, e, como se tratasse um negcio grave, falou-lhe com animao: era um hspede a 
mais; ele, o que queria, era que o hotel prosperasse, hem! E esperava que 
compreendessem que ele fazia tudo para chamar hspedes...
O guarda-livros tinha justamente, no terceiro andar, um quartinho a calhar. E 
Melchior que se deleitava  ideia de vir jantar repetidamente com Artur, exclamou logo 
que o deviam ir ver j, para dar o seu parecer....
Era um quarto com estofos de repes azul e janela para a rua; a moblia, que  
noite,  luz do gs, lhe parecia ter um tom rico, tentava-o. Mas a despesa! No entanto, 
pensava que era indispensvel viver ali, para as suas relaes literrias... Era mesmo 
hbil; depois, um artista devia estudar a vida, no nas suas nobrezas, mas no seu luxo.
 Tem por vizinha a Baretti, a segunda dama  disse o guarda-livros, piscando o 
olho.
 Rica mulher, caramba!  fez Melchior.
E Meirinho, tocando maliciosamente no brao de Artur:
  o que lhe convm!
E aquela proximidade de uma cantora bonita, decidiu Artur definitivamente.
Meirinho que voltava para o quarto de Sarrotini, foi-os acompanhar at  escada. 
Parecia mais afeioado a Artur desde que Melchior lhe dissera rapidamente que o 
rapaz herdara um fortuno do padrinho. Apertou-lhe extremosamente a mo, dizendo:
 E  mesa hei-de-lhe guardar um lugarzinho ao p de mim. E para o que quiser, o 
meu forte  obsequiar... Hei-de lev-lo  casa de D. Joana Coutinho.
Artur fez-se vermelho de prazer. J se l via, numa soire, num recanto menos 
alumiado, murmurando palavras poticas junto ao rosto d'Ela, da senhora do vestido de 
xadrez, que sorria por trs do leque.
 Parece-me boa pessoa este Meirinho  disse ele na rua a Melchior.
O outro rosnou, soltando uma baforada de fumo:
 Espertalho!
Considerava j Artur como seu e a influncia nascente de Meirinho dava-lhe um 
descontentamento azedado.
 Grande espertalho  acrescentou.
E comeou a explicar por que no quisera entrar no quarto do Sarrotini:  que 
estava l a besta do Guerreiro Mendes... Fazia-lhe mal aos nervos aquele animal!
Artur admirou-se: o Guerreiro Mendes? O autor da Margarida, um romance de 
uma paixo to intensa,  Werther?
  uma besta!  resumiu com tdio Melchior, que antes do jantar parecera a 
Artur to cheio de bonomia, e que, agora, sob a aco do Colares e do conhaque, tinha 
nas expresses e nas opinies uma dureza irritada.  A tem voc S. Carlos: chique, 
hem?
Levou-o logo  bilheteira a comprar duas cadeiras do lado do Rei  o diabo do 
Saavedra no largava a cadeira do Sculo! Em baixo, pediu ao porteiro amigo, a 
quem bateu familiarmente no ombro, o binculo do s Mesquita; apagou o charuto meio 
fumado, que guardou a um canto, porque os tempos no estavam para desperdcios e 
tendo cofiado os bigodes  empurrou o batente verde.

Como escreveu, no dia seguinte, ao Rabecaz, Artur ficou deslumbrado com S. 
Carlos: a majestosa arquitectura dos camarotes, a vastido do palco, a soberba tribuna 
real e aquela sociedade elegante, silenciosa, escutando uma divina msica,  realmente, 
amigo Rabecaz, impressionante!
Cantava-se a Africana, e o pano erguera-se para o segundo acto. Sentindo-se 
olhado, ao atravessar para a sua cadeira, Artur, atarantado, com todo o sangue na face, 
ia pisando sujeitos indignados.
 Oh, senhores!  exclamou algum, torcendo-se furioso na cadeira.
Artur, aflito, nem pde pedir perdo, e imvel na sua cadeira, com o chapu nos 
joelhos, o esprito esmagado, pasmava para uma decorao de crcere, onde uma dama 
gorda, cor de cobre, barbaramente ornada, junto a um catre onde um homem dormia, 
balanava, cantando, um leque de plumas. A sua voz clida, revibrante nos agudos, 
lasciva nas modulaes doces, deu-lhe um arrepio de emoo.
  a Sassi  disse-lhe baixo Melchior.  Que lhe parece o teatro?
Artur fez apenas um movimento admirativo com as sobrancelhas. Como Melchior 
disse depois, durante todo o acto esteve embatocado. Os personagens, com os seus 
gestos melodramticos, pareciam-lhe mover-se vagamente na instrumentao 
substancial e macia, como numa atmosfera sonora de sonho. Olhava a decorao, as 
passadas selvagens de Nelusko, as duas colunas do proscnio, tocadas de alto a baixo de 
um vivo de luz, os camarotes que lhe pareciam muito distantes, a palidez dos rostos sob 
a luz do gs, e sentia-se envolvido numa harmonia magnfica e incompreensvel, em que 
por vezes seguia, durante um momento, melodias delicadas que o tumulto da 
instrumentao bem depressa absorvia. A magnificncia orquestral, junto  riqueza 
social que sentia em redor, davam-lhe uma vaga opresso. Quando o pano desceu, 
respirou com alivio.
 Vamos ver o gado!  disse logo Melchior, erguendo-se. Saudou em redor com a 
mo:  Ol, visconde! Viva, amigo Silva!  e depois de examinar rapidamente os 
camarotes, declarou com desdm que no estava ningum decente  e que ia acabar o 
charutinho.
Intimidado pelo sussurro de vozes que se levantara na plateia, Artur no se 
mexeu. Os seus olhos saciavam-se dos detalhes, sofregamente. E da alta disposio dos 
camarotes, de um tom rico e escuro, do lustre com fulguraes de pingentes, pondo na 
tonalidade sombria relevos claros de envernizados brancos e de doirados, da gravidade 
monrquica da tribuna, desdobrando a sua cortina de veludo cor de cereja entre as 
caritides hercleas, dos Reis, das toilettes, das casacas dos homens, desprendia-se 
como que a evidncia da grandeza da Capital e da magnificncia da Monarquia. As 
mulheres, sobretudo, impressionavam-no: na compostura dos seus movimentos, na 
brancura dos seus pescoos, sentia a influncia das genealogias que as enobreciam e dos 
palacetes que habitavam, admirou as luvas de oito botes e as formas dos penteados; 
desejava saber o que diziam, por que sorriam. Estaria Ela? Procurou-a at s torrinhas, 
com o binculo. No a viu  e invadiu-o uma vaga melancolia. O jantar pesava-lhe, o 
calor amolecia-o. Nas filas clareadas de fauteuils, reparava agora em homens, de cabelo 
lustroso e bem cortado, com peitilhos resplandecentes, em atitudes lnguidas. O seu fato 
coado separava-o daquela sociedade bem vestida, com ruge-ruge de sedas e gravatas 
brancas: havia em todas aquelas pessoas a afinidade de uma frequentao permanente, 
conheciam-se, sabiam, uns dos outros, os sentimentos, as fortunas, o timbre da voz, os 
parentescos; sentia-se vagamente um intruso: desejou ser titular  e que o Vitorino lhe 
mandasse depressa a casaca! Depois, pressentia naquela sociedade, instintivamente, 
uma indiferena pela Arte, pela Poesia, pelo Gnio; havia nas maneiras alguma coisa de 
fictcio, incompatvel com a preocupao do Ideal, nas conversas, o que quer que fosse 
de ligeiro, que denunciava a trivialidade das ideias. Parecia-lhe agora que o seu livro, os 
Esmaltes e Jias, todas as suas poesias, o seu drama, no seriam bastantes para 
interessar aquelas indiferenas  como, ai! o seu dinheiro era insuficiente para igualar 
aquelas elegncias. Veio-lhe uma vaga melancolia, pelas excelncias do seu corao 
desconhecido e as cintilaes do seu talento indito. E triste, com a desconsolao de se 
sentir mal vestido, de ser obscuro, tmido, olhava para o brao do rabeco, apoiado  
grade da orquestra, pensando no seu quarto em Oliveira de Azemis, nas noites 
vibrantes de trabalho, em tantas aspiraes de ento, que a presena de uma burguesia 
rica, prspera e aparentada, lhe fazia agora parecer irrealizveis. E lembrava-se de 
Oliveira de Azemis, como de um elemento natural em que no contrastava.
Mas os msicos, saindo debaixo do palco, instalavam-se e afinaes de rabeca 
comam na orquestra: o pblico voltava e o pano, erguendo-se devagar, descobriu um 
galeo arrogante e decorativo.
Soldados com mosquetes passeavam no castelo da proa. Num cubculo baixo, um 
fidalgo, de gibo de veludo e gorro de plumas, media com um compasso, sobre um 
mapa; e cercada de comparsas de faces avelhentadas e gastas, uma dama gorda cantava, 
sentada numa postura de sarau.
A desafinao dos coros irritava os diletantes: havia ohs! de escrnio. Que 
escndalo! rosnava-se grossamente, com indignao. Ih! Jesus!, gania-se com 
arrepios. Melchior, afectando um horror de crtico, tapava os ouvidos. A dama corava, 
empalidecia, via-se-lhe um suor aflito  e no tirava de sobre o seio bojudo a mozinha 
papuda. Mas uma sineta deu um toque melanclico, e soldados e marinheiros 
comearam, num canto largo, a orar a S. Domingos. Ento, taces patearam; um sujeito, 
ao lado, soltou uma brutalidade irritada. Melchior voltava-se para os lados, acusando o 
ensaiador, a empresa, o Governo, e acabou por se enterrar na cadeira, numa resignao 
sombria.
 Isto nem  S. Carlos, nem  nada!  uma choldra!
No entanto, Nelusko, aparecendo junto ao mastro,  proa, soltava, numa grande 
atitude, o seu Alerta!

Alerta marinari
Il vento cangia...

Apitos de manobra silvaram e na orquestra passaram os rumores grandiosos de 
um mar desencadeado, que brama sob a cerrao temerosa.
Artur, entusiasmado, achava-se em plena Histria Trgico-Martima. O perodo 
das Descobertas, que s conhecia por fragmentos, sempre tivera para ele uma poesia 
emocionante, e a antiquada estrutura do galeo, as plumas dos fidalgos, o farol 
primitivo no castelo de proa, atirando a primeira luz s guas virginais, davam-lhe 
vises de navegaes hericas: parecia-lhe ver as caravelas do Gama, passando o Cabo; 
sentia a orao dos homens, com um grande medo no corao; ouvia o brado do mar, 
dando em vo nos pene dos; os gritos que passam no ar e so a alma errante dos mortos 
naufragados... e aquelas imaginaes da arte exaltavam-no retrospectivamente pelas 
realidades da histria.
 Magnfico, Melchior!  disse baixo.
O outro acotovelou-o:
 Veja-me agora isto.
Era Nelusko, que, entre a marinhagem apavorada, com gestos temerosos e 
cavidades na voz, cantava a clera do Adamastor. Palmas estalaram, houve gritos de 
bis! O rudo dos aplausos electrizou Artur; invejou a glria dos maestros. Nelusko, com 
o suor luzidio sobre a face acobreada, agradecia, curvado, e a respirao ofegante 
erguia-lhe sobre o peito os colares de contas, barbaramente coloridos.
Mas o tenor, depois, desagradou: um murmrio hostil correu nos fauteuils.  E 
quando, entre tiros de arcabuzes, o pano desceu, Melchior agarrou o chapu:
 Ora sebo para esta Africana! Vamos a uni cigarrinho l fora.
Artur seguiu-o. Estava vagamente fatigado da atmosfera sobrecarregada das 
respiraes, do gs, da admirao, do Colares. Aquela msica forte, ressoando-lhe 
muito perto dos ouvidos, atordoara-o; no encontrara nela a sensao fina que lhe 
davam as melodias que conhecia, da Lcia, da Sonmbula, que lhe espiritualizavam o 
crebro e traziam s suas ideias, na alegria ou na melancolia, um ritmo cantante. E no 
pequeno patamar de pedra, em cima, junto ao bico de gs, fumava calado, ao p de 
Melchior, com um amolecimento de todos os msculos, um vago bocejo geral.
Um sujeito que descia das ordens superiores embrulhando um cigarro, pediu-lhe 
o favor do seu lume. A sua cabeleira, que parecia estopa negra, saa fora da aba do 
chapu; era baixo, seco, com uma face trigueira e rapada de seminarista; usava lunetas 
azuis e a gravata de fusto com pintas brancas caa-lhe, num lao fofo, sobre a 
sobrecasaca estreita, apertada at acima.
Acendeu o cigarro e agradeceu cortesmente.
 Olha que melro!  rosnou Melchior.
 Quem ?
 O Jcome Nazareno, um republicano da scia do Matias, um malandro!
Artur quis v-lo melhor, mas o homem j desaparecera entre a multido escura 
dos chapus altos, que ao fundo dos degraus de pedra se movia num rumor pesado, de 
onde saa uma espessa fumarada de cigarros.
O Melchior, que parecia detest-lo e tem-lo, explicava que era um desses 
meninos que tramavam contra o Rei, contra os fidalgos e que queriam a Comuna.
 Que est voc para a a falar de Comuna, seu Melchior?  disse, parando, um 
indivduo alto, de peito cncavo, nariz afilado, que trazia a gola do palet erguida e 
tossia secamente.
 Ol, Ingls  fez o Melchior  por aqui? Est c a pequena?
O sujeito tossiu, cuspilhou:
 Est l em cima com a Lola.  A sua voz rouca parecia difcil, de respirao 
escassa; os lbios entreabertos, anmicos, mostravam os dentes mal tratados.
 E como vai isso?  perguntou Melchior.
O outro encolheu os ombros, com um jeito triste dos beios.
 Menos Vnus! Menos Vnus!  exclamou Melchior, chalaceando.
 Seu gajo  fez o outro, dando-lhe uma palmadinha no estmago, com um tom 
canalha.
E curvado, tossindo, subiu devagar para os camarotes.
 Est com a Concha  disse logo Melchior  uma beleza, menino, a melhor 
espanhola que tem vindo a Lisboa. Que ele, est aqui, est na cova! Mas a Concha!  E 
muito entusiasmado:
 Vamos a ver se a pescamos!
Entraram. Melchior, de p, explorava as torrinhas com o binculo: queria que 
Artur a visse! Era de endoidecer, uns modos de duquesa, uns olhos, uma cintura!
Mas no a descobriu  e o pano ergueu-se.
No palco, finas arquitecturas ornadas de monstros quimricos e de dolos 
hierticos, entre palmeiras cor de bronze e florescncias sanguneas de cactos, esbatiam-
se numa pulverizao de luz abrasada, como uma nvoa impondervel de oiro faiscante.
Pausadas teorias de sacerdotes com barbas de estopa entravam lentamente, magros 
guerreiros corriam com gestos desengonados, e as bayaderas, as carpideiras, 
formavam um bailado, que ora parecia um rito nupcial, ora um cerimonial funerrio: 
cambraietas esvoaavam misturando o negro e o branco, discos de metal retinham, e a 
instrumentao, o canto, tinham gravidades de santurio e molezas de serralho.
Em redor, com risadinhas, comentavam-se as danarinas: havia exames lbricos 
de pernas e de quadris, e Artur impacientava-se com aquelas relices de luxria, cortando 
sujamente a eloquncia da orquestra.
Escutava, imvel, com a pele arrepiada de admirao, devorando a decorao 
ardente, o girar das bailarinas, e vinham-lhe pensamentos, reminiscncias, 
sentimentalidades vagas, logo dispersas pelas rajadas da instrumentao. Todo o seu 
ser, levado nas massas de harmonia, vibrava das emoes que elas continham; os seus 
ombros vergaram-se quase num movimento de adorao, ao aparecer de Celina, triunfal, 
no seu palk refulgente de pedrarias, sob dossis de plumas. Teve o mesmo xtase que 
Vasco da Gama, ao penetrar num recanto de bosque sagrado, em que os aromas tm 
uma sensualidade venenosa, gorjeios raros erram numa flora flamejante e guas brandas 
gotejam de taas de jaspe; as largas frases de Nelusko encheram-lhe o peito do sopro 
das paixes grandiosas; sentiu, com o dueto, todas as febres de um amor asitico e 
mortal e quando, aos cantos suaves do galeo que se afasta, o pano desceu, ficou como 
que esmagado, com um cansao de alma, piscando os olhos ainda cheios dos 
deslumbramentos da decorao, trmulo de todas as sensaes sobrenaturais que 
percorrera.
Melchior, esse, estava desesperado com o tenor, tinha vontade de lhe dar uma 
desanda... Um sujeito com tons oleosos na pele e um raminho de alecrim no fraque, quis 
aplac-lo: era to bom rapaz, o tenor...
 Eu no lhe vou s ceias, eu no lhe vou s ceias  interrompeu Melchior irritado, 
saindo.
 Olha o asno do Melchior  disse o sujeito olhando em redor, atnito.  Forte 
asno! Que quer ele?
E ia seguindo, ao comprido das cadeiras, com grandes gestos, explicando aos que 
o interrogavam sobre a sua clera:
  o asno do Melchior! Que quer ele? Forte asno!
Artur examinava preguiosamente os camarotes, quando, de repente, na primeira 
ordem  esquerda, a viu, a Ela,  senhora do vestido de xadrez! Que surpresa! O 
binculo tremia-lhe na mo. Estava com outras senhoras, uma delas, de idade, de luneta 
de oiro, e decerto, at a, se conservara no fundo do camarote. Com as costas para o 
palco, voltava o rosto levemente, olhando em baixo a plateia: Artur reparou no seu 
vestido, escuro, cor de vinho; a luz contornava docemente a adorvel redondeza do 
ombro e a manga punha-lhe em redor do cotovelo um fofo de rendas brancas; com a 
mo nua onde reluziam anis, batia no veludo do rebordo, devagar, distraidamente, 
como num teclado de piano. Toda a fadiga, toda a melancolia de Artur desapareceram. 
As coisas ambientes adquiriram um encanto inesperado: uma luz mais viva saa do 
lustre; j se no sentia isolado nem obscuro! Ela decerto se lembraria, repetiria o doce 
olhar da estao de Ovar. Esse olhar, queria atra-lo: fitava-a com intensidade, com 
magnetismo; tinha vontade de bater as palmas, soltar um grito. Empurrou violentamente 
uma cadeira: ao lado um velhote que dormitava, encarou-o, estremunhado, com uns 
olhinhos subitamente arregalados. Sentou-se ento, desesperado. Ela agora falava para o 
fundo do camarote e ele via o seu catogan, onde reluzia alguma coisa de vermelho, flor 
ou enfeite.
Tinham suprimido o dueto das damas  e o pano ergueu-se, mostrando a negra 
mancenilheira, numa praia spera, junto a um mar triste, por uma noite de Lua cheia. As 
rabecas, em unssono, romperam os 16 compassos.
Aquela harmonia, que lhe pareceu sobrenatural, mstica, imobilizou-o: invadia-o 
uma sensao estranha, como se os arcos das rabecas lhe tocassem sobre os nervos. Ela, 
agora, olhava para o palco com o binculo de marfim, e aquela msica, que ora parecia 
a Artur a expresso do vento e do mar numa regio desolada, ora o queixume 
transcendente de uma grande alma ferida, dava-lhe um delrio de amor potico: todo o 
seu ser sensvel se lanava, numa necessidade de adorao, para aquele camarote da 
primeira ordem; desfalecia  esperana de lhe beijar as mos; quereria saber-lhe o 
nome; decidia imortaliz-la num poema e a sua alma estendia-se pelas longas arcadas 
das rabecas, toda desfalecida de paixo e dolorida de saudade.
Celina, entrando lugubremente sob os seus longos crepes, reteve-lhe o olhar um 
momento. Quando se voltou, o camarote estava vazio e um sujeito de casaca, que se 
adiantara, sentou-se no lugar d'Ela, bocejou discretamente e ficou imvel com a cabea 
apoiada ao tabique, catando os plos do bigode...
E Melchior no voltara, e ele no pudera saber quem Ela era!
Todo o encanto do teatro desapareceu e o canto de Celina, a instrumentao, 
pareceram-lhe muito distantes, recuados infinitamente para um fundo vago e luminoso.
Um sujeito tocou-lhe no brao:
 Olhe que o chamam.
Era Melchior que da portinha lhe fazia gestos impacientes. Tinha de ir  redaco, 
estava-se a fazer tarde... Estivera no palco, ao cavaco.
Saram. Os trens punham no largo escuro fileiras de luzes avermelhadas ou 
plidas; grupos recolhiam, onde se destacavam as capas brancas das senhoras. No cu, 
muito negro, havia uma cintilao de estrelas. Melchior assobiava os 16 compassos e 
Artur, ao p, calado, com a gola do palet erguida, ia pensando em coisas vagas que 
faria para revelar o seu talento, conhec-la a Ela, falar-lhe, ser ilustre como Meyerbeer, 
bem-vestido como o visconde. Reminiscncias das melodias do bailado passavam-lhe 
no crebro, via a Lua cheia luzir sobre o mar triste, por trs da mancenilheira...
 Ento, gostou-se, hem?  perguntou Melchior.
 Se lhe parece!
Na saleta da redaco, sob o bico de gs, um sujeito de barba grisalha revia as 
provas. Ergueu os culos para a testa, fixou Artur, rosnou um ol e depois de tomar uma 
pitada:
 H mais alguma coisa a mandar, Melchior?
Melchior pareceu ter uma ideia, olhou Artur, sorriu, e sentando-se com o chapu 
para a nuca, molhou a pena, meditou com os cotovelos na mesa, os olhos cerrados, 
cofiando o bigode com a mo gorda e trmula: escreveu, riscou, entrelinhou e por fim, 
depois de pigarrear:
 Ora oia l, Artur.  Leu:  Chegou  Capital e acha-se hospedado no Hotel 
Universal, o nosso amigo e esperanoso poeta Artur Corvelo  Artur fez-se escarlate  
que brevemente vai publicar o seu formoso livro Esmaltes e Jias. Alguns dos trechos 
que ouvimos faro por certo sensao.  Hem?
Artur, com a voz tomada, bateu apenas no ombro de Melchior repetidamente:
 Obrigado, obrigado!
O revisor olhava-o pelo canto do olho, cinicamente.
Da a pouco, na tipia que batia a trote para o Espanhol, Artur resumia o seu dia. 
Fora maravilhoso: fizera fato, jantara no Universal, conhecera deputados, o baixo 
Sarrotini, o bom Meirinho, vira-a  a Ela  to linda no luxo da pera, entre as 
harmonias divinas da Africana, e finalmente, pela local, entrava na celebridade! Sentia-
se agora em Lisboa como no seu elemento natural; a vida ser-lhe-ia fcil, sem abalos, 
luminosa: os Esmaltes e Jias torn-lo-iam ilustre; pelo Meirinho conhec-la-ia, a Ela  
amar-se-iam; teria outros dias divinos, com bons jantares, uma pera escutada de casaca 
nas cadeiras, e Ela, do camarote, sorrir-lhe-ia de um modo disfarado e lnguido. A 
tipia parou.
 Quanto ?
O cocheiro saltou da almofada:
 O que V. Ex quiser.
Artur, num movimento de generosidade, de reconhecimento supersticioso ao 
destino, deu-lhe dez tostes.
 Muito agradecido a V. Ex, Sr. Marqus!
No seu quarto, foi direito ao espelho: achou-se bonito, com um ar prspero. 
Espreguiou-se, numa voluptuosa confiana na vida. E da a pouco, sonhava que 
passeava com Ela, num bosque sagrado, junto de um templo ndio: dos tamarindos em 
flor vinha o cheiro forte do plo fulvo das feras; um faquir, nu, descarnado, anqui-
losado, contemplava filosoficamente o umbigo e tigres familiares rondavam, com a 
lngua pendente e vermelha, como pedaos de sangue coalhado.



IV

Artur, ao outro dia, instalou-se no Hotel Universal. Arruinou a sua escassa roupa 
branca na cmoda, disps sobre a mesa, coberta de um velho pano de pelcia, cadernos 
de papel branco e penas novas, e, junto da janela aberta, enterrado numa poltrona de 
molas rangentes, saturou-se da sensao de luxo que lhe davam os repes azuis, o alto 
espelho, os cortinados da cama, e o Chiado, em baixo, com o seu movimento de rua 
rica: aqueles confortos traziam-lhe como que um enobrecimento de toda a sua 
personalidade.
Sentia, contudo, um remorso indefinido, pensando na pobreza em que as tias 
viviam; mas, que diabo, no era com o dinheiro delas que ele se regalava de bons 
jantares e pagava aquele quarto caro. E depois, esse luxo era-lhe necessrio para a sua 
profisso literria, como um meio de reclamo e de estudo social.
Sentia-se, todavia, um pouco s. Meirinho fora para o Porto, Melchior no 
aparecia e Artur no tinha voltado  redaco, porque, julgando-se conhecido desde que 
fora publicada a local do Sculo, no queria mostrar-se sem o seu fato novo. Ocupou-se 
ento em completar os Esmaltes e Jias: tinha um plano de poesias novas, suscitado 
pela impresso que lhe fizera Lisboa  a Nova Babilnia, e o Galeo, em que queria 
versificar os vagos entusiasmos do tempo das Viagens e das Descobertas, inspirados 
pela msica da Africana. Mas estava sem veia. As comidas davam-lhe um lnguido 
bem-estar enfartado que lhe entorpecia a imaginao, e o rumor do Chiado, a vaga 
sussurrao da cidade, traziam-no numa distraco enleada. Com a janela aberta ao dia 
esplndido de um Inverno luminoso, fumava, cismando em passeios, soires a que 
assistiria, futuras crticas dos Esmaltes e Jias, aplausos de teatro, gravatas que 
ambicionava  e com preguia de trabalhar no seu livro, ficava-se a contemplar, numa 
vaga e distante fulgurao, a celebridade que ele lhe traria.
Por esse tempo recebeu uma carta do Rabecaz que o exaltou: a notcia do Sculo  
de que ele remetera para Oliveira seis exemplares  tinha feito sensao na vila. Ao que 
parecia, aqueles mesmos que nunca lhe tinham falado, afirmavam agora ter-lhe sempre 
compreendido o gnio e antevisto os altos destinos. O Vasco da botica lia a local a todos 
os fregueses para que soubessem que espcie de homem era o seu ajudante. O 
Carneiro gabara-se na Assembleia de que lhe administrava a fortuna. E eu  conclua 
o Rabecaz  que conheo Lisboa e a rapaziada, todos os dias digo bem alto a esta cam-
bada, que voc, e  a minha convico, vai a ministro!
Como se aquela glria parcial de Oliveira tivesse saciado por algum tempo a sua 
gula de celebridade, abandonou todo o trabalho. O Vitorino, muito instado, urgido, 
mandara o fato; tinha comprado uma boquilha de espuma que representava uma cabea 
de cocote, e, como um cavaleiro impaciente de usar as suas armas, envergou a 
sobrecasaca nova, e comeou a gozar a rua. A sua vida tinha agora grandes douras: o 
seu melhor momento era, depois do almoo, quando se encostava  janela, a fumar o seu 
charuto: os dias estavam muito claros, com um p doirado de luz; no Chiado, os preges 
cantavam, os trens rolavam, e ele, no indolente entorpecimento da omeleta e do bife, 
olhava do alto, com a pupila hmida de bem-estar, a vida em baixo reinar, mover-se, e 
atirava para o cu luminoso baforadas brancas do charuto caro. Depois, vestia-se com 
cuidado, encharcava-se de gua-de-colnia, e, de luvas claras, ficava um momento  
porta do hotel, saboreando a entrada larga, o guarda-porto decorativo; em seguida, ia  
Casa Havanesa florir-se com uma camlia, e de boquilha em riste, fazendo vergar a 
badine, descia o Chiado, errava pela Baixa, dava uma volta no Aterro, numa moleza de 
vadiagem, procurando encontr-la, a Ela. Mas todas as mulheres novas lha faziam 
esquecer, voltar-se, com a esperana indefinida de que ia ser amado por esta ou por 
aquela, impressionadas pela sua figura, pela sua sobrecasaca azul e pela local do Sculo. 
Dava um olhar distrado s vitrinas dos livreiros  sentindo sempre, por um momento, o 
desejo agudo de produzir, ver-se impresso: voltavam-lhe ento
vagos desejos de celebridade literria, mas o rodar de uma carruagem de libr, os 
cortes de seda numa montra, dispersavam-lhos subitamente  e abandonava-se s 
ambies indefinidas que o agitavam agora, de frequentaes ilustres, amores fidalgos, 
assinatura em S. Carlos e uma carruagem da Companhia. Depois, vinha de novo esta-
cionar  porta da Casa Havanesa; e sentia uni deleite indefinido em estar ali, imvel, 
vendo em redor grupos de deputados, de janotas, de empregados, dilatando-se s 
emanaes intelectuais e sociais que lhe pareciam sair das conversaes, dos perfis, das 
atitudes. Era sempre com uma satisfao vaidosa que, ao ouvir, s seis horas, a sineta do 
jantar, ia descendo para o hotel: j a tarde caa e aquele crepsculo de cidade,  hora que 
precede o gs, tinha para ele um tom rico, superior, interessante. Da escada do hotel at 
 mesa saboreava triunfozinhos  o cumprimento do guarda-livros, o pisar do tapete do 
corredor, o lustre aceso, os ramos de flores no meio das mesas, o sorriso polido do 
Padilho, o adeusinho com dois dedos do Carvalhosa, o respeito dos criados de gravata 
branca. Comia com um apetite provinciano e os nomes franceses dos pratos, 
aumentavam-lhes o sabor.
Depois, farto, pesado, com uma vaga voluptuosidade, descia ao Martinho, 
olhando intensamente as mulheres que passavam, recebendo do movimento do Chiado 
uma vaga excitao.
No caf, encontrava geralmente solitrio, diante da sua chvena, o sujeito de 
cabeleira semelhante a estopa negra, o Jcome Nazareno  o malandro, como dizia 
Melchior. Artur olhava-o com insistncia, imaginando-o chefe de sociedades secretas, 
temido do Rei, vigiado pela polcia; aquele homem, que julgava ser uma fora social, 
cuja vida, decerto, se movia num perigo dramtico incessante, atraa-o com uma 
simpatia crescente. Ia sentar-se a alguma mesa prxima e espreitava-o por trs de um 
jornal desdobrado. A sua atitude isolada, fria, muda, dava-lhe a ideia de planos secretos, 
de preparativos de revolta, que punham na vida de Lisboa um lado pitoresco, parisiense, 
de insurreio e de tragdia.
 noite, ia a S. Carlos. Tinha comprado um binculo, e para gozar o cumprimento 
dos porteiros que j comeavam a conhec-lo, tomava sempre o mesmo lugar, do lado 
do Rei. De resto, encontrava s vezes o Saavedra e gostava de lhe apertar a mo 
publicamente. Depois, procurava-a, a Ela, pelos camarotes. No a tornara a ver, mas o 
canto, as decoraes, consolavam-no; todas as mulheres o impressionavam e amaria 
qualquer outra de quem recebesse um olhar como aquele que recebera da senhora do 
vestido de xadrez, na estao de Ovar; s vezes, acontecia que alguma senhora, num 
camarote prximo, atrada pelo seu binculo insistente, reparava nele, fixando-o um 
momento com curiosidade:
Artur exaltava-se logo, entrevendo encontros providenciais, uma paixo 
dramtica, lgrimas, poemas; depois, no pensava mais nisso: ela no tornava a olhar  
e ele refugiava-se de novo na preocupao da sua desconhecida, como se o amor fosse 
um complemento to necessrio  frequentao da pera, como a casaca ou a flor na 
lapela.
Quando entrava,  noite, no seu quarto, vinha-lhe uma tristeza mole: a msica, as 
luzes, a presena das senhoras, excitavam-lhe os nervos; o rolar dos trens, as janelas 
alumiadas do restaurante Silva, davam-lhe ideias de ceias, de rendez-vous nocturnos, e 
desconsolava-se da sua vida estril, desejando amores fidalgos e orgias sonoras. Se 
tivesse um ttulo! Se ao menos fosse camarista do Rei! E passeava pelo quarto, de 
casaca, retardando o momento de a despir, como se ela representasse a encarnao da 
vida social que a cativava.

Certa manh, descendo tarde para o almoo, encontrou na sala de jantar o 
Meirinho, que de madrugada chegara do Porto. Viram-se com jbilo. Que tinha ele 
feito, o amigo Artur? Tinha visto o magano do Melchior? Tinha-se divertido?
Artur queixou-se vagamente de ter estado um bocado s...
 Ah, mas agora estou eu!  exclamou Meirinho afectuosamente. Pareceu reparar 
com satisfao na toilette mais correcta de Artur. Afirmou-lhe que estava um janota  
e julgando-o, decerto, bastante bem-vestido para se relacionar, aconselhou-lhe que se 
fizesse scio do Grmio. E se ele quisesse levava-o a casa de D. Joana Coutinho! Ela 
teria muito gosto!
Artur fez-se rubro de alegria. E reconhecido, interessou-se pela jornada de 
Meirinho. Muito fatigado, decerto?...
 Derreado, amigo  disse Meirinho lamentosamente. Suspirou:  J no estou 
para estes excessos! J no estou!  Ficou um momento a olhar a parede, como se ali 
visse, num desenho claro, a representao das suas antigas foras, e disse, pousando 
delicadamente o talher:  Pois olhe que fui forte, menino!
Contou, ento, proezas de vitalidade, que personagens ilustres tinham admirado: 
andar cinco dias de caminho-de-ferro, passar trs noites em claro... E com um risinho 
lbrico:
 E pior! pior!
Descreveu faanhas amorosas... Ah, bons tempos!
 Uma sombra do que fui, meu caro senhor!
 E com um tom mais grave:  Em todo o caso, para prestar servio a um amigo, 
ainda sou homem para andar um dia e uma noite...
Sorveu o fundo do caf, limpou a barba e, erguendo-se, espreguiou-se: mas pediu 
logo desculpa daquele abandono familiar  que enfim, entre amigos, entre patrcios...
 Que eu sou do Porto, sou da provncia...
Riu, sem motivo, com a pele em redor dos olhos muito franzida. Achou a Artur 
melhor cara.
 E o nosso bom Padilho? Belo rapaz, hem? Venha fumar um charutinho c 
acima ao meu quarto...
Estava alojado no segundo andar. O quarto, mais largo, melhor que o de Artur, 
tinha um arranjo minucioso. Havia, metido num vaso, um espanador de penas, com que 
ele mesmo perseguia o p nas frinchas mais cerradas. Entalados no caixilho do espelho, 
tinha todos os cartes-de-visita das pessoas que o visitavam, como a exposio 
herldica das suas relaes, sobre a cmoda, dispostos em semicrculo, em passe-
partouts de marfim, figurava a galeria dos seus entusiasmos:  a Rainha, sentada no 
peitoril de uma janela ornada de hera, a Imperatriz Eugnia, fazendo um rosto digno de 
viva ilustre, Mademoiselle Theo, das Bouffes, com um sinal assassino, quase na ponta 
do seio esquerdo, Pio IX, com o seu sorriso quente de pontfice amvel, Paulo de Kock, 
de pelia, Vtor Emanuel, com a sua face de buldogue herico  e sobre o toucador, uma 
pregadeira bordada a matiz ostentava um rtulo, como um objecto de museu:  
oferecido no meu dia natalcio pela nobre Marquesa de Folhes.
Meirinho tinha-se estendido languidamente na poltrona e olhava com satisfao os 
seus chinelos bordados a missanga. Pela vidraa aberta, uma aragem enfunava os repes 
das bambinelas; defronte, numa janela de peitoril, uma criada sacudia um tapete e os 
rudos da rua tinham uma tonalidade alegre, na manh muito luminosa.
 Como estar o cozinho!  disse Meirinho com um sorriso comovido. Pediu 
licena a Artur para se tornar a espreguiar, e olhando-o, batendo as plpebras:  Est-
me a chegar a soneca. Quem lhe fez a sobrecasaca? est bem boa.
Artur mirou-se no espelho: parecia-lhe boa, hem?
 Muito boa!  E fitando-o gravemente, como numa resoluo profunda:  Mas 
rica obra vou-lhe eu mostrar!
Levantou-se com esforo e foi tirar do guarda-roupa atulhado um palet leve, cor 
de caf, com bandas de seda. Exp-lo  luz da janela, e muito srio:
 Que me diz a esta riqueza?
Artur soprou o fumo do charuto para o lado:
 Muito bonito!
 Hem? Pois posso ceder-lho.
Artur, embaraado, disse:
 No, no...
 Posso ceder-lho! Palavra!  insistiu Meirinho.  E pelo preo, com franqueza! 
Nunca o pus. No me tenho atrevido,  muito claro para a minha idade! Vista-o, vista-o!
Ele mesmo lho enfiou rapidamente, com uma destreza servial de criado fino, 
assentou-lho nas costas, esticou-o  e levando-o diante de um espelho:
 Parece um prncipe! Hem, que chique? Foi feito para si, com certeza! Fique com 
ele, com franqueza... Cinco libras.  de graa.  de Paris, de um grande 
estabelecimento. Aqui no lho faziam.
Artur, tentado pelo palet e para condescender com o Meirinho, aceitava, corando, 
quando ele, com um gesto da mo espalmada:
 Perdo, podemos fazer outra coisa.
Foi  cmoda e trouxe solenemente uma pequena caixa de marroquim verde; e 
com uma lentido grave:
 Meu caro senhor, vai ver uma preciosidade!
Era um par de pistolas, muito reluzentes, num fundo de veludilho preto.
 Hem? Um primor.
Fez jogar os fechos, colocou-se em atitude de duelo, depois em posio de 
suicdio.  Que era para rir, ele no se queria matar: o homem que atentava contra a 
prpria vida, era um ateu! J ouvira essa opinio a pessoas muito instrudas
 era um ateu! Depois, fez pontaria aqui, alm; explicou a justeza do tiro... 
Nenhum rapaz elegante podia estar sem um par de pistolas. Em Lisboa era mesmo 
malvisto! Dava chique num toucador. O conde de Lambertini, o Alonso, Paulo de 
Cassagnac, Espeleta, todos os grandes atiradores de Paris tinham daquelas pistolas! O 
preo era prodigioso: cinco libras! Talvez no acreditasse, bem lhe via nos olhos que 
no acreditava. Pois era verdade, e a coisa explicava-se...
Mas no a explicou: ps-lhe a caixa na mo, dizendo:
 No falemos mais nisso. O palet, o par de pistolas  dez libras. Que achado, 
hem? Mas enfim, fomos companheiros de viagem, vivemos no mesmo hotel, somos 
patrcios... Ora a est!
Artur, corando, disse que no tinha ali no bolso...
 Tolice!  interrompeu Meirinho, com um grande gesto.  Logo, amanh, quando 
quiser...
Espreguiou-se: positivamente ia fazer a soneca, que a viagem fora maadora. Ah, 
tinha-se lembrado dele...
 Quando ns trouxemos o cozinho, porque o amigo ajudou-me: eu disse-o  Sr 
Marquesa de Folhes.  Sorriu na sua bela barba clara.  Como estar ele, o amor!  
Bocejou enormemente:  Pois positivamente vou  soneca.
E Artur, saindo com o palet no brao e a caixa de pistolas na mo, ouviu-o ainda 
do corredor cantarolando melancolicamente:

Si tu n'avais rien a me dire
Pourquoi venir auprs de moi!...

Aquela despesa inesperada contrariou Artur. J por vezes lhe tinham vindo 
inquietaes de dinheiro... As libras iam-se, iam-se! Estava em Lisboa havia quinze dias 
e j gastara cinquenta libras! Em qu, Santo Deus? Ps-se a escrever as despesas que 
recordava  o fato, o chapu, a boquilha! Mas qu! faltavam dezoito, vinte libras talvez. 
Aterrou-se, quis recordar quantas cadeiras em S. Carlos, quantas luvas, quantas tipias... 
Confundiu-se, atirou a pena, impaciente, irritado contra a brutal evidncia dos nmeros. 
Decidiu-se, ento, a uma economia cautelosa...
Mas apenas na rua, sentia-se logo fraco, sem resistncia contra as tentaezinhas, 
as pequenas vaidades: comprava mais um par de luvas, tomava em S. Carlos uma 
cadeira, em lugar de uma geral, decidindo sempre que seria a ltima vez. Desde 
que fora com Melchior ao Mata comer ostras, tomara o hbito daquela ceia, e para no 
perder a considerao do criado, apesar dos seus remorsos bebia um Sauterne caro e 
dava dois tostes de gorjeta. Justificava-se vagamente, pensando que a publicao dos 
Esmaltes e Jias, a representao dos Amores de Poeta, encheriam de novo os 
cartuchinhos de libras que tinha no fundo do ba, alguns j com o papel vazio e 
amarrotado.
A conta do hotel que lhe foi apresentada por esses dias, decidiu-o a ir falar com 
Melchior para a impresso imediata do volume. Queria-se mesmo mal por aqueles 
remansos ociosos, gastos na rua: o drama, representado, dar-lhe-ia todas as noites seis 
ou sete libras e via j o seu retrato vendido nas lojas, os folhetins cheios da sua 
biografia. J quela hora poderia ter os seus recursos regularizados, ser conhecido d'Ela! 
E numa sbita impacincia, foi  redaco do Sculo.
No comeo da Rua do Correio, porm, encontrou Melchior. Vinha com um 
indivduo baixo e cheio, de barba preta, fina, a carne mole e baa, as plpebras 
inflamadas; a fita do chapu era gordurosa e o colarinho parecia enxovalhado de roar 
no pescoo gordinho; sobre o peito do jaqueto abotoado, pendia um pince-nez enorme 
de vidros defumados, preso por uma larga fita de moir. Era o poeta Roma, autor 
estimado dos Idlios e Devaneios. Teve apenas para Artur um movimento seco de 
cabea. E quando Melchior lhe disse que o amigo Artur estivera em Coimbra, teve um 
sorrisinho franzido, um pouco fungado, e em toda a sua pessoa rolia uma reserva mole. 
Parecia constipado e de vez em quando ajeitava as calas para cima, com um gesto 
torpe.
 Ideias muito exaltadas c o amigo!  disse Melchior, batendo no ombro de 
Artur.
 Esperemos que no nos venha fuzilar!  acudiu o Roma.
Quando falava, torcia ligeiramente a boca.
Artur fez-se escarlate. E constrangido pelo aspecto do Roma, disse a Melchior 
que ia ali ao Correio, perguntando quando se poderiam encontrar?
 Homem, no se incomode, vou jantar com voc. s seis, hem?
Artur sentiu o Roma dar uma risadinha, ao travar o brao de Melchior. Voltou-se 
e o poeta, pelas costas, pareceu-lhe mais odioso ainda, com os quadris gordos, as calas 
esfiadas atrs, a cabeleira seca, cobrindo um cachao espesso.

Melchior foi pontual, e logo da porta, deitando o chapu para a nuca:
 Diga c. Voc teve alguma coisa com o Roma?
 No... Nada. Era a primeira vez que o via!
 Pareceu-me  disse Melchior. E acrescentou, com palavras vagas, que a 
rapaziada devia ser unida. Questes literrias no serviam para nada... E atirando-se 
para a poltrona:  Ento que me queria voc dizer:
Artur explicou: desejava fazer imprimir os Esmaltes e Jias.
Segundo Melchior, nada mais fcil: o Gonalves, o revisor, o das barbas, um 
espertalho, levava-os aos Castros, que lhe faziam um volume catita; depois, o 
Gonalves se encarregaria de o pr nos livreiros  comisso. L em editor nem pensar. 
Um editor para um livro de poesias  era mais fcil achar um diamante no Chiado. Que 
se fiasse nele!
Artur concordou, e falou dos Amores de Poeta: desejava fazer uma leitura a um 
director de teatro, O melhor parecia-lhe o D. Maria...
Melchior, fazendo beios grossos, cofiava o bigode, calado.
 Isso  mais srio  murmurou por fim.
Artur olhava-o quase ansiosamente.
  mais srio  repetiu o outro, com um bamboleamento grave da cabea.
Mas a sineta do jantar tocou, e Melchior ergueu-se de um salto:  estava a cair de 
fome! E lavando ruidosamente as mos:
 Havemos de pensar nisso. Isso  mais srio!
Por timidez Artur no insistiu, e mesmo, tirando-lhe a escova das mos, escovou-
lhe nas costas o jaqueto claro.
A extremidade da mesa, junto  porta, estava deserta: sentaram-se ali, e logo 
depois Meirinho apareceu, esfregando as mos, jovial, refeito pela soneca; da a pouco 
entrou o Padilho, grave, e, como disse Melchior, fizeram uma panelinha catita.
Artur, no centro, dilatava-se de prazer. Logo depois da sopa, que era uma m 
pure de petits pois, e a propsito da nomenclatura francesa dos menus, Meirinho 
contou anedotas de Paris: era muito bonapartista. Segundo ele, depois do Imprio, a 
Frana decaa a olhos vistos, Paris j no era Paris. Era tambm a opinio do Padilho, 
que tinha ideias catlicas e o amor da aristocracia. Lembrando o Imprio, Meirinho 
contou uma histria, ligeiramente obscena, da Princesa Matilde, que era de resto uma 
excelente senhora. Vieram anedotas sujas: Melchior disse a do padre surpreendido pelo 
marido, Meirinho acudiu com a do padeiro e o Padilho, com a sua bela face plida, 
contou, imitando as vozes, a da inglesa e do gendarme. A cada trecho mais torpe, 
torciam-se de hilaridade: s vezes ficavam sobre os pratos, fungando ainda um 
momento do sabor da indecncia. Aquilo punha ali um canto privilegiado de alegria 
chula, e sujeitos graves, no fundo da mesa, mastigando, olhavam com inveja aquele 
grupo divertido, todo prspero de riso e de chalaa. Um indivduo de culos reclamou 
mesmo, do topo da mesa, que contassem alto.
 Isto  c para ns  gritou Meirinho  isto  c para a panelinha!
Artur recostou-se com satisfao, feliz de ser da panelinha. Ria 
exageradamente: contou tambm uma porcaria e ficou lisonjeado da gargalhada do 
Meirinho, do riso solene do Padilho. Acharam-no engraado. Ento Meirinho lembrou 
que ele devia pagar a patente, com uma garrafinha de Champagne, mas acrescentou 
logo, batendo-lhe na perna, que estava a brincar, que era chalaa. Artur porm, insistia  
queria pagar a patente  e Meirinho, imediatamente, pediu uma garrafa de Cliquot. Foi 
um momento muito cordial de simpatia expansiva.
 Voc calha-me, Artur  dizia-lhe Melehior; e como Meirinho e Padilho 
falavam de relaes, de soires:  Sabe voc o que me parece?  que antes de levar o 
drama ao D. Maria, voc devia conhecer a rapaziada.
Mas como? Ele no podia ir em romaria, pelas casas dos poetas, dos folhetinistas, 
apertar mos, travar amizades!...
 Tem-me estado a lembrar  disse Melchior, pondo o cotovelo na mesa, falando-
lhe muito intimamente   necessrio apanh-los juntos. Sabe como? Num jantarinho.
E muito prolixamente explicou que os literatos eram uns esquisitos. Necessitavam 
de consideraes. No havia como um jantar:  Voc convida os principais, e antes da 
sopa, zs, l-lhes as principais passagens do drama. Ao outro dia a imprensa fala, a 
coisa chega aos ouvidos dos empresrios, j prevenidos: e como o drama  bom, traz! 
Logo em seguida, distribuiozinha dos papis, etc., etc...
Artur, radiante, via-se j no palco, cercado de actrizes lindas, distribuindo 
criaes!
 E depois, h o prazer do jantar  acrescentava Melchior.  Veja voc o que nos 
temos divertido hoje. E ento estando a rapaziada! So anedotas, chalaas, sades, uma 
pndega imperial. Que diabo, so oito ou dez libras!
Artur encolheu desdenhosamente os ombros.
 Pois no lhe parece, Meirinho?
Meirinho, esclarecido, concordou com entusiasmo. Era como se fazia em Paris. 
Era chic, era de gentleman. Podia-se arranjar um jantarinho delicioso. Era deixar a coisa 
com ele...
Artur calava-se. Via-se  cabeceira de uma mesa resplandecente e os literatos 
erguendo para ele, num toast frentico, os copos esguios do Champagne!
 H uma dificuldade  disse Melchior.   que aqui o amigo no conhece 
ningum e no pode convidar... Convidar quem? Se ele no conhece ningum. A  que 
est!
Meirinho reflectiu, passando a mo pela barba.
  contra a etiqueta  murmurou.
Padilho, consultado, afirmou que era inteiramente fora dos hbitos.
  o diabo!  rosnou Melchior.
E calados, um instante, no embarao daquela dificuldade, iam mastigando o 
pudim.
De repente Melchior bateu na testa. Uma ideia! O meio era convidar ele! Ele 
conhecia toda a rapaziada, convidava, apresentava Artur, que era o heri da festa, lia o 
seu drama, etc... Hem?  E acrescentou baixo:
 Voc, j se sabe, paga o jantar; eu convido, e zs! Hem? Catita, no?
Meirinho aprovou: era o melhor! E muito juntos, cochicharam, combinando a 
festa.
 Que diabo esto vocs para a a conspirar?
 perguntou o sujeito de culos, que decerto se aborrecia no topo da mesa e que 
aquela animao ntima, limitada aos da panelinha, irritava.
 Nada! Depois se ver!  disse Melchior.
Meirinho, muito interessado, tinha agarrado na manga de Artur:
 Uma coisa elegante  dizia  duas sopas, hors-d'ceuvres, duas entradas, assado, 
caa, entremets, um jantarinho para quinze libras...
Artur assustou-se com o preo... Mas os aplausos! A publicidade! Disse mesmo, 
para parecer largo:
 Sim, quinze ou dezasseis libras...
Meirinho chegou-se-lhe ao ouvido:
  necessrio convidar o Padilho, homem da sociedade.
 E o Saavedra  acrescentou Melchior, do outro lado  pessoa de influncia.
 Com o menu impresso  lembrou Meirinho.
 Para ir para os jornais  acudiu Melchior. E esfregou as mos com grande 
jbilo.
 O jantarinho de casaca  disse Meirinho. Melchior que tinha a casaca no prego, 
escandalizou-se: isso estragava tudo! Era um jantar de rapazes, sem espalhafato. Nada 
de poses!
Esboaram a lista dos convidados. Naturalmente os quatro, a panelinha. Depois, 
Meirinho lembrou pessoas to inteis como o velho D. Frederico. Cada um queria trazer 
o seu ntimo. Enfim, Melchior, conciliador, disse:
 Voc  quem dirige o jantar, Meirinho, mas eu sou quem convida. Eu  que sei 
que rapaziada se precisa. Diviso de trabalho! Cada um na sua repartio!
 H-de ter um jantarinho falado  afirmou Meirinho.
 E uma sociedade!...  disse Melchior. E deu um assobio admirativo.
Deslumbravam Artur. Iam aperfeioando o plano primitivo: alm da leitura, 
poderia haver msica; seria necessrio convidar o Sarrotini; para fazer um brinde  
imprensa, convida-se o Carvalhosa! E Artur via elevar-se pouco a pouco aquela festa, 
como um grande trofu que se orna. Melchior acabou por afirmar que a coisa havia de 
dar brado no pas!
E combinaram com o guarda-livros, que o jantar seria na segunda-feira, s seis 
horas.

Quando Artur e Melchior entraram no salo reservado, para ver a mesa, 
Meirinho, atarefado, dispunha ele mesmo na abertura dos guardanapos raminhos de 
violetas, com botes de camlia.
A luz abundante do lustre e das serpentinas, os grupos de copos, as lminas das 
facas tinham uma faiscao alegre, atraente, sobre o linho branco da toalha. No pesado 
aparador de mogno, diante de duas filas escuras de garrafas, estavam dispostos os pratos 
de ostras. Havia um cheiro de creme queimado, em que errava subtilmente um fiozinho 
de limo. As duas velas do piano estavam acesas, porque Sarrotini prometera uma ria.
Melchior, entusiasmado, ps-se diante de Meirinho, batendo devagarinho as 
palmas, com a face banhada num largo sorriso:
 Bravo! Bravo! Bravo!
Meirinho curvou-se profundamente.
 Muita experienciazinha  murmurou  muita experienciazinha!  E mostrou o 
menu, em carto acetinado, tendo no alto, em letras douradas: Jantar Literrio do dia 15 
de Dezembro.
 Real!  disse Melchior triunfante.
Estava de sobrecasaca, com uma grande camlia branca na lapela. Chamava os 
criados, contava as garrafas de Champagne, falava nos seus convidados: de resto, no 
hotel, dizia-se o jantar do Melchior. Ele prprio afirmara num grupo, no corredor, que 
havia de mostrar a esses senhores o que era dar um jantar chic  e mesmo perguntava-
se baixo onde arranjaria Melchior o dinheiro para pagar aquela festa...
Artur, no entanto, estava muito nervoso. Ensaiara-se toda a manh, declamando 
cenas dos Amores de Poeta; certas frases sonoras davam-lhe a certeza dos aplausos, mas 
outras vezes tremia, pensando em faces desconhecidas, entreabrindo bocejos fatigados. 
Preparara alguns perodos literrios para o brinde e s desejava que toda Oliveira de 
Azemis pudesse estar, de longe, vendo-o no centro da mesa, entre flores e luzes, 
aclamado pela Capital!
Quando o relgio deu as seis horas, o estmago contraiu-se-lhe de emoo.
O primeiro que apareceu foi o folhetinista Xavier: debaixo de um nariz grosso, o 
bigode farto, muito horizontal, tinha a espessura de um rolo de crepe; de face escavada e 
as fontes reentrantes, usava lunetas defumadas, com o cordo passado atrs da orelha; 
debaixo do fato preto, adivinhava-se um esqueleto quase sem carne.
Melchior apresentou-lhe logo Artur:
 Tem um drama, c o amigo, e vai-nos fazer logo uma leiturazinha...  
Interrompeu-se, correu a apertar a mo do actor Cordeiro, um moo galante, tmido, 
que, com a cabea uru pouco de lado, torcia constantemente, num gesto maquinal, um 
pequeno buo castanho.
 Drama histrico?  perguntou Xavier a Artur.
 Moderno...
 Em que gnero?
Mas o Padilho, que entrara solenemente, veio bater no ombro de Artur 
paternalmente; apresentava-se de casaca, com a pequena cruz de cavaleiro de Cristo.
O Xavier reparou  e fazendo saltar com o dedo a cruzinha:
 Graazinha rgia, hem?
Padilho escorregou pelo canto do olho um olhar satisfeito  condecorao, e 
grave:
 Foi o Ministro do Reino,  fora: que a havia de ter, que a havia de ter! V l! 
Viu-me fazer imitaes em casa de D. Joana Coutinho, gostou... Aceitei!
 E como vai D. Joana, essa slfide?  perguntou Xavier.
Padilho pareceu chocado daquela expresso familiar, fez-se srio, disse:
 Um pouco encatarroada!  girou sobre os calcanhares e afastou-se limpando os 
beios a um leno de monograma bordado.
 Grande tipo!  disse Xavier a Artur.  A temos o ilustre Sarrotini.
O cantor entrava com as bandas da sobrecasaca deitadas para trs, o arco do peito 
saliente no colete decotado, uma vermelhido prspera na pele, o olho chamejante. Deu 
um abrao a Xavier, que lhe sacudiu todo o esqueleto, beijou, com escndalo de todos, a 
face bonita de Cordeiro, que corou como uma virgem, e com gestos de palco e voz 
dominante, ia dizendo para os lados: dilecto amico! Carssimo hilo mio!
Levantou ao ar Meirinho, que gritou, perneando; riram, falaram de foras. 
Sarrotini foi logo erguer pelo p uma cadeira e conservou-a no ar, com o brao retesado, 
a face purprea. Depois, pediu vermouth e exclamou: Portucallo e Italia siamo fratelli! 
Achavam-no um magano delicioso.
No entanto, Artur reparara num indivduo barrigudo e calvo, que de mos atrs 
das costas e passinhos subtis, ia rodando em volta da mesa, das ostras, das garrafas, com 
um rosto farejante e desconfiado. Ia perguntar a Melchior quem era  quando Saavedra 
entrou.
Rodearam-no logo. E ele, com a cabea erecta, consciente da sua importncia, o 
olhar protector, dizia chalaceando:
 Ento, que lhes parece o meu Melchior? Que chic que deita! hem?
Sarrotini passava-lhe a mo pelo ombro, apossava-se dele, dava-lhe nomes 
carinhosos: gran periodista! dilecto amico! Mas Cordeiro arrebatou-lho, levou-o para 
ao p da janela, cochicharam:
 Voc percebe, Saavedra, a rapariguita tem talento,  necessrio anim-la. Vai ter 
um papel na Princesa Juska...
Saavedra prometeu, com bondade, a proteco do Sculo.
  voc quem lavra aquilo?  perguntou.
Cordeiro negou languidamente.
 Seu sulto!  disse Saavedra rindo. E com um movimento desdenhoso dos 
beios:   um feixezinho de ossos: eu gosto de carne mais almofadada.
No entanto, junto do aparador, Meirinho e Melchior pareciam questionar 
vivamente. Artur, inquieto, aproximou-se.
 Esto-se a estragar, esto-se a estragar! dizia Meirinho, excitado. E voltando-se 
para Artur:  Com o calor, com as luzes, estragam-se.  necessrio comear j.
Melchior insistia, mas frouxamente: enfim, primeiro a leitura do drama. Seno 
depois...
 Depois, depois!  exclamou abafadamente o Meirinho.  O drama pode esperar. 
As ostras  que no podem esperar, amolecem...
Artur ficou aterrado, plido: tanta despesa e no fazer a leitura! Olhou para o 
jornalista to suplicantemente, que Melchior, compadecido, teimou: primeiro o drama, 
as ostras que as leve o diabo.
Meirinho recuou, olhou-os ambos com rancor. E com um grande gesto:
 Bem!  um jantar perdido! Eu no me responsabilizo por mais coisa nenhuma!
E ia sair, furioso, quando esbarrou com o Roma.
O poeta entrava devagar, com o seu ar de vago despeito to singular num homem 
ndio, descalando as luvas pretas. Pareceu no reparar em Artur. Deu um olhar de 
Lado  mesa, e ajeitando um raminho de alecrim que trazia na lapela, aproximou-se de 
Xavier, puxando as calas para cima com o seu gesto torpe.
 Ecco el eggregio oratore!  fez Sarrotini com uma voz possante que dominou o 
rumor.
Era o Carvalhosa. Vinha abafado num cache-nez roxo e parecia descontente. 
Disse logo a Melchior que tinha vindo por grande favor, pois que apanhara uma 
constipao e precisava cautelas. E palpava a garganta, olhando em volta, desconfiado, 
procurando uma corrente de ar, uma fresta traioeira.
 Isto  um rgo srio  disse para Sarrotini  com a diferena que para os 
senhores  questo de notas e para ns, de ideias...
E depois de soltar a sua frase, veio para Artur, estendendo-lhe negligentemente a 
mo:
 Como vai o amigo?
Artur interessou-se servilmente pela sua garganta. No era nada de cuidado, 
decerto...
 Porque se espera?  perguntou-lhe Carvalhosa, baixo, franzindo o nariz.
Artur, corando, balbuciou:
 No sei.
Melchior aproximava-se radiante e batendo uma palmada no ombro de Artur:
 C o amigo vai-nos ler o seu drama!
Carvalhosa pareceu interdito, fez:
 Ah!
E foi andando, com olhares para a mesa, para as garrafas, direito ao grupo 
ruidoso, onde Xavier gesticulava:
 Ento  disse Carvalhosa baixo, indignado  temos uma estopada de uru drama?
Os outros encolheram os ombros com uma resignao sombria. Roma achava 
aquilo uma partida indecente do Melchior. E era em cinco actos! O Xavier propunha 
que se fizesse um abaixo assinado pedindo a sopa. Se se fizesse intervir a polcia?...
Chamaram Melchior, cercaram-no, com olhares interpelantes, sacudiram-no. Que 
escndalo era aquele de lhes impingir um drama? Convidar pessoas inofensivas, 
desprevenidas...
 Oh, rapazes, por quem sois!  suplicava Melchior.  Ento, era uma fatalidade! 
O diabo do Artur viera-lhe recomendado, prometera-lhe. O rapaz tinha trazido o 
manuscrito. De resto eram s duas cenas.
 Nem duas slabas!  disse com furor o Carvalhosa.  Eu vou falar!
Melchior, aflito, agarrou-lhe o brao.
 Oh, filho, pelo amor de Deus! Que me comprometes! 1h, Jesus, que desgosto!  
um instante, coitado do rapaz!
E falava-lhe ao ouvido. Havia risinhos fungados.
Artur, plido, via de longe aquele grupo, e sentindo que ali se tramava alguma 
coisa de funesto para os Amores de Poeta e para a sua prpria dignidade, errava pela 
sala com as faces abrasadas.
Viu de repente Melchior desembaraar-se do grupo, correr para a porta e abraar 
um sujeito grosso e rubicundo, de xale-manta, o ar hlare e ndio... Era um tio de 
Melchior.
Proprietrio em Beja, exaltado pelas questes da poltica local, ardendo num dio 
de provncia pelo Governador Civil, fundara um jornal de oposio, A Voz do Distrito, 
e no tendo encontrado em Beja um escritor bastante eloquente para lhe pr em 
perodos floridos os insultos  autoridade  vinha procurar a Lisboa um estilista. 
Oferecia trinta e seis mil-ris por ms e casa de habitao com hortalia. Melchior 
convidara-o, para lhe fazer admirar o seu jantar, a sua posio social, relacion-lo com 
literatos, e, enchendo-o de Champagne, dar-lhe uma disposio propcia s doze libras 
que lhe queria pedir.
Foi logo apresent-lo ao Xavier, ao Carvalhosa, ao Saavedra.
 Meu tio Antnio de Moura, chefe da oposio em Beja, muito conhecido...
Desembaraava-o com carinho do xale-manta, abraava-o; e repetia arregalando 
os olhos para os lados:
 Muita influncia no Distrito... muita influncia!
Mas vendo entrar um oficial de lanceiros, de peito enchumaado e bigodes 
ferozes, exclamou:
 Viva o exrcito! Estamos todos! Est toda a bela rapaziada!
No meio do grupo dos literatos, o tio Antnio, muito  vontade, com um risinho 
fino, explicava as condies em que queria um escritor: destemido, com palavreado, e 
sem escrpulos, para dar para baixo. E contava com prolixidade as suas queixas do 
Governador Civil, a questo da Junta de Parquia, do muro do cemitrio, do regedor de 
Reguengos.  Hei-de dar cabo deles  dizia, sacudindo a mozinha gorda.
Em redor chalaceavam, queriam desfrut-lo. Xavier aconselhava-o a que se 
dirigisse a Alexandre Herculano. Porque no escrevia a Vtor Hugo? Vtor Hugo era o 
sujeito que lhe estava a calhar!
O tio Antnio ria com bonomia, uma ponta de velhacaria nos olhinhos luzidios:
 Qual, quer-se um rapazola como os senhores, que ladre, que ladre! E que morda! 
Eh! Eh! Eh!
Artur ia de grupo em grupo: sentia, aflito, uma vaga brutalidade ambiente; batia-
lhe o corao cada vez que via um olhar impaciente voltar-se para o relgio, ou uma 
boca abrir-se devagar num bocejo de debilidade. Aproximou-se um momento de 
Sarrotini, que, cercado, muito admirado, entre risos, fazia a imitao de um moscardo 
perseguido: encolhia-se, como no susto de ser mordido, atirava a mo bruscamente para 
o agarrar, olhando para o ar, a face atenta; depois, de repente, dava uma palmada no 
joelho para o esmagar... mas o moscardo, escapo, punha sobre o grupo um zumbido 
acre, dormente, contnuo. Admiravam-no, riam. Padilho, com a testa franzida num 
vinco de reflexo crtica, murmurou:
 De artista, de artista!  E tirando o relgio, voltou-se para Artur:  O Melchior? 
Est-se a fazer tarde, que diabo!
Artur, fingindo que ia buscar Melchior, afastou-se, rubro. Receava agora que no 
fosse possvel fazer a leitura e vinha-lhe a amargura do desespero. Por uma curiosidade 
simptica, aproximou-se do sujeito calvo, de fato claro. Estabelecera-se entre eles, por 
olhares repetidos, uma afinidade: eram os mais obscuros, os mais isolados.
 Muito bonito tempo  disse Artur, sorrindo.
 Lindo  disse o calvo.  E logo mais baixo:
 Diga-me c, porque se espera? Ouvi falar que tnhamos leitura... Que estopada, 
hem?
Artur fez-se escarlate. Mas nesse momento Melchior bateu as palmas: rostos 
voltaram-se com curiosidade.
 Meus senhores...  comeou Melchior, junto da mesa, numa atitude grave.
Mas vozes romperam, chalaceando: o Melchior deita fala! Ora adeus! Menos 
eloquncia e mais sopa! No seja tolo, seu Melchior!
Melchior, irritado, bateu fortemente com uma faca na mesa. Roma disse alto:
 Respeito ao grande orador!
Todos riram.
 Meus senhores  recomeou Melchior  aqui o meu amigo Artur Corvelo, vai-
nos ler o seu drama, isto , duas ou trs cenas do seu drama!
Houve um silncio cncavo, hostil. Meirinho, que falava baixo com o guarda-
livros, ergueu a face para soltar um isolado: muito bem! apoiado!
Tinham arredado dois talheres na mesa, e ao p de um castial estava o 
manuscrito aberto. Artur sentou-se. Tremia todo. Receava que lhe faltasse a voz, que 
lgrimas nervosas rompessem.
Melchior ia de um a outro pedindo baixo, por caridade, que se sentassem, que 
tivessem pacincia, era um instantinho...
 Maldito!  murmurou Xavier com raiva.
 Canalha!  fez o Roma, dando-lhe um canelo.
Carvalhosa beliscou-o:
 Hs-de-mas pagar, assassino!
Ele torcia-se, tinha olhares ansiosamente suplicantes:
 Oh, filhos, por quem sois! E um momento! Pelo amor de Deus! Sejam decentes!
Artur, lvido, sentia a hostilidade. Mas no ler agora, poderia parecer uma 
desfeita... Depois contava domin-los pela eloquncia do drama. Fez um esforo e disse 
numa voz baixa, estrangulada:
 Eu no leio tudo...
 Sim  acudiram logo.  Uma ou duas cenas, para fazer ideia!
Melchior, por trs da cadeira de Artur, revirava olhos imploradores. As cadeiras 
enfileiravam-se em semicrculo: o tio Antnio, com as mos nos joelhos muito 
separados, arregalava os olhos na sua face ndia; Sarrotini arqueava o busto forte, os 
braos soberbamente cruzados sobre o peito; Carvalhosa apalpava a garganta, com 
olhares desconfiados para a porta, para as janelas; Roma, com as pernas muito 
estendidas, os ps cruzados, conservava a mo sobre a boca, como para esconder 
bocejos provveis; havia queixos melancolicamente descados sobre as gravatas; os 
olhares tinham uma resignao mole. E o guarda-livros, andando em bicos de ps, aca-
bava de dispor uma nova, densa fileira de garrafas sobre o aparador. Para Artur, aqueles 
rostos em linha eram quase pavorosos.
Tinha explicado, trmulo, que os Amores de Poeta eram a luta entre o talento e os 
preconceitos sociais.
 lvaro, um poeta, ama a duquesa de S. Romualdo...
Padilho pulou:
 Ora essa! E ento o que h-de pensar a Sr Condessa de S. Romualdo, uma 
senhora respeitabilssima!
Artur, atarantado, balbuciou:
 E duquesa...
 Duquesa ou condessa. E um ttulo da casa, um ttulo antiqussimo. Sou relao 
da famlia, pessoas da primeira sociedade...
Concordaram, em redor, que era preciso mudar o ttulo. Ento todos falaram, 
numa balbrdia, que era a desforra do silncio forado, lembrando ttulos: duquesa de 
Val-Formoso  No! Duquesa de Pedras-Negras  Qual! Duquesa da Casa-Santa... 
Enfim, decidiu-se que fosse simplesmente  a duquesa!
Aquele interesse pelo ttulo, animou Artur. Prosseguiu, mais seguro:
 O que lhes vou agora ler,  quando o Poeta fez, em casa da duquesa, o elogio da 
poesia... E, enfim, vero... E numa soire:

O CONDE DE S. SALVADOR

Leu os Cus Estrelados, marquesa?

A MARQUESA D'ALVARENGA (despeitada)

At acho impertinente que mo pergunte, conde! Uma pessoa do meu nascimento e 
da minha educao, no toca nem com luvas...

O VISCONDE DE FREIXAL (gaguejando)

A ma-arquesa e-em que-estes de es-es-trelados s- o-vos!

Todos riram. Muito bem! muito bem! O Melrinho afectava torcer-se. Atiraram-lhe 
mesmo um chut severo!
 Deixem-me saborear, deixem-me saborear  dizia sufocado, com as mos nas 
ilhargas.  Magnfico!
Artur, aquecendo, continuou j com inflexes teatrais:

O DUQUE

A Marquesa tem razo. Plato exclua os poetas da sua repblica e Plato, a meu 
ver, era um homem de esprito e um estadista. De que servem os poetas?

O POETA (que conversava baixo com a Duquesa, erguendo-se arrebatadamente)

De que servem, Sr. Duque?

A DUQUESA (baixo)

lvaro, por quem s, no o irrites que nos perdes!

O POETA (sem a escutar) De que servem? Semeiam o Ideal!

E o poeta, decerto de p, com gestos nobres, fazia o elogio da Poesia. 
Amaldioava os Preconceitos, as Inscries, os Fundos Pblicos, os Bancos, todo o 
materialismo econmico. Acusava os fidalgos, seguramente cabisbaixos, de no com-
preenderem a alma da Natureza, o que dialogam as aves com as flores e o que diz o 
vento aos pinheirais. De que vos servem os vossos castelos, o vosso oiro, as vossas 
librs?  perguntava desgrenhado. Que almas tendes consolado? Que lgrimas 
enxugado? Artur, agora, levantado nas ondulaes da retrica, tinha nfases de voz, e 
o seu olhar, os seus gestos, dirigiam-se sobretudo ao poeta Roma, como para ganhar a 
simpatia do versificador, incensando-o com aquela glorificao da rima.
Mas Roma tinha posto o seu enorme pince-nez e na sua posio estendida, fixava 
os vidros de reflexos sombrios, na ponta romba dos botins. Quando o Poeta invocava 
Deus, inclinou-se para o Carvalhosa e murmurou:
 Que besta! Que burro!
O Carvalhosa, que a cada momento apalpava o enfartamento das glndulas, 
encolheu os ombros com uma resignao sombria; todavia, secretamente, aquele estilo 
s empolas agradava-lhe como orador; e a Saavedra tambm, que, bamboleando a perna 
traada, afectava uma distraco elevada, preocupaes polticas. S o Cordeiro 
admirava francamente, mediante atitudes de actor, em concordncia com a eloquncia 
da prosa. Padilho mexia-se na cadeira, indignado, vendo em cada frase insultos aos 
titulares das suas relaes; e ao p, o tio Antnio, com os braos gordos e curtos 
cruzados, cerrava os olhos, como se a cadncia dos perodos lhe desse a sonolncia de 
um embalar suporfico de bero.
Quando Artur, ofegante, terminou a cena, s Melchior e Meirinho tiveram bravos!
Depois de uma pausa, Artur comeou a ler o acto do Baile de Mscaras. Era 
longo: passava-se no palcio do Duque, num lugar indeterminado, na Baixa, com 
terraos sobre um rio desconhecido de balada. Pelas rubricas, parecia ser uma festa 
veneziana da Renascena: urna mscara vestida de trovador cantava uma serenata, dois 
napolitanos danavam a tarantela, pajens circulavam com taas de vinho de Siracusa, 
um bobo roubava com destreza a bolsa aos cavaleiros, e no fundo passava um barco, em 
que flautas e rabecas alternavam com uma voz de mulher, cantando, na noite, versos de 
Petrarca.
Xavier, experiente do teatro, comprimia o riso, roxo.
Havia dilogos singulares: Marquesa, dizia um domin, no sente nesta festa 
errar um pressentimento de morte? A Marquesa respondia, passando, a arrastar 
brocados:  O amor  um goivo que floresce numa caveira!
Dois fidalgos desciam  cena:

1 FIDALGO

Como se portou contigo o destino, no sarau da Princesa?

2 FIDALGO

Perdi seis mil cruzados aos dados!

Quando Artur leu a apstrofe do Duque, depois de atirar a luva ao Poeta: Quem 
ousar erguer os olhos para a Duquesa de S. Romualdo, pode encomendar a mortalha!  
houve um rumor lento, lnguido de: muito bem! muito bonito! de muito efeito!  Os 
literatos estavam tranquilos, o acto era idiota, o Artur inofensivo, e gozavam com 
atitudes recostadas, faces risonhas, a evidncia daquela mediocridade. Excelente drama 
para ser representado numa Assembleia de provncia, por curiosos de uma filarmnica. 
Pobre tolo! E Roma cofiava a barba com deleite.
Algumas cenas do quarto acto na casa do Poeta, na vspera do duelo, com uma 
me humilde,. criatura sacrificada, fatigaram. Sarrotini torcia-se na cadeira, impaciente 
do silncio, da imobilidade; o alferes bocejava sem pudor; puxavam-se os relgios s 
furtadelas; havia olhares desesperados para o aparador; Carvalhosa, com os cotovelos 
nos joelhos, enterrava a cabea nas mos; e Artur, sentindo o tdio ambiente descer-lhe 
sobre o crebro como um pano gelado, apressou-se a dizer:
 Agora vou ler o duelo!
Houve uma respirao aliviada: com a morte do Poeta, chegava decerto o fim!
Artur prosseguiu com uma voz lgubre:
 Um cemitrio. Cruzes, campas, ciprestes.
 Vem rompendo a madrugada. Um coveiro afasta-se com a enxada ao ombro, 
cantando.
 E ele mesmo cantou uma melodia singularmente triste, tocante:

Nascem goivos a-a-ah!
E rosas nas sepulturas.
Morte eterna, morte eterna,
Vida que to pouco duras!

 Bravo!  gritou Sarrotini.
A melodia impressionara. Artur explicou que realmente a ouvira a um coveiro, no 
cemitrio de Oliveira. Extasiaram-se: ele repetiu-a. E aquela toada, de um vago 
melanclico, punha ali, na sala, sob o gs, um relance de cemitrio de aldeia, num cair 
de tarde triste.
Animado, Artur comeou o monlogo do Poeta, que entrava envolvido numa capa 
e pousava sobre uma campa duas espadas. As fisionomias recaram numa fadiga mole, 
havia uma prostrao de fome: o Xavier que sofria do estmago, no se contivera, e, em 
bicos de ps, fora tirar da mesa passas e amndoas, partilhando-as com Saavedra que se 
mexia na cadeira, desesperado; o oficial de lanceiros ento foi buscar uma bucha de 
po; o Meirinho desaparecera. O grito do Poeta, ao ser atravessado pelo florete do 
Duque, espalhou nos rostos uma alegria feroz.
O Poeta expirava; a Duquesa corria, vestida de branco, de entre os ciprestes. Era a 
cena mais trabalhada, que lhe custara um ms de rascunhos, de viglias. Leu-a, trmulo; 
s ltimas palavras do Poeta, estava plido de emoo, e a vela de estearina, ao lado, 
fazia parecer a sua face mais macilenta  como se lhe espelhasse no rosto a agonia do 
personagem:

O POETA

Adeus, anjo! Deus te pague toda a felicidade que me deste na Terra. Tu foste a 
gota de gua no deserto, a estrela de alva na cerrao. Se alguma vez, nas festas do teu 
palcio, entre as valsas, os madrigais e os cortesos, te vier  ideia o poeta que na 
campa fria  pasto dos vermes, chora e diz contigo: ningum, como ele, ningum sabia 
amar! Velo uma luz... E a ptria divina! Jlia, a tua mo! Oh, sofro! Adeus! Ah! (um 
grito, morre).

A DUQUESA (caindo de joelhos)

Oh, bem-amado, a minha alma vai contigo e este corpo miservel ir fenecer na 
solido de um claustro!

(CAI O PANO)

Ergueram-se com rudo. Havia como que uni reconhecimento pela estopada 
finda. Artur muito plido, de p, com os olhos brilhantes; fitava uns e outros.
 Muito bem! Muito bem!
Mas Roma estava desesperado. No final, reconhecera emoo, ideal, estilo; e 
muito perfidamente:
 A pilhria dos ovos  uma obra-prima!
Os outros imediatamente lanaram-se sobre aquele detalhe, exaltaram-no, 
esmagaram com ele o drama todo. Era divina a sada do gago. Repetiam-na: Estrelados, 
s ovos! Era soberba. Cercavam-no, pareciam admir-lo por ter achado aquela faccia. 
Carvalhosa disse-lhe, muito srio:
 O amigo deve escrever comdias!
 E  que  um rico calembur!  insistia Melchior.
Artur sentia-se constrangido daquela admirao exclusiva por uma pilhria to 
patusca no meio de um drama to sombrio. Perguntou timidamente o que lhes parecia o 
final.
 Sim, muito bem  disse o Saavedra.  Mas a dos ovos  esplndida... no torna a 
fazer melhor!
Ento Melchior exclamou da porta:
 Messieurs, le diner est servi!
Atrs, um dos criados entrava com a terrina. Houve uma aclamao, num rudo de 
cadeiras. Sentavam-se, falando alto, na aproximao gulosa do jantar to esperado. Mas 
subitamente Roma ergueu-se, lvido, exclamando:
 Somos treze!
Contaram-se, inquietos. Sarrotini afastou-se com horror da mesa. O alferes 
refugiara-se, aterrado, ao p do aparador. O tio Antnio ria:
 Ora nada de pieguices! Nada de enguios! Era necessrio chamar algum; ento 
Melchior agarrou o chapu e saiu a correr.
Contavam agora desgraas, mortes inesperadas, depois de jantares de treze; 
estavam de p; os criados, imveis, esperavam.
Pouco depois, Melchior entrou com um sujeito de fato claro, despenteado, muito 
amarelo e que tinha costuras no pescoo. Apresentou-o como o Sr. Galinha, o seu amigo 
Galinha. Ningum o conhecia  era o dcimo quarto!
E, tranquilos, atacaram alegremente as ostras  enquanto o Sr. Galinha, como que 
estremunhado, batendo as plpebras  luz, voltava para os lados uma face avinhada e 
lvida de deboche!

Na manh seguinte, Artur correu ao caf Tavares, na Rua de S. Roque, para ler no 
Sculo a notcia do jantar. Havia apenas uma curta local:
O nosso colaborador Melchior Cordeiro deu ontem um lauto jantar aos seus 
amigos polticos e literrios no Hotel Universal. O adiantado da hora obriga-nos a 
reservar para amanh a descrio desta notvel festa.
Aquela apropriao que o Melchior fazia do jantar indignou-o. Mas, afinal, no 
havia que estranhar, pensou: tinha-se combinado que aparentemente o Melchior lhe 
oferecia o jantar, a ele, Artur. Decerto, ao outro dia, uma notcia circunstanciada 
explicaria a inteno da festa e as sensaes da leitura.
Na manh seguinte ergueu-se mais cedo e s nove horas entrava no Tavares, com 
o corao a bater-lhe alto. A notcia enchia duas colunas; dizia:

O JANTAR LITERRIO DO UNIVERSAL

O banquete do nosso colaborador Melchior Cordeiro foi uma verdadeira festa da 
Inteligncia. No esplndido salo do Hotel Universal achava-se reunido o que a 
Literatura, a Poltica e o High-Lif e tm de mais eminente: um bouquete de celebridades. 
Vimos o inspirado orador Carvalhosa, o brilhante poeta Roma, o estimado bartono 
Sarrotini, o social Padilho, o espirituoso folhetinista Xavier, esse Jules Janin da 
imprensa portuguesa, o estudioso actor Cordeiro e o nosso querido director, Sr. 
Saavedra.
O menu do jantar, elegantemente impresso em carto acetinado, continha o que a 
culinria francesa tem inventado de plus raffin; dir-se-ia uma dessas festas do 
Segundo-Imprio em que o Caf Ingls recebia, nos seus doirados sales, Imperadores e 
Reis que vinham curvar-se ante o poder de Napoleo o pequeno, segundo a imortal 
expresso do vidente d'Hauteville-House. Eis o menu:

HUTRES

HORS-D'OUVRE

POTAGES:
Julienne, Tapioca Grcy

Poisson:
Turbot, sauce hollandaise

ENTRES:
Escalope, de veau  la Macdoine
Suprme de volaille  la Melchior
Jambons d'York aux pinards
Filets mignons  la Saavedra

GIBIER:
Perdreaux rtis  la crapaudine

ENTRE-METS:
Charlotte Russe
Dartois dor

GLACES, DESSERT

VINS:

Bucelas, Colares, St. Julien, Champagne, Porto

CAF-LIQUEURS

Como os leitores vem, havia dois pratos dedicados  um, ao simptico anfitrio, 
outro, ao nosso querido director Sr. Saavedra, que foi objecto das manifestaes mais 
demonstrativas.
A ornamentao da mesa, bem como a composio do menu, foram feitas sob os 
conselhos inteligentes do popular Joo Meirinho, que uma longa residncia, nas capitais 
da civilizao, torna un artiste nestes episdios da vida elegante e boulevardire.
Os brindes foram numerosos e eloquentes: o do Sr. Carvalhosa,  literatura 
contempornea, foi um dos improvisos mais brilhantes que temos ouvido e trouxe a 
todas as memrias a lembrana do gnio do imortal Jos Estvo. O Sr. Roma, recebido 
entre um entusiasmo exuberante, recitou a sua mimosa elegia, O Adeus de Elvira: vimos 
lgrimas em muitos olhos. Sarrotini cantou, com a sua maestria habitual, uma deliciosa 
cano napolitana. O amigo Padilho, sempre obsequiador, deu algumas das suas 
melhores imitaes, que tantos aplausos lhe granjeiam nos sales do High-Life: foram 
notveis as do Obo, Emlia das Neves, Perdiz e Partida de comboio. Cordeiro, o 
inspirado gal, recitou com prodigioso talento o monlogo de Hamlet, do grande bardo 
da fria lbion, to primorosamente traduzido por uma pena real. Houve tambm a 
leitura de trechos de uma comdia, escrita por um mancebo de Oliveira de Azemis, o 
Sr. Corvelo, se nos no falha a memria, que conseguiu fazer sorrir com alguns 
calembures.
A maior cordialidade, o esprito mais picante, as anedotas mais finas, as 
conversaes mais espirituosas, ocuparam a noite. Todos se retiraram bendizendo o Sr. 
Melchior, que  uma das personalidades mais simpticas da Repblica das Letras, por 
ter proporcionado um to notvel meio de se provar que Lisboa no deve ter inveja a 
Paris, pela sumptuosidade dos hotis, o talento dos escritores e as boas maneiras do 
High-Life. Estas festas elevam o esprito e fazem remontar a memria aos tempos de 
Garrett e de D. Joo de Azevedo, em que a vida elegante se unia em profcuo convvio  
vida literria!

Artur desceu a Rua de S. Roque, at ao hotel, como uma pedra que rola, 
praguejando alto de indignao; galgou as escadas, soprando; no quarto, atirou o chapu 
contra a parede: sentia por Melchior um dio homicida; pensava tumultuosamente em 
vinganas vagas, batendo o soalho com passadas nervosas. Reparou ento numa carta, 
que fora metida por baixo da porta. Uma explicao do Melchior, talvez? Propostas de 
rectificao?...
Era a conta do jantar. Verificou a soma, trmulo: vinte e duas libras!
Deixou-se cair numa cadeira com o papel aberto na mo, lgrimas de raiva nas 
plpebras, murmurando:
 Canalhas!



V

Tinha recebido, ao outro dia, as provas da primeira folha dos Esmaltes e Jias, e, 
muito emendadas, ia lev-las ele mesmo, preciosamente,  tipografia dos Castros  
quando, ao chegar  Praa de Cames, no momento em que parava para deixar passar 
uma carroa, viu, descendo a Rua de S. Roque, a senhora do vestido de xadrez!
No deslumbramento que lhe deu a presena da sua pessoa, o seu rosto oval, 
alumiado de dois grandes olhos negros, a graa da sua cabea, toda a sua figura 
pequenina e mimosa, ficou imvel. Uma carruagem a trote quase o atropelou: refugiou-
se, atarantado, ao p das grades da praa e viu-a seguir para a Rua do Correio.
No reparara nele! Levava pela mo um pequerruchinho. O seu vestido de fazenda 
azul tinha enfeites de seda de um azul mais escuro; ia devagar, apanhando com graa a 
cauda do vestido. Trazia luvas de peau de sude clara, e, andando, voltava-se, sorrindo 
para a criana que palrava, com passinhos muito vivos, as perninhas caladas de meias 
encarnadas, toda rosada, gorducha, s, apetitosa como um fruto, fresca como uma rosa.
Foi-a seguindo. No ouvia os rudos da rua; as fachadas das casas tinham 
desaparecido: parecia-lhe que s ela passava nas lajes do passeio e que a claridade do 
dia adquiria um doirado glorioso. Apesar de magnetizado, retardava o passo: receava 
ofend-la indo muito junto dela, como numa perseguio, e devorava com o olhar os 
folhos baixos do seu vestido, uma brancura de rendas da saia, os taces altos das suas 
botinas.
 esquina de uma travessa, num portal, uma pobre pedia, com uma criana no 
regao: ela parou, deu-lhe uma esmola e aquela caridade simples comoveu Artur como a 
revelao de bondades delicadas, de piedades democrticas; discretamente, para se 
associar com ela numa generosidade comum, ps dois tostes na mo descarnada da 
mulher.
Um amor vido de se produzir, de se manifestar, enchia-lhe o peito: aquela cinta 
fina, direita, atraa-lhe os braos, a trana negra, em catogan, chamava-lhe as pontas dos 
dedos; punha toda a alma nos olhos, to intensamente, que no ficaria surpreendido se 
ela parasse, se voltasse e lhe estendesse a mo.
Notava sofregamente todos os seus movimentos, como revelaes do seu carcter; 
viu-a erguer os olhos para um cartaz e lamentou que no fosse a sua pea, anunciada ali 
em grossas letras negras; teve dio a um galego, que, ao passar pesadamente, quase lhe 
roou a manga do vestido azul: como correria se algum a ofendesse ou a pisasse! E 
apertava com furor a bengala, olhando em redor, pronto a defend-la, imaginando que 
um bbedo, ao sair de uma taberna, lhe passava as mos imundas pelo rosto... Ele 
precipitava-se: ela refugiava-se nos seus braos, reconhecia-o  e um amor delicioso 
comeava, que seria a glria, o fim, a alta significao da sua vida. Impelido por aquelas 
imaginaes, ia quase junto dela. Tinham entrado na Rua de S. Bento; pensou ento em 
passar adiante, voltar-se, fit-la com adorao, dizer-lhe num longo olhar: Sou eu! Olha 
para mim, no te lembras?
Mas uma timidez retinha-o. Ia enfim adiantar-se, quando ela, atravessando a rua, 
entrou no porto largo de uma casa espaosa de um andar! Que ferro!... Mas talvez lhe 
aparecesse  janela!
Havia uma vidraa entreaberta, por onde ele via, entre o estofo escuro das 
bambinelas, reluzirem vagamente, no fundo sombrio, doirados de quadros. Acendeu um 
charuto e ps-se a passear devagar, esperando a cada momento ver chegar  varanda a 
cabecinha plida e fina, j sem chapu. Morava decerto ali, e a casa, com sua fachada 
amarela, as janelas do rs-do-cho gradeadas, o ptio de uma pedrinha mida, com dois 
batentes de baeta verde ao fundo, sobre um degrau, atraa-o singularmente, por uma 
expresso discreta, aristocrtica, como se a querida criatura que l vivia lhe 
comunicasse uma graa digna e recolhida.
Um guarda-porto grosso, barbudo, veio colocar-se  porta, rolando em redor 
olhares majestosos, e Artur, receando que ele reparasse na sua curiosidade inquieta, por 
prudncia, tornou a subir a Rua do Correio. Esquecera agora as provas, o livro, e 
caminhando rapidamente, pensava com energia em coisas vagas que tentaria para se 
fazer conhecer, e conseguir o seu amor! A casa de D. Joana Coutinho, as suas soires 
aristocrticas e literrias, onde ela, to bonita, to nobre, decerto ia, ofereciam-lhe o 
meio mais acessvel. Eram o rendez-vous do nosso High-Life, dissera Meirinho quando 
prometera apresent-lo. Iria de casaca, com uma camlia vermelha... Pediria 
delicadamente ao Meirinho que o apresentasse... Qual! devia exigi-lo! Tinha direito a 
isso: comprara-lhe um palet e duas pistolas, regalara-o com um bom jantar! Era 
necessrio ser finrio. Meirinho devia saber o nome dela, as suas relaes, os seus 
hbitos; Melchior tambm, ele que dizia conhecer at os ces vadios da rua...
E de repente deu de rosto com o jornalista, que descia a Rua do Carvalho:
 Homem, vinha a pensar em voc  disse expansivamente, esquecido da infmia 
da notcia do Sculo.
Melchior tivera um movimento para se esquivar, mas deu-lhe um aperto de mo 
mole, hesitante, com as faces escarlates.
Que tinha feito? Por que no aparecera na redaco? O Saavedra perguntara por 
ele  gostara imenso do drama, o Saavedra...
Mascava as palavras, espessamente, com um embarao que lhe entumescia as 
feies  e de repente, sem transio, muito alto, com grandes gestos que faziam voltar 
pessoas espantadas, comeou a invectivar o Roma.
Fora o Roma quem escrevera o artigo do Sculo, aquele patife! Tinha sido uma 
perfdia! Ele, quando o lera, at arrancara os cabelos...
E cruzando os braos com violncia, quase escandalizado com Artur:
 Mas para que me no disse voc a verdade? Que tem voc com o Roma?
Artur jurou, energicamente, que no tinha nada com o Roma.
 Pois no o pode tragar!
E, para falar com menos reserva, foi-o levando pelas ruas mais isoladas do Bairro 
Alto.
 Voc percebe, eu no podia escrever a notcia! Que diabo, eu  que tinha dado o 
jantar, no era decente. Pedi ao Roma: sempre  um vulto,  um estilista! Recomendei-
lhe que falasse no drama, com um belo elogio, um elogio de arromba! Pois senhores, 
escreve aquela infmia!
Artur ento indignou-se. Que pouca-vergonha! E ele ento que at admirava o 
Roma e os Idlios e Devaneios!
Pois que tivesse cuidado! Que havia nos Idlios muitos podres... Versos errados, 
imitaes, erros de gramtica!
Exaltado, falava alto, com os olhos brilhantes. Melchior olhava-o de lado, 
inquieto j daquela clera, inesperada num moo provinciano e acanhado. E exagerava 
ento ele mesmo o seu dio ao Roma. A afronta era feita a ele, Melchior. Ah! mas o 
Roma havia de lhas pagar! Fiara-se nele, qu!
 Voc no imagina o desgosto que tive, Artur! Eu sou assim. Para os amigos  e 
voc, caramba, calha-me  para os amigos, tudo! Sou uma vtima da minha dedicao. 
Sou uma vtima!
Com uma verbosidade impetuosa, contou ento outros casos em que a sua boa-f 
fora surpreendida, indignamente surpreendida!  que ele era um cavalheiro: acreditava 
no cavalheirismo dos outros!  por isso que no tinha cheta. Era um mos-rotas para 
todos. J fora o mesmo com o inventrio do pap: tinha perdido para cima de dois 
contos de ris. Por qu? Boa-f, cavalheirismo! Mas, ao menos, passeava na cidade de 
cabea erguida...
Aquelas explicaes to ntimas, to amigas, confidenciais, quase enterneciam 
Artur. Sentia-se reconhecido a Melchior de o ver sofrer por causa da notcia do Sculo. 
Veio-lhe por ele um fluxo de amizade trasbordante: desejava passar-lhe a mo pela 
cinta, oferecer-lhe dinheiro; lembrou-se num relance de lhe dar uma boquilha. No se 
tinha zangado com ele, ia dizendo: o Rabecaz sempre lhe afirmara que o amigo 
Melchior era um rapaz s direitas.
 O Rabecaz  que sabe, o Rabecaz  que sabe!  exclamava Melchior, 
apossando-se sofregamente daquele testemunho, erguendo as mos e os olhos para o 
cu azul.
Ah, mas no se perdera nada! O Roma fizera a infmia  mas por que era? Inveja. 
Todos consideravam o drama uma maravilha...
 Disse-mo o Saavedra: o Artur  um grande dramaturgo.  o nico! E o Xavier, 
que  quem entende, estava entusiasmado! Disse-mo ele. Voc a publicar o livrinho de 
versos e ele a fazer um folhetim que o Roma estoira de raiva... Que ele no pode ver o 
Roma!
E lamentou ento aquelas inimizades entre a rapaziada. A rapaziada devia ser 
unida!
Vinham descendo a Rua de S. Roque, e Melchior, querendo aplacar inteiramente 
Artur, declarou que para apagar a m impresso da notcia do jantar, era necessrio 
fazer outra sobre o drama...
 Por exemplo...  e parado defronte do lavares, meditava, com um dedo sobre os 
lbios, o chapu um pouco para a nuca.  Uma notcia chique, de estalo... Por 
exemplo... Espere voc...
Mas de repente, dando com os olhos em dois indivduos que subiam a rua 
devagar, perturbou-se, murmurou: Oh, diabo, adeus menino!  girou sobre os 
calcanhares e abalou, fugindo a grandes passadas. Artur, atnito, viu-o cortar, cosido 
com a esquina, por uma travessa do Bairro Alto.
Os dois sujeitos aproximavam-se tranquilamente, rindo: um deles, grosso, de 
grande pra, deu um olhar de lado a Artur e elevou a voz:
 O covarde do Melchior safou-se  correco. No as perde. Aquelas orelhas de 
burro pertencem-me, hei-de arrancar-lhas em tempo competente!
E seguiram com um ar de chacota.

Nessa tarde, ao jantar, no Universal, Artur, timidamente, deu a Meirinho os sinais 
da senhora do vestido de xadrez, perguntando se a conhecia... Morava na Rua de S. 
Bento, um palacete de um andar s...
Meirinho pareceu humilhado de a no reconhecer. De resto, como estivera tanto 
tempo ausente de Lisboa... havia camadas novas. No era de estranhar que no a 
conhecesse.
E recostando-se na cadeira, fazendo girar nos dedos o anel de armas, como para se 
comprazer na pureza da sua estirpe, lamentou a formao de uma aristocracia nova, 
abrasileirada, que era quem tinha o dinheiro, as carruagens... Citou a frase do velho 
marqus de Arrifana, aquele original: Eu, quando passa um rico landau, volto a 
cabea, porque tenho a certeza que  gente pulha, mas se vejo um nibus, tiro o chapu. 
porque estou seguro de que vo l pessoas de nascimento....
  bem dito, hem?  Cofiou com satisfao a bela barba clara e inclinando-se ao 
ouvido de Artur:  Por qu? Temos conquistazinha?
Artur negou. Era pura curiosidade. Encontrara essa senhora, parecera-lhe bonita... 
Queixou-se ento da sua solido: no tinha relaes... s vezes,  noite, enfastiava-se. E 
disse, rindo negligentemente, como gracejando:
 Ento quando vamos ns  D. Joana Coutinho?
Meirinho engoliu  pressa, bebeu um gole de vinho e pousando o copo:
 Ah, no me tenho esquecido. Eu at fao empenho...  necessrio primeiro, 
naturalmente   a etiqueta  pedir-lhe autorizao.  E mais baixo:  L vi, l vi a 
notcia do Sculo. L me fizeram o favor... fazem-me o favor de me estimar...  
Recostou-se com beatitude, cerrando os olhos, como para saborear a simpatia ambiente:
 Que a festa esteve bonita, muito bonita! Com franqueza  quanto?
Artur corou e disse:
 Vinte e duas libras, salgadinho! Meirinho reflectiu um momento e com 
gravidade:
 Muito razovel, muito razovel! E l vi, l vi: os calembures, muito bem 
aceites...
E dirigindo-se a um sujeito pesado, de beios grossos e barba grisalha, que comia 
com uma gula lenta, um vago suor oleoso na pele avelhada:
 Oh, Bento Correia, tem aqui um rival! Ouvindo o nome de Bento Correia, uma 
celebridade antiga, quase clssica, jornalista, funcionrio, Artur fez-se escarlate.
Bento Correia voltou-se e com uma voz empastada, lenta, a boca cheia:
 Ento pertence  confraria?
 Havia de ouvir. No jantar do Melchior, leu-nos uma comdia... Oh, menino, de 
estalar! Calembures deliciosos!
Estava convencido da excelncia dos calembures, desde que os vira celebrados 
num jornal.
Artur, desesperado, envergonhado, acudiu:
 No, no  s isso...  um drama...
 No senhor, no senhor!  exclamou Meirinho, como para contradizer aquela 
modstia excessiva.  Muito bons! Muito bons! O dos ovos  delicioso!  digno do 
Figaro!
 Vamos l a ver o dos ovos  disse Bento Correia, com a sua tranquilidade 
majestosa e enfartada.
Meirinho citou-o, rindo, saboreando-o ainda. Bento Correia parecia satisfeito e 
disse logo outro que tinha feito na vspera, na reunio da maioria; repetiu o boeuf--la-
mode e continuou falando no seu tom espesso com um sujeito ao lado que escutava com 
os olhos, com o queixo, com toda a sua pessoa provinciana, numa admirao de 
discpulo, esgaravatando os dentes com a unha.
Artur considerava a grossa face lustrosa de Bento Correia, o seu olhar amortecido 
caindo de sob uma plpebra pesada, a sua mastigao vagarosa, pensando, exasperado, 
que, para aquele homem ilustre, ele era apenas um fazedor de calembures, um 
insignificante! Era, decerto, a opinio dos outros, de todos os que tinham lido o Sculo. 
Parecia-lhe ver nos rostos clareados de uma satisfao alvar, repleta, um desdm aptico 
pelas suas habilidades de arranjador de graolas. Os lados nobres, elevados, do seu 
talento, desapareciam sob a popularidade de uma faccia incidental! E fora o Roma, o 
canalha, que preparara aquela perfdia acabrunhadora! Era o Meirinho, o imbecil, que a 
exagerava, a prodigalizava! Tinha-lhes dio! O Meirinho, sobretudo, irritava-o, com o 
seu gesto de acariciar a bela barba clara, arrebitando o dedo mnimo de unha 
envernizada. O seu furor cresceu quando o Carvalhosa, que chegara tarde, com o 
aspecto sujo de quem vem de longe, a testa vermelha do vinco do chapu, a cabeleira 
desleixada, lhe disse, sentando-se, com um tom negligente e superior:
 Ento temos algum novo calembur?
Positivamente era uma conspirao! Queriam diminu-lo, amesquinh-lo, reduzi-
lo s propores grotescas de um chalaceador de almanaque! Planos vagos 
atravessaram-lhe o esprito: fazer uma declarao nos jornais, imprimir imediatamente o 
drama! Desejava, sobretudo, chicotear o Roma. E, furioso, ia erguer-se, quando 
apareceu o Sr. Alvim, adiantando para a mesa a sua carinha velha, muito rapada, de 
rugas duras, com aqueles tons de greda lvida que a caracterizao e o gs do aos 
antigos cmicos. Pequenino, subtil, errava todo o dia pelo hotel, fazendo vagamente 
sortes de prestidigitao s pessoas que encontrava, tirando um limo de uma gola, um 
bogalho de um nariz, empalmando um par de luvas, sob o olhar atnito de algum 
provinciano; estendia gostosamente a mo a uma placa de cinco tostes e o seu sorriso 
mido tinha um servilismo lisonjeador; dobrava-se em cortesias com a elasticidade de 
um clown; dizia-se que conhecia agiotas e que geria um lupanar: era geralmente esti-
mado, era o magano do Alvim. Parecera desde o princpio simpatizar com Artur, 
achando nele uma passividade favorvel s suas sortes. E apenas entrou, 
aproximando-se na ponta das botas cambadas, seguido de olhares j divertidos, tirou-lhe 
do queixo, com uma surpresa cmica, uma pra de Inverno. Em redor, riram:
 Bravo, seu Alvim!
E o Bento Correia concluiu paternalmente:
 Isso  tirar uma pra de um queixo que a traz rapada!
Era um famoso calembur! Causou deleite! Aquele diabo do Bento Correia!... 
Aquele era de traz! Meirinho, entusiasmado, acotovelou Artur:
 Este  soberbo, homem! Ponha-o na comdia, ponha-o na comdia!
E Carvalhosa, com a boca cheia, repetia:
 Ponha-o na comdia!  soberbo!
 De artista  disse com autoridade o Padilho, olhando Artur como para o 
aconselhar a utilizar aquele soberbo calembur.
Artur sentia diante dos olhos uma nvoa sangunea. Era uma troa com certeza! 
Abafava. Disse vagamente: que calor! E agarrando o chapu, saiu, ouvindo ainda as 
risadas na sala. Riam-se dele, decerto!
Desceu o Chiado, acotovelando gente, com palavras vagas, murmuradas, que lhe 
saam da boca como um vapor de clera. Entrou no Martinho, e o criado, que limpava o 
mrmore da mesa, ficou admirado do gesto brusco com que se atirou para uma cadeira e 
da voz furiosa com que pediu genebra.
Quando o seu furor se evaporou, Artur. reparou no republicano, no Nazareno, que, 
ao lado, com a chvena defronte, fumava, a cabea encostada  parede, as lunetas 
reluzindo sombriamente. Os burgueses do Universal tinham-no indignado tanto que 
sentiu, num impulso, uma simpatia ardente por aquele homem, hostil  burguesia, que 
falava nos Clubes contra ela e lhe preparava a morte. Depois das faces alvares que 
tinham rido do calembur do Bento Correia, achava uma alta expresso inteligente, 
crtica, naquela fisionomia seca de jacobino, que tomava o seu caf com uma mansido 
filosfica. Como o seu drama, que era a glorificao democrtica do gnio plebeu, 
agradaria quele republicano, quele igualitrio! Parecia-lhe agora que os Carvalhosas, 
os Padilhes, queriam amesquinhar o seu drama, por sentir nele um grande sopro 
revolucionrio; e na sua indignao contra os Conservadores, os Bentos Correias, os 
Meirinhos, decidiu servir as ideias do Nazareno, dramatiz-las. Desejava conhec-lo, 
desabafar com ele, dizer mal, odiosamente mal, da canalha que l em cima, no 
Universal, lambia os bigodes hmidos de caf, partindo nozes apaticamente, no 
enfartamento de uma nutrio cara. Procurava um meio de lhe falar, quando Nazareno 
pediu ao criado a Revoluo de Setembro que estava diante de Artur, aberta, 
enxovalhada: apressou-se a oferecer-lha, meio erguido, sorrindo; o republicano 
agradeceu com um movimento reservado, percorreu o jornal um momento, atirou-o para 
o lado com desdm e bebeu os ltimos goles de caf. Aquele gesto encantou Artur: 
mostrava o desprezo do republicano pela literatura dos Romas, dos Xavieres, da 
canalha! E pediu outro caf, demorando-se, esperando um incidente, um olhar, alguma 
palavra casual que os reunisse. Mas Nazareno, imvel, soprava espaadamente o fumo 
do cigarro. Era talvez um amigo de Damio, pensou Artur. Poderia perguntar-lhe, muito 
naturalmente, a morada do Damio ou quando voltaria do Algarve. E ia falar-lhe, 
animado por dois clices de genebra, quando o republicano ps trs vintns sobre o 
mrmore da mesa, ergueu-se, deu um jeito ao cabelo diante do espelho e saiu, direito e 
seco. Que ferro!
Saiu tambm, imensamente desconsolado. Aquela contrariedade fez-lhe pensar, 
com amargura, nas outras, bem maiores, que lhe estragavam a vida: o seu amor por 
aquela criatura pequenina e plida, entrevista, logo perdida; a reputao de farsa dada ao 
seu drama, to filosfica; as soires de D. Joana Coutinho, prometidas e sempre 
adiadas; os seus entusiasmos literrios pelo Roma, pelo Carvalhosa, retribudos com 
perfdias, desdns, troas... Tudo na sua vida era assim incompleto, esboado, fragmen-
trio; no encontrava nada de slido em que se fixar, a que se dedicar: amor, relaes, 
glria, tudo lhe escapava de entre as mos, como a gua que uma criana quer apanhar e 
lhe foge entre os dedos. E sentia uma solido, uma frialdade, que a noite enevoada 
aumentava. Cara um nevoeiro, que os altos prdios entalavam, condensavam, em que a 
luz do gs se amortecia e os vultos tomavam um tom neutro e encolhido; as fachadas 
escuras pareciam mais tristes, vagamente fundidas na incerteza baa da bruma.
Artur caminhava, triste: sentia a nvoa prender-se-lhe ao bigode, s pestanas, 
amolecer-lhe a goma do colarinho, e toda aquela humidade depositar-se-lhe na alma. 
Cheio de tdio, sentindo-se mais s nas ruas vazias de onde o nevoeiro afastara a gente, 
teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o esprito com genebra, rolar-se no 
deboche. Voltou ao Rossio: entrou num pequeno caf, onde a cor suja da parede, o 
soalho negro, o estuque enxovalhado, comiam a pouca luz dos bicos tristes de gs.
Instalou-se a um canto com a garrafinha de genebra, melanclico, pensando no 
botequim da Corcovada que, agora, lhe parecia mais confortvel, mais amvel do que 
tudo quanto encontrara em Lisboa, com a simpatia verbosa do Rabecaz, o lume a estalar 
do outro lado do tabique na lareira da cozinha, e as vozes conhecidas caturrando no 
bilhar.
Um pigarro pertinaz, numa mesa ao lado, f-lo reparar num sujeito que tomava 
um cabaz: pequeno e grosso, trazia um xaile-manta aos ombros e a face redonda, 
barbeada, mole, tinha uma cor lvida de pele de galinha; no seu olhar embaciado havia 
um langor mrbido e grotesco. Sorriu para Artur, dirigindo-se-lhe com uma vozinha 
fina:
 M noite!
 Muito m!
O indivduo imediatamente, arrastou-se pela banqueta de palhinha at junto de 
Artur, com um movimento derreado dos quadris, os olhos revirados numa ternura 
chorosa:
  servidinho de um cabaz?
Artur recusou. Aquela proximidade do velho embaraava-o: o indivduo tinha um 
no sei qu de pegajoso na pele, um rolio de perna efeminado que repelia, e nos seus 
olhos, de cor indecisa e que no deixavam Artur, errava uma luxria turva, equvoca, 
flcida.
 Ento por que no vai um cabazinho?  disse o homem, mais baixo, chegando-
se.
Artur, instintivamente, recuou com nojo. O outro teve um movimentozinho de 
quadris, tocou-lhe no joelho e muito canalhamente:
 No tenha medo, menino!
Artur compreendeu, ergueu-se e com os punhos cerrados:
 Seu mariola!
 Ento, menino, ento!  disse o outro tranquilamente.
Artur berrou. pelo criado, atirou uma placa para a mesa e saiu furioso.
O nevoeiro cerrava; e Artur, galgando o Chiado, impelido pela indignao, ia 
murmurando:
 Canalha de cidade!

Da a dias, de manh, revia as provas dos Esmaltes e Jias, quando a porta se 
abriu discretamente e Meirinho entrou, pedindo muitas licenas, envolvido no seu belo 
robe-de-chambre de ramagens, o aspecto mais risonho, mais servial.
Se estava a trabalhar, no o queria incomodar! A rever as provinhas, hem? 
Examinou-as por cima do ombro de Artur, sem o deixar levantar, dizendo:
 Por quem , por quem , patrcio! Eu no vim incomodar! Bonito tipo; 
elzeviriano, no?
 muito chique. Versinhos de amor, hem? Seu magano!... Ora vamos a ver, 
vamos a ver.  E inclinava o rosto para escutar, com xtase.
Artur, lisonjeado, leu, na folha que revia, algumas quadras s Colinas de Santo 
Estvo  que era l nos seus stios:

Oh! colinas verde-negras
Onde se escondem casais,
Pondo brancuras de cal
Nos ramos dos pinheirais...

Colinas de Santo Estvo,
Onde eu  tarde passeio,
Colhendo nas nuvens brancas
Motivos de devaneio!

Meirinho achou de apetite. E sorrindo maliciosamente, quis saber se ele no 
fazia s vezes versinhos frescos, como os do Bocage, por exemplo...
Artur corou como uma virgem: decerto que no, que horror!
 Pois tm seu cabimento  disse Meirinho com um ar entendido.  Eu pelo-me! E 
olhe que na sociedade gosta-se! Gosta-se! J se sabe, nada de grossa indecncia! No 
gnero do Padilho. O Padilho para isso  um Deus! Conhece o Boto de Rosa, do 
Padilho? No conhece?  E parecia admirado.  Pois olhe,  falado, e como o amigo  
literato... Mas em Paris  que h meninos para isso! Oh!  e revirara os olhos.  E 
poetas de fama! So muito apreciados.  muito chique!
Artur, ainda vermelho, estava indignado. Havia na voz compenetrada, nos 
movimentos de olhos de Meirinho, fazendo o elogio da poesia obscena, uma satisfao 
langorosa que lhe lembrava, por vagas semelhanas, o velho do caf do Rossio; e 
aquelas opinies estpidas faziam parecer mais irritante a correco da sua barba e o 
catitismo do seu belo robe-de-chambre de ramagens.
Meirinho passou o leno de monograma bordado pelo nariz, e mudando de tom:
 Pois eu vinha saber se o amigo quer ir hoje  D. Joana Coutinho?
Que surpresa! Porm,  alegria repentina que lhe veio, misturava-se um vago 
medo que lhe fez dizer, sem saber por qu:
 No, hoje...
Arrependeu-se logo. Queria revogar a palavra. Remexia nervosamente nas folhas 
impressas do livro, com as orelhas escarlates.
Meirinho exclamou:
 Qual! O amigo no tem que fazer. Eu j falei  D. Joana: ela tem imenso gosto... 
Recita-se, naturalmente.  necessrio levar uma poesiazinha...
Artur, por fim, aceitou, reconhecido. E para esconder o seu entusiasmo 
provinciano, perguntou a que horas devia ir, quem estaria...
 Ah  fez Meirinho  talvez l encontre a tal senhora que mora em S. Bento. Se  
pessoa de sociedade, uma ou outra tera-feira, deve l ir. Vai l tudo!
Artur fez-se vermelho de prazer. Calculou logo que devia ir comprar luvas cor de 
palha, uma flor... Sentia uma nova estima por Meirinho: era um bom amigo, este; 
pensava mesmo em lhe dedicar uma poesia no livro...
 Como o tempo melhorou, hem!  exclamou Meirinho que se aproximara da 
janela.
De manh ainda chuviscara, mas agora o cu azul, de um azul terno e hmido, 
reluzia entre largas nuvens algodoadas que a luz orlava de uma tonalidade macia de 
leite.
Artur abriu a janela. Ao contentamento do bonito dia, misturava-se a alegria de ir 
 soire: sentia-se vagamente enternecido. Via-se l, numa sala rica, onde caudas de 
seda rugem sobre os tapetes, falando-lhe baixo, a Ela, muito junto do leque aberto sobre 
o lindo rosto corado de sensaes doces. Que recitaria?
 Recita-se, hem?  perguntou ainda a Meirinho.
 Costuma-se  disse o outro, que parecia distrado, passeando pelo quarto, 
afagando a barba, apertando os cordes do robe-de-chambre. s vezes parava, sorria 
para Artur, cerrava os olhos, dava alguns passos, curvado para as suas chinelas 
bordadas. De repente disse:
 Ento s nove, de casaca...
Dirigiu-se para a porta; mas parando, com um grande gesto:
 Homem, esquecia-me!  E riu baixo um momento, como se fosse dizer alguma 
coisa de muito cmico:  Sucede-me uma histria engraada. Esperava a hoje uns 
dinheiros... Tem graa, no? Coisas do pas!...  de um ridculo!
Esperava um dinheiro... Pois senhores, descuidam-se... E aqui estou eu... Tem o 
amigo dez libras, at amanh?
Artur, um momento surpreendido, foi logo ao ba tirar as libras de um cartucho. E 
Meirinho, fazendo-as escorregar negligentemente para o largo bolso do robe-de-
chambre:
 E de um ridculo, hem? Coisas do meu procurador!  Tornou a rir 
ambiguamente:  E ento s nove, de casaca. E gravata preta;  escusado gravata 
branca...
Sorveu outro riso, e j com a mo no fecho da porta:
 A D. Joana Coutinho h-de estimar muito. J falei nos calemburzinhos. Ela j 
sabe, ela j sabe!
Riu de novo, e com um deslizar doce das chinelas, saiu, dizendo:
 Au revoir, cher!
Artur ficou extremamente agitado. Ia ver enfim essa coisa extraordinria: a 
SOCIEDADE!
Imaginava vagos dilogos, frases originais que diria, posies em que se sentaria: 
e sentia j umas indefinidas clicas, a que se misturava um sopro de vaidade alegre e de 
timidez retraente. Se Ela l estivesse? Ousaria lembrar-lhe a estao de Ovar? E 
fumando, pelo quarto, perdia-se em imaginaes flutuantes, em que se formava e 
desmanchava o romance fragmentado dos seus amores com Ela  desde o primeiro 
olhar at aos cimes do marido, at a um duelo possvel!
Nesse momento um criado entrou com uma carta: era do Sr. Melchior e o galego 
esperava a resposta. Amigo Artur  dizia o jornalista  hoje, por acaso, eu e outro 
amigo combinmos uma partida ao Dafundo, com damas espanholas. Despesas 
divididas como num piquenique de amigos. Quer voc vir? O outro rapaz  conhecido,  
dos nossos. Resposta. O rendez-vous  s 9 em ponto na Casa Havanesa.  P. S.  A 
formosa Concha est pronta a ir e voc ser o seu cavalire! Viva a folia!!
Artur ficou com o bilhete na mo, hesitando: na letra irregular e desmanchada de 
Melchior entrevia como que uma impetuosidade de troa, desalinhos de toilette. A ideia 
da Orgia aparecia-lhe toda reluzente de tentaes: numa abundncia de luzes de gs, 
jactos doirados de champagne saltando dos gargalos estreitos, mulheres de decotes 
atrevidos cantando, valsas improvisadas fazendo saltar os cristais sobre a mesa e em que 
o frufru das sedas se misturava ao estalar dos beijos!... Desejava muito ir  mas a sua 
promessa a um homem to bem relacionado como Meirinho?... A esperana de a ver, a 
Ela?...
Respondeu, no sem orgulho, que sentia muito, mas j estava convidado para 
uma soire no High-Life.

A casa de D. Joana Coutinho, a Santa Isabel, era um antigo prdio, com um ptio 
lajeado de pedra mida, onde s vezes se via, a um canto, desatrelada, a carroa da 
gua.
Casada com um fidalgo da provncia, rico e j de idade, D. Joana Coutinho 
recebia s teras-feiras; aquelas soires constituam a sua posio social. De vez em 
quando, com a prudncia de quem esperta uma lareira que tende a esmorecer, alguns 
amigos (Bento Correia dizia alguns devotos) faziam publicar nos jornais  que as 
deliciosas teras-feiras, da Ex.ma Sr D. Joana Coutinho, continuavam a ser a grande 
atraco da sociedade elegante.  Dizia-se geralmente que eram soires eclcticas: 
viam-se, com efeito, nas trs salas seguidas, velhos fidalgos, novos deputados, 
jornalistas, um ou outro banqueiro, algum ministro, poetas e estrangeiros. s vezes 
recitava-se; quando dominavam as raparigas, valsava-se ao som do piano; e como seu 
marido conservava muitas relaes na provncia, via-se tambm errar entre os grupos 
caracteristicamente lisboetas, algum sujeito embezerrado, de cores sadias, chegado do 
fundo da Beira ou das alturas de Trs-os-Montes, incomodado na casaca vincada das 
dobras da mala. O que sobretudo tornava estas soires estimadas, era a disposio da 
moblia e a moderao da luz: as cadeiras e os sofs, cobertos, de Vero ou de Inverno, 
das suas housses de fusto branco, estavam dispostos de modo a formar retiros 
favorveis  intimidade de um grupo ou de uma coterie, recantos obscuros, excelentes 
para o dilogo murmurado de um par sentimental. s vezes, via-se assim, num canto 
mal alumiado, um peitilho de camisa muito chegado a um leque aberto:  era um 
escandalozinho em plena funo, como dizia o maligno Xavier; outras vezes, de uma 
daquelas alcovas  Bento Correia dizia, impudentemente, as alcovas de D. Joana  
via-se erguer um sujeito, com o rosto muito srio, entumecido, escarlate, batendo as 
plpebras, como um homem mal acordado e a quem se desejaria perguntar: fez a sua 
soneca, hem?  As luzes, lmpadas Carcel de globo fosco, com fortes abats-jours, 
concentravam toda a claridade no meio da sala, sobre inocentes lbuns e honestas vistas 
estereoscpicas, deixando junto s paredes uma zona de sombra adorvel: assim no era 
necessrio s senhoras, como se dizia, puxar muito  toilette: ligeiras modificaes de 
enfeites, no mesmo vestido, bastavam durante um trimestre; alm disso, a penumbra 
favorecia os rostos muito pintados e as belezas decadas tomavam, naquele esbatido 
doce de tons neutros, um encanto imprevisto.
Por isso D. Joana Coutinho era muito estimada. Apesar de ser casada com um 
velho montono e passivo e de ter, com os seus esplndidos olhos negros, a sua alta 
estatura airosa, inspirado um bonito par de paixes, era honesta. Tinha grandes 
amizades femininas: andava s vezes durante um Inverno inteiro com alguma rapariga 
que ningum conhecia, desentranhada dos fundos neutros da burguesia, e que ela trazia 
a seu lado no landau, instalava no melhor lugar do seu camarote em S. Carlos ou no 
centro da sua sala, s teras-feiras, cocando-a sempre com olhos brilhantes, erguendo-se 
de repente para lhe ir murmurar um segredo, com risinhos quentes, muito zelosa dos 
seus olhares, dos seus apertos de mo. Depois, no Inverno seguinte, outra favorita 
reinava; as suas criadas tinham a reputao de bonitas e os rapazes costumavam, ao 
entrar, demorar-se nos corredores, tirando o palet devagar, na esperana de entrever 
algum dos rostinhos maganos das escravas de D. Joana. Estas circunstncias davam 
lugar a sorrisos malignos: chamava-se-lhe, rindo: D. Juana. Mas ela era to amvel, 
tinha um sorriso to bom, os seus apertos de mo faziam-lhe tilintar os braceletes de um 
modo to atraente  sempre to pronta a servir de empenho a um ministro, a organizar 
um bazar de caridade, a reunir um pblico para a leitura de um poema triste, que  como 
dizia Bento Correia  todo o mundo tinha a caridade de no aprofundar.
Seu marido, de resto, parecia contente e orgulhoso dela. Era um homenzinho 
amarelo e silencioso, a quem os convidados, ao entrar, davam um aperto de mo mole e 
as senhoras mostravam os dentinhos num sorriso curto; depois, no se reparava mais 
nele. Muito metdico, muito econmico, toda a noite errava subtilmente pela casa, 
arranjando uma cadeira, diminuindo no corredor um bico de gs, levantando um palet 
cado. Dizia-se geralmente que sofria de um aneurisma: dois sujeitos, ambos 
empregados no Ministrio do Reino, ambos graves, seguiam com impacincia a marcha 
da enfermidade, estudando-lhe a amarelido, os cansaos, na esperana de ainda um dia 
gozarem os dez contos de ris de renda da viva. Dizia-se porm que, morto o marido, 
D. Joana Coutinho se retiraria a um convento  onde o nmero e a idade das educandas 
satisfariam amplamente as suas necessidades de ternura feminina.
Davam nove horas no relgio do corredor quando Meirinho e Artur entraram, para 
despir os palets, num pequeno gabinete alumiado por serpentinas, ao lado de um antigo 
trem de provncia. Artur, muito nervoso, encharcado de gua-de-colnia, hirto na sua 
casaca, com uma compresso de medo no estmago, calava, um pouco trmulo, as 
luvas cor de palha, quando ouviu, saindo de uma sala prxima, um zurrar clamoroso de 
jumento! Voltou-se, espantado, para Meirinho... Mas este apenas sorriu, alteou o 
peitilho, penteou cuidadosamente ao espelho a bela barba e disse:
  perfeito, hem?
Ao lado, o burro zurrava convulsivamente e aquele ronco bestial, vindo atravs de 
um reposteiro de fazenda escura, com um monograma bordado sob uma coroa, dava a 
Artur a impresso de uma estrebaria instalada numa soire.
  o nosso amigo  disse ainda Meirinho. Deu um puxo  casaca e ergueu o 
reposteiro.
Era com efeito o Padilho: no meio da sala, torcido sobre uma cadeira, com as 
mos nas ilhargas, a face roxa, fazia a sua grande imitao do burro com cio!
Admiravam-no! Sujeitos graves, as mos atrs das costas, tinham nas faces 
burocrticas expresses aprovadoras e profundas; dos sofs, na penumbra, estendiam-se 
magros pescoos avelhentados, bocas de poucos dentes entreabertas de pasmo; e as 
senhoras, de p, com o peito alto, a cabea de lado, o rosto luzidio de satisfao, 
saboreavam com risinhos clidos a sensao de bestialidade que espalhava na sala 
aquele rouco bramar de cio!
 Muito bem! Muito bem! Magnfico!
Ele erguera-se com os olhos injectados, arquejante, alargando o colarinho, 
murmurando:
 Esta do burro, mata-me!
Trouxeram-lhe gua com acar; as senhoras cercavam-no, electrizadas, como 
procurando nele o cheiro, o calor, a excitao de Estio do animal. E pediam-lhe que 
fizesse a Emlia das Neves! S um instantinho! Padilho repelia-as, quase brutalmente, 
inchado, bufando, e foi refugiar-se num sof, ao p de duas velhas, abanando-se com o 
leno:
 Isto no  forja de ferreiro! Isto no  forja de ferreiro! Esta do burro, mata-me!
Meirinho ento, correndo para D. Joana Coutinho que atravessava a sala, 
apresentou Artur. Ela deu-lhe um grande shake-hands varonil, com um sorriso amigo 
que lhe descobriu os dentes at s gengivas:
 Muito prazer...  admirvel o Padilho! Tem-nos divertido imenso!
Artur olhava-a com admirao: muito alta, de feies um pouco masculinas, as 
mas do rosto salientes e coradas, o nariz grande, os lbios to vermelhos que pareciam 
sanguinolentos  a sua fora estava nos olhos encovados, muito negros, brilhantes, 
voluntariosos; da sua cinta espartilhada, mbil, seca, caa uma camada espessa de saias, 
com um ruge-ruge de engomados e de faille dura; e havia na sua magreza, nos seus 
movimentos de uma ondulao felina, no seu cabelo preto e forte, no macio das suas 
mos longas e estreitas, naquela quantidade de saias rijas, um tom ardente, decidido, 
que preocupava e irritava.
 H muito tempo em Lisboa?  perguntou-lhe ela.
Mas Padilho, erguendo a voz do fundo da sala, de entre um grupo de senhoras:
  Sr D. Joana, venha c! Venha decidir! Ela deu um sorriso a Artur e foi logo, 
balanando a camada sonora das saias.
Artur, s, isolado, procurou Meirinho com um olhar inquieto, e, no o vendo, 
ficou muito embaraado, com o claque colado  perna, sentindo o acanhamento 
entorpec-lo, os dedos errantes sobre o bigode. A penumbra projectada pelo grosso 
abat-jour verde esbatia as fisionomias num tom neutro, apagado: todas lhe eram 
desconhecidas. Olhou um momento uma mulher bonita, de vestido de seda amarela, 
que, enterrada numa poltrona baixa, o leque aberto sobre o colo, o olhar no cho, 
escutava com um vago sorriso um sujeito de pince-nez, de pulsos magrssimos, que 
gesticulava, muito chegado a ela; junto da mesa, trs meninas cochichavam com 
risinhos, os rostos unidos, examinando um lbum. Artur, ento, desejou tambm um 
lbum para folhear e os seus olhos voltaram-se ansiosamente para D. Joana Coutinho, 
que de p, defronte do Padilho, muito estirado no sof entre vestidos de mulheres, ria, 
toda animada, com o brao passado pela cinta bonita de uma menina loira e gordinha.
Para no, estar imvel, aproximou-se a examinar um quadro que pendia por cima 
de uma consola onde havia porcelanas: mas na meia obscuridade que dava o abat-jour, 
apenas via os doirados desbotados do caixilho; voltou-se, mais embaraado, infeliz: 
duas velhas com enfeites negros, as mos no regao, um aspecto de placidez 
embrutecida, pareciam examin-lo com uma curiosidade desdenhosa; quase angustiado, 
furioso com o Meirinho que desaparecera, com D. Joana que o esquecera  entrou na 
outra sala, com a esperana de a ver, a Ela! Na sua turbao, distinguiu apenas, na 
mesma penumbra que caa dos abats-jours, peitilhos claros de sujeitos recostados, 
corpetes de seda onde reluziam medalhes; leques palpitavam devagarinho; falava-se 
francs. Junto de uma jardineira, no meio da sala, uma magnfica mulher de aspecto 
escultural, de bela e soberba massa de cabelo loiro, remexia distraidamente em 
fotografias espalhadas: sentada de lado  beira da cadeira, toda a riqueza das suas linhas 
ficava em relevo e a longa cauda escarlate do vestido estendia-se amplamente sobre o 
tapete. Mas Ela no estava, no viera, no era talvez mesmo das relaes de D. Joana. A 
soire perdeu para Artur todo o encanto; todo o atraente calor ambiente pareceu-lhe 
fictcio, de um cerimonial frio.
Ia retirar-se, intimidado, quando ouviu a voz de Carvalhosa: gesticulava entre dois 
sujeitos, ao fundo, junto da chamin, onde um guerreiro de bronze, sobre um cavalo 
empinado, brandia uma espada. Aproximou-se logo dele, com um sorriso quase servil, 
todo reconhecido; o Carvalhosa deu-lhe um ol! seco, desdenhoso, e mesmo abaixou a 
voz. Artur ento, desesperado, examinou um momento o bronze; sentia os ps pesados 
como chumbo, as orelhas ardentes; muito perturbado, veio tropear na longa cauda de 
seda escarlate: a senhora voltou-se com um olhar que brilhou e aconchegou o vestido 
com um gesto brusco, quase irritado.
Artur voltou  primeira sala e ficou um momento junto da porta, imvel: sentia 
que as articulaes se lhe emperravam. E teria de passar toda a noite, errando assim de 
ombreira em ombreira, mudo, grotesco, lgubre?...
E as trs meninas que conservavam ainda egoistamente o lbum! Como desejaria 
aproximar-se do Padilho, refugiar-se nele como numa intimidade animadora; mas via-o 
to cercado de saias, de sedas, de penteados enchumaados, de leques abertos!... E 
sobretudo, a intimidade que unia aquelas pessoas e as envolvia como uma atmosfera  
tornava o seu isolamento mais pungente. Deviam decerto pensar: que provinciano, que 
lapuz! Achou aquela gente artificial, egosta, amaneirada! Que saudades do seu robe-
de-chambre de veludo, no quarto do Universal, ou do botequim da Corcovada, em 
Oliveira! Porm no podia ficar ali, espectralmente colado  ombreira da porta! J 
surpreendera olhares de lado, sorrisos que lhe punham nas costas um suor aflito, e com 
um esforo da vontade retesada, aproximava-se da mesa, para se apoderar das vistas 
estereoscpicas, quando D. Joana, o peito alto, batendo o leque, num ruge-ruge de faille 
rica, se dirigiu a ele:
 Ento tem gostado de Lisboa?
 Muito, minha senhora!  respondeu com todo o sangue nas faces.
 Ah, gosta-se sempre!...  Sorria por cima do ombro de Artur para o grupo das 
meninas que folheavam o lbum: ameaou-as mesmo com o leque, com um rpido 
brilhar das pupilas negras.
 Est um tempo muito agradvel, no?
 Adorvel!
 E vai durar,  de esperar!...  Tornou a sorrir para as raparigas, a amea-las 
com o leque.
 E demora-se?
 E provvel!
 Terei muito prazer...  abaixou-lhe a cabea com um movimento lento que lhe 
cerrou as plpebras e com outro sorrisinho que lhe descobriu as gengivas, afastou-se, 
dizendo ainda:  O Meirinho est com o seu whist...
Artur viu-a um momento falar s meninas, rindo, com a cinta sempre mbil, como 
que sustentada no ar pelo tufado das saias; depois, debruar-se para o lbum, falar-lhes 
sobre o rosto, pondo a mo no ombro de uma ou de outra, viva, radiante; achava-a 
provocante com o seu longo nariz, os dentes to brancos, aquela magreza quase 
masculina onde corria uma vibrao de nervos excitados; e mais animado, como se as 
palavras que dissera lhe tivessem dissipado o entorpecimento, atravessou a outra sala, 
para ir ver o Meirinho na sua partida de whist. Havia dois reposteiros; abriu um deles, e 
topou com uma porta fingida: num vo estava uma vassoura! Vermelho at  raiz dos 
cabelos, ergueu o outro: ao fundo de uma saleta, Meirinho l estava a uma mesa de 
whist. Artur apoderou-se avidamente de uma cadeira e instalou-se entre ele e um sujeito 
de suas grisalhas e culos de oiro.
 Ento tem-se divertido?  perguntou-lhe Meirinho.
Recebeu as suas cartas e recaiu numa reflexo imvel, coando devagar a barba. 
Artur no sabia o whist; mas como se fumava, acendeu um charuto, mostrando-se 
interessado pelo jogo, seguindo atentamente as cartas, estabelecido ali como num 
refgio amvel, no terror da sala, das ombreiras solitrias, das caudas de seda...
O montono movimento das cartas ia-lhe dando um torpor sonolento: com o 
claque nos joelhos, a cabea vazia, uma vaga sede, abandonava-se numa inrcia mole, 
enfastiada, de que o tirava o Meirinho de vez em quando, dizendo-lhe, com um tom 
satisfeito:
 No se faz vintm!
Aquilo escandalizava o sujeito de culos, que perdia:
 O que no se faz, o que no  decente  ter uma sorte to escandalosa!
Parecia ter um gnio irritvel: certas cartadas faziam-no mexer na cadeira com um 
rosnar hostil; j por duas vezes olhara para Artur, de lado, com rancor.
Artur acendia outro charuto, quando o sujeito de culos que jogara uma carta com 
ira, batendo-a fortemente na mesa, ao ver Meirinho estender a mo para a vaza, pulou 
na cadeira, fez estalar os ns dos dedos, repeliu a caixa de rap, e disse entre os dentes:
 Eu, quando h calistos, no posso! No posso! Nem o jogo  um prazer!
Artur no sabia o que era um calisto, mas estranhou o acento sibilante, furioso, 
daquela voz caturra: sentia que o sujeito de culos o detestava; o parceiro dele, mais 
grave, muito calvo, disse:
 Ento no se vai fazer a corte s senhoras?
Artur respondeu:
 Estou bem, gosto de ver jogar!
O dos culos torceu-se na cadeira, soprando.
Meirinho, mudo, cofiava a barba, a face risonha, banhada na alegria do ganho.
Deram de novo as cartas, mas ao ver as suas, o sujeito de culos deu uma punhada 
na mesa:
 Uma coisa assim!
Tinha a face injectada e por trs dos culos, os olhos pequeninos faiscavam-lhe; 
de repente, a uma cartada infeliz, recuou a cadeira com um oh! surdo, rangeu os dentes 
e voltando-se para Artur, trmulo de clera:
 Perdo, eu no tenho o gosto de o conhecer, mas no posso, no posso! Estes 
amigos sabem, conhecem-me o gnio! Tenha a bondade de mudar de lugar!  E no se 
contendo, berrou com os punhos fechados:  Eu com calistos no posso!
Artur ergueu-se, plido, balbuciando:
 Pois no, pois no!
Atirou o charuto e pisando o tapete com passos nervosos, saiu para deixar a 
soire, indignado, humilhado, furioso contra Meirinho. Ao erguer o reposteiro deu com 
D. Joana Coutinho, que, muito afvel, o chamou:
 Ia procur-lo! O Meirinho disse-me que e poeta... Queremos que nos recite logo 
alguma coisa.
Todo o seu despeito se dissipou; sentiu envolv-lo subitamente uma simpatia 
ambiente:
 Pois no, pois no, minha senhora! Recitarei A Pomba.
Curvou-se, enternecido, e entrando na sala foi apoderar-se do lbum que as trs 
meninas tinham deixado, muito entretidas agora com o Padilho que lhes lia nas palmas 
das mos a buena-dicha, com cerimnias de bruxo, fazendo voz sepulcral. E riam!...
Artur, folheando o lbum  pessoas reais, vistas da Pena, indivduos de farda  
recordava as estrofes de A Pomba. Pelo meio da sala, dois sujeitos passeavam 
pausadamente: um, muito alto, de perfil espesso, com uma enorme testa deprimida no 
alto, escutava, com um olhar vazio, sonmbulo; o outro, magrinho, de passinho 
danado, falava com verbosidade, uma das mos por baixo da aba da casaca, o que lhe 
mostrava um pouco da camisa sada, a outra, de polegar estendido, furando o ar com 
gestos vivos, aqui e alm; Artur ouvia-lhes ao passarem junto dele: a portaria..., 
influncias da prima.... o Rei  que quis.... o ministro furioso.... s vezes paravam e o 
mais alto rolava em redor o bugalho bao dos olhos pasmados. Um indivduo nutrido 
falava com duas senhoras de idade da irreligio dos criados! Era coisa que ele no 
suportava! As velhas lamentavam a perdio dos tempos... O povo estava mpio, era 
obra da maonaria... Mas um velhote, de colarinho enorme e bochechas fortes, 
aproximou-se. arrastando a perna: perguntaram-lhe se ia melhor: No; estava decidido  
operao... Talvez fosse faz-la a Paris. Discutiram ento mdicos, farmcias, e as vozes 
tomavam tons dolentes, como num quarto onde se agoniza.
Mas Artur teve de se arredar um pouco para dar lugar,  mesa,  senhora de 
vestido cor de palha, que se aproximara com o rapaz magro de pince-nez: era alta, com 
um seio rico, a pele esplndida, os olhos grandes; sentou-se, tomou uns poucos de 
retratos soltos que estavam num cesto de filigrana; o rapaz magro disse-lhe ainda 
algumas palavras baixo e afastou-se de cabea erguida, limpando as lunetas ao leno. 
Ela deu um olhar rpido a Artur, outro, lento,  roda do vestido, comprimiu de leve um 
bocejo e comeou a examinar distraidamente os retratos: Artur admirava-lhe as mos de 
uma brancura lctea, cheias de pedrarias, o comeo do brao cujo torneado, polido 
como um mrmore, se perdia num fofo de rendas ricas, quando o Padilho, que acabara 
de ler a buena-dicha, lhe veio falar: nunca a vira com melhores cores... Ela riu:
 Sim?... E ento no nos faz outra imitao?
 Ah, j contribu, j contribu! A do burro cansa-me muito. Aqui o nosso amigo  
e indicou Artur  vai-nos recitar...
Ela olhou para Artur um pouco de lado, e Padilho, muito correcto, apresentou-o:
 O meu amigo Artur Corvelo. E agora  acrescentou  vou ver o D. Frederico, 
que tem perdido e est furioso... Au revoir, Sr Baronesa!
Artur, vermelho, procurava uma palavra, quando ela, reparando numa das 
fotografias, lha mostrou:
  Rochefort, no ?
Artur, quase inconscientemente, soltou:
 Grande apepinador!
E, espantado, aterrado daquela frase quase obscena, que lhe sara 
involuntariamente, como um arroto, sentiu a vergonha esbrasear-lhe a pele, pr-lhe um 
suor nas mos, imobiliz-lo. Viu os dois sujeitos que passeavam pararem junto da 
baronesa: mas atravs do zumbido que lhe enchia os ouvidos, as suas vozes chegavam-
lhe apenas como um murmrio remoto; percebeu vagamente que falavam do Fim de D. 
Joo  o poema recente de um poeta ilustre. A baronesa, que justamente o lera nessa 
manh, no gostava: achava que tinha pginas incompreensveis; o indivduo magrinho 
atacava o livro: no que o tivesse lido, oh no!  no tinha tempo para se ocupar de 
versos, de romances, de literatura  mas constava-lhe que estava recheado de imora-
lidades e de ideias de Comuna... O indivduo sonmbulo, esse, parecia procurar uma 
frase na lmpada Carcel, no penteado da baronesa, no peitilho da sua prpria camisa, 
com olhares de uma nsia abstracta; no a achou e passou os dedos devagar pela testa 
enorme, com uma lentido cheia de agonia, enquanto o magrinho continuava a falar: 
parecia furioso com as ideias novas, os livros novos, os rapazes novos! Era de opinio 
que o Governo devia intervir. O sonmbulo, com um esforo que lhe entumeceu mais o 
rosto, disse por fim, numa voz espessa, crassa:
  todavia um rapaz bastante profundo!  teve outro esforo e murmurou num 
tom cavernoso:  dizem-me que tem muito fundo!
Era possvel  mas a Sr Baronesa preferia a todo o Fim de D. Joo, uma simples 
quadra das Flores da Alma: As flores de alma que se alteiam belas...
 Ah!  disseram ambos, concordando impetuosamente.
As palavras que chegavam por fragmentos a Artur, atravs da sua turbao, 
faziam-lhe entrever na Sr Baronesa leitura, curiosidades artsticas, um gosto formado, e 
a sua frase: grande apepinador! parecia-lhe ento mais estpida, mais torpe!
Ergueu-se subtilmente, encolhido de vexame, e foi-se refugiar, com a cabea a 
arder, na sala amarela, deserta, onde as luzes das serpentinas erguiam grandes chamas 
direitas. Atirou-se para o sof, dando uma punhada no joelho, com um oh! de raiva. O 
que lhe fizera partir dos lbios aquela palavra abjecta? Ele, que ao nome de Rochefort 
sentira apertarem-se-lhe no crebro apreciaes finas, originais, pitorescas! E era quela 
mulher, formosa, toda vestida de seda amarela, com uma carnao to pura e que tinha a 
majestade de um mrmore, que atirara uma tal chulice! Apresentado como um poeta, 
um estilista, um delicado, abria os lbios e soltava uma sandice obscena, ele, que 
mesmo entre homens. quando se desabotoam os coletes e se fala numa fumaraa de 
cigarro, tinha sempre uma correco honesta de expresses!... Oh! Que pensaria ela? 
Que diria D. Joana?...
Sons de piano tiraram-no da sua modorra. Ergueu-se: o seu rosto, no espelho, 
pareceu-lhe envelhecido, parvo, e com o claque colado  coxa, chegou-se  porta da 
sala. Valsava-se.
D. Joana que passava pelo brao do baro, um rapazote gordinho e baixo, de 
colarinho muito decotado e barbinha rala  parou e voltando o rosto para Artur:
 Quiseram antes valsar. Raparigas!... Mas noutra noite, espero ter a ocasio de o 
ouvir... Tire par para uma valsa...
Artur fez-se escarlate:
 Eu no valso.
 Para uns lanceiros, ento?
 No, obrigado, no dano...
 Ah!  fez ela e afastou-se, rindo baixo com o baro.
Artur teve-lhe dio. Desejou raivosamente um ttulo, uma pasta de ministro, a 
glria de duelista, uma celebridade qualquer que o tornasse temido e admirado!
 Tem a bondade de deixar passar!  disse-lhe sobre o ombro uma voz 
impaciente.
Voltou-se: era o rapaz de pince-nez que trazia pelo brao a magnfica criatura de 
grande cauda escarlate. Artur recuou bruscamente e vendo junto de uma velha uma 
cadeira desocupada, refugiou-se ali, numa atitude aniquilada e hostil, por trs de uma 
poltrona, onde ps o claque que o impacientava. Como desejaria entrar naquela sala  
frente de uma multido furiosa, numa noite de revoluo! Espedaar os espelhos  
coronhada, carregar de algemas aqueles pulsos de magricelas! Ver aquelas mulheres to 
triunfantes, de peitos erguidos, arrastarem-se de joelhos aos seus ps, na implorao 
soluante de uma casta vencida!
O sujeito magrinho que admirava as Flores da Alma, tocava ao piano o Danbio 
Azul, com movimentos ternos de cabea que condiziam com as suas preferncias 
poticas; tinham recuado a mesa, e no soalho encerado  francesa quatro pares giravam 
com um frufru de sedas, num rpido resvalar de solas; as porcelanas sobre a consola 
tremelicavam levemente; os leques tinham uma palpitao mais rpida; falava-se com 
uma vivacidade comunicada pelo ondear das saias e a vibrao do teclado; as meninas, 
 beira das cadeiras, com os pezinhos impacientes, tinham um brilho mais vivo nas 
pupilas, e o globo do candeeiro, sem abat-jour, alumiava, defronte de Artur, um vasto 
quadro  Salvator Rosa, onde havia runas, pinheiros mansos e bandidos romnticos.
Ento a velha senhora de enfeites negros pareceu acordar, bocejou, mastigou em 
seco e voltando-se para Artur:
 Faz favor de ir dizer  Maria que vo sendo horas.
Artur hesitou, balbuciou:
 Eu no conheo...
A velha olhou-o com curiosidade, desembaraou uma luneta de oiro dos berloques 
do relgio, aplicou-o com a cabea erguida e chamando um rapaz loiro, que veio, todo 
afvel, limpando a testa do suor da valsa:
 Faz favor de dizer  Maria que so horas...
 Oh, Sr D. Sofia, pelo amor de Deus!  acudiu o moo.  Isso  uma tirania. 
Mais meia hora, pelo amor de Deus!  e abria os braos suplicantes.
  que eu depois  que a aturo  murmurou a velha;v l, v l...
Tornou a mastigar em seco e pareceu readormecer.
Os sapatos de verniz comeavam a torturar Artur: decidiu partir e foi  sala de 
jogo, chamar o Meirinho. Ao v-lo, o sujeito de culos teve um movimento de terror e 
Meirinho que perdia agora, muito vermelho, respondeu com impacincia:
 Aqui cada um sai quando quer!
E agarrou as cartas, furioso.
Aquelas palavras bruscas escandalizaram Artur: lembrou-se com despeito das dez 
Libras emprestadas  resolveu exigir-lhas. Detestava agora o Meirinho, D. Joana, a 
Sociedade, Lisboa, e vestia na saleta o seu palet, quando viu com terror que lhe 
esquecera o claque, na sala, sobre a poltrona. Despiu de novo o palet, desesperado, e 
voltou  sala. Que raiva! Uma senhora robusta, a quem chamavam familiarmente a 
viscondessa, sentara-se na poltrona! Ainda pensou que ela tivesse visto o claque, o 
tivesse atirado para outra cadeira ao p: no  gorda, enorme, com uma espessura 
tremenda de saias e de folhos, sentara-se, sem o sentir, em cima do claque chato! Ficou 
aniquilado. Como ousaria pedir quela majestosa senhora que se erguesse, que queria o 
seu chapu? Pensou que se levantaria em breve, libertando assim o seu claque e 
perfilou-se um momento junto  ombreira da porta; depois, foi ver todas as fotografias 
na sala onde o cavaleiro de bronze erguia a sua espada; foi examinar os livros numa 
estante envidraada; no se atrevia a consultar o Meirinho, Padilho valsava, 
Carvalhosa sara. Decidiu ento dizer  viscondessa um dito espirituoso, original, que a 
fizesse logo erguer, rindo, amvel, encantada, mas acudia-lhe apenas a frase natural, 
seca: a senhora est em cima do meu chapu! De repente lembrou-lhe que talvez 
fosse uma partida: queriam escarnec-lo, tortur-lo; um sopro de orgulho, de revolta, 
sacudiu-lhe a vontade: no! Iria  sala, faria levantar aquele enorme corpanzil de 
matrona obesa, e se visse uma face de homem sorrir, espalmar-lhe-ia uma bofetada! 
Voltou  sala, resoluto, mas ficou logo inerte, acabrunhado, vendo a viscondessa 
imvel, com o seu grande nariz borbnico muito lustroso, cercada do rapaz de pince-
nez, do sonmbulo, do magrito!
Teve desejos homicidas: sentia-se to desgraado que se lhe humedeceram os 
olhos. Sem motivo, de repente, Lembrou-se da sua me e enternecido voltou  sala 
amarela, atirou-se para o sof com a cabea entre as mos.
Um frufru de saias roou o tapete e uma voz disse:
 Est incomodado?
Era D. Joana, pelo brao do baro. Artur ergueu-se bruscamente, explicou que 
tinha uma enxaqueca...
Sim, com efeito, na sala dentro estava um calor... Mas no consentiam que se 
abrisse uma vidraa... O ar fazia-lhe bem. E acrescentou:
 Ah, se espera pelo Meirinho, olhe que ele no larga o whist seno alta noite.
E Artur, atarantado, pensando vagamente que
D. Joana o expulsava:
 Ah! eu vou j, no me demoro...
Ela estendeu-lhe a mo:
 Espero tornar a ter o prazer... s teras-feiras...
Artur, s na sala, pensava: e o chapu? Agora que se despedira de D. Joana no 
podia voltar a imobilizar-se na ombreira da porta, esperando que a viscondessa se 
levantasse. E poderia explicar que o seu claque estava debaixo das gorduras da 
excelente senhora? Ririam, seria prodigiosamente grotesco.
Com uma esperana voltou  sala: l estava a viscondessa, repimpada, as mos 
gordas no regao, estabelecida, palrando com a sua voz nasal. D. Joana Coutinho, essa, 
pareceu surpreendida de o ver e muito amvel:
 Perdeu alguma coisa?
 No  acudiu  era o Carvalhosa...
 Ah, foi-se! Aquele ingrato, est um momento e desaparece...
Artur inclinou-se e saiu. Estava farto, que diabo! Vestiu o palet e desceu a escada 
sem chapu; mas ficou aterrado: no ptio, havia dois trintanrios de casacos brancos e 
um cocheiro de praa. Tornar a subir?... No! Retesou a vontade, dirigiu-se para o 
porto, enquanto o criado,, atnito, abria devagar a grossa fechadura. Sentia por trs 
risinhos fungados, a chave perra parecia resistir. Artur tremia de raiva, de vexame;  
enfim a porta macia rolou, e uma frialdade hmida envolveu-lhe a cabea: chuviscava.
Ento amarrou o leno com um n debaixo do queixo e cosido com as casas, 
querendo enterrar-se na escurido, apressou-se, correndo quase,. com a chuvinha mida 
fustigando-lhe o rosto, a garganta tmida de lgrimas. Mas perdeu-se,. vagueou pelo 
Rato, pelo Salitre; pessoas paravam, assombradas daquele indivduo cujos passos 
pareciam de brio, com um leno apertado na cabea! Na Rua da Escola, encontrou um 
trem que recolhia: atirou-se para dentro, gritou:
 Para o Universal!
Que alvio ao pisar o tapete do quarto! Despiu a casaca com uma clera 
impaciente, arrancou bruscamente a gravata como se quisesse arrojar de si, com a 
toilette que lhe representava a soire odiosa, todos os seus desejos de sociedade, de 
encontros amorosos em salas aristocrticas...
S quando ia apagar a luz  que se lembrou que em casa de D. Joana Coutinho, ao 
outro dia, encontrariam o chapu! Pelas iniciais que ele,. tolo, mandara bordar no forro 
de cetim azul, reconhec-lo-iam! Que risadas! Formar-se-ia a lenda do poeta de Oliveira 
que esquecera o claque, o peludo! Oh!... Mas que lhe importava! Estava bem resolvido 
a no voltar l, nem a outra soire! Isolar-se-ia na Poesia, na Arte! Frequentaria 
Nazareno, seria um revolucionrio, conspiraria contra aquele mundo burgus, bancrio, 
fictcio, idiota! E escreveria uma stira tremenda contra os ridculos jogadores de whist, 
e as grotescas viscondessas gordas!
 Canalhas!  murmurou, aconchegando-se aos lenis.
E comeava a pegar no sono, quando, como o frio de uma lmina, lhe atravessou 
o crebro a ideia da frase que dissera: Grande apepinador! Era a nica que pronunciara! 
Deu um murro no colcho, rugiu uma obscenidade, e com um oh! de raiva e de 
vergonha, enterrou a cabea no travesseiro.
Toda a noite sonhou com a soire: valsava com a Sr Baronesa, mas no cho 
encerado escorregava, entre as gargalhadas agudas da velha de enfeites lgubres; no se 
podia erguer e aquela gente impiedosa, estpida, egosta, continuava valsando 
alegremente sobre o seu corpo prostrado; sentia sobre a testa, onde viviam ideias que ela 
no tinha, pularem os sapatinhos de cetim da senhora de cauda escarlate, e no peito, 
onde palpitava um corao, que no batia no peito dele, enterrarem-se as tachas dos 
taces do sonmbulo!

Dormia, j tarde, ao outro dia, quando a porta se abriu bruscamente, depois a 
janela, e viu junto do leito, Meirinho, plido, com os olhos fora das rbitas, e o seu 
claque na mo!
 Ento  gritou ele  ento o senhor saiu ontem sem chapu?
Artur fingiu-se estremunhado, bocejou, espreguiou-se, disse vagamente:
 O que ? O que ?
 O que ?  E o claque tremia nas mos colricas de Meirinho.   isto!  o seu 
chapu! Ento o senhor saiu sem chapu!
Artur afectou rir:  pensara que o tinha perdido, procurara-o, estava com dores de 
cabea, havia uma tipia em baixo...
Meirinho levou as mos  cabea:
 Ih, Jesus! Que vergonha, meu caro amigo! Eu, esta manh, recebo um chapu, 
com um bilhete de D. Joana, dizendo que tinham achado aquele claque e que, s depois 
de muitos tratos  memria,  que descobrira pelas iniciais que era o seu! Estava numa 
poltrona! A viscondessa, toda a noite, esteve sentada em cima!
Artur tentou rir: at tinha pilhria!
 Pilhria?  bradou Meirinho, batendo, assombrado, com as mos uma na outra. 
 Pilhria?  uma vergonha! Que ho-de dizer! Eu no me atrevo a ir J, eu nem me 
atrevo a ir l outra vez! Uma coisa assim!
Levou as mos  cabea e saiu desesperado.
O claque ficara sobre a cama: ento Artur, lvido, agarrou-o e torceu-o com tanto 
rancor que lhe quebrou a mola. Maldito, vai-te! E atirou-o furioso para o canto da roupa 
suja.
Saltou com os ps nus para o cho e toda a manh, esguedelhado, com os olhos 
vermelhos, embrulhado no robe-de-chambre, rimou uma stira amarga contra a 
sociedade, contra o High-Life:

Oh! coraes de pedra, oh! homens do milho!



VI

Nessa noite, entrando no Martinho, viu com prazer um lugar vago junto  mesa 
onde, como de costume, Jcome Nazareno tomava o seu caf. Desde a vspera, o seu 
desejo de o conhecer redobrara. Repelido da soire de D. Joana pelo mundo 
conservador, oficial, estabelecido, tendia instintivamente, no seu despeito, a refugiar-se 
no mundo revolucionrio, revoltado, de que Nazareno lhe aparecia como o 
representante. Amava, sobretudo, a democracia, por certos dados humanitrios, 
sentimentais, reparadores, e supunha, nos homens que a serviam, um calor de corao, 
uma fraternidade sensvel, que a sua natureza efeminada apetecia  e que faltava  gente 
seca, fictcia, sem generosidade e sem entranhas que tanto o humilharia em Santa Isabel. 
Alm disso, devorava-o um desejo vago de se vingar da Sociedade e queria concorrer 
para a sua destruio provvel, aliando-se ao Nazareno e aos seus amigos, levando-lhes 
as suas poesias, o seu estilo, o seu dinheiro e o seu dio.
Para facilitar o conhecimento, teve o cuidado, ao sentar-se, de cumprimentar 
discretamente o republicano, e como reparara que ele nunca bebia alcolicos, no tomou 
a sua genebra habitual: pediu anisette. Fumando devagar o seu charuto, revolvia frases 
filosficas que lhe diria, esperando uma casualidade que os reunisse, quando um sujeito 
de aspecto doente e que parecia sado de um hospital, se aproximou devagar de 
Nazareno: tinha os lbios naturalmente entreabertos, o nariz afilado, uma palidez oleosa, 
a barba desmazelada; parecia sair da cama e conservava ainda na pele, na camisa 
srdida, na guedelha seca, o cheiro da febre e o relento dos suores; apoiava ao mrmore 
da mesa duas mos lvidas, moles, pegajosas, de unhas negras e com uma voz dbil, de 
rouquido asmtica:
 Ento quando fica pronto?
Nazareno, pousando o cigarro  beira do pires, disse:
 Daqui a quinze dias. Foi necessrio pr papel, que a parede estava ignbil.
A sua voz que Artur ouvia pela primeira vez, tinha um timbre enrgico e resoluto. 
O doente varreu a mesa com a palma da mo, limpou os dentes com a lngua e 
perguntou mais baixo:
 O Matias?
 Tem a nevralgia hoje.
 L falei com o homem de Alcntara.
 Ento?
O doente estendeu o beio, oscilou a cabea:
 Sim, boas ideias, chega-se, mas...  preciso espica-lo. Vou mand-lo amanh 
ao Matias!
 O Matias amanh tem a nevralgia, tem sempre dois dias de nevralgia.
 Ah! E o Damio? Quando vem?
Nazareno tirou do bolso um mao de papis e mostrou-lhe uma carta. O doente 
leu, sorriu, mostrando as gengivas brancas e disse:
 Coisas do Damio...  Derramou em redor o seu olhar mrbido, tossiu com 
fadiga e erguendo a gola do palet:
 Vou-me chegando que est hmido... Aparea, Nazareno.
O republicano retomara o seu jornal, mas Artur tinha agora um pretexto, quase o 
direito de lhe falar: amigo de Damio, quereria saber se a sua ausncia se prolongaria na 
provncia. Animou-se, e corando, com o chapu na mo, a voz acanhada:
 Eu peo perdo a V. Ex. No tenho o gosto de o conhecer, mas... ouvi, sem 
querer, V. Ex, falar no Damio.  o meu amigo ntimo... Desejava saber se se demora, 
se...
 O Damio ainda tarda um ms.
Dobrou o jornal, bebeu um gole de caf e ajeitando as lunetas:
 Ento conhece o Damio?
Artur apossou-se de uma cadeira, estabeleceu-se  mesa. Exagerou Jogo as suas 
relaes com o Damio: eram ntimos j desde Coimbra, tinham sido companheiros de 
casa, escreviam-se sempre... Ele at viera a Lisboa para viver com ele... Infelizmente 
tinha partido.  Grande rapaz, hem?
Nazareno teve um gesto de respeito simptico, fez:
 Ah!
Artur ento exaltou Damio. J em Coimbra era o centro das Inteligncias. Era 
uma das fortes cabeas do Pas. E que esprito, hem?! E bom corao. No havia melhor 
no partido democrtico...  Repetiu duas vezes: o partido democrtico, para se pr com 
Nazareno em comunho de ideias. Mas o republicano escutava-o, reservado, quebrando 
a cinza do cigarro no pires: examinava-o com insistncia, pondo nos olhares, abrigados 
pelas lunetas defumadas, penetraes de bisturi.
 Conhece o Matias?  perguntou-lhe bruscamente: Infelizmente no, e desejava-o 
bem. E o Sr. Nazareno conhecia o Fonseca? No? Grande rapaz! Vivia em Castelo 
Branco. Ah, havia ento, em Coimbra, no tempo do Pensamento, uma grande rapaziada. 
E havia unio... O que faltava em Lisboa era unio e  um jornal...  E surpreendido, 
contente da facilidade com que as palavras lhe acudiam, desforrava-se da mudez que o 
dominara na soire de D. Joana, mostrando-se ao Nazareno sob um aspecto cativante de 
moo entusiasta e generoso.
O republicano respondia apenas por monosslabos, uns sins rosnados, afirmaes 
de cabea.
Artur ofereceu-lhe uma anisette, alguma coisa; Nazareno recusou tudo, mesmo 
um charuto. Havia em toda a sua pessoa um retraimento, uma congelao que 
desanimava Artur e lhe esbatia a verbosidade como a humidade extingue uma fogueira: 
teve de acender outro charuto para ocupar uma pausa. Mas Nazareno disse-lhe ento:
 O senhor vive em Lisboa?
Infelizmente no. Contou com sinceridade o que o trouxera  Capital: a 
publicao de um livro de versos, a representao de um drama, o desejo de um meio 
inteligente, literrio e o horror  provncia...
 E que tal se pensa na provncia? Boas ideias democrticas?
Artur riu. Qual! Estava-se to atrasado como no tempo dos frades. Uma coleco 
de pequenos burgueses, imbecis, rotineiros, caqucticos; meia dzia de ricaos que 
seduzem as raparigas e fazem eleies... Citou exemplos de Oliveira de Azemis, no 
duvidando, para lisonjear o republicano e ter graa, fazer a caricatura da estupidez do 
Carneiro, dos vcios do Rabecaz, da devoo das tias... E o pobre povo...
 Reza e paga  disse sombriamente Nazareno.
Atirou o cigarro para o fundo da chvena, carregou na copa do chapu com a mo 
espalmada e ergueu-se dizendo que, para conversarem, era melhor irem para fora. Havia 
ali gente que escutava e nem toda a gente devia ouvir. E j  porta acrescentou, 
aprumando a estatura:
 Que eu para os espies tenho em casa uma bengala sofrvel.
Caminharam calados at ao Rossio. A noite tinha um vago ar lgubre: nuvens 
escuras cobriam e descobriam uma Lua fria de Inverno, de tons lvidos.
 Peo perdo  disse Nazareno;  a quem tenho a honra?...
 Artur Correio.
E para dar ao republicano uma impresso favorvel, props que fossem conversar 
para o Hotel Universal: tinha l uni quarto confortvel...
Porm Nazareno, com o tom hirto de um devoto que alude a uma orgia  
respondeu que no frequentava esses covis de conservadores... Todo o luxo, com efeito, 
o irritava; sem inveja. mas sbrio e simples, condenava-o como funesto  democracia.
Artur, receando que a elegncia da sua instalao o fizesse duvidar da sinceridade 
do seu liberalismo, apressou-se habilmente a denegrir o luxo  explicando que o que lhe 
convinha era viver num quartito modesto, que, no Universal, a frequentao dos 
conservadores e brasileiros o irritava, que fora para l mal informado, pondo nas suas 
explicaes urna humildade e um fervor que, todavia, no acalmavam Nazareno.
 No se encontram nesses stios seno ladres e devassos  disse ele.
Foi logo a opinio de Artur, e, satisfazendo o seu dio da vspera, ao mesmo 
tempo que agradava a Nazareno, citou o Meirinho como a personificao daquela corja 
da sociedade: pintou-o como um idiota, ocupado de cezinhos de marquesas, intrujo, 
pedindo dinheiro aqui e alm, vendendo por preos de ladro, fatos feitos que eximia 
aos direitos, inventando detalhes  para mostrar a sua verve de artista e a sua indignao 
de justo.
 Todos os mesmos, todos os mesmos  rosnava Nazareno.
Uma mulher coberta de luto adiantou-se para eles, pedindo esmola, com um 
murmrio plangente. Artur, para mostrar o seu humanitarismo, apressou-se a dar-lhe 
uma moeda de prata, dizendo: pobre criatura, por este frio.
 O povo no precisa de caridade, precisa de justia  disse dogmaticamente 
Nazareno.
Artur, um pouco surpreendido da forma literria do princpio, objectou todavia 
que enquanto no vinha a justia...  mau  interrompeu o republicano  acostumar o 
povo a contar com a caridade. Ele sabe os seus direitos: que os realize!
Artur sentia confusamente acudirem-lhe muitas respostas, todas justas; mas, por 
timidez calou-se, murmurando: talvez, talvez....
O republicano comeava a desagradar-lhe. As suas naturezas  uma toda de 
impresses, a outra toda de raciocnio  discordavam, e havia entre eles como alguma 
coisa de frio, de hostil, que os separava. Mas o que mais descontentava Artur era no 
ver no republicano aquela bondade quente e evanglica, que era para ele o atributo 
melhor da democracia.
 Sobre que  o seu livro de versos?  perguntou-lhe o outro.
Para dar uma ideia das tendncias do seu livro, falou ento na Ode  Liberdade, 
na stira A Sociedade. Era um livro democrtico... A poesia moderna, como dizia o 
Damio, devia ser revolucionria. Mas Nazareno detestava a poesia: a sua forma 
luxuosa, totalmente idealista, servia apenas para amolecer as virilidades. Nunca lia 
poetas.
Artur, ofendido, exclamou:
 Mas Alfredo de Musset, Garrett?...
 Pulhas!  disse dogmaticamente o republicano.  Musset era um libertino, um 
bbedo, um bomio, que nunca compreendeu o seu tempo e que o que soube celebrar 
foi a luxria! E Garrett, um janota! Usava espartilhos e em pleno sculo XIX vem-nos 
falar de romances de cavalaria e de outras pieguices gticas... Um vendido!
Artur sentia-se indignado. E que tinha a dizer de Lamartine?
 Um ertico!
 Ora essa! Mas em 48...
 Comprometeu tudo. Fez frases. Faltou-lhe a ideia, a inspirao da justia, a alma 
do povo! Vinha das salas, das camarilhas. O seu ideal era a regncia da Duquesa de 
Orlees, de quem ele queria ser primeiro-ministro e amante,  Mazarino. Um vendido!
Oh, era de mais! Artur, atnito, procurava razes, frases, parecendo-lhe agora que 
o republicano era to seco, to fictcio como os burgueses da soire de D. Joana 
Coutinho.
 E o seu drama o que ?  disse ainda Nazareno, com um tom interrogante de 
pedagogo.
Artur, que aquele interesse lisonjeou, descreveu-lhe logo o drama, insistindo no 
lado democrtico  a glorificao do amante plebeu, a humilhao do marido fidalgo  
ocultando-lhe o elemento lrico e romanesco do trabalho. O plano, assim contado, 
pareceu satisfazer Nazareno; porm, deu-lhe conselhos:  para que dar ao protagonista, 
ao filho do povo, a profisso estril e imoral de poeta lrico? Devia-o fazer engenheiro, 
mdico, empregado de uma companhia; devia seduzir a duquesa, no pelo brilho do seu 
lirismo, mas pela justeza das suas ideias. Contudo a verdadeira obra de teatro era a 
comdia satrica  Molire, a comdia aristofanesca, a exposio dos vcios, das 
infmias, da imbecilidade desta canalha lisboeta: alguma coisa de fustigante, de 
vergastante! Dizia isto com um acento de dio que lhe passava entre os dentes, e atirava 
vergastadas ao ar com o guarda-chuva, como se aoitasse num s dorso toda uma Socie-
dade!
Artur apressou-se a concordar. Essa era a sua inteno: e alargava-se em 
consideraes sobre a Comdia Social, fazendo renascer a simpatia comum. Mesmo, 
para mostrar a sua veia de observador, para desabafar os seus despeitos, ps-se a dizer 
que belo acto daria a soire de D. Joana  uma soire idiota, onde fora arrastado e que 
era do melhor que havia em Lisboa  porque no desgostava de mostrar que tinha 
relaes aristocrticas, mesmo fazendo-lhes a caricatura. Contou a opinio dos dois 
homens graves sobre o Fim de D. Joo, a conversa do velho sobre a irreligio do povo, 
os adultrios que pressentira, a grotesca figura da viscondessa, os vcios de D. Joana...
 Pouh!  fez Nazareno com nojo.  Que sociedade, que asco! No, realmente, o 
Matias tem razo,  humilhante lutar contra uma tal sociedade! A luta supe foras que 
se encontram! mas assim, temos de um lado a fora, do outro a pstula! Pouh! Portugal 
no deve ser reformado, como diz o Damio, deve ser queimado a nitrato de prata!...
Estavam no Terreiro do Pao: uma Lua lvida deixava cair de entre as nuvens uma 
mancha luminosa sobre a gua sombria.
 Tudo isto precisa ser arrasado!  disse ainda Nazareno, mostrando em redor as 
Secretarias negras, de uma uniformidade enftica. Tinha parado e olhava, apertando 
com clera o cabo do guarda-chuva, toda aquela reunio de edifcios oficiais, como a 
pesada e antiquada personificao de regimes funestos  o Banco e o seu gio, a 
Alfndega e os seus direitos, os Ministrios e o seu burocratismo  e pensando no 
mundo estabelecido, farto, que vive daquelas instituies:
 E lembrar-me  exclamou  que um homem como o Matias est reduzido, para 
ganhar a vida, a rever dicionrios, cartilhas e manuais enciclopdicos! Oh! D-me 
vontade de vir para a rua e fazer fogo sobre toda esta gente!
Depois da sua reserva, aquela expanso de clera impressionava Artur e as 
injustias sociais pareciam-lhe maiores, desde que podiam aquecer num desespero to 
alto aquela figura seca de seminarista.
Mas Nazareno calmara-se. Ps-se ento a falar do Matias e a sua voz tornou-se 
grave, quase solene. Matias era um justo: era casto, era incorruptvel, de uma alta 
elevao moral; vivia num quinto andar, pobre, sereno; de dia trabalhava na tipografia,  
noite no seu livro; no tinha um pensamento que no fosse pela liberdade e pela 
revoluo.
  um Robespierre!  resumiu Nazareno, que, com o seu esprito autoritrio e 
dogmtico, muito bilioso, tinha um culto pelo chefe do Clube dos Jacobinos.
Artur, electrizado, mostrou um grande desejo de o conhecer. Mas algumas gotas 
de chuva caram, e Nazareno, abrindo o guarda-chuva, prometeu que lhe falaria. Seria 
mesmo possvel conseguir que o admitissem como scio do Clube Republicano.
Artur experimentava uma satisfao profunda. Era o seu velho ideal enfim 
realizado! A simpatia generosa de Jcome Nazareno comovia-o; roava-se por ele, 
aconchegava-se-lhe, orgulhoso da sua amizade e do abrigo do seu guarda-chuva.
O Matias, o Clube Republicano, a ideia vaga de um partido, apareciam-lhe como 
alguma coisa de forte, em que a sua vida, cheia de flutuaes, encontraria enfim 
estabilidade, regra e uma ideia elevada, cujo servio engrandeceria a sua personalidade.
 Eu no valho muito  dizia, humilhando-se, mais por ternura que por modstia  
mas enfim, para escrever, para lutar... Se fosse necessrio fundos para um jornal...  
Oferecia-se com uma dedicao real, desejando naquele momento ter para o servio da 
Repblica  gnio, tesouros, as foras de um leo!
A chuva cessara e Nazareno, fechando o guarda-chuva:
 H-de achar em que se empregar: todas as aptides vo ser necessrias para 
preparar a grande barrela.
 Mas quando vir ela?  disse Artur com desalento, como se lhe tardassem os 
vagos triunfos, as vagas vinganas que entrevia na Repblica...
Nazareno parou e disse, brandindo o guarda-chuva:
 A pra est madura!  E explicou jovialmente que era uma pilhria de 48, em 
Frana, nos banquetes reformistas, quando  figura bojuda de Lus Filipe fora dada a 
alcunha de pra e as suas teimas de dspota burgus lhe tinham trazido o dio pblico.
Artur, todavia, achava o partido republicano em Portugal bem desunido, bem 
vago, sobretudo bem limitado...
Nazareno citou logo as foras de que dispunham, ainda dispersas, mas que um 
sentimento crescente de justia e de progresso tendia a unir, a organizar. Falou nos 
operrios de Lisboa, do Porto; na pequena burguesia que  de instinto republicano. E 
baixando a voz, grave pela importncia da revelao:
 Em Coimbra forma-se um Clube, no Porto outro, em Viseu outro...  Calou-se 
um momento e continuou:  E depois que importa? As ideias fazem o seu caminho sem 
os homens; no so necessrios muitos homens para fazer triunfar uma ideia. Os 
Apstolos eram doze  e o mundo  cristo!
A chuva recomeara; e ao fundo da Calada do Alecrim separaram-se, quando 
soavam devagar as onze horas na torre da Igreja de S. Paulo.

Artur galgou a calada do Alecrim, impressionado, exaltado. Decidia-se agora a 
abandonar todos os hbitos de sociedade, as esperanas vs em amores fictcios, a 
literatura puramente lrica: queria trabalhar para o estabelecimento da Repblica, 
compor comdias satricas,  Casamento de Figaro, que abalassem o velho regime; e 
vinha-lhe um desejo de se dar a todos os que sofrem, como se as palavras de Nazareno 
lhe tivessem posto na alma uma to grande energia de amor humanitrio, que s se 
satisfizesse esposando a misria universal!
E ao mesmo tempo, recordaes de leituras da Histria da Revoluo Francesa lhe 
voltavam ao esprito, dando-lhe moldes para conceber atitudes, situaes, episdios: 
via-se brandindo uma espada,  frente de operrios que um antigo oprbrio enchia de 
furor; ou de noite, numa vaga sala baixa, onde vagas sombras se agitavam, decretando 
incndios de palcios; ou ainda, severo, interrogando o Rei prisioneiro, como na volta 
de Varennes. E como os impulsos de piedade e de fraternidade lhe voltassem ao 
corao, olhava em redor, procurando algum pobre que socorresse, algum oprimido a 
libertar. Viu apenas a patrulha cujas grossas capas de oleado reluziam sob a chuva.
Ao entrar no hotel, as janelas alumiadas do Restaurante Silva deram-lhe a ideia de 
cear; porm, pensando que quela hora famlias operrias sofriam fome, imps-se com 
orgulho quela privao, em respeito aos necessitados e num sentimento de vaga 
igualdade fraternal.
Quando entrou no quarto foi-se ver ao espelho, enternecido de se sentir to bom  
e vinham-lhe ao mesmo tempo baforadas de vaidade, um antegosto de desforra, 
pensando que num dia, prximo talvez, apareceria quela Sociedade que o ignorava e o 
desdenhava, poderoso, num terror de apoteose popular. Deitou-se, fez maquinalmente o 
sinal da Cruz, como tinha por hbito, e adormeceu cansado.
Foi Melchior que o acordou ao outro dia, abrindo as janelas com rudo. Vinha 
muito jovial, e dando-lhe palmadas por sobre a roupa:
 Seu preguioso! Upa! Upa!
Artur abriu  luz olhos aparvalhados de sono: estava sonhando justamente que do 
portal da Casa da Cmara, em Oliveira de Azemis, proclamava a Repblica, ao agitar 
dos lenos nas j anelas, entre um estalar de foguetes e os vivas furiosos da plebe 
libertada; e ainda vibrante dos entusiasmos daquela gala, no reconhecia a grossa figura 
de Melchior, de bigodes arrebitados, a face jovial e um raminho de violetas no jaqueto.
 Ento por que no veio voc ao piquenique, seu tipo?
Artur espreguiou-se e disse, bocejando, que estava comprometido.
 Pois perdeu!  exclamou Melchior.  Grande patuscada! Tudo sossegadinho, 
sem desordens, sem troa, em boa amizade... Ceiazinha rica e belo fado! Enfim, uma 
noitezinha cheia! E a Concha ficou com um ferro! Est com vontade de o conhecer, 
homem! Est em brasas por o ver!
Artur lamentou no ter podido... Tinha-se comprometido a ir a casa de D. Joana 
Coutinho...
 Cspite!  exclamou Melchior, saudando-o.
 E ento?
Muito bem. Todos muito amveis, tinha-se divertido... Estava boa gente.
 Cspite! Cspite!  dizia Melchior, torcendo o bigode. E com um tom ambguo, 
descontente, declarou que, para ele, as soires eram uma estopada. Nunca l ia  no 
que no andassem atrs dele, mas... Aborrecia-se, que diabo! No havia para o regalo do 
corpo e da alma como uma boa pandegazinha ao Dafundo. E ento, talvez para fazer 
inveja a Artur, contou as alegrias da patuscada, deu detalhes, citou episdios, falando da 
Concha, da beleza da Concha, da pele da Concha!
 Mas quem  a Concha?
Melchior encolheu os ombros, com impacincia, como se Artur lhe tivesse 
perguntado quem era Pio IX.
 A Concha! Ento voc no sabe? No se lembra em S. Carlos, daquele rapaz 
tsico, o Ingls? Pois bem, a Concha estava com ele; deixou-o, que o pobre diabo j se 
no levanta, s bacias de sangue pela boca!  a espanhola mais bonita que tem vindo a 
Lisboa. E rapariga fina... Coitada, est naquela vida... mas muito fina.  filha de um 
general, muito bem educada. Toca piano, oh menino! E depois que maneiras! A comer, 
 urna duquesa! E que p, que p!  de endoidecer.
Artur espreguiou-se com uma vaga languidez.
 Bonita, hem?
 Caramba!  fez Melchior com um grande gesto.
Do quarto prximo vieram sons de piano e duas vozes, uma de soprano e outra de 
tenor, comearam a cantar o dueto do terceiro acto do Fausto:

Al pallido chiarore dei astri d'oro...

Melchior escutou um momento: devia ser a segunda dama de S. Carlos, que 
estivera doente, a ensaiar com o Videlli.
 V, vista-se, homem!  exclamou.  Estou a cair com fome. Est um dia lindo!
Abriu a vidraa. Os rumores da rua entraram com a larga luz festiva.
 Arriba! Arriba!
Artur saltou vivamente para o cho. A linda manh, o alegre rodar dos trens, 
aquele ensaio, ao lado, de uma ria elegante que punha no quarto uma intimidade de 
bastidores, a ideia da Concha que o queria ver, davam-lhe vagos rebates de 
felicidade; sentia-se leve, desejoso de ir para a rua, ver mulheres com toilettes bonitas, o 
ao dos arreios dos trens ricos reluzir  porta das lojas. E ajanotava-se, enquanto 
Melchior se debruava da varanda, torcendo o bigode, escarrando alto, a ver se pescava 
a segunda dama.
Ao almoo, Melchior voltou a falar da Concha, enquanto devorava a sua omeleta: 
se fosse rico, punha-lhe casa...  que era uma rapariga com quem at se podia 
conversar...  verdade, tinha pilhria! E depois, corao... Sentia, que diabo!
Artur considerava-o, notava-lhe a face grossa ocupada a mastigar, a pele 
engelhada em volta dos olhos, a calva crescente, o bigode espetado:  se a Concha 
sentia alguma coisa, no era decerto por aquele tipo!  E como Melchior insistia, que 
ela desejava muito ver Artur, vinham-lhe vagas dilataes de vaidade, de desejo. 
Talvez ela o amasse!
 Ela conhece-me?
 Viu-o em S. Carlos. Reparou em voc!
Artur recostou-se na cadeira: no duvidava que lhe tivesse feito impresso. Depois 
das suas humilhaes, aquela ideia deleitava-o; s vezes, naquelas mulheres andaluzas, 
encontram-se almas profundamente amantes, vidas de sacrifcio... Gostaria, numa 
manh assim luminosa, almoar com ela, fresca e branca, com o seu penteador de 
rendas fofas, ou ainda,  noite, de Vero, com as janelas abertas, v-la soltar as notas 
clidas de uma malaguea que iriam morrer na tranquilidade suave do ar alumiado de 
Lua. E no fundo do seu esprito agitava-se, confusamente, aquele vago desejo de um 
amor romntico por uma Dama das Camlias, de um sentimento  Armando, com 
aquelas ideias de reabilitao que j em Coimbra tanto o perturbavam.
Disse, corando um pouco:
 Como poderei eu conhec-la?
Melchior, muito cnico, riu:
 Entre por ali dentro, amigo, entre por ali dentro!
Mas Artur achava isso ignbil. Queria algum encontro delicado, com chique... 
Verem-se numa ceia, por exemplo...
Nada mais fcil, disse Melchior. Podia-se arranjar outra patuscadazinha, sem 
espalhafato. Somente, naquela semana, ele no podia.
 Deixe voc ver... Sbado, hem?
 Sbado  concordou Artur, espreguiando-se com voluptuosidade.
Melchior bebera o seu caf e safava-se porque tinha de ir ao Sculo. Artur subiu 
para o quarto, e ficou a fumar o seu charuto  janela. Ao lado, agora, a soprano cantava 
a ria do Rigoletto:

Caro nome de mio sposo...

Artur escutava: parecia-lhe ver o vulto branco, com a lmpada na mo, subindo a 
escadinha da casa oculta nos arvoredos, parando a cada degrau, para soltar, com o olhar 
comovido, as notas clidas que se perdiam na sombra suave da noite! Vinham-lhe ideias 
de noites de pera, de elegncias amorosas. Sentia uma moleza preguiosa, vendo o 
fumo branco do charuto dissipar-se em aroma. A luz envolvia-o como uma carcia; 
todas as conversas sombrias da vspera, aquelas ideias violentas do Nazareno, tinham 
sido levadas com as nuvens lgubres da noite: eram to incompatveis com o sol radioso 
como voos de morcego. O que sentia agora, no eram desejos de Justia, de Igualdade, 
mas as molas flcidas de uma carruagem, um rosto aristocrtico a amar... Tinha feito 
impresso  Concha, hem? E retorcia o buo, ajeitando a gravata. Era a impresso que j 
fizera  senhora da estao de Ovar! A senhora do vestido de xadrez!... Teve um desejo 
intenso de a ver: aquela manh lcida, festiva, doirada, reclamava uma ocupao 
delicada, elegante; se a pudesse avistar  janela, segui-la na rua? E, escovando o chapu, 
ia acompanhando com movimentos lnguidos de cabea as notas amorosas da ria do 
Rigoletto.
Correu a florir-se  Casa Havanesa, e foi  Rua de S. Bento. O guarda-porto l 
estava, empinando o ventre majestoso, as mos atrs das costas. A janela, a mesma, 
entreaberta, deixava ver por entre as bambinelas de fazenda sobrepostas a cortinas de 
cassa, um interior de sala, escuro e rico. Mas ningum se debruou  janela, ningum 
saiu do porto. Artur acendeu um charuto, mais contrariado, mais amoroso agora, em 
frente da casa d'Ela, na presena daquela fachada muda, que era como alguma coisa da 
sua pessoa. No se conteve, entrou num estanco prximo, comprou fsforos, charutos, e 
perguntou negligentemente  estanqueira quem vivia ali naquela casa.
 Ali, onde est o guarda-porto?  disse a criatura, uma magrita, muito grvida.  
 a Sr Baronesa de Paradas.
Ao menos sabia-lhe agora o nome! E subindo a Calada do Correio, arrependia-se 
de no ter comprado mais alguma coisa no estanco e interrogado a mulher sobre os 
hbitos, as horas de sada, as relaes, a idade da Sr Baronesa. A criatura, com o seu 
enorme ventre, a boca muito fendida, a pele cheia de sardas, parecia acessvel s 
tentaes de meias libras. Por ela poderia fazer-lhe chegar urna carta, talvez...
Perguntou nessa noite ao Meirinho se conhecia a Baronesa de Paradas...
 Nunca vi.
 Uma senhora muito bonita, com um pequerrucho.
 Nunca vi.
Desde o caso do chapu, tratava-o com secura; o Padilho tambm. Artur 
suspeitava que em casa de D. Joana se tivesse falado, troado. Nessa noite, teve a 
certeza, quando, ao passar no corredor, o Carvalhosa o deteve para lhe perguntar com o 
seu ar soberano:
 Ento que histria  essa do chapu? No se fala noutra coisa!
Artur, escarlate, quis rir:
 Tolices!
E o Carvalhosa, de charuto ao canto da boca, as mos nos bolsos, um bambolear 
de escrnio:
 Homem, semear assim chapus de molas pelas casas particulares...
Artur teve vontade de lhe espalmar uma bofetada na bochecha lvida. No 
achando uma resposta, subiu para o quarto, furioso. No se falava noutra coisa, hem? 
Por isso surpreendera olhadelas, risinhos!... Canalhas!
Comeava agora a ter dio ao hotel: desde que se sentia vagamente troado, as 
fisionomias pareciam-lhe to estpidas como as conversas; o Bento Correia, que fingia 
ignor-lo, enervava-o com a sua gula tranquila, a mastigao ruminada, com pingos de 
molho que lhe caam sobre a barba; sentia uma vaga ironia, um desdm ambiente cerc-
lo; chamavam-lhe o poeta. Um dia ouvira o guarda-livros dizer para o criado:  para o 
poeta do 26. Meirinho tinha mudado de lugar, para se no sentar junto dele, decerto: 
quis, por vingana, reclamar-lhe as dez libras, mas no se atreveu; alm disso 
conservava a ideia de que Meirinho lhe seria ainda necessrio, mais tarde, para se 
relacionar com a Sr Baronesa de Paradas: por isso fazia-lhe sempre o mesmo sorriso 
muito amigo, a que Meirinho respondia apenas com um movimento seco de cabea. 
Agora, durante o jantar, ficava isolado, mudo, sentindo-se vagamente um pria. 
Levantava-se sempre da mesa desesperado, lanando-se de toda a alma em ideias de 
vingana e de revoluo. Porm ultimamente nem o Nazareno aparecia no Martinho, e 
como lhe no sabia a morada, a sua vida arrastava-se de novo naquelas flutuaes 
intolerveis, sem fim, sem resultado. Depois, o dinheiro ia-se derretendo; o 
manuscrito dos Amores de Poeta l estava, improdutivo, intil, no fundo do ba, entre 
as camisolas.  A sua nica alegria era a reviso das provas dos Esmaltes e Jias, muito 
adiantada j.
Certa manh  um sbado  em que trabalhava no seu quarto, recebeu da redaco 
do Sculo um bilhete de Melchior:
Amigo. Hoje, sbado,  o dia da pandegazinha. Estive esta manh com as slfides. 
Aceitam. Eu levo a Crmen, voc a Concha. A tipia do Jos Teso est arranjada. s 9 
horas l vou busc-lo ao hotel. A divina Concha est ansiosa por ver el Seor Arturito. 
Salero!
Ficou entusiasmado. Vinha bem a propsito aquela pndega, depois dos tdios 
dos ltimos dias! Era a sua primeira orgia com raparigas chiques e entrevia uma tipia 
correndo sob o luar, cheia de sons de cantigas; depois, o champagne, espumando sob 
um lustre de gs e camisinhas de rendas deslizando de ombros brancos como o 
mrmore. Estirou os braos numa sensao de concupiscncia brutal. Queria 
embebedar-se, gritar, delirar, e diante daqueles gozos carnais, o Platonismo, a 
Sociedade, a Arte, a Revoluo, pareciam-lhe coisas bem fictcias! Nem pde, na sua 
excitao, continuar a rever as provas. Saiu ao acaso, pelo Chiado. Pensava na Concha e 
 ideia de a ter seminua nos braos, sentia uma viva contraco no estmago; 
imaginava-a alta, plida, de olhos rabes, com os ardores de um sangue sevilhano e as 
melancolias de uma existncia transviada. Desejava-a tanto, agora, que quase a amava; 
no duvidava da impresso que lhe fizera e olhava vagamente as vitrinas, pensando no 
presente que lhe daria, quando ela, desinteressada e amorosa, recusasse dinheiro e s lhe 
pedisse fidelidade.
 tarde, quando voltou ao hotel, o guarda-porto mostrou-lhe um rapaz de buo, 
com um chapu de coco, que o esperava encostado  ombreira:
 Um recado para V. Ex.
O rapaz aproximou-se e com voz cautelosa:
 V. Ex  que  o Sr. Artur Corvelo?
 Sou.
 No h engano?
 No, homem, no.
 Tem a bondade de me dar uma palavra.
 Levou-o para a rua, quase at defronte do Casino e tirando do bolso um bilhete: 
 Vem l dos amigos...
Artur leu  luz de um candeeiro de gs:
Camarada. Hoje  a instalao do Clube na casa nova. Matias preside. Venha-se 
encontrar matematicamente s 8 horas menos um quartos  esquina do Teatro D. Maria, 
lado ocidental. No lhe digo que seja exacto, pois que seria ofender os seus sentimentos 
de patriota. Queime este bilhete.
 Faz favor de dar recibo  disse o rapaz.
Artur deu-lhe o seu carto-de-visita e o rapaz, levando a mo ao coco, disse com 
uma voz surda, grave, que impressionou Artur:
 Sade e fraternidade!
Artur entrou no hotel profundamente contrariado. Era tarde para avisar o 
Melchior, e todavia no podia faltar ao Nazareno, ao Matias; alm disso, a ideia da sala, 
do estrado da presidncia, aquela esperana de sesso secreta, de revolues temerosas, 
atraam-no pelo seu lado dramtico. E, contudo, lamentava perder a ceia, a noite de 
amor!
A sineta chamou-o para o jantar. Antes do assado, sob a influncia do Colares, j 
pensava em deixar a sesso republicana e ir com a Concha; o conhaque decidiu-o: sentia 
mesmo um requinte de prazer animal em mandar as ideias ao diabo e atirar-se ao 
bonito corpo branco que se oferecia todo clido. Diria ao Nazareno que tivera uma 
clica, que recebera um telegrama... As sesses do Clube seguir-se-iam todos os dias  
e a Concha, despeitada se ele falhasse, podia perder o capricho, ou voltar para a 
Espanha. E para que, por um acaso, o Jcome no o viesse surpreender, saiu. s nove, 
voltaria, encontraria o Melchior e batiam para o Dafundo. Com o charuto na boca, o 
chapu ao lado, atravessava o corredor, cantarolando, quando o Meirinho, que 
conversava num grupo, ao avist-lo, veio para ele com uma cara severa:
 Perdo, meu amigo  disse  sinto ter de lhe dizer uma coisa. Eu levei-o a casa 
da Sr D. Joana Coutinho, uma senhora da primeira sociedade, e o meu amigo, passados 
dez dias, nem sequer lhe deixa um bilhete...
As faces de Artur abrasaram-se de vergonha.
 Ora isto no se faz  continuou Meirinho, grave.   pr-me em m posio: d 
a entender que eu levo l gente que no sabe os hbitos da sociedade... Isto no se faz.
Artur, petrificado, no achou uma palavra: viu-o girar sobre os calcanhares e 
reunir-se ao grupo, cofiando a barba.
L estava o Bento Correia, mascando o charuto, o Carvalhosa, erguendo alto a 
guedelha cheia de caspa, o Padilho, torcendo solenemente a pra, o brasileiro Gomes, 
com a sua boca alvar, hlare... Artur teve-lhes um dio sanguinolento que se estendia a 
tudo o que representava a Sociedade, a Poltica, a Finana! Esqueceu um momento o 
Melchior, o corpinho da Concha, o champagne e o luar. Sentiu a necessidade de se 
vingar, de humilhar, de aterrar aquele concilibulo de idiotas enfartados de comida, 
ocupados de pieguices, vivendo no artifcio... E furioso, tendo-lhes sede do sangue, 
partiu como uma bala,  procura do Nazareno!

Quando, s nove horas, Artur entrou com Nazareno no Clube, na Rua do Prncipe, 
pareceu-lhe que havia apenas, em lugar da larga reunio que esperava, catorze ou 
quinze pessoas. A sala era vasta, de um aspecto regelado, forrada com um papel pardo 
semeado de florzinhas azuis; do tecto caiado de fresco descia um candeeiro de gs de 
dois bicos, sem globos, dando uma luz crua de botequim; cadeiras de palhinha, como as 
dos asilos, perfilavam-se contra a parede; o soalho velho tinha remendos de tbuas 
novas; ao fundo, diante de uma janela que dava para o ptio de uma cervejaria vizinha, 
disfarada por uma larga cortina verde, era o estrado da Presidncia, com a sua mesa 
coberta de oleado, e um guarda-p de baeta vermelha; ao lado, a uma mesinha de p-de-
galo onde ardia uma vela, um sujeito que tinha feridas na testa escrevinhava, muito 
mope, com o nariz sobre o papel. Conversava-se em grupos.
Nazareno deu apertos de mo mudos e levou Artur a uma sala contgua, caiada de 
novo, alumiada por um bico de gs que saa da parede. Havia no cho rolos de papel, 
potes de tinta, e, junto  janela de portadas cuidadosamente fechadas, um banco de 
carpinteiro. Ao p de uma pilha de tbuas arrimadas ao alto contra a parede, um sujeito, 
todo de preto, falava a dois indivduos que o escutavam de charuto na boca. Era o ilustre 
Matias.
Artur foi-lhe apresentado por Nazareno como o nosso poeta. Matias apertou-lhe 
a mo com uma gravidade seca, murmurou um estimo muitssimo, e continuou com o 
gesto lento, medido, das suas mos caladas de luvas pretas:  ...Por isso, no caso do 
Lus, faria o seguinte: apenas descobrisse o escndalo, expulsava-a de casa, sem clera, 
e recomeava tranquilamente a trabalhar...
Artur examinava-o: era alto, de feies aquilinas, cabelo rapado  escovinha; o 
seu bigode curto, castanho, tinha plos speros e sados; e o seu olhar azul e claro era 
frio, apagado, muito duro.
Um dos sujeitos disse, cuspilhando pelculas de tabaco:
 Pois sim. Mas, enfim, sempre  sua mulher. Se ele a expulsa sem recursos, abre 
a porta ao pblico... 
Matias encolheu os ombros, com uma indiferena que significava:  que tem isso?
 Ah  fez o outro agitando a cabea   que  muito desagradvel saber uma 
pessoa que sua mulher est usando o seu nome, e, por trs de tabuinhas, a fazer pst, pst, 
aos sujeitos que passam...
Matias interrompeu dogmaticamente:
 Desde o momento em que, por sua culpa, o pacto conjugal se desfez, no tenho 
nada com as suas aces. A minha honra  minha, no  dela! Se a vejo por trs das 
tabuinhas, o meu dever  avisar a polcia para que a numere e a ponha, a ela, sob o 
controle da higiene e aos cidados, ao abrigo do contgio...
Mas na outra sala algum entrara, porque se ouvia: Ol! Viva! Como vai isso! 
Ditosos olhos! Enfim o rumor simptico em torno de uma presena estimada. E quase 
imediatamente um indivduo ndio entrou na saleta, de chapu para a nuca, o ar hlare, 
ama grossa cadeia de relgio sobre um ventrezinho prspero. O Matias estendeu-lhe 
vivamente a mo, os outros vieram dar-lhe palmadinhas no ombro, com o olhar enter-
necido. E com as bochechas prazenteiras, o indivduo ndio exclamou:
 Ento c estamos, c estamos!
Era o Sr. Ablio Pimenta, lojista de panos, proprietrio. Devendo ser, por 
profisso, por interesse, por fisionomia, um conservador, a sua presena era para os 
republicanos uma satisfao permanente, muito saboreada; com o seu ventre, o seu 
grilho, a sua face ndia, o vago cheiro de armazm que saa dele, o amigo Ablio 
introduzia no Clube aquele tom de respeitabilidade, de estabilidade, de ordem, que a 
Propriedade confere s Ideias que apoia; a cooperao daquele proprietrio era a 
evidncia gloriosa da praticabilidade da Repblica: ele representava a adeso da bur-
guesia, e a sua pessoa trazia aos republicanos da plebe aquele orgulho que dava aos 
deputados do Terceiro Estado, em 89, a presena, nos seus bancos, dos fidalgos das 
casas de Noailles ou de Montmorency. A sua presena tirava ao Clube a feio do grupo 
inquietante de pobretes descontentes e as teorias mais exaltadas tomavam a seriedade 
de legislaes prudentes, quando, para as escutar, se via aquele honrado lojista, de ar 
benigno e paterno, com dinheiro no banco, inclinar-se, fazendo com a mo gordalhufa 
uma concha em redor da orelha cabeluda. A sua assiduidade no Clube era proverbial e 
todavia as suas ideias pareciam nebulosas. Exprimia-se vagamente, dizendo com 
jovialidade:
  dar para baixo,  dar para baixo!
Para dar para baixo, aconselhava a fundao de um jornal e previamente a 
compra, por subscrio, de um prelo, tipo, etc. Ele mesmo se oferecia para dar o seu 
bolo  e que aparecesse o dinheiro que o prelo, tipo, etc., no estavam longe... 
Ultimamente estivera incomodado, com ameaas de dores reumticas, e, muito 
interessados por aquela vida preciosa, o Matias, o Nazareno, pediam detalhes da sua 
convalescena.
  custa de muito lcool canforado... explicou ele com bonomia.  Foi a minha 
senhora que me curou. Nada de mdicos, dizia-me ela. Tens dores nas cruzes? Frices 
de lcool. Pois senhores, fez-me arribar... Eu estendia-me na cama, e agora o vers, era 
a minha senhora a esfregar, a esfregar...
Riram com enternecimento: aquilo parecia muito patriarcal, de uma alta unio 
domstica. Um dos sujeitos que mascava o charuto fez sentir a diferena entre aquela 
honrada senhora, tratando o marido, e as de outras classes, ocupadas de toilettes chiques 
e de modistas...
 No v sem resposta  fez o lojista.  Que a minha senhora gosta da sua 
tafularia... E olhe que aos domingos, ao Passeio, no vai outra! Podem levar outros 
arrebiques em cima do corpo, mas mais valores e melhores sedas, nenhuma, nenhuma!
Uma voz disse  porta da saleta:
  Matias, so nove horas!
Matias deu um puxo  sobrecasaca; com um gesto rpido e maquinal ajeitou a 
gravata, e, seguido dos outros, entrou na sala, dizendo a Artur:
 Tive carta do nosso Damio. O livro dele sai por estes dias...
Subiu ao estrado e quando o rumor de cadeiras sossegou, disse, sentando-se e 
remexendo nalguns papis sobre a mesa:
 Est aberta a sesso.
Um membro do Clube, magrssimo e estrbico, ergueu-se bruscamente. E com a 
cabea alta, as mos na cinta:
 Eu proponho que se altere esta frmula: Est aberta a sesso. Cheira muito a S. 
Bento. Em redor um murmrio correu: ora adeus!
Tolices! Para qu?
 Para qu?  exclamou o estrbico, que parecia de gnio irritvel.  Pela razo 
que se diz cidados, em lugar de meus senhores. Todas essas frmulas so boas...
Matias interrompeu-o com um gesto breve da mo espalmada:
 Eu creio esta frmula to inocente como a de bons-dias. Usava-se na 
Conveno.  E olhando em redor:  O que me parece mais til evitar  o hbito de 
fumar...
O estrbico que tinha o cigarro nos dedos, atirou-o, sentando-se e resmungando. 
Artur apagou logo o seu charuto sobre a sola. Dois ou trs, mais econmicos, foram 
pousar na borda do estrado os charutos meio fumados.
O secretrio, que estivera tirando pelculas das feridas da testa, de p, inclinado 
para a luz, com o nariz no papel, ia rosnando a leitura de uma acta: pelas cadeiras 
falava-se baixo, e Artur, sentado ao p de Nazareno, examinava as fisionomias. No 
tinham as expresses exaltadas e sinistras que ele imaginara.  excepo de um sujeito 
calvo e obeso, que quase ocupava duas cadeiras, tanto as faces como os corpos eram 
magros: sentia-se neles as existncias mesquinhas nos quartos estreitos das casas de 
hspedes, o tdio de um trabalho montono de escritrio ou de secretaria, o ar vago e 
fatigado que d a vadiagem; havia dois padres, de olhos duros, a pele azulada da barba 
espessa, muito rapada, os beios lbricos; um velho militar conservava entre os joelhos 
um enorme bengalo de casto de ferro. No havia um nico operrio e todos pareciam 
sentir uma infinita vaidade daquele aparato de sesso, gozando a fico parlamentar. 
Um indivduo, porm, parecia a Artur muito original: tinha a cabea enorme, quase 
calva, apoiada s costas da cadeira, e, muito estendido,  larga no seu fato bonito de 
cheviote claro, com as mos nos bolsos, parecia dormitar, numa indiferena irreverente; 
entre os sapatos de verniz e as calas, via-se um pedao de meia, s riscas pretas e 
vermelhas; Artur achava-o elegante e parecia-lhe que tudo o que sasse da sua boca fina, 
mbil, de um arco bem-talhado, devia ser original e engraado.
 Quem ?  perguntou a Nazareno.
 Um doido  disse o outro, encolhendo os ombros.
O secretrio, no entanto, findara a leitura; e com a mo apoiada  mesa:
 Aprovado, no?  perguntou.
 Aprovado  disseram  aprovado!
Matias ento ergueu-se. A sua face bem-talhada parecia mais plida sobre o fundo 
verde-escuro da cortina; deu com ambas as mos, ainda caladas de luvas pretas, um 
puxo breve  gola da sobrecasaca e comeou:
 Meus senhores  emendou logo:  Cidados. Hoje estamos aqui para nos 
instalarmos. Como vem, h ainda na sala arranjos a fazer: espero que estejam prontos 
para a semana. As sesses regulares podem comear ento.  Deu um olhar s filas de 
cadeiras:  Creio que h apresentaes a fazer...
Jcome Nazareno ergueu-se logo e com solenidade:
 Proponho e apresento, sob minha garantia, o Sr. Artur Corvelo, autor de um 
drama de tendncias democrticas e amigo desde Coimbra do nosso Damio. Creio que 
no haver objeces.
Vozes soltaram:
 Apoiado!
Foram minutos gloriosos para Artur. O secretrio, voltando para ele uma face 
muito risonha, chamava-o:
 Tem a bondade?  para assinar o seu nome.
E enquanto Artur, vermelho, comovido, assinava num largo registo encadernado  
o rapaz de fato de cheviote claro, meio erguido sobre a cadeira, disse com uma voz bem 
timbrada, mordente:
 Proponho o meu amigo Vicente Falco.
Um homem muito alto, muito plido, de aspecto mstico, com um longo casaco 
eclesistico, adiantou-se para o meio da sala. Curvou-se e no silncio um pouco 
admirado, disse cavamente:
 Desejando fazer parte do Clube Democrtico, quero evitar equvocos. Uma s 
palavra os desfaz: eu sou socialista!  Olhou em redor, repetiu com fora:  Eu sou 
socialista! So-cia-lista!
Recuou um passo, cruzou os braos sobre o peito, erguendo a face lvida, como 
para afrontar a morte.
Em redor, havia nas fisionomias uma vaga expresso assombrada, mistificada; 
cochichava-se, narizes franzidos interrogavam num gesto mudo: risinhos fungavam. 
Que ? Quem ? Que diz ele?
O rapaz vestido de cheviote exclamou:
 Apoiado!  bom preveni-los!
Matias deu-lhe de lado um olhar frio de dio e com uma voz afectadamente 
corts:
 Este Clube no tem exclusivismos...
 Mas tem divergncias!  interrompeu o rapaz vestido de claro. E erguendo-se:  
Peo a palavra!  No esperou que lha concedessem, prosseguiu:  Entre pessoas que 
aspiram apenas a substituir um rei constitucional por um presidente jacobino, que se 
indignam porque h viscondes, que fazem guerra  lista civil e outras pieguices  e entre 
ns, que queremos a evoluo democrtico-social na sua larga aco  h divergncias 
muito graves.  conveniente evitar os equvocos. Estou com o Sr. Falco: uma decla-
rao a tempo define os terrenos...
O estrbico soltou um apoiado, semelhante a um rugido. Nazareno que se agitava, 
impaciente, ergueu-se bruscamente e com o punho estendido:
  melhor desmancharmos o Clube  nascena e acabarmos...
 Ordem! Ordem!  disse-se logo.
 Pois que significa  gritava Nazareno, bracejando  trazerem-se estas 
divergncias, apenas nos instalamos? Ainda as portas no esto pintadas e j nos 
dividimos em partidos...
 No queremos ser confundidos com os jacobinos!  rugiu o estrbico.
 Nem ns com os comunistas!  atirou um sujeito de barbas e culos.
Alguns diziam monotonamente:  Ordem! Ordem! repetindo a frmula 
parlamentar. O velho militar grunhia: Fora os petroleiros! Uma sussurrao confusa 
corria nas filas de cadeiras, quebrada, aqui e alm, por uma voz saliente que gritava: 
mais seriedade! mais decncia! O mstico conservava-se imvel, espectral, os braos 
cruzados. E um indivduo de cachen, sentado ao p de Artur, perguntou-lhe ao ouvido, 
com o rosto franzido de ignorncia impaciente:
 A que vem tudo isto? Que querem eles?
Ningum parecia saber o que eles queriam  at que Matias, que decerto julgou 
o tumulto inconveniente  sua dignidade, repenicou, nervoso e plido, uma campainha 
de quarto de convalescente.
  lamentvel  disse no silncio criado  que se produzam antipatias to 
caracterizadas, apenas reunidos para um fim de justia. So estas cenas que justificam o 
que dizem os nossos inimigos: que no partido republicano no h seno desunies! Este 
Clube no tem exclusivismos, repito. Aceita toda a opinio democrtica que se 
apresente, em oposio ao Constitucionalismo. Em presena da vergonha do sistema 
actual, o dever de todo o homem livre e inteligente  associar-se para a sua destruio.
Havia agora nas filas de cadeiras uma ateno intensa de rostos estendidos, 
aplicados a surpreender, apanhar a significao daquela divergncia irritada. O amigo 
Ablio fazia com a mo uma concha acstica  orelha. Com o queixo na palma da mo, 
alguns arregalavam olhos em que reluzia a adorao pelo Matias. S o socialista, o 
rapaz de fato claro, o estrbico e outro, que, com a plpebra abaixada, catava os plos 
do bigode, afectavam distraces, com bamboleamentos de perna muito irnicos, os 
lbios torcidos em sorrisos de tdio. E Matias prosseguia:
 Se o Sr. Falco  o mstico dobrou-se em dois  por Socialismo entende...
O mstico disse de um s flego:
 Entendo uma nova concepo da Propriedade, do Trabalho, do Casamento, da 
Educao, da Sano Moral, etc... em oposio s solues dadas pela Igreja e as 
instituies que as realizam...
Matias estendeu o brao:
 Ento, mais ou menos, somos todos socialistas...
 Quod Deus avertat  interrompeu Gilberto, o rapaz de fato claro.
O sujeito de cachen parecia extremamente impaciente, intrigado:
 Mas onde querem eles chegar?  perguntou novamente a Artur.
A explicao seria longa, complicada e para abreviar, Artur disse-lhe baixo:
 Partidos. So dois partidos...
 Teorias!  disse o de cachen, que parecia ter pela ideologia um dio de 
economista.  A questo  fundar um jornal...  pr um guarda-vento naquela porta, de 
onde vem uma corrente de ar que me mata...
Matias falava agora da revoluo social:
 Se o Sr. Falco entende, como socialista, que ela deve ser feita pelo povo, 
educado por uma filosofia popular positiva... (procurava os adjectivos) proudhoniana, 
com excluso de toda a direco autoritria, de toda a iniciativa de governo, ento 
podemos divergir. Se, na questo poltica, pretende impor a frmula federativa em 
oposio  frmula unitria, decerto divergimos tambm...
 Divergncias sempre  atalhou Gilberto.
Matias continuou:
 Mas estamos unidos para o mesmo fim, e mais tarde, desembaraado o Pas das 
instituies do passado, poderemos agitar essas altas questes...
 Frases!  rosnou Gilberto.
Aquela irreverncia pareceu escandalizar a assistncia: olhos acesos, irados, 
voltaram-se para ele; o velho militar acariciava, soturnamente, o casto da bengala e as 
mesmas vozes repetiam: decncia! decncia!
 O Jacobinismo  continuou Matias  j que esta palavra agrada ao Sr. Gilberto, 
o Jacobinismo no combate o Socialismo, prepara-o;  repetiu com um gesto vivo:  
prepara-o! O Socialismo  um poder espiritual, substitudo a outro poder espiritual...
O mstico abaixou aprovativamente a cabea. Havia em todas as fisionomias um 
vago ar espantado, de incompreenso, de fadiga.
 Ora essa substituio  continuava Matias  para ser feita sem luta, sem choque, 
precisa ser levada a efeito dentro de um regime amigo que a favorea, a promova e 
garanta a paz social enquanto se faz a transformao espiritual.
 Pretextos para o Cesarismo  rosnou Gilberto.
O sujeito de cachen apertou as mos na cabea, murmurando com uma voz 
plangente:
 Ih, Jesus! Eu no os percebo, eu no os percebo!
No pareciam perceb-los, em geral. Os olhares que o desejo de compreender 
arregalava, iam de Gilberto a Matias, implorando clareza: em toda aquela fraseologia 
nebulosa, onde estava a Repblica? Por que no diziam, claramente, como se havia de 
destruir a Casa de Bragana? Por que se no distribuam j os empregos de que os 
conservadores iam ser expulsos? Com que regimentos se contava? E os que se tinham 
reunido ao Clube, na esperana de uma futura satisfao de necessidades ou de 
ambies, sentiam como que um vasto logro, encontrando, em lugar de preparativos de 
aco, argumentaes doutrinrias.
Um indivduo sem barba e muito amarelo exprimiu a impacincia de todos, 
dizendo com uma voz fina:
 Vamos ao que importa: basta de filosofias!
Matias fitou-o com o seu olhar frio como uma punhalada:
 Sr. Malaquias, se lhe falta o respeito pelas ideias, deve ter ao menos o respeito 
pelas pessoas.
 Bravo! Apoiado!
O Malaquias ergueu os braos, enterrando a cabea nos ombros; e com uma voz 
fina, muito arrastada, pegajosa, que arrepiava os nervos:
 Eu, no era para ofender, eu, era para dizer...
Artur, ento, reparou nele: era amarelo, de uma amarelido baa, oleosa, com uma 
boca muito larga e parecia sujo, viscoso; sentia-se que devia exalar um cheiro mau.
Matias, ento, resumiu:
 O incidente vai longo e eu julgo exprimir a opinio do Clube, dizendo que nos 
honramos de ver entre ns o Sr. Falco, e que, sejam quais forem as divergncias de 
opinio,  um orgulho adquirirmos a cooperao de um homem de bem e de um 
democrata ilustre.
O mstico curvou-se at ao cho e entre apoiados! foi assinar o seu nome no 
registo.
Mas o Malaquias erguera-se logo e com gestos lentos, moles, gelatinosos, 
comeou a falar de um modo tortuoso, empastado: dizia que era republicano, que 
respeitava todo o mundo, que quantos mais membros melhor...  E demorava-se, 
passava as longas mos lvidas e magras pela face sem barba, oscilava com a cabea:  
ele no queria pr em dvida as convices dos cavalheiros admitidos, mas... Porque 
enfim era necessrio cautela... Longe de ele insinuar coisa alguma... Todavia...
 Acabe, homem  gritaram-lhe, impacientes da voz, da hesitao mole, dos 
gestos frouxos.
 A questo  esta  disse por fim  estamos ou no estamos ns aqui a conspirar 
contra o Governo? Ora bem. Sim, digo eu, isto no  para ofender, mas enfim... Sim, 
digo eu... Quem nos diz a ns... Quem nos diz a ns  repetiu, espalmando os cinco 
dedos sobre o peito cncavo:  quem nos diz a ns... que no h pessoas que vm aqui 
para escutar, para espiar?...
Jcome Nazareno deu um pulo:
 Isso  insinuar alguma coisa a respeito do meu amigo?  E indicava Artur que 
escutava, escarlate, imvel.
O mstico saltou, com duas passadas, para o meio da sala e com a voz trmula, 
agitando dois enormes braos magros:
 Cidados,  triste que depois de toda uma vida de estudo e dedicao  
Democracia, no dia mesmo em que me venho reunir aos camaradas para um fim de 
justia, me veja apontado como um espio  eu!  E batia com os dois punhos 
freneticamente no peito.
O sujo Malaquias protestava, levando as mos  cabea:
 Pelo amor de Deus, o que a vai! A est o Sr. Falco com as suas exageraes e 
o Sr. Nazareno com o seu gnio. Eu no disse... eu no disse... Eu, o que queria dizer,  
que era necessrio no fazer as coisas a troixe-moixe.  necessrio mais solenidade... 
Por que  que se no h-de exigir aos que so admitidos o juramento?
 Sobre um crnio!  soltou Gilberto.
Houve risadas. Muito bem! E Gilberto ergueu-se:
 Peo a palavra. Ho-de notar que  sempre do Sr. Malaquias que saem as ideias 
cmicas sobre a simblica do Clube: foi ele que h tempos reclamou a senha; hoje quer 
o juramento, amanh h-de exigir o subterrneo; depois, em Lugar do gs, a tocha! A 
democracia do Sr. Malaquias pertence  Rua dos Condes. Quanto ao Sr. Falco, so 
bem conhecidas as suas ideias, o seu carcter, os seus artigos na Evoluo, a sua vida...
 Apoiado! Apoiado!
Nazareno erguera-se:
 E com respeito ao Sr. Correio, creio que  intil afirmar a sinceridade das suas 
crenas, o seu dio intransigente  sociedade conservadora...
 Apoiado! Apoiado! Est acabado isso!
Malaquias curvou-se, disse ainda:
 Eu, com a minha pequena experincia, sempre tenho visto exigir-se o 
juramentozinho... L fora  o mesmo... Mas enfim, se os sbios no querem... Eu, era 
para o futuro, mas enfim... Eh! Eh! Eh!
Em redor puxavam-lhe pelas abas do palet; ele sentou-se, resmungando, mas 
erguendo-se logo com a elasticidade de uma mola, recomeou na sua voz irritante, que 
punha comiches no sangue:
 Eu peo perdo de voltar  carga, mas enfim...  para dirigir uma pergunta  
mesa... Queria saber se a subscrio de mil-ris por cabea, para as obras da sala, foi 
excedida ou se h um saldo? E se h um dfice, quem responde?... Sim, nestas 
questezinhas de dinheiro... Eu no quero ofender...  E enterrava a cabea nos ombros, 
com um gesto torcido dos braos:  Mas enfim...
Matias disse com secura:
 As contas sero apresentadas, examinadas e discutidas. A pergunta  inoportuna 
e mal formulada.
Malaquias teve o seu riso casquinado:
 Eu era para saber... Gosto de saber... Eh! Eh! Eh!...
E ficou sentado, passando pelo queixo os longos dedos magrssimos.
Imediatamente, um homem de idade, muito feio, com uma barba de plos 
grisalhos e raros, ergueu-se, com um caderno de papel na mo. Escarrou e com uma voz 
lenta, dormente, um pouco cava:
 Eu pensei que neste dia de inaugurao, seria conveniente ler algumas pginas, 
que pusessem diante do esprito de todos as fases que tem atravessado a Liberdade. Se 
me permitem...  E vendo Matias abaixar a cabea em consentimento, o homem feio 
abriu o caderno, pigarreou, e comeou a ler: Se remontarmos aos tempos quase 
mitolgicos, encontramos o primeiro mrtir da liberdade, pregado sobre um rochedo, e 
tendo o flanco devorado pelo bico de bronze de um incansvel abutre....
Havia em redor um vago pasmo: o que era? Examinava-se o caderno espesso, 
azul, cosido com guita. O qu! Ia ler aquilo tudo?
...O insensato  continuava ele, lento, pausado, crasso  tendo querido 
arrebatar aos Imortais o fogo sagrado, viu seus membros acorrentados ao Cucaso e a 
histria sada nele o primeiro que reivindicou os direitos do homem contra a tirania da 
Divindade...
Compreendeu-se vagamente que era a longa histria dos Mrtires da Liberdade, 
desde Prometeu! Alguns queriam escutar, por camaradagem, ou na esperana de 
anedotas tpicas ou de declamaes que lisonjeassem as suas opinies: mas os perodos 
moles, gordos, movendo-se surdamente, como um lento rolar de odres mal cheios, 
constituam uma retrica fatigante; a voz era to dormente, de um escorrer to 
montono, que amodorrava; algumas conversas estabeleceram-se baixo; um sujeito 
ergueu-se em bicos de ps, apanhou no estrado a metade do charuto que l deixara, e, 
subtilmente, refugiou-se na saleta; outros seguiram-no  os mais tmidos afectando, com 
as mos nas calas, uma necessidade urgente; e os que ficavam, para resistir ao torpor 
crescente, estabeleciam uma sussurrao de vozes ciciadas. Ento, Matias, que tinha os 
olhos fitos no tecto, batia com os dedos na borda da mesa  e no silncio deferente que 
se cavava, ouvia-se a voz vagarosa, falando dos grilhes de Esprtaco, do punhal de 
Bruto ou do ferro de Lucrcia. Mas o rumor crescia gradualmente e, um a um, sujeitos 
em bicos de ps, encolhidos, desapareciam pela porta estreita da saleta. Vinha de l uma 
fumaraa de tabaco; s vezes, uma face, de cigarro na boca, espreitava para a sala; 
ouviam-se risadinhas... Impassvel, absorvido, solene, o homem feio ia expondo as 
misrias da plebe romana.
Artur, em respeito a Nazareno, conservava-se imvel: uma inrcia mole 
afrouxava-lhe os msculos num abandono de fadiga. Pensava no Melchior: quela hora, 
se no fosse a Repblica, ele tambm bateria para o Dafundo, sentindo, sob o assento da 
caleche, os pezinhos da Concha entre os seus; chegariam; v-la-ia, na sala da ceia, tirar 
os agasalhos, aparecer  luz do gs na beleza triunfante do seu decote, e sentiria a sua 
cinta fina vergar-lhe entre os braos, enquanto o seu pescoo branco, cheio, dobrando-se 
para trs, chamava deliciosamente os beijos. Estirou as pernas, os braos, num 
espreguiamento de languidez... A voz espessa ia apostrofando Tibrio e a galera de 
velas de prpura que o levava a Capreia...
Jcome ento bocejou enormemente; olhou um momento o gs, o grosso 
manuscrito, e, com uma deciso brusca, ergueu-se e nas pontas dos ps, saiu. Artur ia 
segui-lo, mas o olhar frio de Matias imobilizou-o. Agora, bocas abriam-se em bocejos 
sinceros; faces Lamentosas, imploradoras, voltavam-se para a impassibilidade de 
Matias; um ou outro, tirando o relgio, tinha um gesto desesperado; o secretrio 
dormitava, e, sem pudor, Gilberto lia um livro... Por uma transio que ningum 
seguira, o homem feio divagava sobre os Persas...
Jcome voltou a sentar-se ao p de Artur e com uma voz de rancor:
 Isto  uma coisa extraordinria! H trs quartos de hora que fala! E que 
quantidade h ainda de manuscrito!
 Quem  ele?
 Uma besta  disse o outro por entre os dentes, com um furor concentrado. 
Esteve um momento a roer nervosamente as unhas: mas tornou a erguer-se, e batendo 
agora os taces como numa demonstrao hostil, entrou para a saleta... O homem feio, 
sereno, depois de ter celebrado o suicdio de Cato, comeava a comentar a crucificao 
de Cristo.
Foi ento que se reparou que o amigo Ablio adormecera profundamente. Na 
monotonia da leitura, aquilo tomou o interesse picante de um incidente grotesco: 
seguiam com risinhos fungados os cabeceamentos bruscos que lhe atiravam o corpo 
para os joelhos, e nos olhares jubilosos luzia a esperana de o ver rolar no cho. Mas 
Matias, zeloso da dignidade do Clube, fez sinal ao Secretrio, que desceu do estrado em 
bicos de ps, e  como era de temperamento pacatamente faceto  em lugar de despertar 
disfaradamente o lojista, fez-lhe ccegas na orelha com a rama da pena. Ablio pulou 
com um berro  e a gargalhada que se estivera formando rebentou irreprimivelmente. O 
amigo Ablio, com as feies inchadas, vermelho, desconfiado, esgazeava em redor os 
olhinhos estremunhados; o homem feio suspendeu um perodo sobre Savonarola, e 
Matias, severo, deu um toque de campainha cheio de repreenso. E a seriedade 
restabelecida, o homem feio prosseguiu, lamentando, com imagens floridas, a fogueira 
em que ardeu Joo Huss...
Artur aproveitara o ligeiro tumulto para ir, em bicos de ps, com as cruzes 
quebradas de fadiga, fumar para a saleta.
 Onde vai o homem?  perguntaram-lhe.
 Vai nos mrtires da Reforma!
 Ainda trs sculos!  murmurou o sujeito de barbas e culos, erguendo aos Cus 
os braos e os olhos.
Falava-se a meia voz, fumando, de futuras sesses, de projectos, de esperanas 
polticas, de infmias da Monarquia  e as vozes abafadas davam um tom de 
conspirao s acusaes, s injrias lanadas ao Governo: atribua-se-lhe una-
nimemente a decadncia vil da nao; num crculo, de onde se elevava uma fumaa de 
cigarros, cada um expunha uma grande vergonha  a runa econmica, o baixo preo 
dos salrios, o compadrio dos empregos, o abandono das colnias; falava-se por 
generalidades vagas: era uma choldra! O Pas estava perdido! Nada, nada, nada! Tudo 
uma canalha!  e ombros encolhiam-se com tdio, faces chupavam-se, aspirando o fumo 
do tabaco. Mas, em geral, a irritao contra as pessoas excedia a hostilidade s insti-
tuies: atacava-se a vida imoral dos ministros, contavam-se ao ouvido anedotas da 
Corte, grunhia-se contra o abaixamento dos jornalistas conservadores; um indivduo 
magro, cheio de espinhas carnais, parecia atribuir todos os sofrimentos da humanidade 
ao administrador do Bairro Central, que decerto odiava. Outros, ento, contavam 
despeitos pessoais. E como justificao daquelas cleras, voltavam constantemente as 
afirmaes humanitrias: a misria dos operrios, a indignidade dos ricaos. Os 
mais incultos formulavam a sua indignao poltica com um termo de calo ou uma 
obscenidade de taberna; os mais ilustrados declamavam vagamente, falando com 
gravidade na corrupo do baixo-imprio. Ningum parecia ter uma noo exacta de 
reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da Repblica escorreria a 
felicidade pblica, penetrando todas as classes, at os mais obscuros casebres, com a 
fecunda universalidade da luz que cai de um astro. s vezes, um deles ia escutar  porta, 
outros seguiam-no escondendo os cigarros atrs das costas... E ouvia-se a voz morosa 
do homem feio, impassvel, declamando consideraes sobre o processo dos 
Girondinos...
Matias, de longe, reclamava-os com um olhar imperioso, alguns obedeciam 
resignadamente, indo imobilizar-se nas suas cadeiras, sob o lento escorrer da prosa 
infindvel; outros recuavam rapidamente, refugiando-se no fundo da saleta, onde o bico 
de gs erguia a sua tlipa de luz crua.
O Nazareno parecia o mais impaciente. Segundo ele, era intil haver sesses, se 
elas deviam ser tomadas por aquelas leituras retricas. Ento discutiram-se os trabalhos 
urgentes do Clube. Antes de tudo, era necessrio fundar um jornal. Um sujeito de barbas 
loiras lembrou a necessidade de aliciar alguns militares. O Clube devia fazer um 
manifesto a todos os liberais, lembrava outro, e pr-se em comunicao com os republi-
canos espanhis. Este projecto pareceu desagradar: alguns achavam-lhe um odioso 
sabor ibrico... Mas a salvao da Pennsula era uma repblica federativa!... E alm 
disso, para fazer a repblica, era necessrio dinheiro e armas... De onde haviam de vir? 
Da Espanha!...
 Nada de espanhis, nada de espanhis!
 Espanholas, sim  disse um gracejador.
O tumulto que se levantara foi interrompido pelo secretrio que veio dizer:
 Oh, meninos, o Matias est furioso! Vocs fazem aqui uma algazarra que se 
ouve l dentro... O homem est a acabar... Pelo amor de Deus, venham.
Artur que temia o descontentamento do Matias, foi retomar a sua cadeira... O 
homem feio espalhava flores de eloquncia sobre os tmulos, lado a lado, dos quatro 
sargentos de La Rochelle.
Pouco a pouco os republicanos entravam  e, subitamente, o homem feio sentou-
se.
Houve um rumor de alvio, largamente respirado. Alguns tomavam o chapu: 
eram onze e meia, que diabo!
Mas Matias fez retinir a campainha:
 Consultarei a assembleia sobre a proposta que no fim do seu notvel trabalho o 
nosso ilustre concidado  e indicou o homem feio  acaba de fazer.
Foi um espanto. Que proposta?... Ningum percebera! Olhares interrogavam, 
ombros encolhiam-se.
Matias, ento, explicou:
 O nosso amigo prope que se pendurem nas paredes do Clube os retratos de 
todos os Mrtires da Liberdade, desde os tempos mitolgicos at...
 Pareceu um momento interrogar a memria:  perdo, Sr. Esqueira, at?...
O homem feio recitou de um flego:
 Joaquim Vicente da Costa Esqueira, morto nas enxovias de Almada,  
machadada, pelas suas ideias jacobinas. Era meu tio.
Uma gargalhada correu pelas cadeiras. O velho militar que parecia admirar o 
homem feio, rugiu: mais decncia! E Matias, severo:
 Acho a hilaridade inoportuna...
O homem feio julgou decerto do seu dever indignar-se, e erguendo-se com 
solenidade:
  estranho que cause riso a homens liberais um parente meu que morreu pela 
liberdade!
Alguns risos abafados escaparam, aqui e alm; e ento, Gilberto, no meio da sala, 
com o chapu na mo:
 A ideia  nobre, mas alm de que no h lugar para conter nestas paredes todos 
os Mrtires da Liberdade,  difcil obter o retrato da maior parte  a no ser desenhos de 
fantasia que, por falsos, tenderiam a produzir a indiferena em lugar de inspirar a 
venerao. Alm disso, os Mrtires so inumerveis  e as paredes so s quatro...
 Apoiado! Apoiado!
O homem feio parecia descontente:
 Ao menos o imortal Rousseau...  comeou.
 Nenhum! nenhum!  gritaram com impacincia.
Estavam quase todos de p, havia uma vozearia. Ento ouviu-se a voz do Sr. 
Ablio dizer:
 Eu,  s duas palavras...
Fez-se um silncio deferente: havia sorrisos amigos quela bem-vinda frase.
 Eu  continuou Ablio, de p, com a face jovial  eu quero oferecer ao Clube 
(dizia Clbio) um presentinho. Tenho l em casa uma cabea de gesso, que a minha 
senhora diz que  Minerva...
Um lento rumor simptico correu, quela bonomia, quase fraternal.
 Eu no sei se  Minerva, mas a coisa parece ter valor. E a mim parece-me  
desculpem se eu digo asneira  que poderia muito bem figurar como um busto da 
Repblica. Se o querem, est s ordens com todo o gosto. Eu j disse  minha senhora, 
porque enfim, so coisas que pertencem  casa. Ela consentiu, coitada... E eu tenho 
muito gosto em oferecer...
 Bravo! Apoiado! Aceitamos! Muito bem!
Ablio reclamou silncio:
 Ento c o mando, amanh, pela criada!
Palmas estalaram. E Matias erguendo-se:
 Est levantada a sesso.
Artur foi arrastado no movimento impaciente que se fez para a porta. E no ptio, 
enquanto acendia um charuto, achou-se ao lado do homem do cachen.
 No foi m estopada...
Artur disse-lhe, por condescendncia:
 A leitura foi longa.
O outro inclinou-se-lhe para o ouvido:
  que se no faz nada! Tudo isto  uma histria.  palrar,  palrar! No se faz 
nada enquanto se no deita o Governo abaixo! Eu j disse ao Matias  eu quero ir 
recebedor para Belm. Eu c sou franco...
E desapareceu, encolhido no palet, porque comeara a chuviscar.
Quando Artur chegou ao hotel, o porteiro disse-lhe que viera ali um sujeito 
procur-lo s nove horas, voltara s nove e meia, depois s dez, depois s dez e meia. 
Da ltima vez, estava to furioso que dera punhadas na mesa, rogando pragas.
Pela descrio  gordote, j entrado, grandes bigodes  Artur reconheceu 
Melchior.



VII

Ao outro dia Artur recebeu as ltimas provas dos Esmaltes e Jias e revia-as no 
seu quarto, quando a porta se abriu e Melchior apareceu com um mpeto irado. O 
aspecto de Artur, trabalhando tranquilamente, de robe-de-chambre de veludo, 
exasperou-o mais ainda, e curvando-se at ao cho disse ironicamente, com uma voz 
repassada de dio:
 Sim senhor! F-la boa!
Artur ia falar, mas Melchior, bruscamente, com um gesto vivo:
  simplesmente uma canalhice! Venho aqui com a tipia, com as raparigas, s 
nove: nada, tinha sado! Volto s nove e meia, com as raparigas na tipia: nada! Volto 
s dez: nada! E aqui me vejo eu com as mulheres, com a tipia, a bater as ruas, Chiado 
abaixo, Chiado acima, elas furiosas, o cocheiro desconfiado  enfim, uma indecncia!
Artur ia explicar...
 Para mim  interrompeu Melchior  pndegas consigo, acabaram!
E ento divagou prolixamente, numa abundncia de despeito:  que em Lisboa 
no se usavam daquelas chalaas... Com quem imaginava ele que estava a tratar? O 
cocheiro era nada menos que o Teso, que s batia com a melhor rapaziada. E as 
raparigas?... T-las incomodado, obrigado a sair de casa... para qu? Assim perdia-se 
todo o crdito, era-se mal recebido. Ele queria levar a sua vida direitinha... No fim, ele  
que fora responsvel... Era homem de bem, gostava de se portar como homem de bem. 
Enfim, o Sr. Artur tinha-o entalado!
Vendo aquela indignao verbosa, aquele olhar fuzilante, Artur acreditou que 
praticara urna vileza excepcional. Falou em pedir desculpas, ir ele mesmo explicar  
Concha...
 E  que h despesas  interrompeu Melchior, grave pela responsabilidade 
tomada.   que h despesas. O amigo imagina que o cocheiro andou a bater para cima 
e para baixo de graa? E eu torneio-o por sua conta... E as raparigas?
Artur tirou logo do bolso a bolsinha de trama de prata.
Ento Melchior, sossegado, responsabilizou-se por arranjar as coisas 
decentemente com trs librinhas.
 E onde diabo estava voc?  perguntou, j risonho  outra vez no High-Life?
Artur, discreto, teve um sim ambguo, gozando interiormente as cautelas do 
conspirador. Estivera numa casa, at tarde... Fora convidado de repente...
 Pois eu tive um ferro  disse Melchior, penteando o bigode ao espelho.  E a 
Concha estava... Oh, menino! Urna divindade! E ficou furiosa... No, palavra, ela est 
com muita, curiosidade em o ver.
Artur lamentava intimamente aquela ocasio perdida. E para qu? Para ouvir 
durante hora e meia, escorrer monotonamente, com uma lentido de gua gordurosa, o 
elogio balofo e mole dos Mrtires da Liberdade! Que tolice! Apesar do seu desejo, no 
ousava propor outra pndega a Melchior. Disse apenas, andando em redor da mesa 
com a cabea baixa, embrulhando um cigarro:
 Tenho pena, tenho pena... Outra vez ser, bem?
Mas Melchior no o escutava: fora, segundo o seu costume, para a janela, trautear, 
retorcer os bigodes, a ver se pescava a segunda dama.
Artur, ento, foi-lhe mostrar as ltimas provas dos Esmaltes e Jias e corando um 
pouco, perguntou-lhe se no seria possvel anunciar a publicao prxima...
 Est claro que sim! E publica-se at uma poesia. D chique. Veremos logo isso. 
Voc que faz  noite, nada? Bem, venho jantar com voc e combinamos a notcia.  
Bateu-lhe no ombro:
 Hem, sou amigo ou no?
Artur agradeceu.
 E para a venda do volume?
 Entenda-se com o Gonalves, o revisor. Eu lhe arranjo isso: no h-de haver 
dvida. Pe-lhe o volume nos livreiros,  comisso. Voc no tem trabalho nenhum, 
seno receber...  necessrio dar alguma coisa ao Gonalves, j se v. Coitado, homem 
servial, cheio de famlia...
Deu uma escovadela ao chapu e ia-se, que tinha um rendez-vous. Foi ainda 
olhar  varanda  mas como se no punha olho no diabo da cantora, saiu trauteando o 
fado.

Terminada a ocupao das provas, os dias tornaram-se muito vazios para Artur. 
Mas estava ento numa situao de esprito tranquilo, muito segura. Em breve, pela 
publicao do seu livro, pela crtica do Sculo  Melchior prometera-lhe um folhetim 
de arromba  ia ser ilustre; a sua ligao com os republicanos, com o Clube, dava-lhe 
uma secreta vaidade de revolucionrio perigoso; seria completamente feliz se pudesse 
ver, conhecer a Sr Baronesa de Paradas.
Todas as manhs, agora, por ociosidade, com uma vaga esperana, ia passear pela 
Rua de S. Bento, esperando sempre que se daria enfim o encontro desejado, recebendo 
de cada vez uma desconsolao maior daquela longa fachada impassivelmente unida e 
vazia. Que faria ela l dentro? Supunha-a lendo, estendida num sof, ou no jardim que 
devia haver nas traseiras da casa, bordando sob alguma velha rvore, vendo o 
pequerruchinho rolar-se pela relva.
 noite ia a S. Carlos, sondando todos os camarotes com o binculo; e os 
domingos no Passeio,  tarde no Pote das Almas ou pelo Chiado, no cessava de a 
esperar, de a invocar. Mas no a tornara a ver  e isto punha uma falha discordante na 
felicidade to unida dos seus dias. Onde a encontraria? Como? A recordao odiosa da 
soire da Coutinho dava-lhe, com o terror da
sociedade, o desejo de a ver, de a amar, fora das convenes mundanas, na 
deliciosa segurana do mistrio, de um modo literrio e excitante,  Romeu e Julieta. 
Quereria encontr-la num parque, numas pequenas runas, longe, nalgum recanto 
pitoresco de vale ou de estrada. Uma manh, ficou todo alvoroado, vendo no Sculo, 
nas notcias do High-Life, que a Sr Baronesa de Paradas fazia vinte e cinco anos. Mas 
ento Melchior e o Saavedra conheciam-na?... Correu  redaco. Melchior encolheu os 
ombros: tinha copiado a notcia do Almanaque do ano precedente, eram apontamentos 
do informador. Talvez o Saavedra soubesse... Tambm no: ouvira dizer que era uma 
senhora brasileira...
 Mas para que quer voc saber?  perguntou Melchior, com um sorriso de 
malcia, muito curioso.  Ternos conquista?
Artur negou frouxamente.
 V l homem, conte l  insistiu Melchior.
 Olhinho, cartinha, hem?
Artur no resistiu  tentao de dizer, afectando reserva:
 Conhecemo-nos, mas no h nada!
 Seu felizardo!  disse o outro, olhando-o com inveja.  Olha o melro, bem?
E Artur cofiava o bigode, entumecido de vaidade, o olho enternecido.
Melchior ento, por um instinto de despeito, afectou no dar importncia  
aventura que suspeitava: bocejou, estirou-se na cadeira, falou de
S. Carlos, do circo, de outras coisas. E de repente:
 Ento voc agora  da panelinha do Nazareno?
Artur corou:
 Conhecemo-nos.  um amigo do Damio, que foi meu companheiro em 
Coimbra. Por qu?
 Vi-o ontem no Martinho... Voc no me viu. Estava em grande cavaqueira com 
o Nazareno...  E depois de uma pausa:  Faz mal. Fraca sociedade.
Artur ento protestou: fez o elogio do Nazareno, do Matias; atribua-lhes todas as 
virtudes, grandes excelncias de esprito.
Melchior muito estirado na cadeira, com o ventre saliente, todo envolvido na 
fumaraa do charuto, disse com desprezo:
 Uma corja! Uma corja!
Artur escandalizou-se. Eram, disse, os caracteres mais nobres de Lisboa. E 
irritado pelo tom de escrnio de Melchior, pela sua atitude repoltreada de escrevinhador 
pedante, afirmou que o Matias, o Nazareno, dentro de dois ou trs anos, haviam de 
governar o Pas. O partido republicano estava certo de triunfar...
Melchior, que limpava as unhas com um canivete, teve um risinho seco:
 Ora histrias, amigo! Quatro municipais, de chanfalhos desembainhados, 
varrem todos os republicanos!
A contradio fez perder a Artur a prudncia. Falou do Clube, da organizao do 
partido socialista no Porto, em Viseu, em Coimbra: havia quinze mil operrios prontos; 
inventava foras sociais ao servio da democracia: o dinheiro no faltava e  
lembrando-se da presena do amigo Ablio no Clube da Rua do Prncipe  jurou que 
toda a burguesia de Lisboa, proprietrios, banqueiros, pertenciam ao partido 
republicano...
Melchior fitou-o um momento com a expresso vitoriosa de quem obtm a 
confisso de um crime:
 Ah! o amigo tambm  do Clube?
Artur, vermelho, pensando que necessitava para o seu livro o apoio conservador 
do Sculo, negou. No pertencia, mas enfim a verdade era a verdade... O partido 
republicano era forte...
 Meia dzia de maltrapilhos  rosnou Melchior, cuja verbosidade usual parecia 
esterilizada.
Calaram-se. E da a momentos Artur saiu, descontente. Melchior nem levantou a 
cabea do papel: disse-lhe apenas um adeus amigo extremamente seco.
A injustia feita aos seus amigos fazia-lhos parecer mais dignos, mais superiores. 
E como as palavras de Melchior o tinham revoltado, jurou dedicar-se aos republicanos, 
como aos nicos homens de justia e de verdade que at a encontrara.
No deixou mesmo, nessa noite, de contar ao Nazareno a sua questo com o tolo 
do Melchior. Mas o Nazareno no conhecia no Sculo seno o Saavedra, que, disse, 
era um corruptozinho que merecia na cara a badine que usava na mo.
Artur, ento, lembrou a necessidade de mostrar ao Pas a fora do partido: achava 
prejudicial que o Clube tivesse, havia quinze dias, suspendido as suas sesses. O motivo 
era o Matias estar preparando o seu grande Programa de Organizao Democrtica, e 
parecer-lhe intil reunirem-se antes de possurem aquela base de trabalho, de aco, que 
era, segundo o Nazareno, uma das grandes obras que se tinham escrito neste sculo.
 O Matias leu-me ontem a primeira parte. Depois de Proudhon, no se tornou a 
escrever nada to forte e to elevado. O amigo ver!
No entanto Artur estava inquieto por causa da sua questo com o Melchior: no 
conhecia que largo fundo de indiferena pelas ideias h nos espritos inferiores e, 
julgando t-lo escandalizado no seu fervor monrquico, receava perder a notcia, o 
prometido folhetim no Sculo, e at os servios do velho Gonalves, pai de tantos 
filhos! Por isso, na manh seguinte, ficou encantado encontrando Melchior, que vinha, 
risonho e florido, almoar com o caro Artur.
Justamente, Artur recebera, ao acordar, uma carta da tipografia anunciando a 
terminao do volume e remetendo a conta da impresso. Melchior examinou-a, achou-
a muito moderada, prometeu mandar o Gonalves  tipografia e assegurou que depois 
do almocinho ia fazer uma notcia catita.
E com efeito, ao outro dia, Artur pde ler, com o corao afogado em vaidade, os 
elogios do Sculo:  hoje posto  venda o livro de poesias do nosso ilustre amigo 
Artur Corvelo, os Esmaltes e Jias.  um belo volume de 250 pginas, nitidamente 
impresso na excelente tipografia de Castro & Irmo. Vamos ler e falaremos de espao 
desta interessante estreia do inspirado poeta.  natural que a crtica se ocupe largamente 
deste magnfico volume. Em seguida damos um pequeno extracto, que nos parece uma 
verdadeira jia onde no falta o esmalte.  E seguia-se a transcrio de uma pequena 
poesia, em que Artur, retomando uma antiga imagem do velho Gautier, comparava a sua 
alma cheia de desejos, a um pombal atulhado de pombas.
Recebeu pouco depois, da tipografia, os volumes destinados a ofertas  e de robe-
de-chambre, com uma chvena de caf ao lado, passou uma manh deliciosa, 
escrevendo dedicatrias na primeira pgina, num estilo lapidar, potico, afectando na 
irregularidade da letra a desordem da inspirao. Remeteu um exemplar s tias, outros 
ao Carneiro,  Corcovada, ao Rabecaz, ao Vasco da botica, ao Nazareno, ao Matias, a 
D. Joana Coutinho, ao Padilho, a Vtor Hugo, e outro ainda a Garibaldi, com estas 
palavras: Ao sublime heri da espada, o humilde cismador da lira. Mandou pr 
volumes nos quartos de Meirinho e de Carvalhosa e num ltimo exemplar escreveu 
apenas: 15 de Maio. Estao de Ovar. Remember... Por entre as folhas ps duas violetas 
esmagadas e sobrescritou para o palacete da Sr Baronesa de Paradas, a S. Bento.
Depois, sentado  janela, com um exemplar na mo, ficou longo tempo a saborear 
o delicioso orgulho que ele lhe trazia; o cilindrado do papel dava uma doura inesperada 
 harmonia das rimas e a cor de canrio da capa, com o seu nome em elzeviriano, 
enternecia-o; lia aqui, alm, versos, trechos, e ora tinha palpitaes de vaidade por 
belezas que impressas lhe pareciam de um brilho particular, ora se assustava com 
incorreces de forma subitamente apercebidas, que lhe tinham escapado nas provas e 
que decidia emendar na segunda edio.
Entrou nessa noite no Martinho, comovido. Decerto o volume, tornado popular 
pela notcia do Sculo, fora j folheado. No rumor das conversas, parecia-lhe sentir o 
seu nome, trechos do livro citados; deviam decerto olh-lo, examin-lo; e calculava os 
seus movimentos, a maneira de se encostar na cadeira, de passar a mo pelo cabelo, para 
dar de si uma ideia mais favorvel e como que a revelao pblica do seu gnio ntimo.
Nazareno, que tomava o seu caf, ainda no lera o livro, mas vira a notcia do 
Sculo.
 Palavra, fiquei surpreendido  acudiu Artur.  Depois da minha questo com o 
Melchior, imaginei que me fariam guerra. Mas no. No fundo, so bons rapazes  e  
necessrio estar-se bem com os jornais...
 Decerto disse Nazareno que parecia reflectir. E depois de um momento:  
Ento o amigo  l muito da gente do Sculo, hem?
Artur afirmou que tinha alguma influncia no Sculo.
 Estimo  disse Nazareno  porque ento vamos arranjar uma coisa...
Procurou na algibeira e tirou um rolo de tiras de papel. E baixando a voz:
  necessrio fazer publicar isto...
Artur teve um deslumbramento: pensou que por fraternidade revolucionria, 
Nazareno fizera uru estudo sobre os Esmalte e Jias; e a sua desconsolao foi grande 
quando o outro, com os cotovelos na mesa, o seu ar um pouco soturno, lhe disse  que 
era um artigo do Matias sobre o livro do Damio.
Publicara-se havia uma semana e intitulava-se a Renascena em Portugal. 
Nazareno afirmou que era um livro concebido num esprito muito livre, de grande 
estilo, de uma alta cincia, a verdadeira iniciao em Portugal da crtica histrica e 
literria. Uma grande obra de democracia, enfim! Era til para o partido, para os 
interesses da inteligncia, fazer em torno do livro um rudo de artigos: como eles no 
tinham jornal, era necessrio  de resto era at conveniente  que os jornais 
conservadores popularizassem o volume. Ele no conhecia jornalistas, mas ao ver a 
notcia do Sculo, sabendo que o amigo Corvelo conhecia a redaco, lembrara-se... 
Hem?
 Sim  disse Artur  falo ao Saavedra. At tenho muito gosto... Sou amigo do 
Damio.
 D dois folhetins  disse Nazareno.
Artur levou o manuscrito, mas estava contrariado. No momento em que ele 
necessitava do folhetim do Sculo para os Esmaltes, achava imprudente reclam-lo para 
o livro do Damio. Nazareno parecia-lhe egosta. Era abusar, que diabo! Tinha agora 
um vago medo de que o Saavedra consentisse na publicao, e que o livro do Damio 
tivesse um sucesso ruidoso, em que o seu volumezinho lrico desaparecesse, como um 
suspiro numa trovoada. Pensou em guardar o manuscrito at que sasse o folhetim do 
Sculo sobre os Esmaltes... Ou ainda, poderia dizer a Nazareno, com um gesto desolado, 
que o patife do Saavedra, nem  quinta facada... Mas ento, o patife era ele, Artur. 
Que estpida ideia, a de Nazareno! Detestava-o agora, e sentia-se inclinar vagamente 
para as opinies do Melchior sobre a cambada dos republicanos.
Mas ao outro dia, por um sentimento de lealdade  que a claridade lmpida da 
manh concorreu decerto a fortalecer  foi ao Sculo. E sem calor, cumprindo 
estritamente e unicamente o' que prometera, estendeu o manuscrito a Melchior, dizendo:
 Estimava que voc publicasse isto no seu jornal.  sobre o livro do Damio, um 
amigo meu.
Melchior remexeu as tiras de papel azul quase com medo. Vinha do Matias, dos 
republicanos, e parecia-lhe que sob aquela letrinha mida se devia tramar alguma coisa 
de funesto para o Sculo, para a Monarquia, para os prazeres tranquilos da Baixa. Deu 
um olhar desconfiado a Artur e disse devagar, coando a cabea:
 Enfim, eu falarei ao Saavedra, eu no quero compromissos... Voc bem v...  
uma responsabilidade... Voc tem empenho?
Artur hesitou: porm, a honestidade venceu e disse com firmeza:
 Tenho!
 Bem!
E Melchior fechou o manuscrito  chave, com precauo, como se fosse dinamite 
ou outra qualquer substncia explosiva.
Artur passou esse dia e o seguinte fazendo o giro dos livreiros onde se vendiam os 
Esmaltes e Jias, para gozar, vendo o volume nas vitrinas, as primeiras douras da 
publicidade. No ficou satisfeito: ora o volume no estava bastante em evidncia, ora o 
achava colocado ao p de algum livro francs, cujo frontispcio ilustrado absorvia a 
ateno; estes detalhes descontentavam-no. As vitrinas dos livreiros pareciam-lhe alm 
disso bem indiferentes ao pblico: homens, senhoras, passavam, na pressa da ocupao 
ou no vagar da vadiagem, parando diante das ourivesarias, das camisarias, das modistas 
 nunca diante dos livreiros. No encontrava nas fisionomias nada que revelasse a 
impresso dada pelos seus versos: o livro parecia passar sobre a cidade como uma gota 
de gua sobre guta-percha.
 noite, no Martinho, em S. Carlos, roava-se pelos grupos, na esperana vida de 
ouvir o seu nome: chegavam-lhe fragmentos de palestras sobre poltica, fundos, jogo, 
mulheres, nunca sobre os Esmaltes e Jias. Entrava desconsolado no hotel e punha-se a 
reler o volume: tudo lhe parecia ento vulgar, imitado, mal rimado, chato, e vinham-lhe 
desesperos mudos e como que um pungente sentimento de solido e de treva. Uma ideia 
consolava-o: quela hora a linda baronesa tivera o livro, lera-o e palpitava de emoo, 
vendo que o simptico rapaz da estao de Ovar era um poeta! Esperava uma resposta, 
um bilhete-de-visita, uma flor seca dentro de um sobrescrito, um amo-te numa folha de 
papel perfumado. Nada veio.
Das pessoas a quem ofertara o livro no recebera nenhuma palavra animadora. 
Carvalhosa nem lho agradecera; Meirinho dera-lhe no corredor um obrigadinho seco. O 
Padilho dissera-lhe, do outro lado da mesa:
 L recebi, est um volumezinho bonito.
S Nazareno lhe dera uma opinio crtica:
 Voc tem a forma, agora  procurar a ideia. Compreende-se, num primeiro livro 
de poesia, o gnero lrico. Mas  necessrio no repetir. Vtor Hugo fez as Orientais, 
uma composiozinha ridcula, mas tomou a sua desforra nos Chtiments. Agora  pr 
de lado o amor e os lrios e falar-nos de coisas mais srias.  E o artigo sobre o livro de 
Damio?
Artur afirmava  segundo lhe dissera repetidamente Melchior  que o Saavedra o 
ia ler... Naturalmente publicava-se. Talvez saia amanh, acrescentava. Ele veria.
Mas o que realmente queria ver, todas as manhs, o que ambicionava com 
palpitaes do corao ao abrir o Sculo, era o folhetim prometido sobre os Esmaltes. 
No o encontrava. E vinha-lhe ento uma grande irritao, por no ver o artigo do 
Matias sobre o livro de Damio.
E era aquele o pretexto que tomava para se indignar contra Melchior, ir  
redaco, e, ao princpio com modos tmidos, depois, mais secamente, lembrar-lhe a 
sua palavra.
 Oh, menino, o Saavedra l tem o folhetim... Mas era necessrio decidir, que 
diabo!  insistia ele, furioso contra Melchior, que, obtusamente, no compreendia que a 
promessa que ele verdadeiramente queria ver cumprida, no era sobre o livro do outro  
bem lhe importava!  mas sobre o seu... Sobre o seu!
Melchior, porm, compreendera: muito lealmente, tentara, numa noite de luta, 
produzir um folhetim sobre os Esmaltes e Jias; chegara a obter meia coluna em que 
falava da nitidez da edio e da grande inspirao. Mas faltavam quatro colunas e 
meia e nem duas chvenas de caf, nem charutos fumados  janela com a testa  aragem 
da noite, nem pitadas de rap para aliviar o crebro, nem passeios furiosos pelo quarto, 
nem a cabea apertada entre as mos, como um limo a que se exige o sumo  nada 
forara a sua vasta fronte calva, que parecia conter um mundo, a produzir uma linha 
mais! E desistira, furioso contra uma to extraordinria falta de veia.
Artur agora subia quase todas as manhs ao Sculo, pretextando ir dar uma vista 
de olhos aos jornais: mas na sua presena, na sua voz, na maneira de se sentar, Melchior 
sentia errar uma vaga acusao  j o temia como a um credor.
 Amanh, falo ao Saavedra  jurou-lhe um dia.
E na manh seguinte, vendo-o entrar, ergueu-se logo, e dizendo-lhe baixo que ia 
decidir a questo, foi bater discretamente com os ns dos dedos  portinha verde do 
gabinete do Sr. Director.
 Entre!
Melchior entrou, fazendo a Artur um gesto em que lhe prometia ser enrgico.
Mas da a momentos voltou e logo da porta abriu os braos, enterrando a cabea 
nos ombros, exprimindo toda a sorte de impossibilidades.
 Ento?  perguntou Artur.
 Diz que no!  fez o outro arregalando os olhos.  E levando-o para o vo da 
janela:  No deu explicaes, diz que no!  um livro comunista, cheio de horrores... O 
artigo do Matias tambm. Enfim, diz que no!
Artur no pareceu muito irritado. Enrolava um cigarro com a cabea baixa e de 
repente, um pouco vermelho, com a voz ligeira de quem se recorda de uma minudncia:
  verdade, a propsito, e o folhetinzito sobre os Esmaltes?
Melchior corou, mas no querendo confessar a sua misria intelectual:
 Que quer voc, tambm diz que no!
 Ora essa!
 Falei-lhe  continuava o outro, com gestos desolados   por causa da Ode  
Liberdade, da Stira  Sociedade: diz que no. O jornal est com o governo; se 
estivesse na oposio, ento... Diz que no!  E baixando a voz:  Um asno!
Artur galgou a Calada do Correio, falando alto de indignao. Na sua 
necessidade de desabafar, de rugir, correu ao quarto de Nazareno. No o encontrou. 
Ento foi sentar-se para o Passeio, debaixo de uma rvore, e ali ficou ruminando a sua 
clera. Uma grande doura parecia cair do alto azul, purssimo; o rumor da cidade 
chegava por fragmentos abafados, como se ficasse preso, enleado nas ramagens meio 
despidas. Um jardineiro regava. E na rua onde a areia reluzia ao sol tpido, duas 
crianas muito loiras corriam, vigiadas por uma inglesa vestida de Vero, de lunetas 
azuis, que lia num banco, com um King Charles no regao. Mas aquela paz de jardim 
burgus no o calmou. O mundo oficial, de que o Sculo era a expresso literria, 
parecia-lhe agora vil, de uma vileza pequena, piegas, com alguma coisa de senil e de 
estpido: nunca se sentira to decidido a servir as ideias de Nazareno! O seu livro, 
agora, repelido, ignorado da imprensa, parecia-lhe sublime. A recusa do Saavedra, 
atribua-a  inveja, talvez  influncia inimiga do Roma. E pensava em coisas vagas que 
faria, que escreveria, para provar a sua fora, fazer sentir a importncia do seu talento... 
Mas pouco a pouco, no amolecimento que lhe dava aquele tpido meio-dia de Inverno, 
veio-lhe como que a indefinida conscincia da sua inabilidade para a luta: necessitaria 
ter uma amizade forte ou um amor inspirador, apoiar-se a alguma coisa de duradoiro, de 
consolador... O qu? E as duas crianas, correndo, brancas e cor-de-rosa, frescas como 
flores, apetitosas como frutas, dando-lhe vagos desejos de paternidade, fizeram-no 
pensar na famlia, numa casa bonita, toda sonora de risos de crianas, onde o frufru de 
um vestido pusesse no ar ambiente uma ternura subtil. Lembrou-lhe a filha do Carneiro. 
Pouh! Usava uma cuja postia e nunca poderia compreender as necessidades do seu 
esprito, nem as belezas dos seus versos. Depois, a provncia aterrava-o. Mas Lisboa 
impacientava-o j. E vinha-lhe como que uma desconsolao de tudo, uma sensao de 
mal-estar: bocejou enormemente, ergueu-se, foi arrastando os passos, enfastiado, at ao 
hotel. J nem se sentia indignado contra o Saavedra, porque na sua natureza linftica, 
tudo se amolecia, fenecia depressa  indignao ou entusiasmo  como num ar sem 
oxignio todas as plantas se estiolam.
 noite, no Meirinho, contou tranquilamente a Nazareno a resposta do Saavedra. 
O republicano fez-se plido de raiva e a sua indignao, exprimindo-se com violncia, 
chegou a despertar, a aquecer de novo a clera de Artur. Tudo provinha deles no terem 
um jornal... Um jornal f-los-ia respeitados, temidos, dar-lhes-ia uma voz, uma 
posio...
 E onde est o dinheiro?  exclamou Nazareno.
Artur, pensando no seu conto de ris, l na provncia, na burra do Carneiro, calou-
se, encolhendo os ombros.
Contou ento ao Nazareno, como para o consolar e mostrar bem a sinceridade do 
seu despeito, que o Saavedra recusara tambm a insero de um folhetim sobre os 
Esmaltes. Nazareno, porm, no parecia a Artur bastante indignado:
 Pois no lhe parece uma grande maroteira, Nazareno?
O outro fez um vago gesto de assentimento e depois de uma pausa:
 O Matias j folheou o seu volume. Acha-o muito ertico...
Artur mordeu os lbios e voltou para o hotel desesperado com aquela opinio. 
Que entendia o parvo do Matias de versos e de estilos! Aquela tendncia de querer 
reduzir toda a Arte, mesmo a Poesia, a um auxiliar subalterno de ambies polticas, 
parecia-lhe de espritos estreitos, egostas. E deitou-se descontente do Saavedra, do 
Matias, de Lisboa, de si, da vida.

Acabava de almoar na manh seguinte, quando Melchior apareceu com uma face 
radiante. Atirou um nmero do Sculo para cima da mesa, exclamando:
 Ora receba l esse presentinho!
Que surpresa! Era uma notcia, a primeira que dizia:
O ilustre autor dos Esmaltes e Jias, que tanta sensao tm causado, o nosso 
prezado amigo Artur Corvelo, muito conhecido na nossa sociedade aristocrtica onde as 
suas maneiras, o seu esprito, o tornam alvo das maiores atenes, tem enfim terminado 
o seu grande drama Amores de Poeta, que brevemente ser representado num dos 
nossos primeiros teatros. O drama, que por alguns trechos que ouvimos nos parece 
primorosamente escrito,  um estudo de costumes da alta sociedade e por assim dizer 
um protesto contra as teorias subversivas, que, aqueles que em Portugal pretendem 
introduzir as ideias republicanas, espalham para destruir a famlia, a religio. a 
elegncia e tudo o que constitui o patrimnio da gente bem-educada. Os Amores de 
Poeta so dedicados a um Augusto Personagem. O pblico espera ansiosamente este 
debute teatral do inspirado vate.
Artur, atnito, exclamou com os olhos muito abertos para Melchior:
 Ora essa... Dedicado a um Augusto Personagem?
 Hem!  exclamou o outro com triunfo.
E bem jogada, hem?  um achado!  catita! Que lhe parece?
Compusera aquela notcia sobre o drama para o consolar da perda do folhetim 
sobre os versos e, orgulhoso do achado  a ideia da oferta do drama ao Rei, ou  
Rainha  repetia com os olhos brilhantes:
  catita!  de chupeta!
Artur, embaraado, disse:
 Mas no  verdade, homem! Pode-se supor que  o Rei.
 Est claro que se supe! Para isso  que eu escrevi! Faz um efeitarro!
 Mas se o Rei sabe... E abusar.
O outro teve um grande movimento de ombros:
 Ora sebo! Nem ele sabe, nem se importa! E se for necessrio, voc dedica-lho! 
Faz um efeitarro... No h empresrio que o no queira levar...
Artur, no meio da sua vaidade satisfeita, tinha uma vaga contrariedade. Que 
diriam os republicanos, vendo-o assim designado como o menino-bonito da alta 
sociedade, fazendo dedicatrias aos tiranos? Torceu o bigode, parecia assustado.
 Ainda voc no est contente!  exclamou Melchior, despeitado daquele 
acolhimento cheio de embarao a uma local que devia ser recebida com exclamaes 
vitoriosas.
Artur disse:
 No, estou. Estou penhorado, Melchior, mas...
 Mas qu, com mil-diabos! E esta?
  que tenho amigos... O Nazareno, o Matias... Parece uma traio...
A face de Melchior tornou-se grave:
 Voc vai por um mau caminho, Artur.  E sem o deixar falar, com uma 
verbosidade repentina, continuou:  Voc se se mete com essa gente est perdido. Eu 
conheo Lisboa. So muito malvistos. Se voc quer furar e que se fale de si, que se lhe 
represente o drama e tratar com gente fina, deve deixar essa cambada. Que  que eles 
lhe podem dar? Divertimentos? Onde?... Empregos? Que  deles?... Posio? Nicles! 
Lev-lo  sociedade? Olha quem, os pelintras! Ento para qu? Voc pode aspirar a 
muito:  o que diz o Saavedra. Mas  necessrio estar com a gente decente. Veja voc: 
por que no apanhou voc o folhetim no Sculo? Por causa dessas histrias de Odes  
Liberdade, e Marselhesas e toda essa choldra! Voc tem dinheiro, no  verdade? Para 
que se h-de meter com maltrapilhos? O que eles querem  explor-lo, homem!
Artur escutava-o, abalado.
 E alm disso  ia dizendo Melchior...
Um criado entrou com uma carta para Artur. Era um simples carto-de-visita:

D. JOANA CANDIDA DE MENESES COUTINHO

a agradecer o delicioso volume de versos.

Um rubor de orgulho espalhou-se-lhe no rosto. Estendeu o carto a Melchior, que 
exclamou com o mpeto alegre de quem, combatendo, se apossa de uma arma nova:
 A tem voc! V? Se ela soubesse que voc pertence  canalha do Matias, 
recambiava-lhe o livro, to certo como eu estar aqui.
 Foi muito amvel  disse Artur, relendo as palavras escritas no carto. E revia a 
sala de D. Joana Coutinho, as toilettes de seda, os homens de casaca: ali apreciava-se a 
poesia amorosa, elegante  e pensava em Nazareno, habitando num quinto andar, com 
uma sobrecasaca coada, relaes pulhas, os dedos queimados do cigarro e hostil ao 
lirismo. E aquele simples agradecimento de D. Joana aparecia-lhe como uma porta que 
se abria sobre a Sociedade e de onde saiam aquelas emanaes de luxo, de amores 
patrcios, de graas femininas que intimamente o cativavam sempre. O Melchior, que 
diabo, tinha talvez. razo. Disse-lho.
 Est claro que tenho!  E retorcendo o bigode aproximou-se da varanda.
Mas teve logo uma exclamao e com um grande gesto para Artur:
 Pst! Venha c, homem, venha depressa!
Artur correu: viu apenas uma tipia que descia o Chiado a trote largo, com duas 
cabeas cobertas de mantilhas  espanhola.
 Era a Concha  fez Melchior, dando uma punhada no peitoril da varanda.  Que 
linda que ia! E a Paca... Oh, menino!  E exaltado:  Quer voc uma coisa? Vamos ao 
Dafundo com elas. Hem?
E brilhavam-lhe os olhos.
Artur teve um mpeto de mocidade, de ardor; disse vivamente:
 Valeu!
 Caramba!  fez o outro. E decerto para se preparar  excitao nocturna, 
reclamou uma gotinha de conhaque.
O mesmo criado entrou com outra carta para Artur.
 E o dia das cartas  disse ele, com uma vaidadezinha.
E de repente, teve a ideia, pela letra que no' conhecia, que era da baronesa: a 
alegria das suas feies foi to clara que Melchior perguntou, com os olhinhos vivos:
 Cartinha de amor?
Era de Nazareno. Dizia que ao outro dia, s 9 horas da noite, Matias lia o seu 
grande trabalho. Sem falta, caro concidado!
Artur meteu a carta no bolso afectando discrio.
 Rendez-vouzinho, hem?  fez Melchior, j invejoso.
Artur julgou no mentir, dizendo:
 Rendez-vouzinho, para amanh!
 Seu felizo!  fez o outro.  E para ocultar o despeito, emborcou o clice de 
conhaque com o seu chique especial, atirando-o de um golpe para as goelas. Estalou 
com a lngua e pousando o copo:  Hoje andaluza, amanh baronesa! Veja se a 
repblica lhe d dessas pechinchas!
E Artur sorria, torcendo com fatuidade o bigode.

Partiram s nove horas, numa caleche descoberta: levavam a Concha e a Crmen. 
Melchior que parecia entusiasmado, mandara o Teso bater pelo Chiado e direito no 
assento, com o chapu ao lado, o charuto flamejante, atirava adeuses com a ponta dos 
dedos para os grupos escuros da Havanesa e do Baltresqui. Artur, um pouco 
embaraado, encolhido, admirava a Concha: a mantilha preta dava uma palidez mais 
mimosa, mais tocante, ao seu rosto de feies finas, de um tom melanclico; os seus 
olhos rabes, hmidos, bem rasgados, tinham na sombra uma negrura mais profunda; 
recostava-se com um abandono lnguido mas senhoril, retraindo castamente os pezinhos 
para no encontrar as botas de Artur. Logo no Aterro, Melchior comeou com as suas 
pilhrias: fazia declaraes inflamadas  Crmen  uma grossa andaluza, de grandes 
carnes e olhos banhados num fluido negro como tinta  beijocava-lhe as mos papudas, 
chamava-lhe num espanhol grotesco: mi palomba, flor de benediccion!... remexia-lhe 
no vestido, atraa-a pelos braos, fazendo-a rir, de um riso clido de ccegas e de 
pndega. Para lhe imitar a animao, Artur quis tomar desajeitadamente as mos da 
Concha, mas ela, com dignidade, censurando decerto as expanses pblicas de 
concupiscncia, retirou-as brandamente. Aquela frieza chocou Artur: desesperava-se por 
no poder falar espanhol e cativ-la com a eloquncia da fraseologia potica. Ento 
recostou-se, calado, a olhar a noite: uma doura infinita errava no ar que tinha uma vaga 
cor de anil deslavado; brancuras de luar banhavam pedaos de fachadas; e a tipia corria 
a trote, com o Teso muito direito na almofada, de cabea baixa, o pingalim alto, as 
pontas da faixa a esvoaar, batendo no seu estilo catita.
 Ento isto no  melhor que todas as soires do High-Life?  disse Melchior.  
E em passando as portas, salta a bela malaguea!
E aconselhava Artur a que se atirasse  Concha e que se pusesse  altura das 
circunstncias, que isto de pndega sem animao era dinheiro deitado  rua!
 Eh, Teso,  bater!  bater!
Tinham passado Pedrouos, adormecido e escuro, e a Crmen, muito solicitada, 
entoou a sua malaguea: Melchior, mascando o charuto com entusiasmo, seguia o 
compasso, saracoteando a cintura e fazia o acompanhamento, batendo as mos em 
cadncia. A voz da rapariga era acre e mordente e as notas arrastadas, os --hs muito 
modulados, perdiam-se pela noite, misturados ao trotar batido das ferraduras, ao rodar 
da tipia no areado do macadame. No alto silncio azulado brilhava uma Lua imvel, 
muito serena, e um ar vivo passava, salgado das emanaes do rio. Artur sentiu um 
fluxo de ternura triste, de enleio potico afogar-lhe o peito e recostando a cabea, 
suspirou.
Ento, muito terna, a Concha debruou-se para ele, e, chamando-lhe hijo mio, quis 
saber o que o fazia sofrer. Ele carregou a voz de ternura, para dizer: nada! Ela apertou-
lhe a mo docemente  e Artur no duvidou do seu amor.
Mas Melchior tinha entoado o fado: fazia uma voz especial, estrangulada, do 
nariz, rouquenha, afadistada:

Eu fui um dia ao Dafundo,
Ai! Em companhia do Amri!...

Mas interrompeu-se: o fado sem guitarra no ia. No Dafundo  que haviam de 
cantar, se l estivesse o Z das Trs. Artur  que havia de ver! Era de chorar!
E declarou que tinha fome. Tambm, iam fazer uma ceia real! Abraou os joelhos 
da Crmen, que dava gritinhos, e, para animar o Teso, aconselhou Artur a que lhe desse 
um charuto. Chamava-lhe o Tesinho.
 Tenho feito muitas pndegas com ele. No  verdade,  Tesinho? Hem? No 
tempo do Sr. Visconde. Hem?  Viva o salero! Lhegamos, nias!
Estavam com efeito diante do hotel do Dafundo. Melchior saltou vivamente  mas 
ficou  portinhola, escutando, petrificado: do hotel saam gritos de mulheres, uma luz 
corria no primeiro andar.
 Temos chinfrim  disse o Teso, atirando a manta s ancas dos cavalos.
As raparigas tinham descido, j assustadas; contudo entraram. No corredor, um 
homem cruzou-os, correndo, com uma toalha e uma bacia na mo; uma mulher, de saia 
muito engomada, passou aos gemidos, aos ais! E Artur, com a Concha muito trmula 
agarrando-se-lhe ao brao, Melchior, plido, um pouco encolhido atrs da Crmen, 
dirigiram-se  sala da esquerda, alumiada, de onde saam os choros dilacerantes de uma 
mulher rouca.
Junto da mesa, um homem, com o busto todo nu, o rosto lvido, os cabelos 
empastados num suor frio, erguia ao ar o brao direito, todo coberto de uma pasta de 
sangue escuro que gotejava devagar: o cho estava encharcado de uma humidade negra. 
Sobre a toalha da mesa, repuxada a um canto, negra de vinho entornado, estavam pratos 
quebrados, estilhaos de copos, e uma rapariga que duas mulheres acalmavam, 
seguravam, chorava convulsivamente, arrepelando-se, com os olhos esgazeados, a face 
manchada de vermelho. Um indivduo gordo e calvo, de ar importante, procurava vedar 
o sangue, mas a toalha enrolada ensopava-se depressa: as carnes estavam dilaceradas 
por facadas transversais e apenas lavado com muita gua, o sangue recomeava a correr, 
caindo em gotas pesadas. O rapaz imvel, mudo, corajoso, perdia a cor; os olhos 
embaciavam-se-lhe. Todos os rostos estavam amarelos de terror: perguntava-se baixo 
pelo mdico; uma criada, toda esguedelhada, esfregava o cho; e o dono do hotel, em 
mangas de camisa, as calas muito erguidas pelos suspensrios, ia pedindo que se 
retirassem, que no fizessem barulho, afirmando que no era nada, que fora por 
acaso, seguido da mulher, que, de peitos  mostra, em camisa de dormir, procurava 
acalmar uma criana estremunhada que se torcia, aos berros.
Melchior, muito branco, quis partir imediatamente; nem deixou o Teso dar uma 
sopa ao gado: empurrou  pressa as espanholas para dentro da caleche, subiu, e fechou 
rapidamente a portinhola, como para se refugiar na tipia, trmulo, cheio do terror das 
desordens, dos fadistas, da polcia e do sangue.
 Isto s a ns!  disse ele a Artur.
Declarou que tinha tonturas:
 V, Teso,  largar. E largar, que diabo!
A volta para Lisboa foi lgubre: as raparigas falavam baixo, tomadas de um vago 
terror; tinham reconhecido o rapaz  era o lvaro, o querido da Adelaide, da Rua do 
Norte. Fora questo de cimes, decerto; e gabavam-lhe a coragem, a brancura da pele, 
vagamente enamoradas dele. Melchior, mudo como uma esttua, sem veia, torcendo 
nervosamente o bigode, ia sondando os recantos escuros do caminho, no susto de assal-
tos possveis, apressando o Teso, vido de se encontrar em Lisboa, no sossego das ruas 
populosas, sob a proteco da patrulha. S comeou a tranquilizar-se quando a tipia 
rolou pela Rua do Ouro. Era uma pndega estragada! E deblaterava agora contra tudo o 
que at a fora celebrando: os fadistas, a solido do Dafundo e as relaes de prostitutas.
Foram cear ao Silva. E a, bem seguro dentro das quatro paredes do gabinete,  luz 
quente do gs, recobrada a loquacidade, contou outras desordens a que assistira, a 
maneira como salvara o clebre Viola de uma facada do Rei de Copas e os faias que 
tinha esbofeteado. Estimava agora ter visto aquele chinfrim e foi  sala procurar pessoas 
conhecidas a quem repetia prolixamente o caso, assegurando que se no fosse ele, o 
pobre diabo escoava-se em sangue.
No entanto, no gabinete, esperando as ostras, Artur revirava olhos ternos para a 
Concha, construindo laboriosamente frases espanholas: e para lhe dar uma alta ideia do 
seu valor, recitava-lhe ardentemente dois versos de Espronceda que sabia de cor:

Porque vuelve a la memoria mia
Triste recuerdo del placer perdido?

Ao outro dia, quando s 10 horas da manh entrou no hotel para mudar de roupa, 
vinha enamorado da Concha.

Na intimidade da alcova, ela contara-lhe a sua vida. No era filha de um general  
segundo a verso de Melchior  mas seu pai, cunhado de uru capito, negociava 
honestamente em vinhos, numa localidade que ela no quis revelar. Seduzida  inocente 
que era ento!  pelo filho de um marqus, fora esconder a sua glria e a sua vergonha 
num terceiro andar da melanclica Rua de S. Juan de Dios, em Madrid. O seu amante, 
cujo ttulo era confuso, ora conde, ora simplesmente visconde, era um carlista fantico, 
que se alistara nos bandos de Saballo e morrera junto a Estela, num encontro de 
cavalaria. Ela  pobrecita!  s, miservel, depois de ter empenhado uma por uma todas 
as suas ricas jias  rubis, prolas, diamantes, que o carlista lhe dera com uma profuso 
de Grande de Espanha, vira-se forada  ah, bem forada  a aceitar o amor de um 
director de caminhos-de-ferro, um primeiro andar em Fuencarral e um coche. Este 
coche parecia ser a glria eminente do seu passado: fazia-o rolar constantemente atravs 
da sua histria  ora vitria aberta aos tpidos aromas dos arbustos do Retiro, ora cup 
acetinado, correndo silenciosamente sobre a neve da Fuente  puxado por um cavalo 
branco que se chamava Miramolinos... Mas os cimes ferozes do director de caminhos-
de-ferro, a sua bengala to dura aos pobres ombros tenros, obrigaram-na um dia a vir 
refugiar-se em Lisboa, com o vestidinho que trazia no corpo, numa casa amigvel e 
hospitaleira da Rua de S. Roque... Mui desgraciada!
Depois, falara mais particularmente dos seus sentimentos. Dizia-se simples como 
uma criana, amorvel como uma pomba. Para ela, luxos, teatros, toilettes, pouh! eram 
misrias! O seu ideal era ter uma casita sua e um homem novo que a estimasse e a 
tratasse como uma senhora. Ela mesma coseria os seus vestidos e era fcil de alimentar 
como um passarinho! Alguns gravanzos, muita ternura  e era feliz!
Ia revelando estes pormenores do seu passado e do seu carcter, ao mesmo tempo 
que se despia e mostrava as belezas da sua nudez. As suas desgraas davam um encanto 
tocante s suas formas; havia como uma harmonia entre as fragilidades sentimentais de 
sua alma e a delicadeza fina das suas linhas. Artur escutava-a, fascinado pela sua pele e 
enternecido pela sua biografia, cheio de ardores libidinosos e de piedades crists! E 
enquanto ela punha devagar p-de-arroz ao espelho, com o peitinho ao lu onde corriam 
veias azuis de uma doura aristocrtica, Artur, em redor, de olho aceso e imaginao 
cativada, impacientava-se no desejo de a possuir e comovia-se  ideia de a regenerar!
Depois, alta noite, ela fez novas revelaes sobre o director de caminhos-de-ferro. 
Era um monstro que lhe puxava pelos cabelos, a amarrava por um tornozelo ao p de 
um bufete e a deixava assim, como uma cabra presa a uma estaca, com um copo de gua 
e caramelos... At uma vizinha, D. Anglica Lorenzo, chorava todas as lgrimas dos 
seus olhos...
Artur torcia-se, tomado de um dio infernal pelo director de los Ferro-Carriles.
 Mas por que era ele assim, esse bruto?
Ela suspirou e revelou-lhe ao ouvido, que era por ser fria com ele... Mas ento  
com homens de quem no gostava, no podia ser seno fria. E dava-lhe assim a 
entender que a exaltao voluptuosa que mostrara era uma certeza do seu amor por ele.
quela revelao, Artur, apertando-a doidamente nos braos, jurou-lhe que a 
amava e que a faria feliz: prometeu-lhe que voltaria essa noite mesmo  e que lhe traria 
uma sombrinha cor de peito de rola, que ela vira no Valente e lhe tirava o sono.
Todo o dia, passou-o saboreando, ruminando as felicidades da noite. Sempre, 
desde Coimbra, desde as suas leituras de Musset, as Andaluzas  les Andalouses aux 
seins brunis  se tinham conservado para ele como um ideal de voluptuosidade; e a 
posse de uma, enfim, e to tocante, to infeliz, to ingnua, to aristocrtica, dava-lhe 
como que o orgulho de uma iniciao. Comprou-lhe a sombrinha e dois pares de luvas  
desejaria dar-lhe diamantes, como um devoto que orna um dolo. E ia pelas ruas com 
um vago sorriso beato, o corpo lasso, a alma suavemente enternecida, pensando nela, 
parecendo-lhe que a cidade tinha uma elegncia mais amorosa, que o cu era mais azul, 
e respirando com languidez alguma coisa de romntico e de triste que lhe parecia errar 
subtilmente no ar.
Pensou mesmo com tdio no Clube Democrtico, onde tinha de ir nessa noite; 
julgava bem secante o aparato maador de uma sesso republicana  agora que s 
respirava bem no ar abafado do quartito da Concha. E como quis ir v-la, beij-la depois 
do jantar, eram quase dez horas quando chegou ao Clube.
No meio de um silncio grave, Matias acabava de ler o seu grande escrito: 
Programa de Organizao Democrtica. Como todas as cadeiras estavam ocupadas, 
Artur, um pouco acanhado, ficou de p, encostado  parede.
A sala estava quente das respiraes e da intensa ateno apaixonada. Matias 
parecia plido de fadiga: a sua voz seca, lenta, tinha agora, lendo a perorao, um vigor 
exaltante e em todas as fisionomias, nas atitudes, havia a animao satisfeita de quem 
respira um ar regenerador.
A primeira parte da leitura fora um libelo amargo contra o Regime Constitucional, 
deduzido por factos e cifras, e que regozijara todos os descontentamentos como a 
expresso bem clara de dios indefinidos; depois, a parte prtica do programa, 
mostrando os meios de estabelecer a Repblica, apaziguara enfim os ambiciosos, que, 
at a, no Clube, s tinham escutado uma vaga fraseologia balanando-se ao acaso; 
finalmente, a perorao, as grandes frases, com apelos  Justia e invocaes  
Liberdade, electrizava os mais obtusos, como uma bela rajada de instrumentao. Todos 
pareciam compreender, querer, sentir: Artur desconhecia aqueles rostos que vira vazios 
e aparvalhados e que encontrava agora expressivos e determinados; e ele mesmo se 
sentiu vibrar, em harmonia com a eloquncia revolucionria daquela prosa elevada  
quando Matias terminou com uma larga apstrofe  Repblica Universal!
Os bravos! romperam; um brouhaha animado elevou-se; e ento, no rumor, Artur 
viu o Malaquias, o homem sujo e amarelo, que falava voltado para o secretrio, 
agitando um jornal.
 Peo a palavra, peo a palavra!  exclamava.
Erguera-se e ia falando baixo a uns e outros com grandes gestos dos seus braos 
magros. Alguns olhares voltavam-se vivamente para Artur e trs sujeitos cochichavam 
com Nazareno, que parecia mais plido e muito excitado.
 Peo a palavra!  bradou o Malaquias, brandindo o jornal.
A campainha retiniu e subitamente cavou-se um silncio disciplinado. Malaquias 
ento olhou em redor com triunfo: a sua larga boca fendida alargava-se mais num 
sorriso perverso e acariciava o queixo com os dedos magros, como que ruminando um 
gozo ntimo. Depois de bambolear a cabea, comeou a dizer na sua voz mastigada e 
aguda, que, antes de discutir o profundo trabalho que todos acabavam de ouvir com 
admirao  o Matias fez uma grande cortesia  era do seu dever, do dever de todos  e 
curvava-se respeitosamente para os lados  proceder a um acto de justia. Quando ele, 
na ltima sesso, exigira garantias para os novos membros admitidos, por exemplo o 
juramento, bem sabia o que dizia...
 Bem sabia o que dizia! Eu no sou nenhum tolo!  e agitava os braos, 
esganiando a voz.  Mas os mestres...  e com a boca arreganhada, baixava a cabea 
humilhando-se ironicamente:  Mas os mestres... E a tm o resultado! Eu no quero 
fazer verrinas, mas se me do licena, sempre lhes passo a ler o que se diz num jornal, a 
respeito de um certo membro ultimamente admitido e os cidados vero o que convm 
fazer!
Artur sentira uma pancada no corao: no jornal que Malaquias brandia 
reconhecera, aterrado, o Sculo! Olhares indignados fitavam-no, e o silncio era to 
grande que se ouvia vagamente, por momentos, na cervejaria prxima, as agudezas de 
uma rabeca com acompanhamento de harpa, tocando o canc da Bela Helena.
O Malaquias, ento, desdobrou o jornal devagar, com solenidade, pigarreou e 
disse:
 Ora escutem os senhores este mimo: O ilustre autor dos Esmaltes e Jias, que 
tanta sensao tem causado, o nosso amigo Artur Corvelo....
Santo Deus! Era a notcia do Melchior... Quis interromper, explicar, mas a lngua 
pesava-lhe como um pedao de chumbo; olhava ansiosamente para uns, para outros, 
procurando uma proteco: mas s via faces duras, vagamente enfatuadas de serem 
chamadas a sentenciar. O Malaquias ia lendo lentamente, sublinhando com maligni-
dade, pondo intenes profundas, mesmo nas vrgulas. A frase em que os Amores de 
Poeta eram designados como um protesto contra as ideias republicanas foi seguida de 
exclamaes indignadas! Uma voz soltou:
 Oh! que maroteira
Artur pensava em fugir, abalar pela escada abaixo, quando o Malaquias, voltando-
se para ele com olhos arregalados de triunfo, o brao acusador, leu com nfase: os 
Amores de Poeta, so dedicados a um Augusto Personagem!
Ento um rumor de clera correu pelas cadeiras. Havia interjeies de desprezo, 
risadas de piedade; alguns, mais escandalizados, voltavam-se para Artur, ameaadores. 
E Matias, imvel, tomava um aspecto rgido,  Fouquier-Tinville, de juiz de onde sai a 
morte.
Malaquias elevou a voz aguda:
 Eu, agora, s pergunto se o Sr. Corvelo pode continuar a fazer parte do Clube!
 No! No!  berraram.
 Eu s quero saber se um homem que frequenta os sales, e dedica aos tiranos...
 No! No! Fora!
Malaquias voltara-se para Nazareno:
 E o Sr. Jcome, que foi...
Mas Jcome estava j de p, terrvel, plido da raiva. E com uma vivacidade 
estridente:
 Meus senhores, eu s esta noite li esse jornal! Meus senhores, eu fui enganado 
na minha boa-f!  E batia desesperadamente no peito.  Acolhi como um amigo, quem 
era apenas um espio...
Artur, lvido, com um suor frio nos cabelos, trmulo como uma vara verde, 
estendia os braos, e numa voz estrangulada:
 Eu peo para me explicar. Vossas Excelncias...
 Nada de Excelncias!  berraram-lhe.
 Os senhores podem estar certos que eu no sabia da notcia... No  verdade...
O Jcome gritou, mostrando-lhe o punho:
 Mente!  E voltando-se para Matias:  Esse homem declarou-me h dias que era 
ntimo dos redactores do Sculo... Eu dei-lhe um artigo sobre o livro do Damio, para 
ele obter a publicao... Era uma pura questo literria... nada de poltica... Esse senhor 
veio-me dizer que o artigo no saa porque o director do jornal o achava cheio de ideias 
revolucionrias, quando  evidente, agora, que foi ele quem impediu a publicao...
 Juro!  bradou Artur.
 Mente!  gritou Nazareno, batendo violentamente com o p.  O juramento 
conta pouco para os traidores. Veio aqui espiar... E eu que o apresentei, confessando o 
meu erro, peo a expulso desse homem!
Soaram apoiados! frenticos, de uma clera comunicada. O Matias fez retinir a 
campainha e no silncio profundo, ouviu-se de novo, em baixo, as vagas arcadas da 
rabeca.
 Convido o Sr. Artur Correio  disse Matias com solenidade  a sair 
imediatamente da sala!
 Fora! Fora!
Artur, desorientado, deixara cair o chapu:
um pontap arremessou-lho contra a parede; agachou-se para o apanhar; um 
assobio silvou e o homem asctico, erguendo-se, gritou-lhe uniu mpeto  Mirabeau:
 E diga l ao Augusto Personagem que o mandou, que ns aqui estamos, sem 
medo, a preparar o dia da Justia!
 Bravo! Bravo!
Vozes trocistas ganiam injrias:
 Recados ao Augusto Personagem!
 Lamba-lhe as botas!
A campainha do Matias retiniu, zelosa da gravidade democrtica. E Artur, 
aturdido, como brio, com as faces a estalar, achou-se na escada escura, aos tropees 
pelos degraus; e atravs dos zumbidos nos ouvidos, as agudezas da rabeca perseguiam-
no com motivos estridentes da Filha de Madame Angot.
Nessa noite, a Concha, acordando, no o encontrou ao seu lado: saltou da cama 
em camisa e  luz mrbida da lamparina, viu-o no sof de cima, abatido, com a face 
enterrada nas mos.
 Que tinha? Que era?
Tanto carinho abalou-o, enterneceu-o e numa exploso de sensibilidade:
 Amas-me, querida?
Se o amava!...
Abraou-se a ela, sepultou o rosto no seu peitinho, entre as rendas da camisa, 
como num derradeiro refgio e jurou-lhe que da por diante, viveriam sempre juntos!

Tomara aquela resoluo sobretudo por desespero: sentia-se como um homem que 
em torno de si s v portas baterem-lhe violentamente na cara. A Sociedade 
desdenhava-o, a Democracia expulsava-o, o Pblico desprezava o seu livro, a Literatura 
repelia-o, o Amor ideal fugia-lhe. S aquela doce rapariga o acolhera com dedicao e 
sinceridade! Pois bem, recompensaria tanto afecto: dar-lhe-ia a casita sossegada que ela 
ambicionava, um amor potico e moo, toilettes, a considerao de esposa. Que lhe 
importava a Sr Baronesa da Rua de S. Bento? Nem uma palavra respondera ao livro 
enviado com um amor to discreto! E quase a detestava por fazer parte daquele mundo 
egosta, seco, artificial, que na sala de D. Joana Coutinho lhe dera olhares de lado, que 
no comprava o seu livro, que o no reconhecia como um grande homem... E os 
republicanos?  Idiotas! Cretinos! Odiava-os agora. E depois de tanta injustia, de tanta 
hostilidade, o amor da Concha, na sua sinceridade fcil, parecia-lhe delicioso, digno de 
dominar a sua vida. Instalar-se-ia confortavelmente com ela: mandaria ao diabo as 
vaidades da Sociedade e as ambies de Justia! Estava desiludido! A lio fora 
formidvel; da por diante, s acreditaria nas felicidades da carne  comer bem, rolar 
nas boas molas de uma tipia, possuir as belezas de uma andaluza! E o mais   tabua!
Melchior, consultado ao outro dia na redaco do Sculo, aprovou ruidosamente 
estas resolues.
At que enfim o Artur tinha juzo! Essas coisas de sociedade, de literatura, eram 
histrias! Gastar o dinheiro com uma bela rapariga, isso entende-se. Ao menos goza o 
seu dinheiro!
Artur no lhe revelara o desastre do Clube. Mas dissera-lhe, ao conversarem sobre 
o plano de concubinagem com a Concha:
 Oia l outra coisa: estou com vontade de escrever um folhetim a dar uma 
desanda nas republicanos!
Melchior ficou atnito:
 Por qu?
Artur hesitou:
 E que, agora que os conheo melhor, est-me a parecer que so uma scia de 
patifes...
Melchior fitou-o:
 Pilharam-lhe dinheiro!  exclamou radiante.
Artur, por vingana, tendo de dar a Melchior uma explicao daquele dio to 
sbito, disse vagamente:
 Fizeram-me uma porcaria...
 Calotezinho? Que lhe dizia eu! Uma canalha! E soma grossa?
Por um resto de honestidade, Artur disse, corando:
 No falemos mais nisso.
Mas Melchior falou e certo agora do apoio de Artur, deblaterou contra aquela 
corja.
 Mas por que os detesta voc tanto, Melchior?
Melchior fez-se grave, afectou preocupaes polticas, resmungou: questes de 
princpios!  mas de um modo to ambguo que Artur suspeitou de dios pessoais 
naquela indignao filosfica, e lembrando-se agora vagamente de ter ouvido a histria 
de uma coa que outrora o Nazareno dera no robusto Melchior em pleno Martinho. 
Insistiu ento em publicar uma desanda no Clube Democrtico.
Mas Melchior coou a cabea, deu alguns passos pela saleta, com as mos 
enterradas nas algibeiras:
 Voc bem v, homem, o jornal  muito srio. No queremos discusses com 
essa gente. Fingimos que no sabemos que existem. Que diabo!
E depois so doidos. So capazes de vir tomar satisfaes, e eu sou obrigado a 
quebrar-lhes a cara. Que lha quebro! Se lha quebro! Quebro-lha to certo como 
estarmos aqui! Mas enfim, voc compreende, sempre  desagradvel!
Artur irritava-se de se ver privado daquela desforra. Pensava que o Melchior, que 
provocara o insulto do Clube com a sua estpida notcia, devia agora facilitar-lhe a 
vingana. Teria mesmo rompido com ele, se lhe no fosse necessrio para a 
representao do drama e para futuras locais; alm disso, a Concha morria-se por ele: 
Melchior adulava-a, fazia-a rir, ensinava-a a tocar guitarra; ela chamava-lhe, rindo: mi 
abuelo, e Artur contava, quando vivesse com a Concha, t-lo por confidente, corteso, 
amigo, dependente e bobo.
Foi por conselho de Melchior que se decidiu a ir viver com a rapariga para o Hotel 
Espanhol. Era a instalao mais pronta e evitava os embaraos de criadas, cozinheira, 
etc. E depois,  divertido, tinha dito Melchior. Sem contar que  mais chique!
A Concha ficara enlevada com este plano e da a dois dias Artur despediu-se do 
Universal.
Quando, feita a mala, olhou em redor, pela ltima vez, aquele quarto de repes azul 
que lhe dera tantas satisfaes de vaidade, onde se criara tantas iluses, sentiu uma 
comoo. Teve saudades do criado, um velho muito trigueiro que o servia. Quis tornar a 
ver a sala de jantar que lhe agradava tanto, quando, depois do almoo, soprava  
varanda cheia do bom sol de Inverno, o fumo do seu charuto caro, ouvindo ao lado o 
tlintlim da loia e em baixo o Chiado, no seu rumor de vida rica.
No corredor, encontrou Carvalhosa:
 Ento o amigo deixa-nos?
Artur, lisonjeado, apressou-se a dizer:
 Oh, por poucos dias!
 No morreremos de dor!  rosnou o outro com um aceno negligente de cabea.
Artur sentiu uma clera congestion-lo. Canalha! pensou  e desceu com pressa, 
vido do Espanhol e das suas delcias.
 E para onde quer que mande as cartas, se houver?  perguntou-lhe o porteiro, 
contente da esprtula.
Artur, com uma vaga esperana que a baronesa ainda respondesse  pediu que 
lhas guardassem. E para se dar importncia, mesmo diante do porteiro, acrescentou com 
mistrio:
 Mas muito secretamente! Que ningum veja!
O seu ba, o seu saco de noite, j estavam na tipia. E ao fechar a portinhola, 
mandou bater para o Rossio  porque, por vaidade, no quis fazer conhecer diante do 
porteiro que mudava para o Espanhol. O trem rolou, e Artur, com um olhar para as 
varandas do hotel, murmurou sentimentalmente:
 E outra pgina da minha vida que se volta... Avante!

Foi nessa noite com Melchior buscar a Concha. As companheiras estavam na sala, 
em redor dela, como uma famlia em torno da noiva numa manh nupcial.
A governanta, que se declarou comovida, levou Artur para um quarto e ali, 
durante vinte minutos, foi-lhe mostrando as dvidas da Concha: contas do cabeleireiro, 
da lavandaria, do sapateiro... Artur, aturdido, assustado, impaciente, pagava  sentindo 
fora os gritinhos clidos das pequenas que Melchior beliscava.
Enfim, voltou  sala, e os adeuses comearam. A Lola, ntima amiga da Concha, 
rompeu num choro exagerado, desproporcional, que irritou a governanta, descontente 
que ela estivesse a fazer-se feia, com tanta lgrima. Depois, a Concha quis ir  
cozinha, despedir-se do cozinheiro que era de su pueblo e de outra rapariga que 
estava em cima, no segundo andar, doente de um furnculo. Voltou com os olhos 
vermelhos, Melchior troava-a, contorcendo-se em prantos cmicos. Elas chamavam-
lhe perdido, bandido! Todas vieram ao patamar: os beijos, os abraos, os segredinhos, o 
chalrar das vozes j impacientavam Artur  e a Concha, arrancando-se quelas 
expanses de despedida, desceu finalmente.
Mas as vozes agudas seguiam-na pela escada. Ela respondia: era um chilrear de 
passarada.
 Adios, hija!
 Adios, Lolita!
 De usted expreciones a Pancho!
 Que se le vea a usted, Arturito!
 Carmita, hila, que no se haga usted olvidada!
 Adios! adios!
Melchior rompeu adiante, o chapu para a nuca, radioso, faceto, cantando o coro 
nupcial da Lcia. E Artur, atrs, descia com a Concha pelo brao, um triunfo de noivo 
pela alma, o olho brilhante, o peito alto  na posse, enfim, da sua andaluza!



VIII

No primeiro dia, quando desceu  sala de jantar do Espanhol a buscar charutos  
Artur encontrou os mesmos hspedes que o habitavam, meses antes,  sua chegada a 
Lisboa. L estava a espanhola bonita e gordinha, com o seu robe-de-chambre escarlate e 
o homem calvo, de cachao grosso e rostinho vermelho, vendo-a comer, exttico, com 
olhinhos beatos e chorosos. Os dois republicanos espanhis sentavam-se no mesmo 
lugar, cabisbaixos, as capas ao ombro, mais plidos, mais tenebrosos. Havia, de novo, 
um homenzarro barbudo que parecia um contratador de gado, e um sujeito de culos 
azuis e nariz agudo, que devia ser tabelio na provncia. E em volta da mesa, com a 
travessa do cozido, o Manuel  o Manuel que tanto desesperara Artur, outrora, 
lastimando-lhe as botas rotas  arrastava as chinelas, esguio, amarelo, com a sua 
cabeleira seca, cor de rato e esguedelhada. A mesma gaze cor-de-rosa protegia o 
caixilho doirado do espelho, e Prim, inalteravelmente, levantava ao ar a sua bandeira, 
desfraldada.
O Manuel pareceu satisfeito de ver Artur:
 Ento, usted, hem! Ora usted!...  dizia-lhe, enquanto Artur escolhia os 
charutos.  Ento por onde andou usted?
 A viajar  disse Artur.
 Ora usted! E a comidinha s sete, hem? Usted ser bem servido!
Para evitar a mesa redonda, tinham tomado, ao p do quarto de dormir, outro 
quarto, que, tirada a cama, fora improvisado em sala de jantar. A cmoda servia de 
aparador; e para dar alegria e conforto, tinham-lhes dependurado um canrio defronte da 
janela.
As primeiras semanas foram deliciosas. O Inverno ia muito doce e luminoso e 
sucediam-se os dias de sol, num grande azul, de onde caa um calorzinho suave e uma 
alegria macia. As varandas, que deitavam para a Rua da Prata, alegravam o quarto.
Era a primeira vez que Artur vivia com uma mulher em intimidade conjugal; as 
mais pequenas coisas: a goma das saias, os atacadores do colete, os bordados das 
camisinhas, interessavam-no como revelaes; admirava cada vez mais a sua 
Conchazinha, achando um gozo raro em cada um dos seus movimentos. Nos actos 
mais insignificantes  quando lavava os braos nus, quando esticava as meias nas 
pernas ou enfiava uma fita cor-de-rosa nos passadores da camisa  encontrava o sabor 
inesperado de uma voluptuosidade nova. Rondava em volta dela com uma curiosidade 
devota, ora interessado pelos cabelinhos da nuca, ora pela forma das unhas, ora por 
certo requebrar da cintura; no amava os seus olhos com o mesmo amor com que amava 
os seus peitos ou as suas orelhas pequeninas, porque cada parte do seu corpo, como se 
fossem personalidades diferentes com influncias especiais, lhe inspirava um 
entusiasmo particular. Melchior definira-o como um baboso e punha nesta expresso 
um fundo de inveja e de vago despeito.
Como a Concha era muito preguiosa, levantavam-se tarde. Ordinariamente 
almoavam na cama: uma criada que falava um espanhol misturado de portugus e que 
depressa se tornara a ntima da Concha, trazia o almoo aos pombinhos, s onze 
horas. E era para Artur uma delcia todas as manhs renovada, ver a Concha com os 
peitinhos ao lu, um casabeque de flanela escarlate pelos ombros, mover sobre o 
tabuleiro os braos brancos e partir os ovos quentes delicadamente com o gume da faca, 
arrebitando o dedo mnimo: depois, no choco da roupa quente, corpo contra corpo, 
saboreavam um cigarrinho.
Artur cada dia lhe achava as maneiras mais senhoris. Mesmo nos ardores 
amorosos, tinha uma reserva de dama. Ao deitar-se, nunca lhe dava um beijo sem 
primeiro fazer o sinal da Cruz: assim se v um livro de oraes sobre a cmoda de um 
lupanar. Artur atribua estas delicadezas s suas convivncias ilustres e no se fartava de 
lhe ouvir a histria dos seus amores com o conde ou visconde carlista: interrogava-a 
mesmo sobre a maneira como ele a amava, a abraava, se lavava, gostando de penetrar 
nos detalhes ntimos de uma vida aristocrtica e de beijar a boca onde se tinham 
pousado os lbios de um Grande de Espanha; contudo sentia uma satisfao ntima em o 
saber enterrado nalgum desfiladeiro das montanhas de Navarra.
Pelas duas horas vinha o Pancho, o cabeleireiro, pente-la: era um gordalhufo, 
amarelo como um limo, de bigodes negros como tinta; usava a mesma camisa de chita, 
de colarinho muito decotado, quatro, cinco semanas a fio; e manejando, com as suas 
mos papudas e moles de pomada, os longos cabelos negros da Concha, conversavam  
tratando-se por tu por serem do mesmo pueblo. Eram sempre histrias de outras 
raparigas espanholas a quem Pancho construa os altos penteados  o que fazia a Trina, 
o que dissera a Angelita, quem era o querido da Lola... Como falavam no rpido acento 
andaluz, em calo, Artur no os compreendia e aquele tu familiar do cabeleireiro 
irritava-o surdamente. Mas a Concha no podia dispensar o Pancho, porque no se sabia 
pentear. No sabia, de resto, fazer nada, nem pregar um boto, nem dar uma passagem: 
quando tentava pegar numa agulha, tinha logo dores de cabea. Cada dia Artur se 
surpreendia mais com aquele temperamento: ora tinha rajadas de animao, e ento 
agitava-se pelo quarto, batendo os mveis com as longas saias muito engomadas, 
abrindo e fechando as janelas, arrumando e desarrumando a roupa nas gavetas, 
cantarolando, batendo as palmas sem razo, toda petulante de vida animal; ora, emba-
lando-se numa cadeira de baloio, com o corpo mole, os braos descados, abandonada 
numa madracice vaga, os olhos meio cerrados, fumava infindveis cigarros; ou ento, 
sentada em cima da cama, encruzada como uma turca, o pezinho numa das mos, a face 
murcha, parecia um bicho entorpecido, nos fins do Inverno.
Mas animava-a sempre a presena de Melchior. Ele vinha geralmente de tarde, 
entrando com rompante jovial, trazendo um espalhafato pndego quele quarto 
amodorrado. Tornara-se imediatamente o amigo ntimo. A Concha beijava-o diante 
de Artur, que sorria, tranquilo, confiado: na sua ignorncia das mulheres, no sentia 
cimes, porque a Concha lhe dissera um dia que o Melchior era muy-feo. Ele, de 
resto, afectava com ela um modo paternal, fazendo-se velho, dando-se ares de av; 
dava-lhe lies de guitarra, fazia-lhe recados, ajudava-a mesmo, s vezes, a laar as 
botinas, com as mos trmulas que se demoravam com gulodice nos tornozelos finos da 
rapariga. Artur, sossegado, deixava-os ss, saa; e se um vago cime o remordia na rua, 
tranquilizava-se ao entrar, abrindo a porta do quarto com um imprevisto intencional, 
encontrando-os muito longe um do outro, numa atitude indiferente, ela, baloiando-se 
com um bocejo plido, ele, muito vermelho, ferindo os bordes da guitarra.
Ultimamente, Melchior tomara o hbito de vir jantar com eles; ia ento abaixo 
combinar com o Manuel petiscos espanhis: arroz  Valenciana, bacalhau  Biscainha... 
 mesa, Artur, a quem era difcil falar espanhol, refugiava-se num silncio exttico, 
olhando a Concha com um ar beato. A conversao de Melchior parecia-se com a do 
Pancho: eram os mesmos cancs sobre a Lola, a Trina, a Angelita, os queridos. A 
Concha parecia considerar Melchior como da sua gente, conhecedor das pequenas, ao 
facto dos segredinhos e das concubinagens; tinham simpatias comuns, de uma baixeza 
igual; Melchior era um amigo dos lupanares: conhecia-lhes o estilo, os hbitos, as 
preocupaes. A Concha, por vezes, respondia bruscamente a Artur quando ele se 
queria introduzir naquelas conversas, que ele daquilo no entendia nada. Afirmara-lhe 
mesmo que s o Melchior  que sabia tratar com espanholas.
Por isso, quando ele no estava, parecia aborrecer-se. A maior parte do tempo 
passava-o  janela, muito vestida, cheia de anis; conhecia j todos os vizinhos de vista, 
as lojas, a cor dos cabelos dos caixeiros. Artur ia de cadeira para cadeira, com um livro 
que mal lia, o charuto nos dentes, satisfeito de a ver, gozando a presena do seu corpo 
bonito. Ela, s vezes, por bondades que lhe vinham, e com a seriedade forada de quem 
cumpre um dever, procurava falar-lhe das coisas que julgava o interessariam; e como o 
sabia escritor, conversava sobre poltica. Mas as suas opinies desolavam Artur: 
admirava muito um poeta de que ningum ouvira falar, um certo Lopez que ela 
conhecera e lhe fizera versos; depois, dizia-se Isabelista, chamava pulo a Castelar, 
ladres aos republicanos. Artur queria argumentar, educ-la, mas faltavam-lhe as frases 
espanholas, tinha medo de a secar e limitava-se a sorrir com uma condescendncia de 
grande homem. E todavia, admirava-a, achava-lhe talento, esprito: as suas expresses 
vivas, dando-lhe a surpresa do acento e da lngua, pareciam-lhe sempre pitorescas e 
afligia-se que ela apenas soubesse soletrar, e s pudesse, em letras garrafais, assinar o 
seu nome.
Para a divertir,  noite, ia aos teatros, ao Price, e Melchior acompanhava-os; nas 
noites mais tpidas passeavam at Belm de caleche descoberta: eram horas deliciosas 
para Artur, muito estendido no assento da tipia, o brao pela cinta da Concha, o 
corao afogado de concupiscncia; defronte, o charuto de Melchior fumegava e os seus 
olhos, sob a aba do chapu carregado para a frente, devoravam a Concha, muito branca 
na sua mantilha negra. E com camarotes, tipias, jantarinhos, o dinheiro ia-se! O conto 
de ris que Artur trouxera, estava quase devorado.
Foi por isso que pensou em recolher o produto da venda dos Esmaltes. O revisor 
do Sculo, encarregado de fazer o giro dos livreiros, voltou com 800 ris  preo de dois 
exemplares vendidos.
Artur ficou aterrado, sucumbido. E julgando que devia haver engano, negligncia, 
talvez maroteira do revisor, foi ele mesmo na manh seguinte percorrer as livrarias. 
Porm, no se atrevia a interrogar, julgando-se conhecido e prevendo a resposta. Enfim, 
na Rua do Ouro, depois de folhear alguns livros, de examinar ttulos, tomou um 
exemplar dos Esmaltes: abriu-o aqui, alm, afectou interesse, perguntou o preo, pagou 
e recebendo o troco de uma libra, disse com um ar distrado:
 Tem-se vendido muito disto?
 E o primeiro  disse o homem retomando a pena para continuar a sua 
correspondncia.
E Artur saiu, embatucado, enrolando nas mos nervosas o seu prprio volume.
Acusou o pblico e a cidade de estupidez. Que admirava que uma burguesia 
embrutecida e de crnio mole fosse indiferente  Poesia e s ideias nobres? Ser poeta 
num mundo to torpe era uma chapada tolice. Quando um tal desdm espera as 
expanses preciosas das almas delicadas, elas devem refugiar-se numa mudez orgulhosa 
e triste. E o que ele faria, que diabo! Se pegasse na pena, seria para escrever algum 
dramalho com bons direitos de autor, ou algum Rocambole bem pago e vendido s 
cadernetas! E o mais, regalar a Carne! E refugiou-se com desespero na posse da sua 
Concha.
J no lhe importava o dinheiro! Quando se lhe acabasse o pouco que tinha  
Deus daria! Toca a extrair da hora presente todo o gozo, como o sumo fresco de uma 
laranja! E por uma petulncia nervosa, comprou para a Concha um vestido de seda, dois 
chapus, e decidiu satisfazer-lhe os desejos incessantes de luvas, rendas, fitas e frascos 
de perfumes.
A Concha, de resto, tinha uma mobilidade extrema de caprichos e de apetites: 
penava por uma sombrinha que via numa vitrina e depois de a usar com exaltao um 
ou dois dias, aborrecia-se, jurava que lhe no ia bem. Artur encontrava muitas vezes 
na saleta uma velha de capote e leno, grande buo, falas doces, muito 
cumprimentadora  que, apenas ele entrava, erguia-se, metia um cabazinho debaixo do 
capote, agachava-se numa mesura, ia buscar a um canto um enorme guarda-sol de seda 
tingida e saa subtilmente, ciciando:
 Criadinha de V. Ex.
A Concha acompanhava-a at ao corredor, fechando a porta sobre si, e ali ficavam 
a cochichar horas esquecidas; voltava, vermelha, dizendo que era uma mulher muito 
decente, que comprava vestidos e arranjava coisas muito baratas em segunda mo.
 Mis cosas, mis cosas!
Estava, com efeito, trocando constantemente objectos, pondo um par de brincos 
no prego para obter uma renda intil, vendendo a renda para ter mais um par de meias 
de seda, toda tontinha de fantasias. E ultimamente para ir s lojas, segundo dizia, saa s 
de manh e de tipia.
Um dia que aquelas passeatas o irritaram mais, Artur fez-lhe uma observao 
despeitada. A Concha voltou-se com a grande atitude de uma esposa ofendida, passou-
lhe nos olhos negros como que o claro de um tiro e de cabea erguida, perguntou-lhe 
se a tomava por uma escrava! Era o resultado de viver com um portugus! E dos seus 
lbios descados escorria um desprezo imenso. Nunca o seu conde lhe fizera uma tal 
ofensa! Mas esse era um fidalgo, um homem que sabia amar e respeitar uma mulher. E 
deixando-se cair numa cadeira, comeou a choramin...... Que desgraciada era!
Artur, aniquilado pelo seu grande ar, enternecido pelas lgrimas, prostrou-se de 
joelhos diante dela, jurou-lhe que ningum a amava como ele... Que dispusesse da sua 
vida! Era capaz de casar com ela...
Mas a Concha respondeu-lhe friamente que no imaginasse fazer-lhe uma grande 
honra. J outras vezes Artur, nalgum momento de delrio mais expansivo, lhe falara em 
casamento, mas de um modo gracejador, ligeiro, e aquela palavra tornava-a sempre 
muito sria. E um dia mesmo, ela confessara-lhe que vrios homens ricos, de grandes 
nomes, tinham querido casar com ela: em Madrid, antes dela vir para Portugal, um 
marqus oferecera-lhe a sua mo e um palcio.
 Que marqus?
 Mi marquez!
Aquele marqus que aparecia assim subitamente no seu passado  de que Artur 
julgava conhecer os episdios mais midos  irritou-o extraordinariamente. Exigiu a 
histria dessas relaes e a Concha acabou por lhe jurar que era um velho repugnante: 
por isso o recusara. Mas dias depois, deixou escapar, falando ainda do marqus  que se 
tornara um assunto sempre presente  que era um rapaz mui guapo. E acrescentou que a 
perseguia para que ela voltasse para Madrid.
Artur concebeu ento um cime grotesco pelo personagem: se a via macambzia, 
supunha-a cheia de saudades do marqus; se a ouvia segredar com a criada, imaginava 
que eram recados do marqus: chegou mesmo a suspeitar que ele estivesse em Lisboa, 
disfarado, para lha roubar e sentia que alguma coisa de funesto se tramava contra o seu 
amor.
Um dia, mexendo numa gaveta dela, encontrou um leno muito fino, com um 
monograma sob uma coroa. Enfureceu-se: uma coroa! De quem?
 Mi marquez!  disse ela friamente.
Artur, plido, fez o leno em tiras e ficou logo a tremer, receando uma rajada de 
clera, um rompimento. Mas ela, tranquilamente, com uma serenidade de ser frgil 
martirizado, apanhou as tiras uma a uma, fazendo beicinho choroso, como uma criana 
que levanta os pedaos de uma boneca partida, uniu-as, beijou-as, contemplou-as 
murmurando:
 Mi marquez! Mi marquez!
Da a pouco Artur encontrou as tiras preciosas, esquecidas, arrastando-se entre a 
roupa suja.
Aquilo serenou-o como uma prova de indiferena pelo marqus. De resto, se s 
vezes, de dia, os modos dela, as suas distraces, os seus amuos, os seus suspiros sem 
razo lhe davam um vago cime  o fogo com que ela  noite o apertava nos braos nus, 
era como a evidncia deliciosa do seu amor. E ia-se prendendo tanto a ela pela trama 
subtil do hbito, que j nem saa  rua. No trocaria aquele quarto, com saias amar-
fanhadas por cima das cadeiras e trouxas de roupa enxovalhada debaixo da cama, pelas 
galerias do Vaticano; as paisagens do Paraso no lhe dariam mais satisfao e 
enternecimento do que a contemplao das fachadas sujas dos prdios vizinhos. Havia 
ali, naquele espao abafado, um cheiro de mulher, de p-de-arroz, de dormido, que o 
deleitava, e, estirado na cama, com o cigarro na boca, ouvindo o Melchior tocar o fado e 
vendo a sua andaluza arrastar a saia, tinha horas regaladas de madracice, de torpor 
lascivo; o gemer da viola, o gingar da Concha, mergulhavam-no num sentimentalismo 
baixo e pandilha; estendia ento os braos para ela, reclamava-a e os olhos cerravam-se-
lhe numa voluptuosidade morna, sentindo-lhe por baixo do roupo a flexibilidade clida 
da cinta sem espartilho. No lia um livro, nem um jornal. Todo o movimento de esprito 
lhe era odioso, como se a alma fatigada, amodorrada na baixeza muito quente, no choco 
daquela vida de galo, se recusasse a toda a ascenso para alguma coisa de mais elevado. 
Quase lhe custava lavar-se, arranjar-se: o corpo comprazia-se-lhe na porcaria. E 
levantava-se da cama de chinelas, com um derreamento canalha do corpo, para ir para a 
mesa de jantar, onde ficava at s dez horas, bebendo com Melchior copinhos de 
genebra. Depois, vinham os fados, as malagueas, e ele de novo estirado sobre a cama, 
de pernas abertas, num embrutecimento de bestialidade satisfeita, s erguia a voz para 
dizer num tom idiota, julgando-se catita, vagas palavras espanholas que aprendera: 
Vivan las nias! Chiquita, no digas eso!...
Aqueles dias de preguia, porm, cessaram quando a Concha declarou que queria 
ir jantar mesa redonda. Dizia que a aborrecia comerem ali, naquela saleta um pouco 
escura, ss; que ficava um cheiro de comida desagradvel; que a sala em baixo pelo 
menos era alegre; que se via gente. Artur, contrariado, vendo naquele desejo uni comeo 
de saciedade, apoiado pelo Melchior  que achava que no havia nada como a 
pandegazinha ali  cachucha  resistiu. Mas a Concha, ao outro dia, a cada prato que 
lhe apresentava o criado, tinha um gesto triste de recusa,. com um suspiro. Artur afligiu-
se: que diabo, era uma criancice!
Ela declarou simplesmente que enquanto jantassem ali, naquele cacifo, jurara a 
Nossa Senhora da Atocha no tocar com os seus ricos beios nem uma bucha de po.
Artur, furioso, exclamou:
 Bem, Manuel! Amanh jantamos em baixo!
Ela saltou-lhe ao pescoo, recompensando-o com um beijo chilreado.
O seu fim era humilhar a outra espanhola, a Mercedes. H muito que se 
preocupava com aquela colega, segundo a expresso faceta de Melchior. Sabia pela 
criada o que vestia, que roupa branca tinha, que forma de perna, o que lhe dava o 
amante, os namoros, tudo! E quando se certificou que possua mais vestidos, melhores 
anis, outro chique, decidiu enterr-la. No lhe queria mal: desejava s faz-la chorar 
de raiva!
No dia em que foram jantar  mesa redonda, levou horas a escarolar-se, a 
experimentar vestidos, a perfumar-se; obrigou Artur a pr muita pomada no cabelo, uma 
camlia no fraque, para parecer guapo, e tomando o seu grande ar de duquesa, desceu, 
com um ruge-ruge de sedas, pelo brao de Melchior. A pobre Mercedes, desprevenida, 
tinha o seu roupo escarlate, o cabelo mal penteado e, ao p, o seu calvo, de colarinho 
enxovalhado, cocando-a com os olhinhos afogados de concupiscncia. As duas 
mulheres atravessaram-se com dois olhares traspassantes como punhaladas; toda a cor 
do roupo de Mercedes lhe subiu s faces e a Concha, sentando-se com modos de prin-
cesa que se v obrigada a comer numa taberna, encostou o cotovelo  mesa, a mo  
face, com todas as pedras dos anis dardejando sobre a outra. Durante todo o jantar f-la 
desgraada. Tinha maneiras enjoadas de tocar nos pratos, segredinhos para Artur, com 
olhares de tdio para a fealdade do calvo; falava a Melchior com imprio, como uma 
rainha a um corteso, e a cada momento dava pancadinhas na manga do vestido, para 
fazer sentir a riqueza da seda. A outra no comia, petrificada: tinha mesmo repelido com 
uma fria reprimida um gesto terno do calvo; e quando, a uma ordem da Concha, Artur 
pediu uma garrafa de champagne, ergueu-se, plida de raiva, e saiu arrastando a saia, 
seguida do calvo, curvado, que apertava contra o peito as abas do seu chapu branco 
com um ar lamentvel.
Ao outro dia, a Mercedes apareceu  mesa com um vestido de seda azul, de decote 
quadrado, toda cheia de jias, e duas camlias no cabelo.
Nessa tarde, pela primeira vez, sentou-se  mesa um rapaz espanhol, muito bonito, 
de uma palidez deliciosa, olhares afogados numa languidez fluida, um buozinho que 
parecia desenhado a tinta-da-china, janota, com o cabelo muito frisado e dois caracis  
Capoul sobre a testa. Parecia conhecido da Mercedes e do calvo: trocavam atravs da 
mesa algumas palavras. Mercedes olhava-o muito, e a Concha, ao fim do jantar, vendo o 
rapaz, muito delicado, partir avels para ela, mordeu os beios furiosa.
O seu desejo de a humilhar tornou-se ento uma preocupao ardente; exigiu a 
Artur outro vestido; queria ir todas as noites ao teatro, para que a outra soubesse, se 
ralasse. s horas em que a via  janela do primeiro andar, mandava buscar uma tipia 
descoberta, descia as escadas com grande espalhafato, ia-se recostar na caleche, rindo 
alto, fingindo-se muito animada, gritando pelo Melchior, pelo Artur, e que lhe esquecera 
a sombrinha, e que lhe fossem buscar o leno de renda... Pessoas na rua paravam, 
pasmadas daquela vivacidade, admirando-a. A Mercedes, em cima, se no tinha tempo 
de se retirar da varanda, afectava olhar o cu ou o prdio fronteiro, ou, de costas 
voltadas para a rua, falava, ria para dentro do quarto. A Concha desesperava-se daquela 
indiferena, chamava-lhe os nomes mais hediondos, e apenas chegava ao Aterro, 
mandava voltar para trs, para o hotel, para a apanhar ainda  janela, dar-lhe o 
espectculo do seu chique, da sua grande cauda, das suas meias de seda cor-de-rosa, ao 
saltar do estribo da tipia.  E no entanto, Artur pagava ao cocheiro, pensando:
 Mais dez tostes deitados  rua!
Porque recomeava a preocupar-se com o dinheiro. Desejava escrever ao 
Carneiro, pedindo-lhe o outro conto de ris que l tinha em depsito, mas hesitava; 
sentia que o gastaria depressa, naquela vida prdiga. E depois! Deixar a Concha? Era 
matar a pobre criatura que o amava, que por um sentimento de regenerao, para se 
tornar digna dele, ia-se cada dia fazendo mais senhora, a ponto de ir ouvir missa 
todos os domingos, querer aprender piano e soletrar depois do almoo, laboriosamente, 
o Dirio de Noticias. Podia l deix-la! Seria vil! E era possvel tambm voltar a 
Oliveira de Azemis, recair naquele embrutecimento morno, com partidas de bilhar na 
Corcovada e passeios por entre os pinheirais da estrada, aos domingos de tarde, no p 
do macadame?
Uma dessas manhs, quando estavam na saleta  o Pancho penteava a Concha  
Melchior apareceu e atirou-se para uma cadeira com um ar to abatido, que Artur, 
sempre bondoso, lhe perguntou com muito interesse:
 Que aconteceu?
O outro fitou-o com ansiedade e apertando as mos dramaticamente:
 Oh, Artur, voc  que me pode salvar! Preciso sem falta, amanh, de dez libras. 
Seno, estou perdido. Oh! Artur...
Artur interrompeu-o, desolado. Tinha de seu catorze libras  era tudo o que 
restava de um conto de ris  devia a conta do hotel, no podia...
O outro deu uma punhada furiosa no ar:
 E a minha sorte!  rosnou com rancor.
 Voc compreende, homem...
 Basta, homem! Raio de vida!
E foi harpejar a guitarra com furor, vendo pentear a Concha.
Artur  que devia ir buscar um camarote para o Price, porque a Concha queria l 
ir, para enterrar a Mercedes com um chapu novo  saiu, muito contrariado. Aquela 
preciso do Melchior colocava-lhe a realidade diante dos olhos, brutalmente: estava a 
tinir! Da a dias, no teria sequer para uma tipia! E depois, custava-lhe negar dinheiro 
ao Melchior; era o ntimo, o confidente; era to bom para a Concha, to servial, to 
alegre...
Quando entrou, estava resolvido a pedir quinhentos mil-ris ao Carneiro; em todo 
o caso, para economizar, que diabo!... no largaria as dez libras ao Melchior. Antes de 
tudo, ele!
Pousava o chapu sobre uma cadeira, quando a Concha, direita, nobre, cruzando 
os braos, lhe perguntou com severidade o que significava aquilo de no querer tirar o 
pobre Melchior de apuros! Era necessrio ser ingrato! Que amizade! Ah, bem via agora 
que os portugueses eram uns para os outros como tigres! Ah, se fosse o conde ou o 
marqus! Outra gente!
Artur, envergonhado, balbuciou que realmente negara dinheiro ao Melchior  mas 
porque imaginava que era para jogar  e queria tirar-lhe o vcio! Falou ento de 
Melchior com exaltao: era o seu melhor amigo! Por ele daria a vida! Teve frases 
lricas, disse coisas sobre o Orestes e Plades. E a Concha, que nunca o compreendia 
quando ele falava depressa ou com estilo, voltou-lhe as costas, dizendo que, ento, 
devia portar-se como um caballero.
Artur, nessa mesma noite, deu as dez libras a Melchior, dizendo vagamente que 
recebera uns dinheiros. E ento abriu-se com ele: contou-lhe que as tias, apesar de 
ricas, comeavam a espantar-se daquelas despesas; a sua fortuna particular, dele  
porque a tivera, em bom metal  ia-se esgotando; era necessrio pensar em arranjar 
dinheiro... A nica maneira, era fazer representar o drama...
Melchior estendeu a mo aberta, como para o impedir de continuar:
 Eu me encarrego disso. Nem mais uma palavra. Isso  comigo. Onde est o 
manuscrito?
 Voc compreende, Melchior; depois, se o drama rende,  o que quiser...
 Nem mais palavra. Venha o manuscrito!
E nessa certeza, Artur escreveu uma carta ao Carneiro, dizendo que para 
negcios desejava quinhentos mil-ris.
Da a dois dias, estava ainda na cama quando Melchior rompeu pelo quarto com 
um aspecto triunfante. Tinha falado nessa manh ao empresrio! Pilhara-o de boa mar 
e prometera uma resposta dentro de quinze dias. Naturalmente a coisa ia! Hem? No 
havia outro como o Melchiorzinho!
E no seu entusiasmo, fazia ccegas nos ps da Concha, por cima da roupa. Ela 
dava gritinhos, encolhia-se contra Artur, que, radiante, lhe prometera um vestido novo 
para a primeira representao. Melchior lembrou logo que se devia dar uma ceia aos 
actores. A Concha bateu as palmas, j exaltada  ideia de se sentar, presidindo a uma 
festa, entre o Cunha gal, e a Maria Joana ingnua. Era ainda uma maneira de fazer 
ferro  outra!
Porque a luta continuava, mais spera. O que desesperava a Concha era que a 
Mercedes possua as relaes, a amizade do espanhol bonito; ele agora jantava ao p 
dela: e eram risadinhas, segredinhos, amabilidades, ao lado do calvo, exttico, que 
parecia gozar aquela animao da sua espanhola. A Concha mostrava-se indignada da-
quela intimidade; achava a Mercedes obscena: coquetear com aquele peralvilho nas 
barbas de um homem to bom, to baboso! Seno era mesmo de uma perdida! E tomava 
ao jantar atitudes de puritana severa, ofendida pelos espalhafatos de uma meretriz. Mas 
os seus olhos, por vezes, tinham clares para o espanhol. A Mercedes, muito fina, 
reparava  e logo exagerava a sua familiaridade com ele, falando-lhe muito de perto, 
pousando-lhe os dedos sobre o brao, com o olhar rendido. A Concha mexia-se na 
cadeira, toda nervosa  e o espanhol, com gravatas resplandecentes, puxava os punhos 
da camisa de chita, torcia o buozinho, recostado com languidez, sorrindo  Mercedes, 
dando  Concha olhares langorosos.
Cada dia a Concha subia para o quarto mais exaltada. Tinha agora muitos 
segredinhos com a criada; e Artur, mais de uma vez, indo ter com ela  janela, vira na 
varanda de baixo o rapazola, encostado numa atitude catita que lhe fazia sobressair 
sob o jaqueto os belos quadris de mulher, soprando o fumo do charuto e revirando para 
cima os seus grandes olhos gaditanos. Aquilo irritava-o. Sabia que era um emigrado de 
Cdis comprometido na revolta de Salvochea. Achava-o bonito e a sua presena 
inquietava-o. Mas tranquilizou-se ouvindo, uma noite, a Concha dizer com grande 
desdm a Melchior, que parecia ter pelo emigrado um rancor feroz:
 Mira! Se es un nio! Se es un pollo! Ms feo!...  E declarara mesmo com cara 
enjoada, que detestava homens com rostos de mulheres. Pouh! At o achava ridculo!
De resto Artur andava de novo tomado por ambies literrias. Uma noite de 
aplausos, e entrava na publicidade, na glria, nos folhetins! Era a desforra 
resplandecente das suas humilhaes obscuras. Relembrava certas cenas do drama, mais 
queridas, e no duvidava do triunfo. Que vida ento! Os aplausos da multido, misturar-
se-iam  doura dos beijos da Concha; porque ela am-lo-ia mais, vendo-o clebre, 
namorado por outras, considerado como glria nacional! E as felicidades seguir-se-iam 
todos os dias, a todas as horas;  noite, as palmas de uma plateia electrizada; a ceia com 
o bom Melchior, com outros amigos; depois, os delrios da Concha apaixonada; e de 
manh, na caixa do teatro, as librinhas a saltar!
No entanto a resposta do Carneiro no vinha! Artur comeou a ter repentes 
agudos de susto. Se o homem tivesse fugido, ou falido? Se se recusasse a dar-lhe 
contas? Se fosse necessrio um processo? Santo Deus! s horas em que o carteiro 
passava, tinha palpitaes ansiosas  e como no vinha carta, mal podia almoar, com a 
garganta contrada, o olhar vago, pensando que talvez fosse o seu ltimo almoo com a 
Concha. Mandara mesmo um telegrama ao Carneiro  e uma manh, mais inquieto, 
como um homem que prepara de antemo a explicao de uma desgraa provvel, 
confessou  Concha que estava  espera de uns dinheiros que no vinham! Era o diabo! 
Receava at que houvesse dificuldades com o correspondente...
Ela acolheu a notcia, com absoluta indiferena. As suas maneiras tornaram-se 
singulares: andava muito nervosa: a janela parecia ser o centro da sua existncia; 
chegava-se um momento  varanda, voltava, esfregando as mos, com a cabea baixa, 
contrariada; outras vezes, parecia debruar-se, to radiosa, to interessada, que Artur, ao 
v-la, chegava-se com curiosidade; mas no descobria nada: apenas, na varanda do 
quarto do espanhol, uma cadeira vazia com um jornal dobrado em cima. Os segredinhos 
com a criada redobravam a Concha parecia ador-la, no a podia dispensar, reclamando-
a constantemente, enchendo-a de presentes, de fitas velhas, de botinas, de camisas j 
muito usadas; e quando Artur estranhava esta intimidade, ela respondia que uma mulher 
precisava de ter uma amiga para desabafar: no tinha outra  mo; queria porventura 
que ela, uma senhora, fizesse amizade com a meretriz do primeiro andar? No  ento 
caluda!
 E de que falam vocs?
 De ti!
Mas apesar daquele amor que Artur julgava cada dia mais forte  era por vezes 
brusca com ele; repelia-lhe enfastiada os abraos: uma mulher, Dios mio, no podia 
estar sempre lambuzada pelas beijocas de um marmanjo!
s vezes,  noite, ao deitarem-se, sob o pretexto de alguma enxaqueca, no 
consentia que Artur lhe tocasse, nem com a ponta da unha  deixando a paixo do autor 
dos Esmaltes e Jias desapontada, como um co a quem se retira uma febra. Outras 
vezes, vinham-lhe ardores sbitos, a horas singulares, sem razo. Artur explicava estas 
mudanas etnograficamente, pela sensibilidade muito refinada das raas andaluzas  e 
cada dia a achava mais adorvel. Seria completamente feliz se o Carneiro respondesse!
Por fim, o respeitvel Carneiro respondeu, numa larga folha de papel pautado, em 
que explicava a demora da remessa por uma jornada que fizera  Invicta Cidade, onde 
o tinham chamado exigncias dos seus negcios, bem como levar ao Teatro de So 
Joo, a ver uma pea lrica, sua jovem Adelaide, que....
Artur, enfastiado, atirou a carta para o lado e releu com satisfao a letra de 
cmbio sobre um negociante da Baixa. No resistiu mesmo a comunicar a sua alegria  
Concha, e agitando a letra disse com um ar negligente, ricao:
 Dinheirinho fresco.
 Ah!  fez ela secamente.
Aquelas indiferenas escandalizavam Artur. No as compreendia: quando ele, por 
ternura, para lhe dar todos os privilgios de uma esposa, a queria fazer partilhar 
intimamente dos seus interesses, dos seus sentimentos, enobrecendo assim aquela 
ligao  ela retraa-se, repelia toda a comunho muito ntima, evitando entrar nos seus 
planos e nos seus segredos, dando-lhe o seu corpo, mas reservando-se a alma e a von-
tade. Parecia querer conservar-se unicamente concubina. Artur sentia alguma coisa de 
subtil errar entre eles, separ-los; as suas naturezas, como as suas epidermes, tocavam-
se sem se penetrarem e Artur, tendo uma mulher com quem comia, dormia e coabitava, 
sentia contudo, por vezes, uma dolorosa falta de simpatia, uma inactividade triste das 
suas faculdades afectivas. E para no se parecer a si mesmo inteiramente destitudo de 
afeies alheias, a sua alma refugiava-se na lembrana da tia Sabina, como um ser que 
procura um elemento prprio.
Pensava mesmo em lhe escrever, quando, um dia, recebeu dela uma longa carta. 
Que boa surpresa! A letra era quase ininteligvel, mas por todas as folhas do papel 
errava um bom calor de amizade e os ganchos dos seus FF e dos seus TT eram como 
curvas de abraos. Dizia:

Meu querido menino.

Espero que esta te encontre bom, o que todos os dias peo a Nossa Senhora de 
toda a alma e acabo de saber pelo Vasco que mandaste ir um ror de moedas, que at 
me parece pecado. Ora pois se tu soubesses o que ns aqui nos assustamos, por te 
saber to longe e talvez doente nessa terra to grande e sem os teus jantarinhos a 
horas, e aflige-nos ver que gastas tanto, o que custou a ganhar a teu padrinho, nessa 
Babilnia sem religio. Eu no tenho passado bem, o que  a velhice;  esta vida que 
no quer ir mais para diante e assim quem sabe se te tornarei a ver, e todos os dias 
peo a Nossa Senhora que te guarde, porque o mereces. Dizem-me que at os papis 
falam em ti, o que me tem assustado, ainda que o Vasco diz que os papis falam s de 
gente que  importante e do Estado. O Albuquerquezinho vai indo, graas a Deus, bem 
e j fez este ms doze pacincias sobre quinze, o que  um bom ms. Adeus, meu filho, 
que Deus esteja contigo no teu corao. A tia recomenda-se e tem estado com o seu 
defluxo. A Rua anda-te a fazer ceroulas, de uma peazinha de linho, que eu fiz de 
economias, e o bichano engasgou-se o que me deu cuidado, e o Inverno tem estado mau 
para os velhos. Se puderes voltar, vem, pois me diz o corao que Nossa Senhora me 
chama e vou encontrar a paz da alma e os outros que j l esto. O Albuquerquezinho 
recomenda-se e  sempre o mesmo santo homem. No deves abusar a das comidas, que 
me dizem ser to ms. Adeus meu filho, possas tu em todas as tuas coisas ser to feliz, 
como eu no fui, e agora vejo que a morte vem perto e com

um abrao arrochado
da tua tia que te quer

Sabina.

Artur ficou com a carta na mo, a alma longe: estava l, na casinha de Oliveira de 
Azemis, to sossegada, to doce; uma boa rstia de sol onde o bichano dormia estirava-
se pela sala de jantar, o velho relgio batia o seu tiquetaque, a tia Sabina fazia a sua 
meia; ao meio-dia na torre, todos os galos cantavam, e no silncio da vila adormecida, 
uma nora ia chiando...
A Concha f-lo levantar dos ps da cama onde ficara sentado, cismando: andava  
procura de uma liga, com os cabelos desfeitos, a cara pesada de sono; saias 
enxovalhadas arrastavam pelas cadeiras; um ar relentado amolentava; no toucador, entre 
escovas peladas, havia postios de cabelo. A Concha acordara mal-humorada, e diante 
da sua fisionomia desagradvel, Artur pensava vagamente, que para alm daquele 
quarto onde ele vivia numa concubinagem mole, havia ares lavados, campos frescos e 
existncias dignas em interiores asseados: desejou alguma coisa de mais elevado, de 
mais puro...
Melchior apareceu  porta e como a Concha se vestia, Artur foi com ele para a 
saleta, levando ainda na mo a carta da tia Sabina.
 Cartinha de casa?  perguntou o jornalista.
 Da minha tia...
 Com cheta!  e os olhos de Melchior reluziram.
Artur respondeu, corando:
 Mandou algum dinheiro.
 E card-la! E  quantia grossa?
 Sofrvel.
 E card-la! E card-la!  repetiu Melchior com entusiasmo.
 Fica por minha conta!  disse Artur afectando um cinismo catita.

Da a dias, Artur desceu  sala de jantar, a buscar charutos  uns certos 
Intimidades de Carvajal, famosos no hotel. Manuel mostrou-lhe a ltima caixa vazia:
 J v usted...
Artur parecia contrariado: ento o espanhol bonito, que a uma mesa lia o seu 
jornal tomando caf, ergueu-se muito afavelmente, e ofereceu a sua charuteira:
 Son eguales. Fume usted.
Artur agradeceu, embaraado. Mas o espanhol insistia com expanso e Artur, 
depois de aceitar um charuto, embrulhava-se numa frase espanhola, quando o emigrado, 
sorrindo, lhe disse que podia falar portugus: ele compreendia-o, at o hablava; de resto 
os dois idiomas eram to parecidos... eram como um s povo, porque espanoles y 
portugueses son hermanos!...
Artur, contente de se poder exprimir em portugus  a necessidade de falar 
espanhol torturava-o  e querendo ser amvel, perguntou-lhe se estava h muito em 
Lisboa.
Havia quatro meses. E com loquacidade familiar disse que era um republicano 
federal, que se batera nas barricadas de Cdis e estava condenado  morte.
Um destino to pattico impressionou Artur. O rapazola pareceu-lhe grande como 
Danton; e por uma necessidade sbita e instintiva de lhe canalizar as simpatias, 
declarou-se tambm republicano, falou vagamente no Clube Democrtico, disse-se 
entusiasta de Castelar. Tinha aceitado um caf e ambos  mesa, soprando o fumo dos 
charutos, penetravam-se de uma simpatia comum.
O emigrado tinha uma voz vibrante e clida. A vivacidade andaluza dava aos seus 
gestos,  expresso da sua fisionomia mbil, uma seduo singular. Parecia conhecer 
Artur de h muitos anos: fez-lhe logo confidncias polticas, deblaterou contra os 
Borbons, profetizou a repblica universal e chamou a Vtor Hugo um Deus, tratando 
Artur por hijo mio.
Artur surpreendia-se de encontrar ideias literrias e sociais, que julgava 
admirveis por condizerem com as suas, num rapazola que tinha o ar, os modos, de um 
chulo de raparigas. E falou ento com entusiasmo da Espanha, do pas de Cervantes, 
grande raa... O espanhol electrizou-se, jurou-lhe que nunca encontrara um portugus 
que estimasse tanto; e para celebrar um pacto de amizade ao antigo modo andaluz, 
mandou buscar ao quarto uma garrafa de manzanilla especial... um licor divino. 
Beberam, apertaram-se as mos. Artur achou o vinho delicioso e o espanhol cantou com 
verve a ria de Robinson:

                 Pera el Xerez...
D fuerza al hombre, fuego a la mujer...

Convidou Artur a ir a Cdis: queria-lhe mostrar os stios onde se batera e onde os 
federais tinham feito proezas. Havia de ver o seu amigo Salvochea, um heri! De resto, 
esperava a amnistia e lamentava deixar Portugal: era um pas que admirava pela sua 
liberdade de imprensa e pela beleza das portuguesas!
E a propsito, como lembrando-se de repente, perguntou-lhe quem era aquela 
rapariga com quem estava.
  a minha pequena  disse Artur, corando um pouco.
O outro bocejou, repoltreou-se na cadeira, disse negligentemente que a sua 
querida tinha ficado em Sevilha... De resto, presentemente, a poltica devia prevalecer 
sobre o sentimento: quando o povo sofre no se pode pensar em prazeres! A sua 
querida, agora, era a Ptria!
Obrigou-o a aceitar outro charuto e dizendo que ia escrever a sua correspondncia, 
saiu assobiando a Marselhesa!
Artur galgou a escada para ir contar  Concha o conhecimento que fizera, feliz em 
mostrar a simpatia que inspirara a um espanhol to bonito e to ilustre. A Concha fez-se 
escarlate, deu duas voltas pelo quarto com a cabea baixa, contemplando o bico das 
botinas, foi arrumar as escovas sobre o toucador, um pouco trmula, e por fim disse 
com uma voz ambgua  que achava cara de mau ao seu patrcio, su paisano. Mas de 
repente, acometida de uma jovialidade brusca, arrebatou Artur pela cinta e f-lo rodar 
numa valsa.
Da a pouco, o criado entrava com uma caixa de charutos Intimidades; era um 
presente do espanhol, que mandava o seu carto-de-visita:

D. MANUEL MANRIQUE ROJAS Y CUEVAS

Artur ficou muito lisonjeado e a Concha declarou, com a autoridade de uma 
mulher experiente da sociedade, que era necessrio convid-lo a jantar. Artur admirou 
um tacto to fino e  tardinha, quando a Concha, muito vestida, toda perfumada, se ia 
sentar  mesa enfastiada de esperar, Artur, que desde as quatro horas sara, apareceu 
trazendo pelo brao D. Manuel Manrique; ela fez-se muito vermelha, o seio arfou-lhe e 
baixando as plpebras, curvou-se num cumprimento digno.
O jantar foi muito alegre. D. Manuel interessou profundamente Artur. F-lo rir, 
contando episdios picarescos da sua fuga para Portugal, com quatro duros na algibeira; 
entusiasmou-o pelas viagens, descrevendo-lhe a Havana, os cafezais, as florestas 
tropicais, as danas dos negros e os profundos cus abrasados; exaltou-o pelos 
romantismos da guerra civil, explicando a defesa herica das barricadas na Caile da 
Aduana, em Cdis, e espantou-o pela grandeza dos seus planos polticos, fazendo-lhe 
antever uma grande federao das repblicas latinas, em oposio aos despotismos 
saxnicos e eslavos. E ia declamar contra o papado e contra a Igreja, num furor de 
impiedade democrtica, quando a Concha, muito devota, fez um gesto escandalizado. D. 
Manuel imediatamente se retractou, e mesmo disse:
 Pero nada se hace sin la voluntad de Dios!
Aquilo pareceu a Artur de muito bom gosto, de uma alta cortesia, e, electrizado, 
deu-lhe sem reserva a sua amizade. Falaram ento de Lisboa, de Madrid, de teatros, e 
bebiam fraternalmente  quando Melchior abriu de rompante a porta. Ao ver o espanhol 
confortavelmente instalado no seu lugar habitual, teve uma expresso to desapontada, 
que a Concha deu uma risada:
 Es Melchior, el pobre!  Mas logo apresentou-o com gravidade ao emigrado.
Melchior arrastou devagar uma cadeira, recebeu com um ar soturno um clice de 
curaau e ficou embezerrado, mudo, torcendo o bigode com os dedos trmulos, deitando 
olhares ferozes a Artur,  Concha e ao espanhol.
Enfim, no se contendo, ergueu-se, chamou Artur para o quarto de cama e 
cruzando desesperadamente os braos, numa voz estrangulada, disse:
 Ento que significa o bbedo do espanhol metido aqui de casa e pucarinho?
Artur explicou o encontro, a oferta de charutos, elogiou o espanhol: era um rapaz 
de grande talento, tinha ido  Havana...
 Ao diabo que o carregue!
 Fale baixo, homem!  fez Artur inquieto, indo fechar a porta do quarto.
 Qual baixo!  um bbedo! Olha que brincadeira! Estvamos aqui todos trs 
como Deus com os anjos... Est tudo estragado agora! Eu por mim, no torno aqui a pr 
os ps...
A clera eriava-lhe os plos do bigode. Artur tentava calm-lo: o D. Manuel 
parecia-lhe uma pessoa fina...
 Voc ver! Espere-lhe pela volta!
 Mas por qu, que diabo?
Melchior hesitou, parecia querer soltar uma revelao, mas depois de encolher 
desesperadamente os ombros:
 A culpa  do Governo! Canalhas de espanhis! Eu,  gente que odeio!...  E 
lanou-se em violentas declamaes patriticas: a Unio Ibrica era a infmia das 
infmias! Mas que se livrasse um espanhol de se lhe atravessar no caminho! Bebia-lhe o 
sangue! Positivamente, bebia-lhe o sangue!...
Uma risada muito alta, muito clida, da Concha, dentro, na saleta, interrompeu-o, 
imobilizou-o: olhou Artur dos ps  cabea com dio, com desprezo  e atirando o 
chapu para a nuca, rompeu pelo corredor, blasfemando.
Quando Artur voltou  saleta, a contar que Melchior abalara, achou a Concha 
muito animada, com uma cor radiosa nas faces: nunca a vira to bonita; tinha 
descoberto que D. Manuel era ainda seu parente e diziam-se j com familiaridade: 
Conchita, Manolo!
O emigrado tornou-se ntimo deles. A Concha no quisera voltar  mesa redonda 
 para no comer ao p da indecente do primeiro andar  e quando Manolo no vinha 
jantar com eles, aparecia  sobremesa para tomar o caf e fumar um puro. Artur cada 
dia o estimava mais: a sua alegria petulante seduzia-o; os seus servios  repblica 
inspiravam-lhe respeito; gostava das discusses polticas, com o copinho de curaau 
defronte, talhando e retalhando a Europa, segundo planos vagos de uma democracia 
universal; e tinha momentos deliciosos, ouvindo-o contar anedotas da revoluo de 68, 
cantar canonetas polticas ou fazer gemer na guitarra as seguidilhas de Andaluzia. 
Tinha toda a sorte de habilidades: fazia caricaturas com um fsforo apagado sobre um 
prato, sabia necromancia, jogava a espada  e dava mesmo lies a Artur, no seu 
prprio quarto, onde lhe fazia admirar retratos de republicanos ilustres que conhecera e 
de actrizes que tinham sido sus queridas. Com a Concha, era de uma familiaridade 
fraternal mas discreta, com tons de respeito; divertia-a muito, tirando-lhe as cartas, 
lendo-lhe a buena-dicha, com profecias complicadas, em que os destinos dela e de Artur 
apareciam sempre unidos, escorrendo de felicidades, como taas muito cheias.
Melchior, durante os primeiros dias, no voltara. Mas uma tarde, Artur entrando 
no quarto s quatro horas, achou-o instalado ao p da Concha, retorcendo com 
satisfao o bigode: tinha feito as pazes com a pequena. Mostrou-se nessa noite mais 
conciliador com o espanhol, a ponto de se declarar, ele tambm, republicano e mesmo 
aceitou com prazer um convite que o emigrado lhe fez para um jantar que dava a 
Conchita y al amigo Arturo. Foi uma festa muito alegre.  sobremesa, na excitao do 
champagne, juraram estimar-se sempre e formaram uma sociedade de pndega: Artur, 
Concha & C!
Artur perdera inteiramente o vago cime que ao princpio lhe inspirava D. 
Manolo; decerto, a Concha era muito afvel com ele, quase carinhosa, mas s via 
naquele sentimento uma amizade de compatriotas que se encontram numa terra estranha 
e a afeio de parentes remotos. Alm disso, a Concha, a ss com ele, nas conversas 
ntimas do leito, tinha-lhe confessado por vezes que gostava do Manolo, mas que 
desconfiava dele: achava-lhe cara de mau; perguntara-lhe mesmo se sabia quem era a 
querida dele. J vrias vezes, diante de Artur, ela perguntara a Manolo quien eran sus 
amores; o Manolo torcia o buo num silncio discreto e instado terminava por dizer 
com nfase  que a sua querida era a Ptria! De resto a Concha afirmava que o Manolo, 
apesar de bonito, no era um tipo para mulheres: muito efeminado, muito maricas!
Por seu lado Manolo, na intimidade, a ss com Artur, confessara-lhe, como 
forado pela verdade e lamentando a franqueza, que a Concha lhe no parecia bonita; 
no era feia, sim, mas havia dele ver as mulheres de Cdis! Havia dele ver a sua 
pequena, a que estava em Sevilha! Isso sim! A Concha...
E Artur vivia tranquilo. Deixava-os ss por vezes e quase se escandalizava do 
gesto indiferente, secado que tinha a Concha, quando s vezes, de manh, Manolo lhe 
mandava um ramo de camlias.
 Mas  muito amvel da parte dele, filha!  muito delicado! Deves gostar!
 No me gusta, no me gusta  dizia ela, voltando as costas com o ramo na mo e 
cobrindo as flores com um olhar doce como um beijo.
O que de novo preocupava seriamente Artur era o dinheiro. Desde a intimidade 
com o Mando, as despesas cresciam. O republicano tinha todos os dias uma ideia cara: 
irem a Queluz, tomarem uma quarta ordem em S. Carlos, uma ceia na Ponte de Algs, e 
com as contas do hotel, as tipias, as luvas, os charutos, tinha dias de duas, trs libras!
Mas no podia modificar a sua existncia. Era cheia de tantas douras! A Concha, 
que perdera agora todos os seus nervos, andava muito igual, muito amorosa. O 
emigrado e Melchior constituam a Artur uma pequena corte: gostava de os ver  sua 
mesa, bebendo-lhe o seu conhaque, cortejando-lhe a sua amante. Deleitava-se em lhes 
dar o espectculo dos seus amores: beijocava a Concha diante deles  o que produzia 
em Melchior a imediata necessidade de se levantar, de puxar as calas com maus 
modos, e no espanhol, a de cofiar o buo, com as suas belas pestanas descidas: at que a 
Concha, um dia, lhe declarou que era faltar-lhe ao respeito, abra-la e fazer pieguices 
diante de gente.
De resto, Manolo punha cuidados delicados em lisonjear Artur: recebera, 
comovido, a oferta dos Esmaltes e Jias, e dera-se ao trabalho de decorar algumas 
estrofes da Ode  Liberdade. Prometera-lhe traduzir todo o volume para um jornal 
republicano de Mrcia e dizia-lhe,  mesa, com arrebatamento:
 Don Arturo, es usted el primer poeta del siglo! Es usted Hugo! Es usted un 
Dante!
E assim, com um amigo que o compreendia to bem, uma amante que lhe queria 
tanto, o autor dos Esmaltes e Jias tinha dias em que andava inchado de gozo. Se no 
fosse o dinheiro! O maldito dinheiro!
A resposta do empresrio no entanto tardava e Artur instava com Melchior para 
que voltasse a falar-lhe, o apertasse. Que diabo, a coisa urgia! E havia agora na sua 
impacincia, no s a necessidade de recursos, mas o desejo de deslumbrar o espanhol 
com o espectculo de uma plateia arrebatada. Melchior, complacente, fora ao empre-
srio  que se declarara, ocupadssimo, menino, ocupadssimo e pedia mais quinze 
dias! Mas a coisa havia de ir, a coisa havia de ir!
Porm Melchior andava de novo desconfiado com o espanhol: irritava-o 
sobretudo o saber que a Concha retomara o hbito de sair de manh, duas, trs vezes por 
semana. Ora ia ver a Paa que estava muito doente, ora  modista, ora apenas dar un 
passeito. Censurou Artur por consentir naquelas passeatas.
 A rapariga no h-de estar aqui como num convento  dizia Artur.
E acrescentava, girando com fatuidade sobre os calcanhares:  Estou to certo 
dela como de mim mesmo!
Melchior deixava-lhe cair sobre as costas um olhar rancoroso, cheio de um 
desprezo imenso.
No podia, por vezes, disfarar ataques sbitos de dio pelo emigrado. De 
repente, sem razo, embezerrava. A Concha percebia, vinha gracejar com ele, 
perguntar-lhe o que tinha su abuelito, se estava zangado com su nietita, retorcia-lhe o 
bigode, sentava-se-lhe mesmo nos joelhos, rindo, pulando, enquanto Manolo, muito 
srio, harpejava os bordes da guitarra ou jogava com Artur o cart a dois tostes. 
Melchior, ordinariamente, acalmava-se, mas, s com Artur, desabafava: no podia 
tragar o Manolo! No podia! Um dia quebrava a cara ao Manolo...
 Mas por qu, Melchior?
Melchior calava-se e da a pouco rosnava:
 O Governo  que tem a culpa; consentir nesta scia de foragidos!
Artur espantava-se de um patriotismo to fantico, to intolerante. Era necessrio 
tambm no ser caturra, que diabo! Os Espanhis eram uma raa nobre...
 Uma corja!  rugia Melchior.
E dando grandes passadas pelo quarto, sondava com mos nervosas as algibeiras, 
como para procurar uma arma:
 Um dia rasgo as entranhas a um castelhano!
E uma ocasio, no se contendo, disse a Artur numa exploso:
 Pois voc no v como ela faz olho ao Manolo?
Artur riu. Ora, histrias! Mas aquela palavra, com a lentido de um veneno 
absorvido, comeou a espalhar-lhe no sangue um cime crescente. Observou-os aos 
dois. Porm, via-os to naturais, to francos, to camaradas, to inocentes!... Pensou que 
disfaravam e suspeitou das sadas da Concha. Um dia que a ouvira dizer que ia a 
casa da Paca, seguiu-a de longe, cosido com as fachadas. Que alvio quando a viu 
entrar, com efeito, no portal da Paca! Jurou a si mesmo, num relance de 
reconhecimento, am-la mais para a compensar da injusta suspeita com que a ofendera. 
Mas depois reflectiu que no prdio da Paca havia mais andares, ou ainda que a Concha 
poderia ter sado por uma porta traseira. Vaidoso, irritou-se de ter sido simplrio e 
quase desejou que ela fosse culpada. Assim, certa manh que a sabia l, seguiu-a e foi 
tocar  campainha. Perguntou pela seorita Concha: esperou dez minutos e viu-a 
aparecer de chapu, as faces em brasa, os olhos brilhantes.
Que era? Por que tinha vindo?
Ele riu: passara por ali, lembrara-se de a vir buscar. Mas em casa, de repente, 
perguntou-lhe quase com severidade, por que lhe aparecera ela to vermelha? Em lugar 
de se escandalizar com aquela pergunta repassada de desconfiana, contou-lhe que 
assistira a uma cena! Ah! A Paca que se julgava perdida, a chorar. O querido a chorar! 
O pequeno a chorar! Um horror!
Mas Artur no estava tranquilo. Tinha a sensao vaga de que ela se lhe ia 
escapando. Sentia-a menos sua. E aquela incerteza exaltava o seu amor. Tinha um 
desejo pungente de lhe saber os pensamentos. Desconfiava de tudo, do Manuel, da 
criada sobretudo  e sentia uma contrariedade amarga quando via entrar o Manolo. Os 
seres eram menos alegres; havia silncios embaraados, e o emigrado, para os 
preencher, tinha de esgotar o seu repertrio de malagueas, que a Concha escutava 
sorumbtica, com os braos cruzados, erguendo s vezes para ele ou para Artur o seu 
olhar muito brilhante.
Uma manh, ouvindo-lhe dizer que ia  Paca, Artur declarou que estava 
incomodado, que no saa, que desejava que ela lhe fizesse companhia. Ela atirou logo 
para uma cadeira o vestido que ia pr e veio interrog-lo muito ternamente: o que lhe 
doa? queria deitar-se?
 Estou esquisito, passa logo  respondeu Artur, muito satisfeito da prontido com 
que ela desistira do passeio e vendo na sua solicitude a persistncia do seu amor.
Estava-se ento prximo do Entrudo. Nessa semana, por duas ou trs vezes j, 
Artur impedira-a habilmente de sair; ela no parecera contrariada, somente tinha 
tristezas, monices, dizia-se nervosa, queixava-se de enxaquecas. Na sexta-feira  
antes do Domingo Gordo  Artur, voltando s duas horas da redaco do Sculo, 
encontrou-a de chapu, pondo o vu ao espelho. Ia  Paca.
 Ora, deixa l a Paca!
 Mas preciso tambm de ir  modista...
 Ora, deixa-te de modistas!
Esperava uma cena e ficou admirado, vendo-a tirar sem uma palavra o chapu, 
o vu, o vestido, agarrar num leno que andava a embainhar havia ms e meio, e ir 
sentar-se, com um suspiro,  janela. Artur, despeitado daquela resignao muda, agarrou 
num livro, estendeu-se em cima da cama. E o silncio que se cavou entre eles pareceu-
lhe triste e escuro como uma separao.
Manolo devia vir jantar nessa noite, mas s trs horas o Manuel veio dizer que o 
Sr. Manrique pedia desculpa, mas que, tendo-lhe chegado um parente de Badajoz, s 
poderia aparecer  sobremesa.
A Concha no se moveu, cosendo devagar, lugubremente, e no silncio do quarto 
s se ouvia, subtilmente, voltarem-se as folhas do livro.
O jantar foi triste. A Concha, com duas rosetas vermelhas no rosto, no comia; 
Artur, a quem aquele silncio infeliz, aquele fastio desconsolado, exaltavam o cime, 
petrificava-se com desespero na sua mudez, o crebro cheio de frases, de recriminaes, 
de palavras comovidas, que a sua lngua, de um peso de chumbo, se recusava a 
pronunciar. A sobremesa passou, e Manolo no veio.
Em lugar dele foi Melchior quem apareceu ao caf, e, com um rosto satisfeito, 
disse logo abruptamente que ao entrar na sala de jantar, vira o Manolo com a Mercedes, 
unha e carne com ela, muito chegadinhos  e o pobre calvo a babar-se ao lado, o asno!
A Concha fez-se plida, depois escarlate. E subitamente, tornou-se muito amvel 
com o Melchior: f-lo sentar ao p dela, muito juntinhos, queimou-lhe ela mesmo o 
caf, desmanchou-lhe o cabelo, ocupando-se dele, palrando alto, sem um olhar, uma 
palavra para Artur.
 Vocs esto amuados?  perguntou Melchior com o rosto tmido de prazer.
Artur teve um sorriso amargo:
 Tem estado com os nervos, a menina.
Mas a Concha ergueu-se bruscamente, entrou no quarto fechando a porta sobre si 
e sentiram-na no corredor gritar pela criada.
 Que diabo tem ela?  perguntou Melchior, sorvendo placidamente o seu caf.
Artur teve uma tentao de desabafar, contar as suas suspeitas; mas, vaidoso, no 
querendo dar a Melchior o gostinho de ver justificadas as suas desconfianas  
encolheu os ombros, disse:
 Eu sei l! Mulheres!
Melchior deu-lhe de lado um olhar apiedado e desdenhoso e pareceu sorver com 
delcia a ltima gota da xcara.
Mas a Concha voltara, com os olhos muito brilhantes, um pouco vermelha, toda 
coberta de p-de-arroz. Trazia uma excitao artificial, histrica: declarou que se achava 
disposta a tudo! Quis tocar o fado  mas atirou com tdio a guitarra; deu um pulo para 
os joelhos de Melchior, ergueu-se, valsou s pela saleta e foi necessrio que lhe 
arrancassem a garrafa de conhaque, porque a queria beber de um trago. Continuava a 
no falar a Artur, nem o olhava; perguntou mesmo a Melchior se queria ir s com ela 
dar um passeio a Belm  mas s com ela, los dos, como dos novios!
E Melchior ria, todo banhado de gozo.
 V  disse com bonomia  v, faa as pazes com o seu marido!
Ela encolheu os ombros com um desprezo soberano e estendeu os braos a 
Melchior para uma valsa. E trauteando, volteavam pela sala, pulando, tropeando nas 
cadeiras, abalando o soalho com risadas sonoras, num grande arranque de troa; 
desapareceram mesmo um momento no quarto s escuras  e Artur, furioso, ouvia a 
Concha rir, com risinhos clidos de ccegas. No se erguera da mesa, fumando, num 
desespero lgubre, com lgrimas na garganta.
Quando ela voltou  sala, compondo o cabelo, seguida de Melchior que torcia o 
bigode, o Manuel levantava a mesa.
 Va decir al Snr. Manrique, abalo, que le esperamos  disse ela.  Listo!
O Manuel voltou da a momentos:
 Diz que no pode vir. Estava no quarto da Mercedes, em grande pndega...
Toda a animao da Concha murchou, como depois de uma rajada uma bandeira 
caindo ao comprido do mastro. Deu duas voltas pela saleta e foi para o quarto, s 
escuras. Foram encontr-la, da a pouco, enroscada em cima da cama, dobrada sobre si 
mesma, numa imobilidade hostil. Respondeu bruscamente que tinha dores de cabea, 
febre. Para a distrair, Melchior quis tocar um fado: ela gritou-lhe que se calasse! E como 
Artur, julgando-a doente, a interrogava com um carinho que implorava reconciliao, 
ela enfureceu-se: nem podia uma pobre de Cristo estar doente sem ser martirizada! Irra! 
E como Artur insistia, e o Melchior se agitava em redor do leito, pulou para o cho, e 
com uma fora nervosa extraordinria, empurrou-os para a saleta, furiosa, s punhadas, 
batendo-lhes com a porta nas costas.
 E deix-la!  deix-la!  disse Artur  est doida!
Fizera-se plido, receando um escndalo.
 Mas que diabo tem ela?  perguntou Melchior, que de mos nos bolsos, 
passeava cabisbaixo, com o rosto carregado.
Ouviram ento a Concha berrar de novo no corredor pela criada e apenas a moa 
subiu, fechar-se no quarto com ela, dando  chave uma volta colrica.
 Que pouca-vergonha!  fez Melchior.  Aqui h marocas.  Estava de p diante 
de Artur, fuzilavam-lhe os olhos.
Artur no respondera. Erguera-se e passeava melancolicamente, acendendo 
cigarros que logo arremessava, indo encostar-se  vidraa, a olhar a noite escura, 
sentindo vagamente, no fundo de toda aquela clera, o Mando. Decerto, impedindo-a de 
sair, contrariara um rendez-vous: o Manolo despeitado, para lhe fazer ferro, decidira-se 
a passar a soire com a Mercedes, de patuscada, e, ciumenta, a Concha delirava! E o 
que era! Mas ento recordava todas aquelas semanas de amor, o fogo dos seus beijos, os 
seus juramentos balbuciados na voluptuosidade e mesmo a indiferena que ela mostrara 
outras vezes, quando, habilmente, ele lhe transtornara outros rendez-vous. E podia 
duvidar do seu amor? A sua vaidade acumulava-lhe provas, como um pedreiro diligente 
que acarreta pedras para um muro  e a certeza do amor dela ia-se erguendo, indes-
trutvel, slida, macia. Preferia atribuir aquela cena aos nervos, ao tempo, aos 
humores. De vez em quando, ia escutar  porta do quarto: sentia as vozes das duas 
mulheres cochichar; por fim decidiu-se a bater devagarinho...
A Concha gritou que no abria.
 Oh, que desavergonhada!  fez Melchior.
E ento, censurou verbosamente a debilidade de Artur. Se fosse com ele! Oh, se 
fosse com ele! Tinha-lhe quebrado j uma bengala nas costas! E exps a teoria que as 
espanholas s  pancada. De resto gostavam de levar! At se apaixonavam! Citou 
exemplos, anedotas. Um amigo dele, desde que dera uma coa na Lola, trazia-a como 
um cordeiro e babada por ele.
 Raparigas desta vida,   bordoada! Eu  que sei lidar com elas  acrescentou, 
furioso.
 Chame-a voc, fale-lhe voc!  disse Artur, muito desconsolado.
Melchior reflectiu, torceu o bigode, aprumou a estatura e com um olhar a Artur, 
que significava: voc ver!  foi colar a boca  fechadura e pondo muita seduo na 
voz:
 Abre l,  Conchinha!
A espanhola atirou-lhe de dentro uma injria medonha!
Melchior recuou, lvido:
 Se fosse coisa minha, bebia-lhe o sangue!
E ento, furioso, excitou Artur: era uma cobardia deixar-se tratar assim por uma 
bbeda! Ele pagava-a, no era verdade? Pois ento, era no lhe aturar caprichos! Olha 
que espiga!
 Voc  um maricas, voc no tem sangue nas veias! Arrombe a porta!
Artur, envergonhado da sua fraqueza, ergueu-se e disse com deciso:
 Eu, o que tenho medo  do escndalo, seno...
 Qual escndalo! Voc est no seu quarto. Quem paga  voc! Ela se se faz fina, 
que v para o olho da rua!
E Artur, j irritado, excitado pelo Melchior, bateu  porta com fora, ordenou:
 Abre a porta, Concha!
 No quiero! No quiero! No quiero!  berrou de dentro a Concha.
 Arrombe!  exclamou Melchior com os olhos injectados.
Artur, furioso, atirou um pontap  porta que fez tremer a fechadura. E de sbito a 
porta abriu-se, a Concha apareceu, em camisa, e, bruscamente, atirou-lhe uma bofetada 
que o fez cambalear.
Melchior precipitara-se, mas a porta fora rapidamente fechada. Dentro, a Concha 
gritava; frascos partiam-se contra o cho, cadeiras arremessadas batiam contra as 
paredes e a voz aflita da criada dizia, quase chorosa:
 Ento, hija! Ento, hija! Por Dios!...
Artur, com a cara marcada, os olhos vermelhos como brasas, ficara no meio da 
sala, petrificado. E Melchior, com medo da polcia, de escndalos, daqui-d'el-reis  
janela, calmara subitamente, muito plido. Disse mesmo, agarrando o chapu:
 Meu rico, eu safo-me, que no estou para me meter em alhadas!
Mas, a instncias de Artur, ficou. E ambos sentados  mesa, com a garrafa de 
conhaque no meio, fizeram at alta noite grogues frios, fumando, cabisbaixos.
 Raio de mulheres!  dizia Melchior de vez em quando.
 Um desgosto assim!  murmurava Artur.
E recaam num silncio triste.
No entanto, a criada  que trs ou quatro vezes, pela porta do corredor, fora 
abaixo e voltara, parecendo levar e trazer recados  veio,, quase de madrugada dizer-
lhes, p ante p, que a pobrecita tinha adormecido.
Como era tarde, Melchior ficou no hotel, e Artur, trmulo, comovido, entrou no 
quarto. A Concha, encolhida na roupa, ressonava devagarinho. Artur despiu-se sem 
rudo, escorregou entre os lenis, pondo-lhe um beijo cauteloso no brao nu.
Acordou da a pouco  j o dia entrava pelas frinchas da janela  ouvindo um 
rumor no quarto: a Concha, a p, abria a porta da saleta.
 Que ?  disse ele, estremunhado.
 Vou buscar gua, que estou a arder.
Artur, prostrado das emoes, dos cansaos da noite, acomodou-se na roupa e 
adormeceu profundamente.
Quando acordou  deviam ser dez horas  estava s na cama. Pulou para o cho, 
abriu a janela ao sol magnfico de um dia adorvel. A porta da saleta estava aberta. Viu 
logo o chambre dela cado no soalho, as chinelas, uma caixa de chapus aberta! Que 
era? Onde fora?
Ao puxo da campainha, a criada veio correndo e imediatamente comeou, com 
grandes gestos, a dizer que no sabia nada, que no tinha visto a senhora, que no se 
queria meter em questes!
Artur, aterrado, passou um jaqueto, correu ao quarto do Melchior. Ao ouvir, 
estremunhado, que a Concha sara, sentou-se de um pulo na cama:
 Chame o Manuel!
O criado veio, fumando o seu cigarro, com a cabea baixa, o olhinho malicioso, 
coando os cabelos por trs da orelha.
 Onde est a senhora?  gritou Melchior.
O Manuel olhou para um, depois para o outro, e com as mos na cinta, a barriga 
para diante, o cigarro na boca, o olho meio fechado ao fumo:
 Ento ustedes no sabem?
 O qu, homem?
O Manuel tirou o cigarro e torceu-se devagar numa risada interior, muda.
 Acaba, carrasco!  berrou Melchior, com uma punhada no enxergo.
 Pirou-se!  fez o outro, com uma voz muito aguda de gozo.
 Com o Mando?  exclamou Melchior, sufocado, de joelhos na cama, os olhos 
esgazeados.
 Pois j usted v  disse o criado, como achando perfeitamente lgico.
Melchior voltou-se para Artur que se fizera muito branco e com uma expresso de 
desprezo, de furor, atirando-lhe as palavras como escarros:
 Sua besta! Sua besta!
 Mas ento  balbuciou Artur  mas ento...
O Manuel chegou-se para a cama e com sua voz arrastada:
 Pois o Manolo e a Conchita estavam juntos h muito. Desde que ele comeou a 
vir aos jantarinhos c de riba! Viam-se em casa da Paca! Depois usted pe-se a fazer 
dificuldades. Eh! J usted v! O Manolo pelo beio, a pequena com a paixo... J usted 
v!
Artur, vergado pelas pernas, deixara-se cair numa cadeira,  cabeceira da cama. 
Adorava-a agora, aquela mulher!
A voz arrastada do criado disse ainda:
 O Manolo j mandou buscar os bas! Pois era de ver! Usted pe-se a fazer 
dificuldades... J usted v!
Artur, tomado de um fluxo de saudade, escondeu a cabea entre os braos, sobre o 
travesseiro do leito...
 Palerma!  rosnou-lhe Melchior, apoplctico de raiva.
 Coma-lhe e beba-lhe!  disse filosoficamente o Manuel.  Atire-lhe usted bons 
bifes para dentro! J usted v! Mulheres! Coma-lhe e beba-lhe usted!



IX

Para se consolarem, nessa noite, foram jantar ao Hotel Central: estavam 
taciturnos. Artur mal comia e pareceu-lhe mesmo um espectculo grosseiro e indigno da 
sua melancolia, o deleite muito expansivo com que Melchior devorou, repetiu o Jambon 
d'York aux pinards. E todavia Melchior estivera lgubre toda a tarde na redaco, 
soltando de vez em quando suspiros estrondosos que divertiam o Esteves, e no pudera 
produzir uma s local, apesar de esforos de parturiente: de facto, o Jambon d'York era 
a sua primeira consolao nesse dia. E limpando os beios, murmurou ao ouvido de 
Artur:
 Parece-me que merecemos uma garrafinha de Borgonha.
Artur consentiu com um gesto indiferente. Parecia-lhe que uma nvoa 
impondervel, parda e funerria cobria as coisas e as fisionomias, e numa grande 
lassido do crebro, via constantemente diante de si formas fragmentadas da Concha ou 
objectos pertencente  Concha ou stios e situaes, que atravessara com ela. Era um 
trabalho de reminiscncia saudosa, em que procurava reviver as alegrias que perdera; 
tinha nos membros molezas de noites mal dormidas e na alma uma sensao de vexame; 
vinham-lhe de repente, como fascas, dios sanguinrios ao Manolo.
Os seus vagos suspiros reprimidos tinham j feito voltar a cabea a um alemo, de 
pince-nez e barbas doutorais, que, ao seu lado, descascava uma banana com mtodo.
Como a noite estava de luar, saram depois do caf: seguiram, sem destino, ao 
longo do Aterro.
 E amanh  Domingo Gordo!...  rosnou Melchior com um furor sombrio.
 Domingo Gordo...  murmurou Artur com tristeza.
Outros Entrudos antigos, em Coimbra, passaram-lhe na memria, to alegres, com 
as tardes da Sofia, cheias de batinas de onde saem de repente os esguichos de uma 
grande seringa de lato! E os guinchos divertidos, as lutas de ovos, as quadrilhas  noite 
no Teatro D. Lus, e os grogues, as felicidades!... Esperava tanto divertir-se, aquele 
Entrudo, com a Concha!
 Uma partida assim!  murmurou.
Imediatamente Melchior enfureceu-se. E de quem era a culpa? Para que tinha 
metido o espanhol de portas adentro?
 Quem podia adivinhar!
 Quem podia adivinhar?  exclamou Melchior com tanta ira que Artur recuou, 
temendo uma violncia:  Bastava ter olhos! Para que estava o desavergonhado do 
andaluz sempre metido no quarto? Mas voc, com a sua boa-f de Oliveira de 
Azemis!... E necessrio conhecer Lisboa! E necessrio ter olho!  E repuxando com 
um dedo a pele da face, esgazeava a rbita, junto  cara de Artur, de um modo 
medonho.
Rompeu ento em improprios contra a Concha. Era uma bbeda! Tinha os vcios 
mais nojentos. Cada palavra que dizia era uma mentira vil. Pregava daqueles calotes a 
toda a gente. Era baixa de natureza. Fazia-se passar pela filha de um negociante... No 
estava mau, o negociante! O pai era um trapeiro de Madrid, e ela fora, desde os doze 
anos, das que andam pela Puerta del Sol a chamar os soldados para o vo das portas! E 
tinha dado uma doena asquerosa ao conde de Vila Rica, pobre velho!
Artur revoltou-se. Era mentira!
Melchior escandalizou-se: fez revelaes, citou nomes, datas, stios; e como um 
homem que v sobrenadar sujidades nas guas de um enxurro, Artur viu passar na 
verbosidade do localista todas as infmias da Concha. Parecia-lhe incrvel!
 Porque me no disse voc?
 Eu no sou acusa-cristos...
E ento injuriou o Manolo: se o tivesse ali, fazia-o em pedacinhos! E como o 
Borgonha lhe exaltara a loquacidade, atirando o chapu para a nuca, estendeu o seu dio 
pelo espanhol a toda a Espanha; cobriu de vituprios essa nao ilustre  que era um 
covil de pulhas! Bastava s olhar-lhes para as finanas, os caloteiros! E a 
administrao? Uma ladroeira! E o exrcito? Uma cobardia indecente! E ainda se falava 
em Unio Ibrica! Que viessem para ele!
Calou-se um momento e brandindo a bengala para o cu:
 Ah! se eu torno a acreditar em mulheres! Artur ficou petrificado. Que lhe tinha 
ela prometido ou jurado, ento? E viu de repente na clera do Melchior, no o interesse 
do amigo, mas o despeito do amante. O qu, tambm ele! Aquela suspeita foi-lhe 
dolorosa. E andando em silncio, olhava pelo canto do olho o perfil espesso, a figura 
grossa, o andar pesado. Ela dera-se a um grotesco daqueles? Era de mais! Ao menos a 
paixo pelo Manolo tinha sua justificao: era bonito, era valente, era romanesco, era 
divertido! Mas este, o Melchior, pelintra, caloteiro, cobarde, debochado, imbecil, 
bbedo? Pouh! Todos os defeitos de Melchior lhe apareciam agora, disformes, 
monstruosos. Envergonhou-se da sua amizade, como corara do seu amor! Que 
amante!... E que amigo! Veio-lhe como um desejo infinito de outro meio, mais limpo, 
mais elevado, mais digno. E  esquina da Calada do Alecrim, despediu-se do jornalista 
secamente.
Ia decidido a esquecer a Concha. Pisando com um p nervoso a Rua do Arsenal, 
construa j o plano de uma nova existncia: arrancaria do seu crebro, como se tira da 
pele uma pstula, a lembrana daquela prostituta de instintos vis, infectada de vrus  
que lhe preferira o Melchior, a porca! Recomearia a trabalhar: afinal, o seu destino era 
fazer obras de arte e no viver agachado nas saias enxovalhadas de uma muchacha de 
bordel! Depois dos Amores de Poeta, escreveria outro drama, comdias em verso! 
Foraria a celebridade como quem viola uma mulher! E seria um grande homem, 
enquanto ela, abandonada pelo emigrado, roda de doenas, erraria esfomeada pelo lodo 
do beco do Monete! E ele, teria outros amores, dignos do seu alto corao e da sua 
posio nas Letras! Renovaria as relaes com a baronesa, que desleixara  idiota!  por 
aquela meretriz barata. Oh!
Quando entrou no quarto, todo o seu futuro lhe aparecia to reluzente de 
felicidades, que j considerava providencial que o estafermo se tivesse pirado!
 Ainda bem! Respiro! Ouf!
Mas o aspecto do robe-de-chambre dela, a sua camisinha de dormir dobrada aos 
ps da cama, todo aquele cheiro de mulher de que o ar estava impregnado, deram-lhe 
uma comoo to brusca que os seus nervos se distenderam: uma saudade infinita 
amoleceu-lhe a alma e atirando-se de bruos sobre a cama, rompeu a chorar!
Ah, mas no havia de ficar assim, sem uma vingana! Pensou em lhe escrever 
uma carta cheia de todas as infmias que Melchior lhe revelara, ameaando-a de lhe 
escarrar na cara, se ela ousasse, encontrando-o, erguer os olhos para ele. Mas para onde 
dirigiria a carta? Estaria ainda em Lisboa? Imaginou afligi-la de cimes, tomando outra 
espanhola  a Angelita, que ela odiava  e enchendo-a de vestidos e jias... Mas o 
dinheiro? Em cinco semanas tinha gasto quinhentos mil-ris! E com quem! Com aquela 
criatura vil.  E este desperdcio aumentou o seu dio. Acabrunhou-a de injrias; rasgou 
em pedaos a sua fotografia; decidiu no lhe enviar os bas  ou remet-los, tendo 
inutilizado  tesourada os vestidos e esmagado a martelo as jias que ela lhe extorquira 
 porque lhas extorquira, a ladra!
Quis adormecer, mas no podia. A ideia de que ela, quela hora, delirava doida 
nos braos do Manolo, de que nos intervalos da lubricidade, com os corpos lassos, 
muito unidos, caoavam dele, riam, chamavam-lhe o asno do portugus, dava-lhe um 
dio, cortado de um pungente cime carnal, que o fazia torcer-se sobre o enxergo, 
atirando punhadas ao travesseiro. Como Melchior, sentiu dio  Espanha. Oh, se 
houvesse uma guerra! Com que jbilo de vingana iria pelo Pas, lanando 
proclamaes, armando aldeias, arremessando contra a fronteira massas esmagadoras de 
patriotas! E decidiu-se a escrever folhetins sobre a Espanha, pondo-a mais rasa que a 
lama!
Foi sob estas impresses que toda a noite sonhou com invases e batalhas: via-se 
 frente de Portugal armado em massa, passando o Caia, invadindo a Espanha,  tila, e 
vindo, com a fria irreprimvel de um elemento, abater-se sobre Madrid aterrada; a, 
sentia-se semideus, era Aquiles: estava nu, tinha um elmo pelgico e arrastava trs 
vezes em torno das muralhas, que lhe pareciam as de Tria, entre um pranto de vivas 
subindo para a mudez do cu, o corpo branco e exangue do Manolo. Depois, era em 
Lisboa, na celebrao da vitria: a, era o Cid: tinha uma armadura refulgente de 
emblemas; estava num palanque coberto de panos leves de seda, ao lado do Rei, de D. 
Lus de Bragana, que trazia sobre a cabea, enterrada at aos olhos, uma enorme coroa 
de imperador da pennsula. Amarrada a um pelourinho, nua, torcia-se a Concha, a quem 
verdugos experientes, com msculos de atletas, iam arrancando a pele a chibatadas; 
defronte, a perder de vista, estendia-se uma negrura de formas humanas: eram as raas 
de Espanha, cativas, com os pulsos arroxeados e cangas nos pescoos, que sargentos de 
caadores, torcendo o buo e meneando a chibata, iam levando para os descampados 
onde deviam, plebe vil, estrumar os campos de trigo e enxofrar as vinhas.
Quando acordou ao rudo da porta que se abria, a voz do Manuel chamou-o  
realidade:
  a Conchita que quer os bas. Est l em baixo o galego...
 No vai nada! No sai nada!  exclamou Artur com uma violncia que ainda 
participava do seu sonho de invaso.
Aconchegou-se nos lenis, quis readormecer. No pde: faltava-lhe aquele corpo 
lindo to conhecido, que ele enlaava logo ao acordar, ainda lnguido de sono. Saltou 
da cama e comeava a vestir-se, quando o Manuel, entreabrindo a porta subtilmente, 
adiantou o rosto banhado de satisfao:
O Manolo manda dizer que se os bas no vo, manda c um polcia ou vem ele 
com um chicote...
Artur voltou-se como uma fera, mas o Manuel acudiu:
 Usted fica mal! Usted d as roupinhas! Olhe que usted tem transtorno!
A sua voz era to antiptica, que para o no ver, por lassido, por nojo, para 
acabar por uma vez com a Concha, com o Manolo, e vagamente assustado de um 
escndalo, gritou furioso:
 Leve tudo! Leve com os diabos! Deixe-me!
 Usted est com o ferrito!  disse muito jovialmente o Manuel.
O homem era-lhe to odioso, que resolveu sair do hotel. E como se sentia vexado 
diante da Mercedes, da criada, dos dois espanhis tenebrosos, foi nessa manh almoar 
 urea. S quando viu nas ruas as lojas fechadas, se lembrou de que era Domingo 
Gordo. Como o passaria?
Demorou o almoo, leu todos os jornais, a Ilustrao Francesa, e s duas horas, 
tomava o seu caf, quando, na mesa ao p, se veio sentar o calvo, o Videirinha, a quem 
o criado, decerto habituado, serviu logo um conhaque com sifo.
O Videirinha cumprimentou Artur com afabilidade e decerto para entabular 
cavaco, disse com bonomia:
 Domingozinho Gordo!
 E verdade, Domingo Gordo...  respondeu Artur.
Videirinha imediatamente se veio sentar ao p dele e com uma voz de psame, 
baixo:
 L soube o desgosto! Sinto muito! A minha Mercedinha tambm sentiu muito.
Artur, furioso com a compaixo do Videirinha, respondeu impaciente:
 Que tolice! Desgosto? Ora essa! Alvio! Eu. estava farto dela!
Videirinha, no acreditando, bebeu discretamente um gole de conhaque. E 
fazendo estalar a lngua, erguendo muito as sobrancelhas:
 So grandes golpes! So grandes golpes! A Mercedinha at tem estado doente...
Artur, que recordava o entusiasmo da Mercedes por Manolo, teve uma piedade 
desdenhosa pela imbecilidade do calvo e disse com um sorriso:
 Parece boa rapariga.
Videirinha esteve um momento calado, o olhar afogado num xtase imbecil, e 
com uma voz muito doce:
 No h melhor, no h melhor!
 E  bonita  disse Artur, que o gozava, achando-o um tipo.
O Videirinha teve um vago encolher de ombros muito lnguido, como se 
exprimisse um: nem falemos nisso!
Olhou um momento Artur  e puxando de uma carteira de marroquim, tirou, ps 
sobre a mesa, uni pequeno nastro enxovalhado de cinco ou seis polegadas, que parecia 
uma medida. Esticou-o com os dedos sobre a mesa, delicadamente, olhou-o com uma 
concupiscncia beata e disse ternamente:
 O pezinho! A medida do pezinho!
 Muito pequenino disse polidamente Artur.
 No h melhor!  Contemplou-o novamente:  Quando no estou com ela, 
ponho diante de mim a medida do pezinho e estou horas a olh-lo, a regalar-me por 
dentro.  Suspirou:  No h melhor!
Guardou com devoo o nastro e inclinando-se para Artur:
 Eu ponho em si esta confiana porque sei que  c da confraria  amante das 
belas espanholas!
Esteve um momento a olhar vagamente para o ar, com paixo, e recostando-se, de 
plpebras cerradas:
 Tem-me dado muita consolao!  E confiou ento a Artur que lhe andava a 
ensinar francs:  Agora vou dar-lhe a liozinha, anda no verbo rendre. Tem uma 
memria! Depois, ela l o jornal, gosta muito de ler o jornal e eu coo-lhe a cabecinha! 
Depois, se h alguma coisa a coser, na mquina de costura... Eu coso muito bem  
mquina, at ela me diz: oh! pupu... Chama-me pupu, tem gracinha, no? Diz-me ela: 
oh pupu... Que ia eu a dizer? Esta cabea! Ah! Diz-me ela: oh! pupu, at d gosto ver-te 
costurar... Coitadinha, faz-me muita justia... Depois fazemos uma sonecazinha...  
Revirou os olhos e com uma voz grave, tocando no joelho de Artur:  Meu caro senhor, 
digo-lhe isto porque sei que aprecia as belas espanholas  so grandes gozos!
E como eram trs horas, para a no fazer esperar, pagou o conhaque, ps com 
cuidado o seu chapu branco, ergueu-se, repuxou as calas para a barriguinha saliente e 
vindo debruar-se sobre a mesa, quase ao ouvido de Artur:
 Vamos hoje ao Casino, mascarados. A minha Mercedinha vai muito bem, vai de 
pajem. Eu tambm vou bem... vou de hngaro. Chuta! Guarde o segredo, hem?
E abalou com o seu passinho mido.
Artur espreguiou-se, folheou ainda a Ilustrao e pensando:  pobre idiota!  
saiu, foi andando at  Rua Nova do Carmo. A rua estava cheia de gente que se movia 
devagar, numa madracice de pasmaceira; pelas janelas, algumas com as vidraas tiradas, 
senhoras apareciam, fugiam,, figuras debruavam-se com um ar excitado. Carluchos de 
farinha estalavam com uma poeirada branca, revoadas de feijes estralejavam sobre os 
chapus; sujeitos enfarinhados tinham gestos furiosos; outros seguiam com um desdm 
secado; aqui, alm, mscaras maltrapilhas passavam com pressa, como indo tratar de 
um negcio, ou exibindo-se com esgares lunticos, fazendo destoar subitamente 
guinchos idiotas; patrulhas rondavam com um ar enfastiado e uma atmosfera baixa, 
parda, pesava lugubremente, penetrando os corpos, dando s expresses um tdio mole.
Artur, receando uma cartolada no chapu, um esguicho na cara  insultos muito 
irritantes para quem traz a alma magoada  retrocedeu rapidamente at ao hotel. Mas, ao 
passar no corredor sombrio, um vulto destacou-se do vo de uma porta e esmagou-lhe 
placidamente um ovo de cheiro no pescoo; deu um grito  frialdade do lquido e 
voltando-se, furioso, viu a face do Videirinha banhada de jbilo.
 Foi a Mercedinha que mandou! Foi ela que mandou! Diz que  para o distrair. 
Tem gracinha, no? Tem-me enfarinhado todo, a Mercedinha...
 E divertir-se,  divertir-se  disse Artur subindo a correr para o quarto.
Sentou-se com um livro  janela e, ora lendo, ora olhando a rua, viu cair o 
crepsculo  menos triste que o seu corao. Na sombra do quarto a coberta branca do 
leito alvejava vagamente: ele via-a ali, como tantas vezes a vira, dormindo, as longas 
pestanas descidas sobre a face plida, um dentinho luzindo entre os lbios docemente 
entreabertos e os dois globos brancos dos seios aparecendo entre as rendas da 
camisinha. E aquela viso era to ntida, que, com um longo soluo de saudade, ergueu-
se, arremessou-se sobre o leito, abraando ao acaso a coberta.
Foi jantar nessa noite a um restaurante da Baixa. E cheio de dio contra o rudo 
dos trens rolando para os teatros, contra os grupos festivos exaltados de vinho, contra os 
pares de mscaras de luvas brancas  veio encerrar-se de novo no quarto. Desejaria um 
claustro de convento, um rochedo em que batesse o luar, junto ao mar gemente, um stio 
distante, que fosse, pela tristeza, como a decorao condigna da sua alma triste.
Ento fez versos; e com a imaginao afinada pela saudade, produziu com 
facilidade, escrevendo at tarde, enquanto gritos de bbedos se repercutiam pelas ruas e 
perpetuamente rolavam as tipias, de teatro para teatro.
Terminou, alta noite, uma ltima estrofe  em que dizia que a sua vida, penetrada 
at s profundidades pelo amor da Concha, no teria outros amores, seno como tendas 
que se erguem para uma noite e se desmancham ao alvorecer. quela hora, no Teatro D. 
Maria, a Concha e o Manolo, de domin, apaixonadamente enlaados, giravam com 
furor numa valsa, aos compassos estridentes da Filha de Madame Angot!
Ficou ao outro dia na cama at muito tarde e  noite, depois do jantar, decidiu, 
para matar o tempo, ir a S. Carlos. Tinha uma vaga esperana de encontrar l a 
baronesa.
Chegava  esquina do Rossio, quando viu a figura magrinha do Damio, de palet 
alvadio, guarda-chuva no brao, que vinha conversando com Nazareno. Que felicidade! 
Era na sua mgoa como uma consolao, uma fora, uma direco que lhe chegava... 
Correu para ele com os braos estendidos:
 Oh, Damio!
Damio recuou, fitou-o, disse simplesmente:
 Eu no falo a canalhas!
Deu um passo para o lado, travou do brao de Nazareno e seguiu.
Artur ficara como catalptico: queria correr, os ps pegavam-se-lhe; queria falar, a 
lngua prendia-se-lhe; sentia ferver-lhe o crebro e um calor, onde havia um zumbido, 
escaldar-lhe as orelhas; as luzes do Rossio faiscavam-lhe em ziguezagues ante os olhos, 
e as pessoas, com um rumor abafado, pareciam-lhe mover-se no ar. Dois domins 
apressados empurraram-no: despertou. Os beios comearam a tremer-lhe, lgrimas 
humedeceram-lhe os olhos. A palavra de Damio  canalha!  atravessou-lhe o crebro, 
o rosto, os ouvidos, com o estampido, o impulso de uma bofetada. Sentiu um desespero, 
um desejo sanguinolento de vingana: vinham-lhe agora  lngua as palavras vibrantes 
que deveria ter atirado ao Damio; sentia agora no brao a fora da bofetada que lhe 
devia ter dado na face... Mas aquele mpeto ardeu um instante e extinguiu-se como um 
rastilho de plvora; e abatido, prostrado, foi seguindo ao comprido das casas para o 
Terreiro do Pao, inconscientemente, com passos moles que oscilavam.
Sentia um espanto, uma revolta aterrada contra o Destino. Por que merecia tudo o 
que lhe sucedia? Que tinha feito? Era bom, era amante, era inteligente, era honrado  e a 
cada passo que dava na vida surgia-lhe uma indiferena, um escrnio, uma humilhao, 
uma traio, uma desfeita! Teve a conscincia da sua fraqueza moral, da sua debilidade 
efeminada! Revoltou-se contra si mesmo... Tinham-lhe chamado canalha, e ficara 
aparvalhado, numa tremura! Teve dio  estrutura anmica do seu corpo,  languidez 
romanesca da sua alma: sentiu-se um fraco, um maricas, um trmulo, um piegas... De 
que servia na vida? Mais valia morrer, desaparecer como uma bola de sabo que quebra 
num cuspo de espuma! Para que viver? No tinha dinheiro, nem posio, nem uma 
amizade, nem um amor! Que lhe restava? Ir enterrar-se em Oliveira de Azemis? Per-
tencer ao Vasco, pisar num almofariz semente de linhaa, perpetuamente? No! Ento... 
E a morte aparecia-lhe com a doura de um repouso e a atraco de um refgio. Deus 
fizera-lhe a vida amarga para o desgostar dela, obrig-lo a sair, dar lugar a outro mais 
forte, como numa hospedaria onde se desgosta o hspede pobre, para dar lugar ao 
hspede rico. Ele que compreendia to bem o amor, no encontrava uma mulher que lhe 
desse um olhar compassivo; ele que sentia em si ideias, imagens, estilo, no tinha um 
diabo que dissesse uma palavra do seu livro, lhe desse uma migalha daquela celebridade 
de que tinha fome! Aproximava-se cheio de simpatia, de calor, vido de ser til  
recebia um empurro! Fora direito  Sociedade, com tanta admirao por ela  e 
recebera por acolhimento alguns olhares secados, ombros soberbamente voltados; 
lanara-se para a Repblica, vibrante de entusiasmo  e fora repelido com vaias e 
assobios! A Concha, que ele adorava, safava-se-lhe! O Damio que admirava, insultava-
o! De que lhe servia viver, caminhando assim, envolvido na sua m sorte como numa 
atmosfera iniludvel?
Um ar frio e hmido envolveu-o: estava junto  muralha do Terreiro do Pao. O 
rio agitado, na mar crescente, batia tristemente na escurido, contra as escadas do Cais; 
entre os botes amarrados, a gua tinha tenebrosidades frias; vultos de navios faziam na 
noite escura redobramentos de sombras, e aqui, alm, num mastro, tremulava um fanal 
mortio.  Era s subir ao parapeito, saltar, estava livre... Seria a agonia de um 
momento, uma sufocao estrebuchada, goles de gua engolidos  e a paz!... Ento 
pareceu-lhe que estava morto j, que o encontravam inchado, verde, todo coberto de 
lodo: reconhec-lo-iam e o mistrio dramtico da sua morte encheria os jornais, dar-lhe-
ia uma trgica celebridade!... Os Esmaltes e Jias seriam lidos: procurar-se-ia neles o 
segredo da sua resoluo, como num documento de amargura; folhetins compar-lo-iam 
a Chatterton, a Grard de Nerval... A Concha choraria, a baronesa amaria a sua 
memria!... E aquela glria em volta do seu cadver tentava-o estranhamente: porque 
no? Porque no?... Certos reflexos mais negros da gua chamavam-no com intenes 
de pupilas humanas; reteve-o o horror do frio, a ideia da roupa molhada colada ao corpo 
e uma vaga inrcia, a preguia de tomar uma resoluo to violenta... E ao mesmo 
tempo, sentia-se enternecido, com uma saudade romanesca da sua prpria existncia 
extinta. E olhava a gua, de p, com a cabea toda em febre...
Uma voz fina, muito lisboeta, disse ao lado:
 O senhor viu por acaso tirarem-me o chapu?
Voltou-se como que estremunhado. Era um sujeitinho barrigudo, ndio, de repas 
grisalhas, que repetiu:
 O senhor viu tirarem-me o chapu?
 Eu? No!  disse Artur impaciente.
 Homem, esta! Tinha-me encostado ali... Jantei em casa do Gonalves, do 
Gonalves da Rua dos Retroseiros, h-de conhecer, o Gonalves, o da Cmara... Jantei 
com ele, vim depois dar o meu passeio higinico: sento-me ali um bocado... vem-me 
uma quebreira, talvez da pinguita do Porto  o Gonalves tem bom Porto, tem bons 
vinhos. O sogro  negociante de vinhos... De repente sinto um friozinho na calva: 
tinham-me tirado o chapu! O senhor no viu?
 No vi  disse Artur, afastando-se, furioso com aquele importuno.
Mas o sujeito ps-se a andar ao lado dele e com gestos curtinhos, a voz muito 
cantada:
 Homem, esta! Eu no  pelo chapu, diabos levem o chapu!  pelo ferro! E que 
h-de dizer minha senhora? Oh, menino, de onde vens tu sem chapu? Ora, ora! Se as 
lojas estivessem abertas! Que eu no  pelos trs mil-ris!  porque no esto abertas! 
Seno ia ao Roxo, est claro que ia ao Roxo. O Roxo conhece-me bem. Mas que ferro! 
Um chapu novo! Ento no viram! Ir para casa sem chapu! Sempre vai uma ladroeira 
pela Baixa! Se fosse o leno! Bem me importava com o leno! Mas o chapu!  o ferro! 
 o ferro! O senhor no viu?
 Oh, senhor, j lhe disse que no!  E Artur apressava-se, indignado daquela 
interrupo burlesca  sua trgica meditao.
Mas o sujeito ia-lhe ao lado, querendo acertar o passo pelo dele, loquaz, excitado; 
acompanhava-o pelo Terreiro do Pao, repetia a histria da soneca, falava no jantar do 
Gonalves, contou casos de outros roubos, at que  porta do Espanhol, j enervado, 
desesperado, Artur interrompeu-o:
 Bem, eu moro aqui, adeus!
Mas o outro reteve-o pelo boto do palet e Artur, imobilizado, teve de o ouvir.
 O senhor compreende, eu sou muito conhecido na Baixa, no posso sair por a 
fora sem chapu. Que h-de dizer minha senhora? Que ela  uma santa: sou casado h 
vinte e cinco anos e nunca me deu seno gostos.  dos Pereiras, dos Pereiras de Santo 
Amaro.  das melhores, uma santa! Mas enfim ir para casa sem chapu! Comea logo a 
Joaquina  e ento a Joaquina!
 a criada; boa criada, trabalhadeira... Comea logo: Olha o senhor que vem sem 
chapu! Pudera, se mo tiraram. Que eu  pelo ferro!
Artur tinha lgrimas nos olhos. O homem no lhe deixava o boto do palet: ele 
recuava para a ombreira da porta, retraa-se; o sujeito seguia-o. Ento no se conteve:
 Oh, senhor! Que tenho eu com isso?
 Eu  que tenho, que eu  que fiquei sem o chapu!
Artur enfureceu-se, bateu com o p, berrou:
 Mas eu no lhe tirei o chapu!
O sujeito recuou, assustado, e vendo sem dvida pouca segurana naquele ptio 
escuro, saiu vivamente para a rua. Debaixo do candeeiro, acamando as madeixas 
grisalhas, murmurou desconsoladamente:
 Ora um ferro assim. Aqui vou eu sem chapu!
Artur entrou no quarto e num desabafo de ira, arremessou o chapu contra a 
parede, atirou uma cadeira ao cho com um pontap e estendeu-se sobre a cama, 
vestido, prostrado, embrutecido, com a garganta tomada de lgrimas, desejando uma 
doena que o matasse, um cataclismo, um terramoto... E por fim adormeceu, pensando, 
mais consolado, que seria ridculo ter-se suicidado, porque se poderia atribuir a sua 
morte ao desgosto de haver sido abandonado por uma espanhola de bordel!

Acordou ao rudo de argoladas no porto. Sobre a mesa, a vela extinguiu-se no 
castial. Devia ser tarde: o Manuel, ou fora ao Casino ou dormia bbedo. Outra argolada 
atroou o ptio. Era talvez a Concha, arrependida, ou o Damio com uma explicao!... 
Saltou da cama, correu  varanda:
 Quem ?
 Io  disse uma voz espanhola de mulher.
Ainda estremunhado, pareceu-lhe a voz da Concha! E, trmulo, agarrou no 
castial, desceu correndo. No sabia se a expulsaria ou se a arrebataria para o quarto, 
devorando-a de beijos... Ao abrir o ferrolho, as palpitaes do corao sufocavam-no. A 
porta rolou  e achou-se defronte de um Aquiles de capacete e luvas brancas, a tnica 
enxovalhada, o manto escarlate flutuante e um gldio ao lado, que lhe gritou com voz de 
mscara, ganindo:
 Eh, seu Arturzinho! Eh, pandegazinha!
Artur recuara  e o Aquiles, tirando uma mscara de bigodes retorcidos, mostrou a 
face luzidia e jovial do Videirinha. Atrs, um pajem, com o gorro equilibrado sobre um 
penteado complicado, perna rolia, quadris enormes, gralhava:
 Muchas gracias! Y Manuel? Se ha dormido el tio ese / Es usted muy amable, 
Arturito! Buenas noches! Gracias!
O castial tremia na mo de Artur, plido de desconsolao. E o Videirinha, 
deixando passar adiante o pajem de quadris rolios:
 Vimos do Trindade  disse ao ouvido de Artur.  A Mercedes fez furor com as 
perninhas. Olhe-lhe agora as perninhas!
E os olhinhos do Videirinha dilatavam-se numa luxria parva para o pajem, que 
sobre as escadas, derreado, iando-se pelo corrimo, mostrava a cinta fina, as enormes 
redondezas posteriores, uma coxa bojuda e os altos taces das botinas de cetim verde!
O Manuel acordou-o na manh seguinte, com uma carta de Oliveira de Azemis. 
Abriu-a com um vago susto, pensando que podia ser a notcia do Carneiro ter fugido 
com os seus ltimos quinhentos mil-ris! Era do Vasco da botica e dizia:

Meu prezado amigo:

Sua tia Sabina est mal, mesmo muito mal. Diz o Dr. Azevedo que est por dias e 
a pobre senhora teima em ver o meu amigo. Conta os dias e as horas e s pede a Deus 
que a no leve, sem que volte o seu menino. Pode o meu prezado amigo imaginar 
quanto isto nos aflige e contamos que venha quanto antes, para os fins competentes.

Creia, meu prezado amigo, na estima do

Vasco da Conceio Pedroso.

A tia Sabina a morrer! Santo Deus! Era o nico corao que o amava, que se ia 
tambm!
Saltou da cama, gritou pela conta do hotel. Pagou-a  restavam-lhe trs libras, era 
o bastante para a jornada e fazia  pressa, muito comovido, a sua mala, quando Melchior 
apareceu.
 Vou-me embora! A minha tia est muito mal!
Melchior ficou desapontado.
 Ora! E eu que o vinha buscar para irmos ao baile do D. Maria!
Artur mostrou-lhe a carta do Vasco:
 Veja voc! Vou esta noite...
Mas que diabo, no corria pressa  dizia Melchior. No era um perigo urgente, 
podia muito bem partir na manh seguinte. Era ridculo ir na tera-feira de Entrudo. 
Quanto mais ele, que nunca vira o Entrudo em Lisboa!... Passava a noite no baile e 
metia-se no comboio da manh. E vendo que Artur continuava a arrumar a roupa, 
apressadamente:
 Sabe voc porque queria que fssemos ao D. Maria? Porque temos l a Concha 
esta noite! Vi agora o desavergonhado do Manolo a falar com o bilheteiro. Estava a 
arranjar camarote, o pulha! Eu queria que l fssemos, para passear-lhes diante da cara, 
a rir, a falar de mulheres, a mostrar uma indiferena... Que ela estoira de raiva!
Artur torcia o buo, olhando o ba; vinha-lhe um desejo furioso de rever a 
Concha, de a insultar pelo desprezo, valsar com outras espanholas, mostrar que nem 
amuava, nem se afligia, nem chorava, mas que folgava como um boi solto! Disse com 
uma voz ambgua:
 Ele, com efeito, tanto faz eu estar  noite ou de manh...
 Est claro!  exclamou Melchior.
Artur viu de repente, longe, em Oliveira, a face da tia Sabina, com uma palidez de 
agonia, voltando-se ansiosamente para a porta por onde ele devia aparecer...
 Fazemos um jantarzinho chique, carregamo-nos, e viva a folia! Por um resto de 
senso moral, Artur tentou resistir:
 O diabo  o dinheiro!
 Que dinheiro? Para jantar, teatro, uns grogues, ponha uma libra. O que tem 
Voc? Trs libras? Restam-lhe pois duas.  de sobra para a jornada...
Mas Artur necessitava uma razo mais forte, de ordem moral; foi Melchior quem 
lha forneceu, dizendo:
 E at pode fazer mal  pobre senhora, voc aparecer assim de repente...
Era verdade, era isso! Podia-lhe fazer mal. Mandaria primeiro um telegrama a 
dizer que ia... Boa ideia a do Melchior!
E de tarde  depois de terem visto, no alto do Chiado, o enfarinhamento pndego 
das pessoas da primeira sociedade, foram jantar ao Central, concordando que a ida de 
Artur, nessa noite, podia matar a pobre velha.

No encontraram a Concha no D. Maria, mas Artur, que bebera abundantemente 
para se pr  altura, segundo a frase de Melchior, tinha agora o desejo irritado de a 
ver. Foram ao Trindade, depois a S. Carlos. Sondavam os camarotes com o binculo: 
viram a Paca, a Lola, a Crmen, penteados que denunciavam andaluzas, mas no a 
viram a ela!
 Que o diabo a carregue!  disse Melchior com ira.  Est no choco com o 
canalha do federalista. Vamos ver as cancanistas ao Casino  e a Concha que v ...
E atravessando para o Casino, praguejava alto de indignao.
A fachada do Casino flamejava. Um grupo de gente pobre estacionava  porta, 
com olhares de urna inveja triste para as janelas alumiadas e sonoras, para as mscaras 
apressadas. Os domins de paninho mostravam  extremidade das mangas mos grossas 
de operrios e por baixo, pedaos de calas pelintras sobre botas cambadas; sons de 
instrumentos de metal sobressaam em cima, vagamente, no brouhaha contnuo e no 
rumor do soalho batido.
No bengaleiro encontraram Carvalhosa, com o jovial deputado Abreu, de fala 
algarvia, que depositavam as badines.
 Vem-se  Saturnal  disse pretensiosamente o Carvalhosa.
 s cancanistas!  exclamou Melchior, j excitado pelo rudo do baile.
 Perneemos! Perneemos!  ganiu aflautadamente e de um modo espremido o 
ilustre Abreu, da maioria, que parecia avinhado.
Subiram. O salo estava cheio, abafado, de um calor morno que parecia feito de 
exalaes de suor. A luz crua dos lustres de gs feria as cores claras e duras das paredes, 
da decorao, e ressaltava, fazendo flutuar uma radiao quase espessa. No estrado, o 
regente agitava furiosamente a batuta, impelindo as vagas estridentes de uma 
instrumentao grosseira  e uma multido de palets, de chapus altos, de dorsos cur-
vados numa curiosidade sfrega, concentrava-se em volta do canc. Artur, excitado, 
penetrou por entre a massa de gente e esganiando o pescoo, em bicos de ps, 
conseguiu ver as francesas: eram quatro e destacavam-se pelos cabelos loiros cor de 
manteiga; uma delas, baixinha, rolia, vestida de marinheiro, com o chapu de oleado 
para a nuca, o pescoo papudo  mostra, os quadris enormes apertados a estalar numa 
cala branca, saracoteava-se com movimentos que lhe faziam saltar os seios flcidos na 
camisola azul; outra, leve, esguia, endemoninhada, vestida  hngara, pulava com 
grandes gestos de magricela, batendo furiosamente o soalho com os altos taces das 
botas orladas de peles; uma terceira que estava mascarada de vivandeira, parecia pesada, 
velha, meneando-se por dever, gravemente; mas a mais admirada era uma bacante, uma 
grande loira de formas soberbas, que punha nos olhos em redor um vago brilho de 
concupiscncia burguesa. Trabalhavam em fila, numa quadrilha, com quatro mariolas  
um pierrot que parecia desengonado; um chicard que fazia flutuar as abas enormes da 
casaca grotesca, apanhando-as com gestos torpes, lanando-as para o enorme nariz de 
papelo com dois tufos de estopa loira sob as ventas; um homenzinho rolio, com um 
capacete de bombeiro de onde subia um longo penacho escarlate; e o ltimo, um 
amador portugus, que trazia um domin de paninho, e j sem flego, debatendo-se 
como doido, com o capuz cado, mostrava uma guedelha suja, toda empastada de 
transpirao.
Em redor gozava-se. Havia nos rostos uma dilatao lbrica, hlare, e bravos 
estalavam s pernadas mais arremessadas. As cabeas apertavam-se na admirao 
babosa do chique estrangeiro e at velhotes, de lbio pendente, arregalavam olhares que 
lambiam as formas das pernas, dos peitos, a cor dos cabelos. Trocistas avinhados 
excitavam as bailarinas com gritos: eh! eh! viva! larga! A bacante, sobretudo, 
entusiasmava o pblico: como o tirso a embaraava, tinha-o posto nos braos de um 
sujeito gordo, de lunetas de oiro, que o conservava, imvel, com respeito e orgulho. Os 
braos livres, a criatura delirou: adiantava-se com as mos na cinta, o peito para diante, 
os seios em relevo, com um gingar frentico dos quadris, e baloiando-se, atirava as 
pernas at ao penacho do bombeiro, que sacudia os braos como um boneco epilptico, 
dando ehs! agudos! S a igualava o chicard: adiantava-se de esguelha, atirando para 
fora os quadris, num arqueado canalha, agitando os cotovelos furiosamente, com 
movimentos torpes do ventre: recebia no queixo o sapato do marinheiro, redondo como 
uma pata, e como ferido, atirava as mos para o cho, dava uma cabriola, repulava sobre 
os ps  e ento, entre uma sussurrao de deleite em redor, os quatro pares enlaando-
se, redemoinhavam num galope desesperado.
Mas o bombo bateu os compassos finais  e o canc terminou entre uma vozearia, 
um estalar de palmas. A sala ficou logo cheia at aos cantos de uma multido que se 
mexia devagar, como uma massa mal decomposta. As francesas, arquejantes, eram 
seguidas de grupos sfregos, apaixonados e em redor da bacante, para a tocar, apalpar, a 
ver de perto, havia empurres, pragas. Um sujeito, no se contendo, agarrou-lhe as 
tranas: a criatura, furiosa, deu-lhe uma bofetada  houve alarido, e um polcia 
sonolento, descolando-se da ombreira da porta, adiantou-se, rolando os bugalhos dos 
olhos prateados e imbecis.
Artur errava por entre a gente. Havia uma poeirada suspensa no ar num cheiro 
acre de suor e de paninho tingido; domins entreabertos deixavam ver calas ignbeis. 
Toda a prostituio barata mostrava as formas de uma gordura balofa ou de uma 
magreza esfomeada: havia vivandeiras, noites com vus de crepes, pajens, criaturas 
cobertas de vesturios confusos de uma pelintrice triste; os braos tinham os cotovelos 
coados, calejados da posio habitual, debruada nas varandas; falava-se com uma 
excitao ansiosa, estonteada, bestial; bbedos provocavam questes, e dos pares unidos 
sentiam-se subir as paixes mrbidas e brutais do bordel.
Quase sufocado, Artur veio atirar-se para o sof, no patamar. A multido passava 
constantemente, com um arrastar pesado de solas; gente abafada abanava-se, vozes de 
mscaras ganiam, e nas salas de jogo, por vezes, o pio chins em movimento punha no 
ar o seu grande zumbido surdo.
 Isto est brilhante!  veio-lhe dizer Melchior com os olhos excitados.  Vamo-
nos mascarar, menino!
Estava todo orgulhoso por ter passeado a bacante pelo brao: prometera-lhe uma 
local. Falou da ceia, uma grande orgia e pedindo meia libra a Artur para fazer face 
aos grogues, desapareceu.
O Carvalhosa que passava com as mos enterradas nos bolsos, parou diante de 
Artur:
 Ento, poeta do ideal, aqui neste covil da luxria?
Artur sorriu, lisonjeado.
 Perneemos! Perneemos!  gania o Abreu, da maioria, que seguia atrs, devagar, 
aprumando-se com esforo, satisfeito de si, e que parecia no poder extrair outras 
palavras do crebro embrutecido.
Artur sentiu ento um desejo de movimento, de alegria, de troa. Desceu ao caf a 
aquecer-se com um grogue.
As mesas do botequim estavam cheias, numa algazarra: domins desmascarados 
absorviam cabazes, grogues; as vozes agudas dos criados retiniam; bengalas furiosas, 
batendo no mrmore das mesas, reclamando lcool; e os pares, amancebados por uma 
noite, beijocavam-se sem pudor.
Artur no pde obter o seu grogue  mas o cheiro de fmea, os tons dos ombros 
nus, o vapor quente dos grogues com rodelas de limo  excitaram-no, deram-lhe uma 
vibrao de lubricidade. E ia procurar o Melchior para se mascararem, quando o viu 
aparecer com a bacante pelo brao, rubro de vaidade, o peito alteado.
Ento, como o Melchior conhecia o criado, o Bento, obtiveram, ao canto de uma 
mesa, trs conhaques, e o localista apresentou Artur  bacante, como um grande 
poeta. Estavam cercados de uma fumaraa de cigarros suspensa no ar morno; sentada 
num mocho, com as pernas magnficas estendidas, a pele de tigre cada sobre a linha 
dos rins, numa atitude orgulhosa, a bacante escutava vagamente os discursos de 
Melchior, que num francs medonho lhe fazia declaraes. Os seus olhos eram de um 
pardo-escuro, grandes, duros, e os lbios to vermelhos que pareciam sanguinolentos; 
havia nos seus membros fortes, nervosos, alguma coisa de ondulante, de vibrante, que 
lembrava os movimentos de um tigre. Bebendo o seu grogue, erguia muito o copo, 
deitando a cabea para trs, pondo em relevo a linha da garganta muito branca, de uma 
brancura de loira, e as formas rijas e soberbas do seio. Artur admirava-a, cheio de 
desejo. Ela fitou-o, passou-lhe negligentemente os dedos pela face e quele contacto, 
sentiu da nuca aos calcanhares uma vibrao de concupiscncia: o seu vesturio pago 
excitava-o, dando-lhe vagas ideias de mitologias clssicas que o faziam pensar em 
Baco, levado num carro atrelado de tigres, e nos mistrios dos bosques sagrados, onde 
bacantes, por um cu de tempestade, se apossam de um poeta de membros de efebo, e o 
deixam exausto sob carcias devoradoras, ao som irritante de tamborins. No se atrevia 
a falar-lhe  e fumava, comendo-a com os olhos acesos.
Em redor, a algazarra aturdia: havia copos quebrados; uma altercao ps a uma 
mesa um delrio de berros e dois indivduos engalfinhados rolaram no cho: uma mulher 
gania; dois municipais intervieram com uma brutalidade pretensiosa.
Mas Melchior insistia com a bacante para danarem uma polca. Falava-lhe com os 
olhos arregalados, roando-se por ela, todo tonto do cheiro das suas formas fortes. Ela 
enfastiou-se e repelindo o conhaque.
 Assez, mon bonhomme, assez!
Levantou-se, agarrou o brao de Artur e com uma pirueta, arrastou-o:
 Il m'embte ce gros l!
E deixaram Melchior, furioso, vasculhando as algibeiras  procura de troco para o 
Bento, rosnando obscenidades.
A bacante levara Artur para o salo de entrada, onde espelhos alternavam com 
arbustos numa decorao pelintra. Quis saber o nome dele, e numa risada:
 Arthur! J'ai trouv un Arthur! C'est mon Arthur!...
E passeava ao comprido do salo, junto dos espelhos para onde lanava a cada 
momento o olhar, com movimentos lentos, ondulados, que lembravam sempre a Artur o 
andar de um tigre. E tinha uma sensao estranha que o entontecia, lhe fazia perder o 
sentimento real da vida, do lugar em que estava  vendo passar, no fundo azulado dos 
espelhos, o seu palet escuro junto quele corpo de bacante clssica.
Mas ela declarou-se arrepiada, encolhia-se no seu maillot e pediu a Artur outro 
grogue, chamando-lhe mon chri. Cheio de vaidade, ele no duvidou que lhe inspirara 
um capricho e voltaram ao botequim. A bacante bebeu o grogue de um trago, sem uma 
careta: no seu olhar flutuava um embaciado de embriaguez e o seu queixo grosso dava  
sua expresso uma inteno bestial. Quando Artur pagou o grogue, ela tomou todo o 
troco e atirou-o negligentemente ao criado, que se curvou em dois, dizendo:
 Obrigado  Madama.
Mas a bacante queria falar  outra francesa, ao marinheiro, que a uma mesa 
prxima, entre homens, cantarolava: Quand les canards s'en vont  l'eau, com uma voz 
nasal e canalha que extasiava caixeiros inflamados; e Artur, aproveitando esse instante, 
correu a alugar um domin. Voltou entusiasmado, embrulhado no largo vestido de 
paninho que lhe comunicava pelo seu cheiro de Carnaval, uma petulncia de mscara. 
Vendo Carvalhosa, agarrou-se a ele, f-lo rolar, gritando-lhe ao ouvido, com uivos:
 Eh! ilustre orador!
O deputado repeliu-o com tdio:
 Eh, bruto!
Artur, um pouco bbedo, ia injuri-lo, enumerar as tolices dos seus discursos, 
vingar-se de todas as amarguras que ele lhe causara, quando viu passar a bacante com 
um sujeito de jaqueto que empunhava uma bengala de casto homicida.
Seguiu-a pela escada, desesperado, com um cime violento. O do jaqueto 
passava-lhe o brao pela cinta, pousando-lhe a mo grossa e escura sobre os rins, 
falando-lhe no pescoo. Artur sentia um desejo agudo de o insultar, arrebatar-lhe a 
bacante, mas receava o bengalo, facadas de fadistas, os municipais. E, muito 
contrariado, torcia o forro das algibeiras, sem uma deciso, rondando em volta dela  
quando um polcia, aproximando-se do sujeito de jaqueto, lhe fez uma observao 
sobre a bengala. O homem desculpou-se e desceu rapidamente ao bengaleiro. Ento a 
bacante, abrindo molemente os braos, gritou com uma voz avinhada:
 J'ai perdu mon Arthur!...
Ele precipitou-se  e como a orquestra rompera numa polca, lanaram-se na sala, 
enlaados. Era a primeira vez que Artur danava. A bacante, indiferente ao compasso, 
pulava ao acaso, com grandes pernadas, arrastando-o, levantando-o quase do cho, 
colando-o contra si, soprando alto, com o olhar doido. Artur agarrava-se a ela, todo 
excitado de desejo: a sala parecia-lhe oscilar vagamente, e as cabeas dos pares  
guedelhas, capuzes de domin, capacetes, chapus de camponesas  agitando-se em 
volta dele num ritmo pulado, estonteavam-no.
 Basta! Basta!  dizia.
Ela no o escutava, muito lanada: a pele de tigre despegou-se-lhe dos ombros  
atirou-a a um sujeito, que, boquiaberto, a admirava; e livre, com o seu grande corpo 
todo em relevo, ia em reviravoltas furiosas, pateando o soalho sonoro. Artur julgava t-
la toda nua nos braos  e com a bestialidade do desejo misturando-se ao estonteamento 
das voltas, sentia-se desmaiar, e parecia-lhe, um pouco enjoado do grogue, que era 
sobre o seu estmago que o tambor ressoava.
Pararam, arquejantes. A bacante queria beber, e desceram as escadas de rajada, 
acotovelando gente grave. Encontraram Melchior abancado com uma vivandeira 
magrinha, que parecia prudente e metdica, e os dois amigos, depois de terem 
consultado a um canto sobre os fundos de que dispunham, decidiram cear num gabinete.
Abancaram a uma mesa. Sobre a toalha, j toda manchada de vinho, uma espinha 
de linguado arrastava. A bacante, a arquejar, a grande massa dos cabelos descomposta, 
atirara-se para o sof de estofo esgarado e torcendo os braos reclamava Artur. Ele 
atirou-se de joelhos, disse-lhe frases lricas, queria lev-la j e oferecia-lhe no Espanhol 
o lugar, a posio da Concha. Ela ria do seu francs, mas jurava que o adorava.
 Je t'adore!  e ficava com a boca aberta, prolongando as slabas num idiotismo 
avinhado.
Examinou-o ento pela primeira vez, quis saber se era slido: apalpou-lhe os 
braos, a barriga das pernas; depois exps as suas belezas, contou que fora modelo, e 
agarrando Artur pelo pescoo, rolou-se com ele pelo div. A vivandeira, com os beios 
franzidos, parecia escandalizada. Alm disso, Melchior esquecia-a, roando-se pela 
bacante, com os olhos acesos, furtando-lhe beijos no pescoo. A vivandeira por fim 
enfadou-se:
 O que os senhores quiserem, menos indecncias!
E como o Bento entrava com os bifes de cebolada, abancaram. A ceia foi longa. A 
bacante, que misturava conhaque no champagne, tinha uma loquacidade doida: cantou 
canonetas obscenas, declarou-se republicana, deblaterou contra a religio. De resto, 
dizia, em Paris tinha carruagens e os seus amantes eram prncipes. Mas o que ela queria 
agora, declarou, era a orgia, o vcio, o crime! E ria, beijava Artur, esguedelhava 
Melchior, dizia finezas  vivandeira, que a olhava sem compreender, fascinada da verve, 
chocada da troa.
Mas sem razo a bacante enfureceu-se: os seus olhos tinham uma violncia 
escura, amaldioou a sua me e gabou-se de ter, em Marselha, esfaqueado um amante... 
Agarrou mesmo uma faca e ameaou Artur.
Melchior, plido, comeava a assustar-se:
 Tolices no valem, tolices no valem!
E a vivandeira, apanhando rapidamente o qupi, o barrilinho e as luvas, dizia:
 Eu em alhadas no me quero achar; sou uma rapariga sossegada. Os senhores 
podem tirar informaes...
Mas a bacante, subitamente calma, comeou a comer com uma gula afectada, 
rindo sem motivo, metendo os dedos no molho, limpando-os ao cabelo de Artur. E 
Melchior, tranquilo, recomeou a gozar.
 Hem, meu amigo, bela pndega... E queria voc ir para Oliveira de Azemis!
Artur sentiu uma pancada no corao: viu de repente a casa, l longe, o quarto da 
tia Sabina e a face agonizante sobre o travesseiro de folhos engomados; uma campainha 
tocava na rua, vozes entoavam o Bendito: era o padre Joaquim com os Sacramentos, 
seguido de vizinhos de opa escarlate... E no quarto, cheio do terror da morte e dos 
aparatos da agonia, corriam as lgrimas de Ricardina e soavam lugubremente as oraes 
da Joana...
Para expulsar esta alucinao, bebeu de um trago um copo de conhaque. E quando 
saram do gabinete, cambaleava, e jurava  bacante, com a voz entaramelada, que havia 
de casar com ela.
Ao chegarem ao salo de baile, a quadrilha final comeava e o canc electrizante 
de Orphe aux Enfers fez-lhe reviver a excitao. O baile tomava o aspecto de uma 
troa bbeda: pessoas desmascaradas tinham expresses de fadiga imbecil, outras 
agitavam-se, bruscas, de mau humor, violentas; s alguns, roucos de gritar, iam ainda 
balbuciando pilhrias. Artur, diante da bacante, debatia-se furiosamente: o lcool dava-
lhe a raiva dos movimentos convulsivos: punha uma clera no bater dos ps, um frenesi 
no agitar dos braos; o capuz do domin cara-lhe, o boto do colarinho saltara, e com a 
face lvida, manchada, suada, torcia-se numa demncia, soltando ganidos. Mas ao som 
estridente da orquestra, o galope comeou: era uma confuso amarfanhada de corpos 
engalfinhados, arremessando-se desengonadamente, com pulos grotescos, patadas 
desesperadas no soalho... Uma poeirada sufocava, e o regente, com o colete repuxado, a 
camisa aparecendo-lhe na cinta, agitava a batuta, impelindo os agudos. A espaos, nos 
ritmos mais pausados, toda aquela grossa multido se balanava, tomando flego, como 
uma vasta aspirao arquejante... Mas logo os compassos electrizantes estalavam: o 
regente desengonava-se, as faces inchadas sopravam nos clarinetes, e os estridores das 
flautas e os uivos das rabecas partiam, impelindo o galope, como chicotadas sonoras 
atiradas aos rins da canalha. Todos se arremessavam. Caudas de vestidos descosiam-se, 
tranas postias caam sobre as costas penduradas por um gancho, vozes agudas 
gritavam numa exaltao impetuosa; e turcos, Aquiles, domins, pastorinhas, fadistas, 
prostitutas e bbedos, cambaleantes  iam num tropel de troa esbandalhada, com um 
desengonamento demente, num turbilho circular  enquanto o ponteiro negro j 
marcava, gravemente, a primeira hora triste de Quarta-feira de Cinzas.
A ltima sensao clara de Artur foi a sua entrada numa tipia, com uma mulher: 
doido de lcool, abraado a ela, num frenesi, procurava mord-la; ela repelia-o, socava-
o; ele arremessava-se e lutavam, esguedelhando-se, enquanto a tipia rolava a trote 
largo, na rua j clara, onde as leiteiras iam tocando as suas vacas.

Quando acordou, ao meio-dia, achava-se deitado num cubculo escuro, de cheiro 
infecto. O seu olhar estremunhado, vagamente inconsciente, fixava-se numa cortina 
escarlate, que a luz de uma saleta, fora, traspassava. Estava em mangas de camisa, com 
as botas caladas. Ao seu lado, uma mulher estirada ressonava alto. Ficou um momento 
entorpecido, sem memria, ouvindo, fora, algum mexer em loua, um arrastar de 
chinelas. Ento o baile, o canc, a bacante, reviu tudo nitidamente, como na vspera,  
luz crua do gs... Sentia um mau gosto na boca, uma dor lancinante na nuca e tinha a 
certeza, sem a ver, que a criatura a seu lado no era a bacante e devia ser medonha, suja, 
com um hlito pestfero. Como viera ali parar, quele catre de que sentia o enxergo de 
palha mole? E quase tinha medo de saber, de ver: achava-se bem naquela escurido, 
com todo o corpo derreado, uma sonolncia vaga errando-lhe no crebro, nas plpebras. 
E ento, imvel, com os olhos cerrados, como se nas trevas bestiais em que o seu 
esprito estava ainda afogado uma aurora espiritual se levantasse devagar, comeou a 
recordar, a ver diante de si toda uma paisagem do Mondego, por uma tarde de Vero: 
nos salgueiros espessos, onde a sombra est enleada e adormecida, os pssaros chilram 
alegremente; nas colinas de uma doura suave de linhas, casas branquejam e sob o cu 
de um azul-claro, transparente, o rio corre, com um vagar saudoso, numa toalha lmpida 
em que pedaos de areia reluzem; alguma coisa de doce, discreto, terno, erra no ar 
subtil, e, devagar, um bote onde negrejam batinas vem encostar debaixo dos chores, 
junto  entrada melanclica da Quinta das Lgrimas... Via-se ali, passeando com 
amigos, na doura pacfica da tarde clara, falando de poetas, recitando versos, ou ento, 
calado, perdido nalgum cismar romntico e nobre. Depois, via um pedao da estrada de 
Oliveira de Azemis a Ovar, onde, no fundo de terras baixas, um regato corre, entre 
altas ervas, todo escurecido pela sombra que derramam as rvores debruadas; uma 
frescura eleva-se da gua, da erva verde... E sentava-se ali, com um livro, cheio do 
enternecimento que lhe davam aquelas florescncias frescas e as guas humildes... Patas 
de insectos roavam a superfcie do ribeiro quase parado; os musgos cobriam as pedras 
do seu aveludado tenro e florzinhas azuis, roxas, tmidas, pequeninas, exalavam um 
vago aroma agreste; madressilvas, agitadas num movimento do ar, faziam errar o seu 
perfume adocicado; um silncio doce, em que s se ouvia o gotejar do fio de gua, dava 
um abrigo terno s almas delicadas  e a sua dilatava-se, enchendo-se da serenidade das 
coisas, cobrindo-se de transparncias, e exalando como um aroma prprio, uma simpatia 
ascendente.
De repente, a mulher a seu lado saltou para o cho e com passadas moles que 
faziam ranger o soalho, foi beber gua ao jarro: espreguiou-se, equilibrando-se ainda 
mal nos ps e correu a cortina escarlate: uma luz larga entrou, bateu nos olhos de Artur 
 e ficaram pasmados um para o outro, sem se conhecerem, tristes.
Artur, sem uma palavra, saltara tambm para o cho e enfiava o palet que ficara 
aos ps da cama, enquanto a mulher apertava atabalhoadamente uma saia, com tonturas 
ainda, que a faziam, por momentos, encostar a mo  parede, soprando com fora.
Artur tinha agora uma curiosidade, em que havia uma repugnncia, de saber se 
tinha beijado aqueles beios, ainda roxos do vinho da vspera. e tocado aquele corpo 
mole, cado, gasto, que exalava um cheiro acre; mas no se atreveu a perguntar. No 
disseram uma palavra: a mulher vestia-se  pressa  e Artur, remexendo nos bolsos, 
atirou para a mesa, a pagar a hospitalidade, os seus ltimos dez tostes. Era tudo o que 
possua. Depois procurou o chapu, mas no aparecia; e a mulher, ento, com uma voz 
rouca, como se lhe faltasse a campainha da laringe, disse:
 O senhor deixou-o talvez no baile, no alugador de fatos...
E como ela mesmo se mascarara de homem, pde dar a Artur o chapu que usara 
 um chapu desabado, imundo, sem fita, e todo pisado de solas de botas.

Quando entrou no Espanhol, ouviu um murmrio de vozes no patamar, ao p da 
janela do saguo. Era o Manuel que parecia de maus humores, falando a duas mulheres 
vestidas de preto. Mas vendo Artur:
 Olhe  disse logo  mais idosa  fale com este senhor. Este  um amigo. Este lhe 
dir.
A mulher ergueu para Artur um rosto plido, macerado, que fora bonito, e onde se 
sentia a passagem constante de lgrimas e o cansao das viglias.
  a mulher do Videirinha  disse o Manuel, encolhendo os ombros.
A criatura ps de leve a mo no brao de Artur, como para o reter, para o implorar 
 e com uma voz triste:
 Se V. Ex o conhece, podia-lhe ir dizer... H trs dias que me no aparece. Vive 
aqui com uma mulher... Eu no tenho em casa um bocado de po, nada que empenhar! 
Mato-me a trabalhar...  Soluos sufocaram-na um momento, e vendo Artur olhar para a 
outra, a mais nova, com uma face doce e triste:  E a minha filha...  disse.  Ele no me 
d um real do que ganha no emprego! Eu no quero importunar... Queria s que ele me 
desse alguma coisa, pouco que fosse, eu poupava-o... S para ter um bocado de po em 
casa...
Artur rebuscava maquinalmente nas algibeiras. Ela tocou-lhe outra vez no brao, 
com dignidade:
 Ns no pedimos esmola... Queria que V. Ex lhe falasse, lhe dissesse que 
estamos aqui. Dez tostes que fossem...  As lgrimas corriam-lhe ao comprido do nariz 
amarelo e afilado.
O Manuel ento interveio:
 J lhe disse a usted: o Videirinha est a dormir! No gosta que o vo incomodar. 
J usted v!
 Mas sou sua mulher,  a sua filha  disse ela toda trmula de indignao, de 
vergonha.
 J usted v! Se o Videirinha no gosta...
A rapariga, ento, puxou pelo xaile da me e com a voz comprimida, toda 
desfalecida do vexame:
 Deixe l, minha me, vamos...
A ideia daquela criatura bonita e honesta com fome, deu a Artur um fluxo de 
indignao:
 Espere um instante  disse.
Galgou as escadas, foi bater com fora  porta da Mercedes.
 Que ?  perguntou a voz do Videirinha. E imediatamente, dando volta  chave, 
apareceu estremunhado, a face inchada, gordinho, em camisa, mostrando o peito 
cabeludo e grisalho, medonho.
  a sua mulher, a sua filha  disse Artur que odiou nesse momento aquela figura 
rolia e imbecil.
Videirinha fez um grande gesto:
 Fale baixo, amiguinho! A Mercedinha est a dormir! Veio muito cansadinha! 
Que querem elas, que querem elas? Nem pode uma pessoa gozar a vidinha em sossego!
 Querem um pedao de po  disse Artur, que sentia desejos de o esbofetear.
O Videirinha coou a calva. Parecia furioso: deu uma punhada colrica na coxa e 
em bicos de ps entrou no quarto. A janela cerrada tinha as frestas desenhadas pela luz 
de fora; na penumbra, vagas brancuras de saias destacavam-se, e saa de dentro um 
cheiro a abafado, a p-de-arroz e a deboche.
Videirinha, sempre em bicos de ps, voltou ento, meteu quatro tostes na mo de 
Artur e agarrando-lhe a manga, ao ouvido:
 Veja se as empurra para fora, amiguinho! Que se a Mercedinha sabe! E ela 
ento que embirra com cenas! Est a dormir como um anjinho... Viemos do D. Maria s 
trs horas. Fomos cear ao Mata... E com a pinguinha do champagne, ela ficou!... Ah, 
que noite, amiguinho, que noite!
E puxava-lhe pela manga, vido de contar... Artur desprendeu-se, enojado.
Quando a mulher, em baixo, recebeu os quatro tostes, teve-os um momento na 
mo aberta, com um sorriso amargo. s faces plidas da filha subiu uma cor de 
vergonha.
 Eu sinto...  balbuciou Artur.
 Deus lho pague . disse ela simplesmente.
 Chega para um bocado de po.
Manuel passava reflectidamente a mo pelo queixo:
 J usted v! O Videirinha tem bom fundo...  baboso pela pequena,  o que .
Sem uma palavra as duas mulheres cumprimentaram Artur, e muito juntas, como 
para se esconderem uma na outra, encolhidas nos seus pobres vestidos negros, desceram 
sem rudo.
Artur subiu ao quarto, empurrou as portadas abertas da janela, como se a presena 
de outras fachadas, da rua, da cidade, lhe causassem asco. Despiu com nojo o fato 
amarfanhado do baile e da cama da outra  e da a pouco, prostrado, dormia.
Quando acordou, o quarto estava escuro, como se, fora, j tivesse cado o 
crepsculo: havia um grande silncio no hotel. Ento, vindo do lado do Rossio, ouviu 
um rufar de tambores, compassado, montono, em que se sentia o crepe que os cobria. 
Escutou, meio erguido: o som, distante, parecia adiantar-se muito devagar; instrumentos 
de metal, como que velados pela distncia, ressoavam em compassos lentos de marcha 
fnebre. Aquilo vinha com uma lentido aparatosa de funeral. E ento, de repente, 
pensou na tia Sabina, l longe: talvez quela hora um enterro pobre sasse da casa, com 
a cruz alada adiante, e o caixo curto da velha pequenina levado pelos irmos da 
Misericrdia!... E ele sem um real para partir!
Os sons fnebres aproximavam-se. Saltou da cama, cobriu-se  pressa e correu  
janela: uma tarde parda, enevoada, triste, pesava sobre a cidade. Gente vestida de escuro 
debruava-se pelas varandas; e ao longe, no Rossio, negrejava uma multido. No espao 
livre da rua, lajeado de pedrinhas midas, duas fileiras de tochas, de chamas tristes na 
tarde nublada, caminhavam em prstito; tons roxos de opas sucediam-se, e ao fundo, 
com um balano leve, a impulsos ligeiros, uma cruz negra, com um enorme Cristo 
branco crucificado, adiantava-se, alta no ar: distinguiam-se os longos cabelos lgubres 
caindo sob a coroa de espinhos, a toalha alva enrolada  cinta... E sem cessar, com 
tonalidades sombrias de tambores, a marcha fnebre, abafadamente, ressoava. Era a 
Procisso de Cinzas.
Ento a troa pandilha do Casino flamejou um momento na sua memria: teve 
como que a sensao funerria de uma grande penitncia espalhada na cidade ainda 
quente do deboche do Entrudo, nas fachadas ainda mascaradas de ovos, nas faces ainda 
amarelas das noitadas, no ar, onde devia flutuar ainda a poeirada fina dos cartuchos de 
ps. Na sua sacada, em baixo, a Mercedinha, com uma manta vermelha pela cabea, 
ajoelhava compungidamente.
Ento sentiu o desejo de se entristecer tambm, de se misturar ao arrependimento 
da cidade, de receber de perto as emanaes expiatrias dos andores e das tochas. 
Enfiou  pressa um palet, calou os botins, e quase correndo, foi postar-se  esquina, 
penetrando na massa de gente. O plio roxo passava entre lmpadas erguidas alto; de-
baixo, um grupo, onde reluziam oiros de capas e branquejavam sobrepelizes, adiantava-
se com pompa entre um fumo leve de incenso; os compassos funerrios da marcha 
espalhavam-se na tarde triste, sobre as cabeas curvadas da populao ajoelhada.
E Artur, dobrado, penetrado de um vago terror, sentindo passar alguma coisa de 
Deus, pediu do fundo da sua alma, seguindo com os olhos o Cristo crucificado, que a tia 
Sabina no morresse!

Nessa noite foi ao Sculo procurar Melchior. Tinha uma pressa inquieta, aflita, de 
deixar Lisboa. A cidade causava-lhe horror, e aspirava a Oliveira de Azemis, como um 
homem prostrado de cansao e enlameado da jornada aspira ao recolhimento do seu 
quarto e ao conforto das suas chinelas. Se Melchior no lhe pudesse dar as dez libras 
que lhe devia, ao menos que o ajudasse a arranjar dinheiro num agiota!
Melchior porm no estava: escrevera ao Esteves que no podia vir naquela noite.
 H-de estar ainda a cos-la  disse o Esteves, interrompendo o seu eterno 
assobio.
Artur foi a casa dele: a patroa, uma bela pessoa de quarenta anos, no vira o 
Melchiorzinho desde o Sbado Gordo.
 Ainda c no ps os ps, nem para mudar a camisinha do corpo!
Ento Artur, de um caf, escreveu uma carta a Meirinho, em que lhe pedia, com 
circunlquios afectuosos, o pagamento das dez libras que lhe emprestara. E ele mesmo 
foi lev-la ao porteiro do Universal, que pareceu admirado de o ver:
 Ento por onde se tem andado?
 Estive fora  disse Artur.
 Pois est mais magrinho! Est mais magrinho!
Ao outro dia voltou ao Sculo.
 Ainda se no dignou aparecer  disse-lhe logo o Esteves.
Artur sentou-se a esperar por ele, lendo os jornais, ao p da janela. Lembrava-se 
vagamente de uma outra manh, havia meses, em que naquela mesma cadeira esperara 
tambm, enquanto Melchior fazia rascunhos de locais! Ele estava ento em toda a 
vibrao da esperana: chegava de Oliveira de Azemis, ia ser clebre pelos seus 
poemas, ia encontrar-se com a linda senhora do vestido de xadrez, a vida era-lhe fcil, 
larga, doce  tinha no seu ba, em bons cartuchos, um conto de ris, e, de longe, a 
amizade da tia Sabina seguia-o... Pobre tia Sabina que, agora, agonizava sem que ele 
tivesse sete mil-ris para correr a dar-lhe o ltimo beijo! Como tudo mudara! At o 
tempo  que nessa outra manh era luminoso e vivo, e agora aparecia nublado, pardo, 
lgubre como o seu corao!
A porta abriu-se e o Saavedra entrou: remexeu negligentemente os jornais, 
compondo com as mos caladas de luvas verdes os vidros da luneta. Teve um 
adeusinho com os dedos para Artur e passou para o seu gabinete. Ah! No mudara, 
aquele! Tinha sempre a mesma face balofa, satisfeita, o mesmo peitilho de camisa 
lustroso e importante  e seguia na vida imperturbvel, contente, escrevendo todas as 
noites as mesmas banalidades, as mesmas mentiras, naturalmente feliz, como o 
pintassilgo que chalrava na janela fronteira.
 O Melchior tarda  disse Artur.
E saiu, resolvido a procurar o Meirinho.
Mas no ousava entrar-lhe pelo quarto a pedir-lhe as dez libras. Foi primeiro ao 
Espanhol ver se tinha respondido  sua carta humilde. No respondera. Voltou ao 
Chiado, muito infeliz. Foi duas vezes quase at  porta do Universal, mas um 
acanhamento enleava-o: adiava  e enfim, reflectindo, para se animar, que a tia Sabina 
contava os minutos, j  beira da morte  decidiu-se a entrar, muito nervoso. Perguntava 
por ele ao porteiro quando o viu descer a escada, com o peito alto, a barba correcta, um 
ar de benevolncia, as abas do palet forrado de seda deitadas para trs, vergando a 
badine, as mos muito apertadas em luvas claras. Apenas viu Artur, parou, numa 
hesitao curta, mas logo, adiantando-se para ele, sem transio, com a fisionomia 
grave:
 Sinto que o cavalheiro se tivesse incomodado por uma bagatela. Nunca imaginei 
que eu lhe inspirasse to pouca confiana...
Artur acudiu:
 Pelo amor de Deus! No  isso. E que estou sem vintm. Quero-me ir embora, a 
minha tia est muito mal...
Meirinho teve um sorriso incrdulo, amargo:
 Percebo perfeitamente. Receou perder a sua conta...  Fitou o cho, e com uma 
voz quase solene:  Tenho quarenta e cinco anos, tenho vivido no estrangeiro, tenho 
visto tudo, sou conhecido  e nunca sofri uma afronta...
 Pelo amor de Deus, Meirinho! Acredite. Eu, era s...
Meirinho curvou-se:
 Bem, se no foi com inteno ofensiva, se foi irreflectidamente, dessas coisas 
que se fazem  toa, sem antever as consequncias  perfeitamente. No falemos mais 
nisso. Somos amigos, jantmos muito tempo juntos, fomos ambos  Sociedade  quero 
conservar de si boas recordaes. No falemos mais nisso... Ento, divertiu-se no 
Carnaval?
 Sim  disse Artur muito vexado  sim, diverti-me.
Meirinho passou a mo pela barba e com as plpebras meio cerradas:
 Tivemos uma deliciosa soire costume em casa da Sr Marquesa de Folhes. 
Deliciosa!... Eu fui de Henrique IV. Fizeram-me o favor de apreciar, de elogiar. Fazem-
me o favor de me estimar...
E ia andando para a porta. Artur, enleado, vermelho, no ousava agora falar em 
dinheiro.
 Aparea  disse-lhe Meirinho, acendendo o charuto ao fsforo que lhe oferecia 
o guarda-porto:  Aparea! O Padilho tem uma imitao nova, soberba! O Gato de 
Telhado, uma obra-prima!
E desceu a rua, a cabea alta, o peito erguido, vergastando o ar com a badine.
Artur j no podia partir essa noite se no encontrasse o Melchior! Outro dia 
perdido!
Por um hbito antigo, deteve-se um momento  porta do Baltresqui: defronte, 
estacionava um cup, com um cocheiro grave, correcto, de casaco branco; imvel junto 
 portinhola, um trintanrio, muito vermelho, acariciava as luvas escuras. Uma senhora 
comia ao balco, limpando com o leno migalhas de folhado: era baixa e grossa e 
parecia grvida. Quando voltou para o cup, o caixeiro seguia-a com um embrulho de 
papel pardo. Uma pobre, ento, adiantou-se com a magra mo entendida, uma criana 
embrulhada no xaile preto: e enquanto a senhora grossa lhe dava dez-ris com um gesto 
de nojo, Artur pde ver-lhe as feies: era to trigueira que parecia mulata, e na sua 
carinha pequena, de traos amarfanhados, torcidos, os olhinhos pareciam apenas dois 
buraquinhos negros. Iou-se para o cup com dificuldade  e a parelha trotou, subindo o 
Chiado. O caixeiro, que ficara  porta cumprimentando, disse ento alto, para dentro, 
para o balco:
 A Charlotte Russe, s cinco horas, para a Sr Baronesa... A S. Bento.
Artur teve um sobressalto:
 Perdo  disse, pondo a mo no brao do caixeiro:  Quem  esta senhora?
 E a Sr Baronesa de Paradas, que mora em S. Bento.
Ficou petrificado. Oh! E fora quele bicho que enviara o seu livro de versos! Fora 
para a janela daquele monstro que ele mandara toda a sua alma, na adorao dos seus 
olhos! Eram as paredes da sua horrvel casa que lhe tinham feito bater to docemente o 
corao! Caiu-lhe na alma todo o vexame da sua existncia: achou-se grotesco  e por 
falta de sete mil-ris no podia fugir, livrar-se daquela estpida cidade, onde tudo o 
torturava agora!
Ento, num desespero, voltou ao Sculo. Pisava o lajedo da rua com raiva; tinha 
vontade de empurrar, maltratar as pessoas que passavam ao p dele com ares pacficos e 
satisfeitos!
Odiava agora Lisboa, de um dio mltiplo, pueril, absurdo. Chegou esfalfado ao 
Sculo. O Melchior ainda no aparecera.
 Eu, a minha ideia  disse tranquilamente Esteves   que o homem est no 
Limoeiro!
Veio-lhe ento uma fadiga enervada, uma indiferena hostil. Veria sem pestanejar 
perecer a humanidade. Voltou ao hotel, e jantou s, lugubremente, diante dos dois 
espanhis tenebrosos.
 noite, saiu sem destino. No tinha dinheiro... nem para tomar um caf!
Vendo o Teatro de D. Maria iluminado, foi errar um momento no peristilo: leu os 
cartazes, bebeu um copo de gua no botequim e saa com as mos nos bolsos, 
cabisbaixo, quando passou diante dele, rpida, uma senhora pequenina, com uma capa 
branca de teatro, uma grande cauda de seda escura. Reconheceu-a logo: era Ela! Era ela, 
a senhora do vestido de xadrez! Atrs, com a gola do palet erguida, vinha o marido, o 
do bigode loiro, com o leque, o binculo, um ramo de flores. Exaltado, viu-a subir para 
as frisas  e ento, com a sensao dolorosa de uma facada, veio-lhe a ideia de que nem 
tinha dinheiro para um bilhete! Rangeu os dentes de raiva! Mas talvez o Melchior j 
estivesse no Sculo. Galgou a rua, arquejando. No estava... Nem o Esteves, nem o 
Saavedra, nem ningum a quem pudesse arrancar cinco tostes! Desceu, como uma 
pedra que rola, at ao Espanhol, para pedir ao Videirinha. O Manuel, assobiando, 
levantava a mesa.
 O Videirinha saiu agora mesmo. J usted v!
Pensou que a dona do hotel poderia bem emprestar duas placas a quem gastava ali 
centos de mil-ris! Perguntou por ela.
 A senhora? A senhora est para o Campo Grande com a cunhada.
Ento, desesperado, Artur perdeu o pudor, e chegando-se ao Manuel, pondo-lhe a 
mo no ombro:
 Oh, Manuel, tu tens a quinze tostes?
O Manuel abriu os braos, desolado:
 Nem um chavo. Tinha dois mil-reizitos, mas dei-os agora mesmo ao Videirinha, 
para ir  batota. J usted v! Se no estava s ordens! J usted v!
Maldio! Veio-lhe uma ideia: ir ao Frin, ao livreiro, onde o conheciam, ver se 
tinham vendido alguns exemplares dos Esmaltes e Jias. Quando chegou, iam fechar a 
porta, e com a face abrasada de vergonha, interrogou baixo,  parte, o caixeiro.
A sua voz ansiosa revelava tanta necessidade que o caixeiro deu-se a um grande 
trabalho, procurando nos livros, desejando encontrar alguns assentamentos; e foi com 
pesar que o bom rapaz lhe disse:
 No, no se tem vendido nenhum... Tambm, tm sido dias de festa...
Voltou ao Sculo, pela quarta vez, j envergonhado. Na redaco deserta o gs 
ardia silenciosamente. Ento, suado, sem respirao, com os ps doridos, voltou ao D. 
Maria. Talvez estivesse algum conhecido nos camarotes, ou encontrasse o Meirinho, o 
Padilho, o Carvalhosa... Pediria dinheiro fosse a quem fosse, mesmo ao Roma!  
porque agora, no a podendo ver, afigurava-se-lhe  o qu? tinha a certeza!  que se ela 
o fitasse um momento o havia de reconhecer, e todo o seu destino mudaria! O amor dela 
tornar-se-ia a sua fora, o seu fim, a sua direco: voltaria a Lisboa com os seus 
quinhentos mil-ris, refugiar-se-ia numa trapeira, gastando-os avaramente, tosto a 
tosto  e trabalhando, fazendo uma grande obra, furaria! E a sua consolao nica, 
naquela existncia pobre e laboriosa, seria alguma carta recebida, um olhar de longe, no 
Chiado, ou uma entrevista rpida, um beijo fugitivo  como outrora Rafael e Elvira! Oh, 
devia v-la, com todos os diabos!
O segundo acto comeara quando ele foi, humildemente, pedir ao porteiro das 
cadeiras se lhe dava licena de entrar um momento para ver um camarote. O homem, 
grave, no seu bon de galo, abriu o batente verde  e Artur viu-a logo, numa frisa 
defronte, com o seu perfil plido e doce que o vestido escuro tornava mais tocante. 
Todo o seu antigo amor se precipitou na sua alma, agitando todas as sensibilidades 
passadas, como uma rajada que entra numa sala, agita os papis, as bambinelas, as 
franjas do pano da mesa, e d a tudo uma vibrao viva. Ela trazia um medalho sobre o 
peito! Uma madeixa fofa, leve, caa-lhe sobre a testa de um polido de marfim! E os seus 
olhos grandes, doces, negros, fitavam-se sobre o palco. Eram aqueles olhos que ele 
queria que se voltassem para ele: fixava-os, atraa-os, magnetizava-os, mas eles no se 
moviam, pregados numa horrvel criatura de vestido de seda amarela, que torcia os 
braos no palco, com esgares de boca. Ento sondou a plateia com um olhar que 
adquirira uma sensibilidade extrema, procurando ansiosamente uma face amiga, conhe-
cida. Ningum. Nos rostos vagamente pasmados, s descobriu o velhote, que em casa 
de D. Joana Coutinho lamentava a irreligio das massas.
 Viu?  disse o porteiro, baixo.
 Um momento  suplicou Artur.
E fitou-a ainda, com toda a alma nos olhos!
Oh, por piedade, que se voltasse um momento! Era a paixo, o sacrifcio, o amor, 
a f  tudo o que h de doce e elevado  que ali estavam a um canto, por trs do brao 
do rabeco, a implorar uma coisa bem simples:  que voltasse devagar os olhos para ele. 
Mas no os voltou. O monstro do vestido amarelo dava brados medonhos. E ela 
admirava-o, o seu corpete arfava, enquanto o marido, ao lado, catava um a um os plos 
do bigode.
 Ento, viu?  disse o porteiro impaciente.
 Obrigado, vi.
Saiu alquebrado, envelhecido. Foi devagar para o hotel, subiu ao seu quarto. E s 
ento, de repente, se lembrou que podia ter levado algum fato a uma casa de penhores! 
Mas era tarde, sentia-se prostrado, enervado, com um tdio de tudo, um desejo de 
dormir muito tempo, infindavelmente, numa imobilidade de morte! Atirou-se para cima 
da cama  e, vencido, comeou a chorar baixo, com a cabea enterrada no travesseiro!

Ao outro dia, enfim, encontrou Melchior na redaco do Sculo, que, com o ar 
compenetrado de uma felicidade secreta, torcia com satisfao os enormes bigodes.
 Onde esteve voc, homem?  gritou-lhe Artur.
 No choco  disse Melchior.
E no quis dar explicaes.
Quando Artur lhe contou as suas aflies e que queria partir por fora nessa noite, 
Melchior moveu os beios e coando a cabea:
 Homem, eu no tenho agora as dez libras...
 No falemos nisso, Melchior. O que eu quero,  algum que me v pr no prego 
uns fatos, as pistolas do Meirinho...
 Pronto, pronto!  exclamou Melchior agarrando o chapu.  Se  isso, pronto. 
Vamos ao Chiado procurar o Rei-Bamba!
Mas no o encontraram: um rapazola coxo disse-lhes que devia estar no Baldanza; 
foram l, mas o Gregrio, sempre exagerado, jurou pela honra da sua me que o Rei 
fora ao Largo de Cames fazer um recado. No Largo de Cames um cocheiro afirmou 
t-lo visto subir  e por sinal, bem torto!  para a Rua de S. Roque. Apanharam-no ao p 
de S. Pedro de Alcntara, inteiramente bbedo, mas grave, misterioso, de falas 
sepulcrais, escutando com um ar profundo. Prometeu ir ao Espanhol da a meia hora, 
buscar a trouxinha. Foi muito pontual  e vinha mais bbedo. Levou o robe-de-chambre 
de veludo, a casaca, o binculo, as pistolas  tudo metido num saco de roupa suja. 
Melchior e Artur foram esper-lo para a porta da urea. Quando voltou, passados trs 
quartos de hora, j no podia falar, mas equilibrava-se com dignidade e depositou 
misteriosamente na mo meio aberta de Artur, um cartucho com onze mil-ris. Recebeu 
a esprtula e saiu devagar, acabrunhado.
Ento, quando sentiu o dinheiro na algibeira, Artur teve subitamente uma vaga 
saudade enternecida de Lisboa, da vida que deixava. A cidade, coberta de um bom sol, 
com os seus cartazes nas esquinas, as lojas dos livreiros abertas, as carruagens rolando, 
parecia-lhe ser o nico lugar possvel para uma existncia inteligente: se no conseguira 
chamar a ateno da senhora do vestido de xadrez na vspera, poderia ser mais feliz 
outras vezes! Nunca o Melchior lhe parecera to afectuoso; e achava, de repente, nas 
fisionomias que passavam, um vago tom inesperado de simpatia. Comovido, disse:
 Ao menos, pela ltima vez, jantemos juntos,, Melchior.
O localista s ento pareceu compenetrar-se de que Artur partia realmente. 
Enterneceu-se. Que ferro! Quando eles comeavam a entender-se, a travar amizade, a 
estimar-se! Foi ele mesmo ajud-lo a fazer a mala, a embrulhar as botas em jornais. Em 
baixo, no quarto da Mercedes que tinha a janela aberta, algum tocava guitarra.
Melchior deu um olhar s paredes, aos mveis e pensando decerto na Concha:
 Ah, quartinho, quartinho!
Artur que acamava com cuidado a sua sobre-casaca azul, suspirou: reunindo agora 
os objectos dispersos pelo quarto, recebia de cada um a recordao brusca de uma 
felicidade: um programa do Price lembrou-lhe a primeira noite em que l fora, para se 
encontrar com a Concha que viera na companhia da Paca  ainda ento no viviam 
juntos, e amavam-se! Um colarinho da Concha,, trouxe-lhe quase as lgrimas aos olhos: 
guardou-o devotamente a um canto do ba. E depois,. eram cartas do impressor, o 
bilhete-de-visita de
D. Joana Coutinho, velhos pares de luvas gris-perle!... no Cruz foi triste. Que 
diferena do O jantar primeiro jantar no Universal! E vinham-lhe outras recordaes 
daquele Inverno: a pndega ao Dafundo, as noites de S. Carlos, nas torrinhas, com a 
Concha... Artur sentia a garganta presa.. E Melchior, lgubre, s repetiu o paio com 
ervilhas, porque, disse  era um prato que lhe fazia bem  alma.
 Mas voc volta, Artur?
 Se o drama for, venho aos ensaios!
Como, se o drama for? Isso ficava por conta dele! E Melchior batia 
compenetradamente no peito. E que no largava mais o empresrio! Em quinze dias l 
tinha uma resposta em Oliveira de Azemis!
 E de resto, se sua tia morre e lhe deixa a cheta, temo-lo c outra vez...
Artur no hesitou em dizer, que, nesse caso, estabelecia-se em Lisboa. E pensava 
na pobreza da tia Sabina, triste, doce criatura, que o que tinha era corao!
 Lisboa, amigo  disse Melchior resumindo   o consolozinho da alma!  E 
escorropichou o copo de termo.
Vieram ao Largo de Cames tomar uma tipia para os levar a Santa Apolnia. O 
cocheiro era ainda o Teso.
 Para o Dafundo, meu amo?  exclamou logo.
 No; para o Espanhol  disse Artur, satisfeito de ver que o Teso o reconhecera; 
e aquilo aumentou a sua saudade de Lisboa.
O Chiado, muito claro, estava na sua hora viva, e Artur, direito no assento, ia 
devorando com os olhos os lugares que amava: a Casa Havanesa, a janela do seu quarto, 
l em cima no Universal  que ferro ir-se!  e o Baltresqui, com os lunchs s duas 
horas, e o Godefroy, onde comprava frasquinhos de feno para a Concha! Ah! O cartaz 
de S. Carlos fez-lhe morder os beios de comoo: revia o lustre, o largo palco, os 
coros; outras carruagens passavam, com librs, indo para l!  E ele partia!...
  verdade  disse de repente Melchior  que fez voc com a francesa?
 No sei, homem. Achei-me ao outro dia com um diabo de uma criatura que 
nunca tinha visto. E voc?
Ento Melchior estendeu os ps no assento da frente e encolheu-se com gozo, sem 
responder.
 Diga l, que fez voc?
Melchior, imvel, soprava o fumo do charuto, numa ruminao tmida de gozo.
 Diga l, que diabo!
 Regalei a caminha!  soltou por fim.
Mas tinham chegado ao Espanhol. Artur subiu ao quarto  e enquanto o Manuel 
descia o ba, ficou um momento imvel, olhando as paredes, o leito onde dormira tantas 
semanas com a Concha, a varanda onde ela tanta vez se encostara, o espelho diante do 
qual o Pancho remexia as suas tranas negras.
 Acabou-se!  disse por fim, descendo.
Quis despedir-se do Videirinha, mas Manuel disse-lhe que ele fora  batotinha. 
Artur ento pensou em lhe deixar um bilhete-de-visita; mas lembrando-se das duas 
mulheres de negro no patamar da escada, meteu rapidamente o bilhete no bolso.
 Quer usted que eu lhe diga alguma coisa? perguntou o Manuel.
Artur respondeu:
 D-lhe dois pontaps no abdmen!
Manuel vergou-se, mastigando uma risadinha. Estava todavia sentido pela partida 
de Artur  e quando ele ia a entrar para a carruagem, no se conteve, tomou-lhe a mo e 
sacudindo-lha:
 J usted v! Quando usted voltar, tem c a bela amizade!
Artur ainda deu um olhar  janela do seu quarto, em cima, e o Teso bateu.
Quando chegaram a Santa Apolnia teve apenas tempo de comprar o bilhete para 
a bagagem e correr para a plataforma. Faltavam dois minutos no relgio transparente.
Ento Artur, depois de acomodar a maleta, estendeu os braos a Melchior:
 Adeus, meu velho!
Melchior apertou-o, comovido, beijou-o na face. A tanta simpatia, os olhos de 
Artur arrasaram-se de lgrimas. Sacudiam-se desesperadamente as mos, com palavras 
trmulas!
 Para a vida e para a morte!
 Obrigado, obrigado!
Um homem de bon agaloado passou:
 O comboio vai partir, meus senhores!
Artur, com os olhos cheios de lgrimas, precipitou-se para a carruagem.
 E v-me ao empresrio, Melchior!
 Amanh! Logo pela manh!
Mas o comboio no partia: gente chegava correndo; carretas de bagagem rolavam; 
soldados equipados, de mochila, embrutecidos, procuravam uma terceira classe; um 
eclesistico parecia doido, vagueando ansiosamente com uma chapeleira de carto azul 
na mo; e sem descontinuar, adiante, na sombra, a mquina resfolgava.
Melchior, com a mo apoiada  portinhola, mascava o charuto. No falavam  
numa vaga impacincia de se separarem enfim. Artur pensava confusamente na sua 
partida de Oliveira de Azemis, nos adeuses de Rabecaz e parecia-lhe j v-lo na 
Corcovada, debruado sobre o bilhar, de perna no ar, dando carambolas catitas.
A mquina silvou.
Apertaram-se ainda as mos, nervosamente:
 Adeus!
 Adeus!
 No esquea o empresrio!
 Amanh!
 E escreva!
 E voc!
O comboio rolou devagar. E ento Artur, debruando-se ansiosamente fora da 
portinhola:
 Oh, diabo! Oh, Melchior! Voc trouxe o embrulho?
 O embrulho?  Ah, o embrulho!  Remexeu nas algibeiras e correndo ao 
comprido do comboio cuja velocidade aumentava, estendeu um embrulho a Artur, que o 
arrebatou sofregamente. Eram dois pares de luvas pretas e um plastro negro que 
comprara nessa tarde, e que levava para Oliveira, para usar coisas chiques, coisas de 
Lisboa, no luto da tia Sabina.



X

Da a trs dias,  noitinha, Artur saa de casa para ir pela primeira vez  
Corcovada.
A tia Sabina fora enterrada na vspera da sua chegada. Os trs dias de nojo tinham 
passado, e como nessa noite os soluos da tia Ricardina, prostrada s escuras no 
oratrio, e os ais da Joana, pelos cantos, lhe fizeram parecer a casa mais lgubre  
decidira, para se distrair, ir um bocado at ao bilhar.
O primeiro que o viu quando ele empurrou a porta envidraada, foi o Joo 
Valente, que se ergueu com os braos no ar, berrando:
 Viva o janota!
O Rabecaz correu do bilhar e arremessando o taco, ergueu-o ao alto, num abrao 
frentico. Pessoas que no conhecia levantaram-se, vieram apertar-lhe a mo  e Artur, 
radiante, reconheceu que a vila inteira o considerava um grande homem!
A mesa a que ele se sentou ficou logo cercada de um grupo vido de o escutar, de 
o ver, de lhe examinar o fato; havia em volta dele trs filas de mochos, e velhos 
pacficos, de xaile-manta pelos ombros, punham de longe a mo sobre a orelha, para lhe 
escutar as opinies. Teve de descrever a sua chegada  redaco do Sculo, o Universal, 
S. Carlos, as Cmaras, as soires da Sociedade. Um, queria saber o que se dizia do 
ministrio; outro parecia devorado de curiosidade sobre os bailes de mscaras; um 
terceiro, baixando a voz, pedia  j que estavam ali entre homens  alguns detalhes 
sobre pequenas. Artur prodigalizava informaes, opinies, anedotas. Alguns, que 
tinham visitado a Capital, escutavam-no com um vago sorriso de entendedores, 
aprovando com a cabea, rosnando:
 Tal qual! E isso mesmo! Era o mesmo no meu tempo... Bem se v que o amigo 
conhece Lisboa...
Foi para Artur uma hora cheia, triunfante, muito gozada. Soltava a cada momento 
os nomes dos homens ilustres que entrevira, dizendo: o meu amigo Roma..., uma 
vez, estava eu com o Carvalhosa..., ento, o Conde de Vila Rica....
Nas fisionomias em redor espalhava-se uma admirao respeitosa. Obrigaram 
mesmo dois jogadores obstinados a interromperem a partida, porque o som das 
carambolas, a voz do marcador, faziam interrupes irreverentes. Artur, por fim, j um 
pouco rouco de falar, encostara-se para trs na cadeira  e ento o Rabecaz, muito sol-
cito, declarou com autoridade:
 Est bom, deixem-no agora, deixem-no agora. No o macem mais.
E ergueu-se, arrastou-o, apossando-se dele  e declarando alto que tinha coisas 
particulares a dizer-lhe, quis lev-lo para o cubculo das ceias. Mas todos protestavam: 
um sujeito mesmo arrebatou Artur para um canto e pediu-lhe um empenho para um 
ministro; outro agarrou-o pela manga, e decerto deslumbrado pelas narraes, quis saber 
o que era necessrio desembolsar para gozar um ms na Capital. Ento, o Rabecaz 
zangou-se. Que diabo, que deixassem o rapaz, tinha coisas importantes a dizer-lhe!... E 
ia-o enfim levando para o cubculo, quando o Sr. Cardoso, um dos janotas mais 
considerados de Oliveira, o levou para uma mesa afastada, e ali, delicadamente, lhe 
pediu se era possvel ele mandar-lhe vir uma boquilha como essa  e mostrava com 
venerao a boquilha por onde Artur fumava uni charuto de tosto, que em nome dos 
amigos lhe oferecera o Joo Valente.
Enfim o Rabecaz conseguiu libert-lo, e fechando a porta do cubculo:
 Irra, maadores!
E ali, a ss, conversaram intimamente at s duas horas da madrugada.
Artur gozou ento alguns dias de celebridade. A sua fama tinha comeado com a 
publicao das notcias nos jornais. A Corcovada fora obrigada a assinar o Sculo, 
porque os frequentadores, considerando-o como a crnica oficial de Artur, queriam 
seguir nele as suas glrias.
O Vasco dependurara o seu retrato na botica.
O Carneiro dizia agora alto por toda a parte  que a Assembleia se honraria 
muito em o ter no seu seio. A Assembleia vira-se mesmo obrigada a comprar seis 
exemplares dos Esmaltes e Jias, porque apenas um volume era posto na sala de leitura, 
logo desaparecia, roubado por um dos scios. Atribua-se isto a que todas as senhoras 
queriam ter o volume e esses roubos consecutivos tinham mesmo dado lugar, na 
Assembleia, a controvrsias escandalosas.
Na missa, na Praa, era muito observado. Reparou-se mesmo nas olhadelas que 
no cessava de lhe dardejar, em todos os lugares pblicos, a gorda esposa do Dr. 
Azevedo. E o administrador do concelho, no dia em que o encontrou, foi o primeiro a 
tirar-lhe o chapu.
Porm, a sua hora triunfante era na Corcovada. Tinha um lugar reservado, a que 
se chamava a mesa do Artur. Era ele o juiz, o rbitro, quem decidia de todas as 
questes: de eleies, de literatura, de toilette, de interesses locais, de poltica 
estrangeira, de casamentos. Mas o que acima de tudo o deleitava, era perorar, narrar os 
lados ntimos da vida de Lisboa  soires aristocrticas, ceias artsticas; punha nas 
descries mais imaginao potica do que a que lhe fora necessria para compor os 
Esmaltes e Jias e mesmo os Amores de Poeta. Gostava de deslumbrar aqueles 
burgueses, fazendo-lhe ver a vida literria mais requintada, para parecer ele mesmo 
mais interessante. Afirmava que os literatos em Lisboa eram tudo: davam a lei, iam ao 
Pao,, governavam tlburis e esposavam condessas. E de resto no era difcil aos que o 
escutavam acredit-lo, vendo os ministrios povoados de antigos poetas lricos.
Uma noite, um velho que nunca sara de Oliveira de Azemis, tendo sido sempre 
de constituio delicada e hbitos caseiros, perguntou-lhe se era certo o que se contava: 
que os literatos tinham ceias em que havia danas de mulheres nuas, ao som de 
charangas.
Em redor protestavam: ora, seu Albino! Que ideia!
Mas Artur interps-se com autoridade:
 No, no direi mulheres nuas  mas l que so magnficas orgias, isso sim! H 
orgias deliciosas!
O Rabecaz exclamou, batendo-lhe no ombro:
 Ns  que sabemos!
E Artur sorriu com complacncia.
O Rabecaz tomava naquelas conversas uma parte eminente: o seu maior prazer era 
fazer perguntas sobre personagens, gente de Lisboa, que s ele e Artur deviam conhecer 
o que, perante os outros, os isolava numa importncia elegante e superior.
 O Melchior ainda mora aos Cardais, a Jesus? Com quem vive a Lolita? Quem 
vai agora ao Paula? O Joo Gordo ainda se embebeda? E o velhote  como se chama 
ele? ah, o conde de Pises  ainda est sempre em casa da pequena?
Artur respondia, mesmo quando ignorava.
E o Rabecaz recostava-se, como que afogado em saudade:
 Ah, Lisboa! Lisboa!
 Grande terra!  murmurava-se em redor, respeitosamente.
E Artur retorcia o bigodito, com satisfao.
Mas contrastando com aquela alegria da Corcovada, que melancolia em casa! A 
hora do jantar sobretudo era lgubre: a tia Ricardina, apenas via o lugar vazio da 
Sabininha, comeava a choramingar; e ento voltava a histria da sua doena, dos 
remdios que tomara, da cautela do Dr. Azevedo, e o que ela dissera, falando sempre do 
seu Arturzinho  at ao ltimo dia em que j moribunda, ainda repetia:  que ingrato! 
que ingrato!  E na saudade da Ricardina havia uma vaga irritao  como 
escandalizada de que a Sabininha morresse, deixando-a s, sem ningum para conversar 
e lhe fazer companhia no quarto. O prprio Albuquerquezinho parecia outro: 
abandonara as esquadras internacionais, e, desinteressado mesmo das suas pacincias, 
errava pela casa soturnamente, muito enervado, olhando Artur de revs e rosnando entre 
os dentes: Mau pirata! mau pirata! E no podendo suportar o arrastar fnebre 
daqueles seres, Artur, mal acabava o jantar, escapava-se, ia ao quarto dar uma 
penteadela no cabelo e em bicos de ps descia a escada, enfiando para a Corcovada.
Se tivesse querido  e foi esta, mais tarde, a opinio do Rabecaz  Artur poderia 
ter aproveitado aquela popularidade para conquistar uma posio na vila. Somente 
contentou-se em perorar no botequim, prodigalizar anedotas, e, dentro em pouco, viu a 
curiosidade que inspirava diminuir e os pequenos interesses da localidade retomarem 
nas conversas, nas preocupaes, a sua importncia essencial. Na Corcovada, j 
estavam acostumados ao grande homem. J no era o centro dos grupos. O bilhar 
retomara a sua feio pacata, caturra; as faccias do Joo Valente, um momento pouco 
atendidas, recomeavam a ser saboreadas com gozo. E mesmo a Corcovada, muito fina, 
no renovou a assinatura do Sculo. Agora a nica satisfao de Artur era, como 
outrora, cear com o Rabecaz. Tinha-lhe contado, com os detalhes mais ntimos, os seus 
amores com a Concha. O Rabecaz interessava-se violentamente por aquele romance: 
tinha pedido uma descrio do corpo da Concha e ouvia-a com um ar de profunda 
reflexo, de conhecedor, a testa franzida, o olhar fixo:
 Bom tornozelo, hem?
 Lindo!
 Sim? Hem?  E escarrava grosso:  E a barriguinha da perna?
 Adorvel!
O Rabecaz tinha um aceno de assentimento:
 Sim, todas as espanholas a tm. A pele fina, no?
 Um cetim!
 Sim!  Dava outro escarro grosso, e satisfeito ia percorrendo assim todo o corpo 
da Concha.
As narinas dilatavam-se-lhe de sensualidade, quelas revelaes. Gozava a 
Concha nas descries de Artur, e no se podendo separar dele, acompanhava-o at 
casa, roando-se-lhe pelo corpo, como se lhe sentisse ainda, nos cabelos, no fato, um 
cheiro de espanhola.
Mas lentamente  como um verniz muito usado perde o brilho  aquelas 
conversas embaciavam-se, perdiam a frescura nova. Artur comeou a enfastiar-se da 
Corcovada, onde j no tinha nada que contar, ningum para deslumbrar; a casa 
lgubre, lutuosa, desolava-o, e as saudades de Lisboa voltavam, muito amargas. Agora, 
tudo o que por l passara lhe parecia bom, at as aflies de dinheiro que sofrera. As 
amarguras, quando perdera a Concha, ao menos tinham uma alta feio sentimental, 
romntica. L, vivia, ainda que contrariado; aqui, bom Deus, bocejava! A cidade, a 
distncia, parecia-lhe mais nobre, mais bela; atribua agora as contrariedades que sofrera 
aos seus prprios defeitos: se no fosse to tmido, de abatimento to fcil, poderia ter 
chegado a ser ntimo de D. Joana Coutinho e retomar o seu lugar no Clube 
Democrtico. Devia ter perseverado, insistido, conservado a vontade erecta  e teria 
furado! E vinham-lhe agora desejos de agarrar nos seus quinhentos mil-ris e voltar 
para Lisboa: viver com economia nalguma casa de hspedes, retirado, num quinto 
andar. Mas esperava, para se decidir, a resposta do empresrio e do Melchior  a quem 
escrevia longas cartas, cheias de estilo, pintando-lhe romanticamente a sua tristeza e 
fazendo a caricatura literria dos frequentadores da Corcovada.
E entretanto, para ocupar o seu esprito vazio, procurou tornar a interessar-se, a 
amar a senhora do vestido de xadrez: mas apesar dos esforos que fazia para evocar o 
antigo sentimento, depressa sentiu que todo o seu amor por ela se tinha desvanecido: 
passava dias sem sequer se lembrar dela; depois, de repente, forava-se a am-la, a t-la 
sempre presente no corao; e com efeito, conseguia obrigar a memria a ocupar-se dela 
durante uma manh inteira; depois, distraa-se de novo, e a sua imagem, como um 
perfume que se destapa, evaporava-se insensivelmente.
Ento quis fazer versos. Mas, como em Lisboa o barulho da rua, ao princpio, 
espantara a Inspirao  era agora o adormecimento silencioso da vila que parecia 
afast-la. Recaiu assim num tdio passivo, morno, cheio de horas vazias; dava longos 
passeios ao acaso; desmantelava as maxilas em bocejos interminveis.
Por esse tempo, o Vasco, que expulsara o ltimo praticante, que sua esposa 
achava lindo! lindo!, veio procurar Artur. Comeou por lhe dizer que era talvez 
ousado oferecer um simples lugar de praticante a um homem to conhecido nas letras... 
mas ele no vinha ali como chefe do estabelecimento, vinha como amigo: no era um 
praticante que procurava, era um colaborador... Enfim, oferecia-lhe oito mil-ris por 
ms e mais tarde poderiam entender-se para a cesso total da farmcia.
Artur no reconhecia o Vasco  o Vasco de gnio spero. Via-o benvolo, amvel, 
e se a sua fisionomia conservava o antigo ar hostil, as suas palavras transbordavam de 
afeio. Confessou a Artur que era ele o nico que lhe no dera sustos pela honra do seu 
nome. E terminou, dizendo:
 Isto no  urgente. Pode dar a sua resposta por toda esta semana.
 Eu pensarei  disse Artur polidamente, para lhe no dar uma recusa muito seca.
Mas sentia-se vagamente lisonjeado daquela afabilidade do seu antigo patro, que 
outrora o assustava, s de fungar com o nariz no ar. Fungava ainda, mas discretamente.
Artur repetiu:
 Eu pensarei.
 Pois pense  disse o Vasco com um ar profundo.
Da a dias, enfim, recebeu a desejada carta do Melchior. Abriu sofregamente o 
sobrescrito e leu estas linhas:

Caro amigo Artur:

H muito que lhe queria escrever, mas voc, que conhece Lisboa, sabe que umas 
coisas trazem outras, e com afazeres, prazeres, etc., no tem a gente um bocadinho 
disponvel...

Que diferena com a sua vida agora! Ele tinha todo o dia vazio, intil, ocioso... 
Tambm a ele, quando vivia em Lisboa, as horas lhe passavam como os vages 
sucessivos de um comboio expresso.

...Saber antes de tudo, que estive com a Concha. Encontrei-a e  cavalgadura do 
Manolo, no Price; estavam mesmo ao p de mim e no pude deixar de lhes falar. A 
Concha muito bonita e muito chique...

O peito de Artur levantou-se num vago suspiro.

...O Manolo teve a ousadia de me convidar para ir com eles ao Mata, mas como a 
Concha insistiu, fui obrigado a aceitar. Devo dizer  porque a verdade  a verdade  
que o Manolo foi muito amvel. No fundo  um bom rapaz, e valente; convidou-me para 
ir jantar com eles no Pelicano, onde eles vivem como marido e mulher...

Artur indignou-se contra o Melchior: parecia-lhe um traidor, desertando para 
aqueles que o tinham injuriado. Que pulha!

...Estive ontem na urea com o Videirinha. Tommos ambos um chocolate e 
falmos muito de voc...

 Coitados, que bons rapazes  pensou Artur com uma saudade enternecida.

...Outra novidade  que os seus amigos republicanos vo fundar um jornal  0 
Futuro. O Damio e o Matias so os redactores. Eu dei a noticia no Sculo, dizendo 
mesmo  que desejava grandes felicidades ao novo colega  porque enfim  bom ser 
delicado...

Aquela prosperidade do partido que o repelira, fez sentir mais agudamente a Artur 
a infelicidade da sua separao.

...Deixei para o fim as notcias ms. Depois de ter ido trs ou quatro vezes a casa 
do empresrio, sem o encontrar, pude falar-lhe esta manh no teatro. Disse muitas coi-
sas e terminou por declarar que no podia levar os Amores de Poeta. Diz que  
irrepresentvel e que  muito bom para ser lido, mas no faz efeito em cena. Eu ainda 
quis argumentar, mas o homem provou-me que, para o levar  cena, era necessrio 
refaz-lo desde a primeira linha at  ltima  isto , que era melhor deitar o 
manuscrito ao lume e lazer outro. Tive de baixar a cabea...
E voc quando vem? Lisboa brilhante: belo tempo, companhia francesa que 
chegou, o delrio. Se a velhota deixou cheta,  fazer as malas, e cair-nos aqui, para 
recomear a bela folia.

Amigo do C.

Melchior.

Artur ficou com a carta na mo, sentado  janela do quarto. O dia estava adorvel 
e um bom sol quente dava um brilho vigoroso  folhagem das rvores, que tinham o 
verde da Primavera; a torre da igreja, muito aguada, branquejava sobre o azul, e de um 
pombal prximo pombas tomavam o voo, espalhando-se pelos quintais. 
Maquinalmente, Artur seguia-as, interessando-se um momento pelos lugares onde elas 
pousavam os pezinhos cor-de-rosa: um muro branco com trepadeiras, uma latada onde 
um p de vinha reverdejava, a pedra de um tanque onde a gua tinha espelhados e 
sombras... Havia um vago rumor dormente, feito do lento remexer da folhagem, da gua 
correndo de uma torneira, de um pipiar vago de pssaros; um aroma de alfazema subia 
por instantes nos movimentos do ar e tudo era sereno, doce, calmo, feito para pacificar 
uma existncia agitada.
E ento, serenado por aquela paz da natureza, sem clera j contra esta ltima 
desiluso que o esmagava, considerou o seu destino: voltar para Lisboa sem recursos 
permanentes, sem amizades teis, apenas com os seus pobres quinhentos mil-ris que se 
evaporariam num Vero, era impossvel. No havia que sofismar  era impossvel. Que 
lhe restava ento? Sujeitar-se, ficar ali, na vila. Ao menos tinha um leito, um jantar 
seguro; se aceitasse a proposta do Vasco, teria oito mil-ris por ms, e os fundos 
depositados no Carneiro seriam uma reserva. A tia Ricardina estava velha, afectada,  
beira da morte; herdaria dela alguns contos de ris, cinco ou seis que fossem: poderia 
ento, com um apoio mais slido, recomear a vida, voltar a Lisboa. At l, teria os seus 
livros, aquela tranquilidade de vila bonita; e seria um tempo de repouso em que o seu 
esprito se amadureceria, e se calmariam as dores de tantas desiluses. Considerou-se 
ento, sentimentalmente, um convalescente da vida.
Sara daquele inferno em Lisboa, como um vencido de uma batalha, com feridas 
por toda a parte  no seu amor trado, na sua ambio iludida. Precisava descanso, a 
santa influncia de um lugar recolhido. Oliveira servia-lhe, ali ficava!
Releu a carta de Melchior: Lisboa est brilhante. E viu ento, nas letras daquela 
frase simples, tudo o que amara l longe  as largas ruas, a gente apressada, o rodar dos 
trens, o peristilo alumiado dos teatros, os cafs flamejantes, os amores patrcios e as 
ligaes ardentes, cheias da poesia da sensualidade! Para ele, estava tudo acabado! 
Tomou a carta do jornalista, rasgou-a em pedacinhos, e arremessou-os para o quintal: os 
papelinhos brancos esvoaaram, torneando no ar, foram cair sobre as folhas, sobre a 
gaiola de vime dos coelhos, sobre os ramos espinhosos do limoeiro  e Artur seguia-os 
melancolicamente, como se fossem fragmentos do seu passado extinto rolando para os 
abismos... Acabou-se!
Escovou cuidadosamente o chapu e dirigiu-se  farmcia do Vasco. O boticrio, 
como outrora, ruminava o Almanaque de Lembranas. Ergueu-se com satisfao e para 
honrar a entrada de Artur, tirou ligeiramente o bon: Artur no ficaria mais 
surpreendido se visse um Rei cumpriment-lo, tirando a coroa. Para falarem mais  
vontade, foram para dentro, para o laboratrio. E quando da a um quarto de hora, Artur, 
plido, saiu, fechando sobre si a porta envidraada da farmcia, suspirou, disse consigo:
 Consummatum est!

Nessa tarde, com a serenidade melanclica de quem tomou uma resoluo 
dolorosa, foi passear ao acaso para fora da vila. Ia resumindo a sua existncia, 
procurando explic-la: de onde vinha o facto de s ter recebido no mundo desiluses? 
Da falta de simpatia, pensou. Quem o tinha estimado, amado, desde que seu pai morrera 
e que ele entrara na vida? Ningum! Em Coimbra, no deixara amigos: para os seus 
companheiros, com quem comia e que admirava, era o Arturzinho, o caloiro. Tinha 
passado na gerao acadmica desconhecido, ruminando as suas exaltaes, encolhido 
na sua batina, sem rudo. Um dia, o caloiro fora para a terra: acabou-se! Depois, em 
Oliveira  quem encontrara? O Teodsio era um bruto, para quem a amizade consistia 
em o acompanhar de madrugada, entre os restolhos de St Estvo,  caa das perdizes! 
O Rabecaz  que sabia ele de afeies, de ligaes de esprito, aquele embrutecido  
retirado por pobreza dos bordis e das batotas  vivendo entre o copo de aguardente e 
uma carambola catita? E em Lisboa? Meirinho caloteara-o; Melchior explorara-lhe 
jantares e tipias; Nazareno insultara-o; Damio chamara-lhe canalha; Manolo roubara-
lhe a rapariga  e desejar a estima do Videirinha, era como procurar um perfume num 
cano de esgoto!
Nunca recebera o amparo da amizade, nem sentira o calor fortificante da simpatia 
ambiente, sem a qual o homem vai pela vida como por uma floresta escura, tropeando 
contra troncos que o magoam, caindo sobre silvados que o ferem, sem encontrar a 
estrada real onde est a luz, a paz. Ningum! Ningum!
E contudo, no, enganava-se, algum o amara: uma pobre velha, simples, de 
corao amante, que na vida s tivera lgrimas e que estava agora sob uma lousa, 
naquele cemitrio de que ele via, ao fundo do atalho por onde ia caminhando, os 
ciprestes agudos. Apressou ento o passo: queria ver a sepultura da tia Sabina.
A grade do cemitrio estava aberta. Ao lado da entrada, sob um choro, havia um 
carrito de saibro, uma p, e em redor, na terra pisada, passarinhos saltitavam. Por todo o 
terreiro, ciprestes negros aguavam a sua imobilidade triste; chores dobravam as 
longas ramagens corredias e plidas, e pela erva verde misturada de florescncias, 
branquejavam lpides e viam-se cruzes negras inclinadas no terreno mole. Aqui e alm 
passava um piar rpido de pardal e no cu cncavo a tarde tpida de Primavera 
empalidecia.
Artur foi andando por uma ruazinha ladeada de alfazemas crescidas. Pareceu-lhe 
ouvir uma voz cantarolar; escutou:

Nascem goivos a-a-ah!
E rosas nas sepulturas.
Morte eterna, morte eterna,
Vida que to pouco duras!

Era a cantiga singular que j ouvira muitas vezes ao coveiro, e que transcrevera na 
cena do cemitrio dos Amores de Poeta, to apreciada no jantar do Universal. Adiantou-
se. Ao p de uma moita de rosinhas bravas, o tio Jacinto, em mangas de camisa, o dorso 
curvado, mostrando os remendos pardos das calas, cavava devagar, abrindo uma cova: 
a terra negra acumulava-se a um lado e a enxada arrancava mos cheias de ervas, que ali 
ficavam, com as razes ainda presas ao torro, cadas, mortas tambm.
O tio Jacinto ia cantarolando baixo:

Nascem goivos a-a-ah!
E rosas nas sepulturas...

A toada entrestecia Artur, mas a sua mesma melancolia lhe dava um vago prazer 
romntico, e instintivamente comparava-se a Hamlet, errando no cemitrio de Elsenor, 
argumentando com o coveiro e erguendo do p, nas suas mos de prncipe triste, a 
caveira de Iorique...

Nascem goivos a-a-ah!
E rosas nas sepulturas...

 Boas tardes, tio Jacinto.
O homem voltou-se:
 Olha,  o Sr. Arturzinho. Ento, c pela vila outra vez?
 Vim h dias. Para quem  essa cova?
E a sua voz, fazendo esta pergunta no ar triste e calado do cemitrio, aproximava-
o mais na sua melancolia do potico Hamlet.
O tio Jacinto coou a cabea, embaraado:
 Olhe, a dizer a verdade, Sr. Arturzinho, nem lhe posso dizer... Foi o Caipira, o 
Joaquim Sacristo, que veio a dizer...  para uma rapariga que vivia l para ao p da 
estrada do Covo... Morreu hctica...
 Ah!
O tio Jacinto recomeou a cavar:

Nascem goivos a-a-ah!
E rosas nas sepulturas...

E interrompendo-se:
 O senhor no quer ir ver a sepultura da tiazinha?
 Onde ?
O tio Jacinto pousou a enxada, sacudiu as mos, e ps-se a caminhar rente ao 
muro  onde roseiras cresciam contra a cal muito branca. Mas parou, indignado: um p 
de roseira estava quebrado e no muro caiado havia raspes, como de solas que se 
tivessem firmado ao escalar...
 Pois quer o Sr. Arturzinho ver que tornaram a saltar de noite?
 Quem?
O tio Jacinto contemplava, triste, o p de roseira quebrado, rosnando:
 Corja! Quem!? Vo l saber quem! H-de ser a mesma cambada que me vinha 
roubar as batatas! Se eu pilho um!
 Ento voc plantava batatas no cemitrio, homem?
 Ento, porque no, Sr. Arturzinho? Mas l o Sr. Alves, o da Cmara, comeou a 
implicar. Disse que at era pecado. Pecado  tirar a um pobre o bocadinho do seu 
negcio. Ricas batatas; tambm lhe digo, no h terra de semeadura como isto.  E com 
um gesto largo indicava o cemitrio:   tudo o que V. S lhe plante. Est abarrotadinho 
de estrume!... Por aqui, Sr. Arturzinho. A tiazinha est para este lado.
Era uma pedra lisa, cercada de uma grade de pau. Ao lado havia um cipreste e as 
ervas cresciam altas. Artur ficou de p, encostado  grade, e quase se desesperava de 
no sentir nem emoo, nem saudade; esforava-se por se comover, pensando que ali 
debaixo, na sua mortalha azul, estava a doce velhinha; mas o seu corao conservava-se 
sereno, como se debaixo daquela pedra estivesse outra pedra e no o corpo da criatura 
meiga que o amara. Julgou-se seco, endurecido e forava a sensibilidade, procurando 
recordar as lgrimas dela ao separarem-se, o cuidado pela sua roupa, a afeio do seu 
olhar. Mas o seu corao ficava inaltervel, todo ocupado na funo orgnica, sem 
obedecer  imaginao que o excitava  saudade. Por fim, disse:
 Deviam-se pr aqui uns ps de roseira, para fazer isto mais bonito. E ela que 
gostava tanto de flores, pobre tia Sabina!
Mas o coveiro no escutava: erguendo-se sobre os sapatos, olhava atravs dos 
ciprestes para a cova onde deixara a enxada. E batendo fortemente com as mos grossas, 
como para afugentar pssaros importunos:
 Eh, l! Eh, l! Eh, l, sua corja!
Artur voltou-se: uma rapariguita magrinha, loira como uma espiga de milho, 
divertia-se a fazer rolar torres para a cova, e uma outra, que saltara para dentro, cavava 
com as mos, procurava bichos, e de repente, desapareceu no buraco negro, deitada 
decerto, fazendo de morta  e as suas risadinhas finas e claras vinham misturadas ao 
chalrar dos pssaros.
 Eh, sua corja!  gritou outra vez o tio Jacinto.  Eu j l vou, espera! No tenhas 
pressa de te estirar na cova, que o teu dia vir  e mais cedo do que tu querers, 
desavergonhada! Deixa a enxada, rapariga! Ah, velhaca!  E ele mesmo se afastou, 
ameaando-as, rosnando: Raa de mulherzinhas!
Artur ento foi andando por entre as outras sepulturas. Viera com a inteno de ter 
um momento grave de contemplao, de saudade, sobre a lousa da tia Sabina  mas o 
seu esprito resistia  tristeza, distraa-se: sorriu ao ver o jazigo do Carneiro, um 
monumento muito estimado, muito admirado, em que o Anjo da Melancolia chorava 
sobre uma coluna truncada. Leu aqui, alm, epitfios laudatrios, e mesmo, 
negligentemente, embrulhou um cigarro. Quis pensar na Morte, na Eternidade, penetrar-
se de uma melancolia mstica, misturar-se, ele, para quem a existncia que ia recomear 
era uma meia-morte, queles mortos a desfazerem-se sob as razes das florzinhas 
agrestes. Mas o seu esprito resistia a perder-se na penumbra lgubre da ideia de 
aniquilao e de fim. Era sem dvida a influncia daquele cemitrio, que no dizer do tio 
Jacinto, era uma terra de semeadura... Uma fecundao palpitava no solo bem adubado; 
ervas vivazes faziam ao rs-do-cho uma espessura fofa; toda a sorte de florzinhas, 
azuis, roxas, amarelas, midas e prolixas, apertavam-se nas fendas das lajes mal juntas; 
no muro, onde a cal, sob a humidade, se despegava, torcia-se uma hera de um verde 
forte e clavelinas pendiam em florescncia. Havia um cheiro forte de ervagens, e nas 
rvores os pssaros chilreavam to desesperadamente, que Artur bateu as mos para os 
fazer calar.
O tio Jacinto, cavando apressadamente, recomeara a sua cantiga e a sua voz, na 
limpidez pura da tarde, chegava a Artur, pitoresca, com o som surdo das enxadadas:

Nascem goivos a-a-ah!
E rosas nas sepulturas...

Ento, ele mesmo trauteou baixo a melodia: lembrava-se agora da noite em que a 
cantarolara, quando lera o drama no Universal: e revia a toa lha resplandecente, cheia 
de brancuras de loua brilhando  luz do gs, e o Carvalhosa, grave, bamboleando a 
perna, com a garganta muito abafada; e sorria, lembrando-se do Padilho, furioso, 
porque via na declamao do protagonista injrias aos fidalgos das suas relaes... 
Ento recordou a soire de D. Joana Coutinho: o Padilho zurrando; o ruge-ruge das 
saias, das sedas, das rodas da D. Joana, com as mas do rosto salientes, o seu nariz 
grande e os olhos reluzindo sob as arcadas proeminentes; via a grossa viscondessa 
sentada sobre o seu claque, o estafermo!  e lembrou-se da senhora de vestido cor de 
palha, que lhe falara de Rochefort e a quem ele s soubera responder: grande 
apepinador!. quela recordao, as faces ainda se lhe abrasaram de escarlate, e bateu 
com o p no cho do cemitrio com um ah! de raiva e de vergonha. Fora da, dessa 
noite, que comeara a srie dos seus desgostos: via-se na sesso do clube, lvido, diante 
do Matias, muito abotoado na sua sobrecasaca, que o expulsava do Partido Republicano, 
com um grande gesto  Fouquier-Tinville, enquanto lhe chegavam por baforadas, da 
cervejaria prxima, vagos acordes de harpa e de rabeca. Conhecera ento a Concha, 
naquele dia em que vira no Dafundo o rapaz plido, nu da cinta para cima, muito branco 
de pele, erguendo o brao de onde escorria um sangue negro! Depois, era o Espanhol, as 
ceias, os bons almocinhos, quando a Concha, com o casabeque de flanela pelos ombros, 
partia os ovos quentes arrebitando o dedo mnimo. Tinha-se aproximado 
insensivelmente da sepultura da tia Sabina, e olhando a pedra branca,
o seu pensamento estava l longe, no quarto do Espanhol, revendo,  noite, a 
Concha arranjando o cabelo diante do toucador, antes de se deitar; na mesinha-de-
cabeceira, a luz erguia a sua chama direita; ela corria a meter-se entre os lenis, com 
um arrepio de frio...
Uma aragem correu nas folhas do cipreste, junto  sepultura  e ento veio-lhe um 
horror daquelas vises lascivas, evocadas sobre a campa da tia Sabina. Pareceu-lhe uma 
profanao, uma ofensa  morta: quis acalm-la, fazer-se perdoar, e por uma 
superstio, julgando que nada seria mais grato  alma da doce velha, ajoelhou junto s 
grades. Mas no podia orar: s lhe acudiam fragmentos de antigas rezas do catecismo, 
inexpressivos como toadilhas... No sabia como havia de falar a Deus...
O coveiro ento chegou-se, dizendo:
 Vamos fechar as grades, Sr. Arturzinho...
Mas vendo-o ajoelhado, calou-se; e silenciosamente comeou a colher a erva em 
redor da sepultura: trazia j um braado, e agachado, ia escolhendo a de um verde mais 
claro, a mais chegada  lpide, a mais tenra.
Artur ergueu-se e instintivamente fez o sinal da Cruz.
 Amm  disse o coveiro.
Atirou a enxada ao ombro e Artur foi-o seguindo.
 Aqui no  como em Lisboa  disse ento o tio Jacinto.  L  que so 
mausolus, l  que faz gosto...
 Ah, sim  murmurou Artur distrado.
 Isso  que me convinha  disse ainda o tio Jacinto  eu ter l o meu arranjinho, 
para cuidar dos jazigos, arear as ruas, trazer as flores em dia. Ah, l em Lisboa, sim! 
Mas aqui!
Tambm o tio Jacinto tinha ambies  tambm sonhava com a Capital!
Ao p da grade, debaixo do choro, as duas pequenas esperavam: a mais novita 
metera-se no carro de saibro, com as pernitas pendentes, e a outra, magrinha e loira, ia 
puxando, aos gritos da pequena que a excitava, como a um Jumento ronceiro. Ento o 
tio Jacinto enfureceu-se: em as deixando ss, era logo malefcio!... Eram as sobrinhitas. 
A mais pequena chama-se Maria e a outra Rita...
 V, sua desalmada, erga a saia, leve direito o seu braado de erva.
E atirou para a saia que a pequena estendia, a erva que colhera ao p da sepultura 
da tia Sabina.
  da tenra  disse ele   da que j cresceu depois que a senhora se enterrou...
Artur instintivamente olhou o molho de erva, que a pequena, com muito cuidado, 
apertava na dobra da saia, contra o ventrezinho. J havia naquela erva, pensou  porque 
desde os tempos de Coimbra conservara ideias pantestas  alguma coisa da doce 
velhinha.
 E para que  a erva, tio Jacinto?
 A erva, Sr. Arturzinho? Ah, que  muito tenra. Escolhia-a de propsito... Saiba 
V. S que  para os coelhos  respondeu o tio Jacinto, fechando  chave a grade do 
cemitrio.




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Obra digitalizada e revista a partir da edio de 1925 por Deolinda Rodrigues 
Cabrera. Actualizou-se a grafia.

 Projecto Vercial, 2000

http://www.ipn.pt/literatura

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